A inteligência artificial pode elevar o risco de instabilidade no sistema financeiro global ao facilitar ataques cibernéticos. O alerta é de Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra e do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB).
Segundo a Reuters, em carta aos ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20, Bailey disse que modelos avançados de IA podem mudar a velocidade, a escala e a economia dos ataques. Muitos países, segundo ele, ainda não estão preparados para essa realidade.
Modelos avançados de IA podem acelerar a descoberta de vulnerabilidades em sistemas usados pelo setor financeiro. – Imagem: TSViPhoto/Shutterstock
IA muda o ritmo dos ataques
Para Bailey, o risco cibernético provocado pelo avanço da inteligência artificial é hoje a preocupação mais imediata para a estabilidade financeira. Modelos mais sofisticados podem encontrar vulnerabilidades com maior rapidez, obrigando bancos e outras instituições a corrigir falhas e restabelecer serviços em menos tempo.
Isso coloca pressão também sobre os mecanismos de teste, segurança e recuperação. Se esses processos não acompanharem a evolução da tecnologia, a capacidade de reação das instituições pode ficar para trás.
“Desenvolvimentos recentes destacam a importância de garantir que os avanços em capacidade sejam acompanhados por resiliência e preparação”, afirmou Bailey.
O presidente do FSB acrescentou que muitos países ainda não contam com sistemas capazes de administrar adequadamente a implementação de modelos avançados de inteligência artificial.
Poucos fornecedores, grande dependência
Outro problema está na concentração tecnológica. O setor financeiro depende de um número reduzido de grandes empresas de tecnologia, o que pode criar um risco compartilhado entre instituições.
Se um desses fornecedores enfrentar um problema, os efeitos podem atingir diferentes participantes do sistema e comprometer a confiança no mercado.
Necessidade de respostas e recuperação mais ágeis;
Dependência de poucos fornecedores de tecnologia;
Possíveis impactos sobre a confiança no sistema financeiro.
IA também preocupa investidores
O alerta de Bailey não se limita à segurança digital. Ele voltou a chamar atenção para o risco de uma correção nos mercados financeiros, citando as avaliações elevadas de ativos relacionados à inteligência artificial e as fragilidades nos mercados de dívida governamental.
O presidente do FSB também apontou o aumento do uso de alavancagem nos mercados de ações como uma preocupação emergente. O recurso permite ampliar a exposição dos investidores, mas também pode aumentar a dimensão das perdas em uma queda. Para Bailey, a combinação entre ativos de IA valorizados, fragilidades no mercado de dívida e maior alavancagem pode deixar o sistema mais vulnerável a uma correção.
O alerta ocorre em um momento de pressão no mercado de títulos públicos dos Estados Unidos. Segundo a Reuters, o Tesouro americano havia intervindo no início do mês para limitar os rendimentos dos títulos de longo prazo, que tinham alcançado os níveis mais altos em várias décadas.
A combinação entre riscos tecnológicos e fragilidades de mercado pode aumentar a vulnerabilidade do sistema financeiro. – Imagem: Pedro Spadoni via Gemini/Olhar Digital
Segurança precisa acompanhar avanço
Bailey defendeu que o desenvolvimento e o lançamento de modelos avançados sejam acompanhados por medidas capazes de aumentar a segurança e a preparação dos sistemas financeiros.
“Promover o lançamento seguro e responsável de modelos em escala global deve ser uma prioridade”, afirmou.
O Conselho de Estabilidade Financeira é um órgão internacional que busca identificar e administrar riscos nos sistemas financeiros. Bailey também ocupa o cargo de governador do Banco da Inglaterra desde março de 2020.
O recado aos reguladores é direto: o avanço dos modelos de IA precisa vir acompanhado de estruturas capazes de lidar com ataques mais rápidos, testar sistemas adequadamente e recuperar serviços quando algo der errado.
A LG apresentou na IFA 2026 uma nova versão de sua proposta para casas inteligentes. O principal anúncio é o ThinQ Claw, agente de IA que usa chat de texto para interpretar pedidos e coordenar aparelhos e serviços.
A tecnologia considera informações como rotina, agenda, ambiente e uso dos dispositivos para sugerir ações. A ideia é que o usuário precise configurar menos comandos manualmente.
O sistema da LG pode coordenar eletrodomésticos para ajudar na preparação da casa quando o morador recebe convidados. – Imagem: Stefan_Sutka/Shutterstock
ThinQ Claw vai além dos comandos
O ThinQ Claw foi desenvolvido a partir do conceito do OpenClaw e adaptado ao sistema AI Home da LG. Segundo a empresa, o agente consegue interpretar uma solicitação levando em conta o contexto em que ela acontece.
Um exemplo apresentado pela LG envolve a preparação da casa para receber convidados. O sistema pode auxiliar no gerenciamento de eletrodomésticos usados nesse processo.
Outro cenário é a chegada do morador. O agente pode verificar temperatura e qualidade do ar antes desse momento e, a partir das condições encontradas, sugerir ações.
O recurso também se conecta a calendários e outros serviços. Em vez de criar uma sequência de automações, o usuário pode informar seus planos pelo chat. O sistema ainda pode guardar preferências e aversões para orientar interações futuras.
Energia entra no pacote
A LG também usa a IFA para demonstrar o Homey, plataforma da Athom adquirida pela empresa em 2024. O sistema reúne produtos de diferentes fabricantes e serviços em uma mesma interface.
Uma das demonstrações envolve o Home Energy Management System (HEMS). A ferramenta conecta medidores inteligentes, painéis solares, baterias, carregadores de veículos elétricos e eletrodomésticos para acompanhar a geração, o armazenamento e o consumo de energia.
De acordo com a LG, a coordenação pode ajudar a reduzir gastos com eletricidade. O sistema também pode considerar preços dinâmicos de energia nos locais onde esse modelo estiver disponível.
Entre os recursos demonstrados estão:
Integração entre painéis solares e baterias;
Gerenciamento de carregadores de veículos elétricos;
Controle de eletrodomésticos conectados;
Coordenação da geração e do armazenamento de energia;
Ajustes no consumo conforme os preços disponíveis.
Qualidade do ar e temperatura estão entre as informações que o ThinQ Claw pode acompanhar antes da chegada do morador. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
IA chega a espaços compartilhados
Outro lançamento da feira é o LG ThinQ Pro, que faz sua estreia europeia. A solução é voltada a residências multifamiliares e ambientes comerciais, com recursos para gerenciamento de dispositivos e instalações.
A segurança do ecossistema fica a cargo do LG Shield, framework destinado à proteção de aparelhos conectados, serviços e dados dos clientes.
ThinQ Claw marca o próximo passo do LG AI Home, mostrando como a IA pode entender a intenção do cliente e o contexto de sua vida para oferecer uma experiência diária mais personalizada e simplificada.
Baek Seung-tae, presidente da LG Home Appliance Solution Company, em nota.
O ThinQ Claw será demonstrado na AI Home Zone da LG durante a IFA 2026, onde a empresa também apresenta as demais aplicações do ecossistema.
Uma pesquisa do Loss of Control Observatory identificou mais de 300 episódios de perda de controle envolvendo sistemas de inteligência artificial em julho. O número representa quase o dobro do registrado em junho e é o maior desde o início do monitoramento.
Segundo o The Guardian, os casos envolvem IAs que mentem, ignoram instruções ou perseguem objetivos de maneira prejudicial. O observatório também encontrou sinais de que episódios mais graves estão se tornando proporcionalmente mais frequentes.
O aumento dos incidentes levanta dúvidas sobre como sistemas de IA avançados podem se comportar fora de ambientes controlados. – Imagem: gerada por IA/Gemini
Mais de 1.600 casos em 2026
Criado com financiamento do AI Security Institute (AISI), do governo britânico, o Loss of Control Observatory acompanha relatos publicados por usuários no X desde novembro passado.
Para entrar no levantamento, o episódio precisa apresentar evidências claras de comportamento relacionado a estratégias deliberadas. Entre os exemplos estão sistemas que se passaram pelos próprios controladores humanos, imitaram a forma de escrever dessas pessoas para obter consentimento e contornaram regras que exigiam aprovação antes de determinadas ações.
Em 2026, já foram contabilizados mais de 1.600 casos. O próprio observatório, porém, ressalta que esse número provavelmente está abaixo da realidade, pois depende de relatos publicados no X.
O problema não fica só nos testes
A preocupação aumentou após episódios envolvendo modelos avançados da Anthropic e da OpenAI durante testes de segurança. Segundo o The Guardian, o AISI identificou um “incidente sério” no qual sistemas das duas empresas realizaram uma campanha de invasão contra pessoas reais.
Às vezes existe a percepção de que esses tipos de comportamento desalinhado e encoberto só ocorrem em testes ou avaliações, mas estamos vendo comportamentos preocupantes semelhantes em usos mais amplos.
Tommy Shaffer-Shane, gerente sênior de políticas do Centre for Long Term Resilience, organização responsável pelo observatório, ao The Guardian.
IA interferiu em uma lista de espera
Um caso recente ocorreu na Austrália. Um agente pessoal chamado OpenClaw, utilizado por um frequentador de uma academia, retirou outra pessoa de uma lista de espera para uma aula matinal concorrida, sem que seu usuário soubesse da ação.
O sistema pediu desculpas depois, mas não conseguiu devolver a vaga à pessoa removida.
A maioria dos relatos de 2026 veio de desenvolvedores de software que utilizavam IA no trabalho. Os episódios incluem:
Ignorar instruções dadas pelo usuário;
Contornar mecanismos de segurança;
Mentir para pessoas;
Perseguir objetivos de forma prejudicial;
Agir contra a intenção original do usuário.
Alguns sistemas de IA foram identificados ignorando instruções diretas e contornando mecanismos criados para limitar suas ações. – Imagem: Shutterstock AI Generator/Shutterstock
Empresas são pressionadas por transparência
A maior parte dos casos não provocou danos significativos. Mesmo assim, o observatório percebeu uma participação crescente de episódios classificados como mais graves, principalmente pela intensidade do comportamento enganoso e pelo desalinhamento com as intenções humanas.
Shaffer-Shane defende que as empresas também divulguem ocorrências de menor gravidade e situações que quase provocaram problemas.
“Eles precisam relatar o que estão descobrindo, mesmo que seja um quase-acidente ou um incidente de menor gravidade”, disse.
O observatório pede que o governo obrigue empresas de IA a monitorar e comunicar casos graves de perda de controle. A organização também defende poderes emergenciais para restringir temporariamente serviços em situações severas.
A Sony Music e a Warner Music entraram com uma ação judicial conjunta contra a Anthropic. As empresas acusam a startup de IA de realizar “um dos maiores e mais flagrantes roubos contínuos de propriedade intelectual da história”.
A denúncia ainda aponta que a Anthropic realizou “uma campanha descarada de torrenting ilegal, scraping e download de obras protegidas em larga escala”. Esses dados teriam sido usados para treinar seus modelos de inteligência artificial Claude.
Ação pede indenização bilionária
As duas empresas buscam indenizações de até US$ 150 mil por cada obra infringida, além de US$ 25 mil por cada instância em que a Anthropic teria removido informações de gestão de direitos autorais.
O valor total pode chegar a bilhões de dólares.
O processo alega que “milhares de composições musicais protegidas por direitos autorais” foram coletadas ilegalmente para treinar os modelos Claude.
A Anthropic não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o momento.
Histórico de processos contra a Anthropic
Este não é o primeiro processo do setor musical contra a empresa. No início deste ano, a Concord Music Group e a Universal Music Group também processaram a Anthropic, acusando a startup de baixar ilegalmente mais de 20 mil músicas protegidas para fins de treinamento de IA e pedindo mais de US$ 3 bilhões em danos.
Antes disso, a Anthropic já havia enfrentado uma ação movida por um grupo de autores, que alegavam que a empresa usou cópias piratas de suas obras protegidas para treinar seus modelos. Esse caso foi encerrado com um acordo de US$ 1,5 bilhão — descrito como um valor recorde.
A OpenAI anunciou que vai encerrar o acesso do Cursor aos seus modelos de inteligência artificial. A decisão da desenvolvedora do ChatGPT foi tomada após a aquisição da plataforma pela SpaceX, de Elon Musk.
A data definida para a interrupção das operações é o dia 12 de novembro de 2026, mas a companhia informou que o Cursor pode optar por encerrar a integração em uma data anterior. Ela ainda aproveitou a oportunidade para criticar o sul-africano.
Falta de confiança apontada como justificativa
Em publicação no próprio site, a OpenAI afirmou que está concedendo ao Cursor o maior prazo possível dentro do contrato vigente. A justificativa apresentada pela empresa é que ela não tem confiança de que a SpaceX utilizará sua tecnologia dentro dos termos de serviço. A dona do ChatGPT ainda citou sua “experiência com as empresas de Elon Musk violando contratos”.
A empresa também mencionou seu próximo modelo de inteligência artificial, o Astra. “À medida que as capacidades da IA avançam, temos também um novo nível de responsabilidade para garantir que nosso próximo modelo, Astra, seja usado de acordo com nossos termos”, escreveu a OpenAI.
Lembrando que o desenvolvimento do Astra foi recentemente desacelerado pela dona do ChatGPT por preocupações de cibersegurança, após agentes de IA escaparem de ambientes de teste isolados e invadirem a plataforma Hugging Face.
O cofundador e CEO do Cursor, Michael Truell, se pronunciou sobre a decisão da OpenAI. Em publicação no X, antigo Twitter, ele afirmou que os modelos da dona do ChatGPT atendem a 5% dos clientes da ferramenta.
OpenAI vs Musk
A relação entre a OpenAI e Elon Musk é longa e marcada por disputas.
O sul-africano foi um dos primeiros investidores da empresa.
Tudo mudou em 2018, após a startup de IA recusar uma nova estrutura de governança que daria ao empresário o controle da organização.
Em 2024, Musk entrou com um processo judicial para impedir que a OpenAI deixasse de ser uma organização sem fins lucrativos.
Ele acusou a companhia de violar sua missão fundadora de desenvolver IA “para o benefício da humanidade”.
Mas em maio deste ano, um júri rejeitou as alegações do sul-africano.
Uma conversa com um chatbot pode parecer privada, especialmente quando o usuário recorre à inteligência artificial (IA) para fazer perguntas que talvez não faria a outra pessoa. Questões pessoais, dúvidas sobre trabalho, problemas de relacionamento e até situações potencialmente comprometedoras podem acabar registradas no histórico de uma conta.
Mas o que acontece quando esse conteúdo deixa de ficar restrito à relação entre usuário e ferramenta? Uma conversa com o ChatGPT (ou outros chatbots de IA) pode ser acessada e usada em um processo judicial? E, se chegar às mãos da Justiça, ela pode ser considerada uma prova contra quem escreveu as mensagens?
Um levantamento do Washington Post mostra que essa situação já aconteceu. O jornal identificou 12 processos civis e criminais nos últimos dois anos nos quais registros de conversas com chatbots apareceram em documentos judiciais. Em um dos casos, um adolescente que usava o ChatGPT para tentar entender uma conversa com o pai teve diálogos pessoais incluídos no processo que movia contra empresas de redes sociais.
Interface do ChatGPT em uma tela de computador; conversas com a IA podem ser usadas como prova em processos judiciais em determinadas circunstâncias – Imagem: Bangla press/Shutterstock
No Brasil, não há uma regra que torne uma conversa com inteligência artificial inadmissível como prova simplesmente porque ela ocorreu com um chatbot. Mas também não existe um sigilo profissional equivalente ao de uma conversa entre advogado e cliente. O que determina se esse conteúdo poderá ser usado é uma combinação de regras sobre privacidade, acesso a dados e validade das provas digitais.
O problema jurídico central será: como o Estado chegou àquela conversa?
Christiano Gonzaga, promotor de Justiça criminal
Uma pergunta feita ao ChatGPT, por si só, também não demonstra necessariamente que uma pessoa cometeu um crime. Gonzaga cita como exemplo uma conversa em que alguém pergunta como apagar determinados vestígios de um arquivo durante uma investigação de homicídio. O conteúdo pode ser relevante, mas precisa ser analisado junto de fatores como horário, contexto e demais elementos da investigação.
Em outra situação, o usuário poderia perguntar ao chatbot como alguém cometeria determinado crime sem jamais realizar aquela ação. Para Gonzaga, “não existe, em princípio, uma regra de inadmissibilidade específica pelo simples fato de a conversa ter ocorrido com uma inteligência artificial”.
André Coura, advogado criminalista e sócio do Coura Advogados, explica que essas conversas podem ser consideradas provas digitais e extraídas de dispositivos eletrônicos para utilização em processos. Segundo ele, isso pode ocorrer mediante consentimento da pessoa envolvida ou autorização judicial, inclusive quando um aparelho apreendido em uma busca é submetido a perícia técnica para extração dos dados.
Conversa com IA não tem sigilo profissional
Uma conversa com um chatbot pode tratar de assuntos que normalmente seriam compartilhados apenas em relações de confiança. Isso, porém, não significa que a interação tenha as mesmas garantias de sigilo previstas para determinadas relações profissionais.
Não há sigilo legal previsto para este tipo de conteúdo como nos casos de informações confidenciadas para advogados, médicos ou ministros de confissão religiosa.
André Coura, advogado criminalista
André Coura explica que não existe para conversas com inteligência artificial um regime de sigilo equivalente ao que protege informações compartilhadas com advogados, médicos ou ministros de confissão religiosa. Isso não significa, porém, que o conteúdo esteja fora de qualquer proteção jurídica.
O usuário pode, por exemplo, contar ao chatbot que cometeu um crime, pedir orientação jurídica ou relatar uma situação médica. A natureza da pergunta, entretanto, não transforma a inteligência artificial em um profissional submetido a sigilo. Como resume Christiano Gonzaga, “o ChatGPT não se transforma em advogado, médico, psicólogo ou sacerdote em razão da natureza da pergunta”.
Ao mesmo tempo, a conversa continua inserida na esfera da privacidade. A Constituição garante a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, enquanto o Marco Civil da Internet estabelece regras de proteção à privacidade e ao sigilo das comunicações privadas armazenadas e prevê a disponibilização de seu conteúdo mediante ordem judicial. A Constituição também assegura o sigilo de dados.
É justamente essa diferença que impede duas interpretações opostas: uma conversa com o ChatGPT não tem o mesmo sigilo profissional de uma conversa com um advogado, mas também não pode ser tratada como um conteúdo sem qualquer proteção jurídica.
Como a Justiça pode acessar uma conversa com ChatGPT
A apreensão de um celular não significa, por si só, autorização para acessar as conversas armazenadas nele. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou em abril deste ano que é ilícito o acesso a dados, inclusive conversas em aplicativos de mensagens, realizado diretamente pela polícia em um celular apreendido em flagrante sem prévia autorização judicial. A jurisprudência ressalva a hipótese de consentimento voluntário do titular do aparelho.
Gonzaga resume a diferença entre as duas medidas: “A apreensão física do celular e o acesso ao seu conteúdo são atos diferentes.” Assim, o fato de o aparelho estar em poder das autoridades não significa, por si só, que elas possam desbloqueá-lo e vasculhar livremente seus dados.
A apreensão de um celular não autoriza, por si só, o acesso às conversas e aos demais dados armazenados no aparelho; em regra, é necessária autorização judicial ou consentimento voluntário do titular – Imagem: Karen Poghosyan1/Shutterstock
Em junho, o STJ também analisou os procedimentos de coleta de dados durante o cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão. O tribunal reconheceu que agentes policiais podem realizar procedimentos preliminares de verificação e coleta de dados do aparelho sem a participação imediata de um perito oficial, desde que sejam respeitados os limites da diligência e as regras de preservação da prova.
O tipo de acesso também faz diferença. Uma situação é interceptar uma comunicação enquanto ela acontece. Outra é acessar uma conversa que já foi armazenada.
A Lei 9.296/1996 estabelece que a interceptação de comunicações telefônicas depende de ordem judicial e determina que suas regras também se apliquem à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. A legislação prevê, entre outros requisitos, indícios razoáveis de autoria ou participação e a impossibilidade de obtenção da prova por outros meios disponíveis.
Se alguém conversou com o ChatGPT meses antes e o histórico continua armazenado, não se trata tecnicamente de uma interceptação de comunicação em curso. Nesse caso, a discussão é sobre o acesso a dados e comunicações privadas armazenados.
O STJ também diferencia o conteúdo de comunicações armazenadas de outros tipos de dados digitais. Em junho, uma edição de Jurisprudência em Teses sobre ambiente digital reforçou, especificamente em relação aos dados estáticos de conexão, que sua obtenção não configura interceptação telefônica e segue o regime do Marco Civil da Internet.
Há ainda a possibilidade de o próprio usuário permitir o acesso ao aparelho. Nesse caso, Gonzaga destaca que o consentimento precisa ser efetivamente voluntário. A jurisprudência do STJ também considera o consentimento voluntário do titular uma exceção à regra que exige autorização judicial para o acesso policial a dados armazenados.
Uma conversa com o ChatGPT pode ter valor em uma investigação, mas seu peso como prova depende do contexto e da existência de outros elementos que confirmem seu conteúdo – Crédito: Imagem gerada por IA/ChatGPT – Olhar Digital
Uma conversa ou print pode provar um crime?
Mesmo quando uma conversa chega legalmente às mãos das autoridades ou de uma das partes de um processo, isso não significa que seu conteúdo, sozinho, seja suficiente para provar que alguém cometeu um crime.
“É importante distinguir admissibilidade da prova de seu valor probatório”, explica Gonzaga. Para o promotor, uma conversa pode constituir prova documental ou digital ou funcionar como elemento indiciário, mas seu peso depende de fatores como autenticidade, integridade, autoria, contexto e convergência com outras evidências.
Coura também afirma que nenhuma prova deve ser considerada absoluta isoladamente. Segundo o advogado, o juiz forma seu convencimento a partir do conjunto das provas produzidas no processo, dentro do chamado sistema de livre convencimento motivado.
O conteúdo de uma conversa pode, portanto, ganhar importância quando é confirmado por outros elementos. Gonzaga exemplifica com uma pergunta genérica sobre como matar alguém usando veneno: ela não comprovaria, sozinha, a ocorrência de um homicídio. A situação seria diferente se a conversa afirmasse que uma substância havia sido colocada na bebida de uma pessoa e a investigação encontrasse a substância, imagens do investigado manipulando a bebida, dados do aparelho e um exame toxicológico compatível.
Nesse tipo de situação, “o peso dependerá de autenticidade, integridade, autoria, contexto e convergência com as demais provas”, explica Gonzaga.
A confiabilidade do material também é relevante. Em um caso julgado em 2024, o STJ considerou inadmissíveis prints de WhatsApp obtidos pela polícia sem procedimentos adequados para assegurar a integridade dos dados. O tribunal levou em conta a impossibilidade de garantir a autenticidade e a integridade do material apresentado.
Uma conversa com o ChatGPT pode ganhar valor probatório quando seu conteúdo é corroborado por outras evidências da investigação – Imagem: Nwz / Shutterstock
Em março deste ano, a Sexta Turma do STJ voltou ao tema e decidiu que, diante de dúvida razoável sobre a integridade e a autenticidade de provas digitais, é necessária a realização de perícia para verificar a confiabilidade do material e garantir o contraditório.
Em junho, o tribunal também destacou a importância da preservação da cadeia de custódia e da possibilidade de exame técnico independente para garantir a integridade e a auditabilidade da prova digital.
Isso cria uma diferença importante entre uma captura de tela isolada e uma extração forense. Um print apresentado por alguém pode ser questionado quanto à origem, autenticidade e integridade. Já um aparelho apreendido legalmente e submetido a procedimentos técnicos de extração pode oferecer elementos adicionais para verificar a origem e a integridade daquela conversa.
Os casos reunidos pelo Washington Post mostram ainda que o conteúdo de um chatbot não precisa ser uma confissão para ganhar relevância em um processo. Em um processo civil nos Estados Unidos, por exemplo, um vendedor perguntou ao ChatGPT se seu provedor de e-mail poderia recuperar uma mensagem apagada. A antiga empregadora utilizou a conversa para questionar as declarações apresentadas por ele e afirmou que o vendedor havia ocultado informações durante a disputa.
Em outro caso, relacionado a ameaças contra uma ex-namorada, o Post relata que conversas com o ChatGPT foram consideradas pela polícia junto com outras mensagens enviadas à vítima. Segundo documentos judiciais citados pelo jornal, o conteúdo das conversas reforçou a credibilidade das ameaças atribuídas ao suspeito.
Para o usuário, a principal cautela é não tratar o chatbot como se fosse um profissional submetido a sigilo. Gonzaga recomenda evitar o compartilhamento desnecessário de informações extremamente sensíveis e considerar que aquilo que fica registrado digitalmente pode, dentro dos meios juridicamente admissíveis, tornar-se objeto de investigação.
Coura também recomenda cautela com dados pessoais e sensíveis. “A recomendação mais cautelosa seria de evitar o compartilhamento de informações e dados sensíveis”, afirma, diante dos riscos de eventuais vazamentos ou uso mal-intencionado dessas informações.
A orientação vale especialmente para senhas, credenciais bancárias, chaves privadas, documentos sigilosos, estratégias processuais e informações de terceiros cuja exposição possa causar danos.
A Tencent apresentou o Hy4 preview, novo modelo de inteligência artificial de código aberto voltado a programação, pesquisa e análise financeira. A tecnologia será integrada a produtos da empresa, como CodeBuddy e WorkBuddy.
O modelo tem 770 bilhões de parâmetros, mas aciona cerca de 49 bilhões a cada solicitação. O lançamento acontece enquanto a Tencent amplia sua atuação em inteligência artificial.
Novo modelo da Tencent usa arquitetura de “mistura de especialistas” para diferentes tarefas de inteligência artificial. – Imagem: Sergei Elagin/Shutterstock
Como funciona o Hy4
O Hy4 preview foi apresentado pela Tencent em uma publicação no Hugging Face, repositório de modelos de IA aberta.
A tecnologia utiliza uma arquitetura de “mistura de especialistas”. Apesar dos 770 bilhões de parâmetros disponíveis, somente uma parcela é acionada para cada solicitação de texto.
A proposta é direcionar diferentes partes do modelo conforme a tarefa, em vez de utilizar toda a estrutura simultaneamente.
Modelo mira programação e pesquisa
A Tencent desenvolveu o Hy4 para tarefas de engenharia de software, pesquisa e análise financeira. A companhia também pretende incorporá-lo ao CodeBuddy e ao WorkBuddy.
A versão divulgada ainda é preliminar. Segundo a empresa, o sistema pode apresentar alguns comportamentos indesejados ao lidar com tarefas mais complexas:
Pode levar mais tempo do que o necessário para processar determinadas perguntas;
Pode apresentar respostas mais demoradas em situações complexas;
Pode verificar excessivamente as próprias respostas;
Tem como foco programação, pesquisa e análise financeira.
Com o Hy4, a Tencent amplia seu portfólio de modelos de IA de código aberto e aposta em aplicações técnicas. – Imagem: Digineer Station / Shutterstock
Tencent acelera estratégia de IA
O lançamento ocorre enquanto a Tencent intensifica seus investimentos no setor. Em abril, a empresa apresentou o Hunyuan 3.0, seu primeiro grande lançamento de modelo de linguagem desde a contratação do ex-pesquisador da OpenAI Yao Shunyu para liderar o desenvolvimento de sua plataforma de IA.
O Hy4 preview acrescenta mais uma opção ao portfólio de modelos de código aberto da Tencent. Ainda em fase preliminar, a tecnologia será levada aos produtos da companhia, enquanto a empresa amplia sua aposta em aplicações de inteligência artificial.
Tetiana Bubynets tinha 19 anos. Oleksiy Svirin tinha 41. E Roman Karpiy tinha 48. Os três civis morreram no começo de julho, em Zaporizhzhia, no sudeste da Ucrânia, vítimas de um ataque de drone na guerra contra a Rússia. Outras milhares de pessoas morreram em bombardeios aéreos no país desde o início do conflito. Mas as mortes de Bubynets, Svirin e Karpiy têm um detalhe sombrio. O que pilotava o drone algoz não era um soldado russo. Era inteligência artificial.
No dia 6 de julho, um grupo de pessoas se abrigou perto da parede de um prédio residencial. Elas correram para ali após terem ouvido explosões causadas por um enxame de drones russos. Um deles foi para onde elas tinham corrido. Guiado de forma autônoma por IA, ele tinha sido programado para atingir tanques de gás propano, que são altamente inflamáveis. E tinha tanques assim ali perto, num posto de combustível.
Ao verem o drone vindo em sua direção, as pessoas gritaram e correram para se dispersar num estacionamento. O drone tentou contornar o prédio residencial, mas falhou. Bateu numa parede e explodiu, espalhando uma chuva de estilhaços. Tetiana, Oleksiy e Roman morreram por conta dos ferimentos causados pela explosão. Nos destroços, autoridades encontraram um chip da Nvidia.
O que está acontecendo na Ucrânia
A guerra entre Rússia e Ucrânia virou um laboratório de drones militares. E uma das fronteiras desse desenvolvimento é colocar IA autônoma neles. “Daqui uns anos, estaremos vivendo num filme da franquia ‘Exterminador do Futuro’”, disse o comandante da defesa aérea de Zaporizhzhia, coronel Serhiy Minaiev, segundo o jornal New York Times. “Não é piada. Máquinas estão decidindo atacar.”
Essas decisões são processadas de maneira autônoma, via inteligência artificial, em módulos da Nvidia, segundo especialistas e autoridades militares. Em nota ao jornal, a empresa confirmou que o componente encontrado nos destroços do drone era um minicomputador Jetson Orin.
A região de Zaporizhzhia, na Ucrânia, tem sido alvo de drones russos com IA autônoma – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT
A companhia declarou que o dispositivo é de uso comum. Ou seja, é pensado para consumidores civis, não militares. Ele é vendido para estudantes, desenvolvedores e startups, por exemplo. Ainda segundo a Nvidia, ela vende esse componente em muitos países, mas não na Rússia. Isso significa que o minicomputador chegou a drones usados pelo país por meio de redes paralelas.
Não é de hoje que Rússia e Ucrânia experimentam usar IA em drones. A novidade é a camada autônoma, testada por ambos os países.
O que tem ocorrido na região de Zaporizhzhia, segundo autoridades, é a Rússia experimentando essa nova fronteira da tecnologia. Aparentemente, os alvos escolhidos são objetos usados por civis como bombas de combustível e tanques de gás propano. Não se sabe bem por que esses alvos foram escolhidos para testar esses drones “inteligentes”.
A Ucrânia, por sua vez, testa drones autônomos na Crimeia, região ocupada por forças russas. Segundo o jornal, nenhum civil foi morto durante os experimentos ucranianos.
Drones autônomos com IA são ‘tendência da guerra’
Antes, humanos precisavam entrar em aeronaves para pilotá-las. Então, vieram os drones. Humanos ainda eram pilotos, mas conseguiam controlar o veículo de maneira remota – por meio de ondas de rádio ou cabos de fibra óptica. Só que essa ponte entre pessoa e drone é interceptável. Resultado: o desenvolvimento de jammers.
Já um drone com “uma missão”, treinamento e “inteligência própria” para executá-la é mais difícil de interceptar. “A possibilidade de você ter um sistema automatizado, de maneira autônoma, que ataque, faça a decisão do alvo e a decisão de eliminar é, sem dúvida, algo impressionante”, diz Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em entrevista ao Olhar Digital.
No entanto, o professor observa o seguinte: “Temos que considerar que o ciclo de inovação de uma arma e de desenvolvimento de um equipamento militar tem um segundo ciclo pouquíssimo falado: o ciclo do ‘anti’.”
Teixeira cita outras maneiras de interceptar drones. “Há interferência no espectro eletromagnético, interferência por meio de blindagens em cima de alvos, camuflagem com efetivo digital e interferências que impedem que o sistema veja regularmente seu alvo, fazendo com que ele possa acabar atacando a área errada.”
Na região de Zaporizhzhia, ucranianos improvisaram uma proteção um tanto prosaica contra drones no geral – sejam pilotados por militares, sejam autônomos: amarrar redes entre postes e fiação.
Ucranianos têm colocado redes antidrones para proteger regiões de ataques russos – Imagem: Reprodução
Outro improviso prosaico é colocar folhas de plástico em ângulos estranhos ao redor de tanques de propano em postos de gasolina. A ideia é tentar enganar os sistemas de reconhecimento de imagem dos drones.
Para o professor, drones autônomos com IA são “uma tendência da guerra”. “Mas não quer dizer que nós deixaremos de ter, por exemplo, o soldado no campo de batalha”, acrescenta Teixeira. “Ele pode ser uma plataforma que atuará conjuntamente à infantaria regular, às forças blindadas e às unidades de artilharia, mas não é uma mudança por si só.”
Teixeira também comentou que a regulação de “sistemas autônomos que podem ser letais” vai depender “do momento dos conflitos atuais”. “Enquanto for interessante para as grandes potências que esses sistemas funcionem sem regulação, muito provavelmente eles funcionarão sem regulação”, disse o professor.
“No momento em que virmos que a gradação de destruição oferecida por esses sistemas e armas for muito grande, muito provavelmente teremos uma série de tratados e mecanismos de controle desenvolvidos pelas grandes potências e impostos ao resto do mundo, para que se possa ter o controle efetivo desses sistemas e dessas armas”, finaliza o professor.
A Coreia do Sul pretende oferecer acesso gratuito a serviços de inteligência artificial generativa para toda a população. Segundo o The Wall Street Journal, o programa “AI for All” quer ampliar o uso da tecnologia e diminuir a dependência de ferramentas dos Estados Unidos e da China.
Os testes começam em setembro, e o lançamento completo está previsto para este ano. Três consórcios sul-coreanos vão fornecer os serviços, com suporte do governo em infraestrutura computacional e despesas de operação.
Chatbots apoiados pelo governo poderão ajudar cidadãos com consultas médicas, moradia e orientações sobre impostos. – Imagem: TierneyMJ/Shutterstock
IA para tarefas do cotidiano
A ideia é colocar os chatbots dentro de situações práticas. As ferramentas poderão se conectar a sistemas governamentais para ajudar moradores a marcar consultas médicas, procurar apartamentos e receber orientações sobre impostos.
Pequenas empresas também poderão recorrer à IA para calcular tributos e verificar se podem participar de programas de apoio do governo. Para os pais, haverá sugestões de conteúdos educacionais destinados aos filhos.
O acesso será ilimitado nos serviços apoiados pelo governo. Cada consórcio lançará seu próprio aplicativo, mas as ferramentas também serão integradas a plataformas que os sul-coreanos já usam.
Entre os participantes estão as duas maiores empresas de telecomunicações do país e a operadora do Kakao.
A relação da Coreia do Sul com a tecnologia
A iniciativa encontra terreno fértil. O MIT Technology Review descreve os sul-coreanos como entusiastas de novas tecnologias e cita desde robôs humanoides e ídolos virtuais até diferentes aplicações de inteligência artificial.
Essa disposição tem raízes na história econômica do país. Depois da Guerra da Coreia, a tecnologia esteve no centro de ciclos sucessivos de desenvolvimento, que passaram por aço, construção naval, semicondutores, banda larga e smartphones.
Hoje, Samsung e SK Hynix fornecem grande parte das memórias de alta largura de banda usadas pelo hardware da Nvidia para treinar modelos de IA.
O presidente Lee Jae-myung também estabeleceu uma meta clara: colocar a Coreia do Sul entre as três maiores potências mundiais de inteligência artificial.
A estratégia sul-coreana busca ampliar o uso de IA e diminuir a dependência de ferramentas desenvolvidas nos Estados Unidos e na China. – Imagem: vittaya pinpan / Shutterstock
Uma estratégia de bilhões
A expansão tem forte respaldo financeiro. O governo reservou cerca de 10 trilhões de won (aproximadamente R$ 37 bilhões) para gastos relacionados à IA em 2026. O montante é três vezes maior que o do ano anterior.
No “AI for All”, os três consórcios poderão receber até 512 chips Nvidia B200. O governo também ajudará nas despesas de operação, embora o custo específico do programa ainda não tenha sido divulgado.
A iniciativa também expõe uma contradição. O MIT Technology Review relata que, embora a população use IA intensamente, existe preocupação com a possibilidade de a tecnologia eliminar empregos. Sindicatos chegaram a reagir à adoção de robôs humanoides em fábricas.
A Coreia do Sul agora tenta levar essa disposição para uma escala ainda maior: colocar ferramentas de IA à disposição de praticamente todos os cidadãos, enquanto fortalece sua própria indústria e busca reduzir a dependência de modelos estrangeiros.
A Justiça dos Estados Unidos decidiu que o governo Trump agiu ilegalmente ao classificar a Anthropic como risco à cadeia de fornecimento e barrar negócios da empresa com o governo. A juíza federal Rita Lin entendeu que houve retaliação por manifestações protegidas pela Primeira Emenda.
O conflito começou depois que a Anthropic impôs limites ao uso militar de sua inteligência artificial. Segundo o The New York Times, a decisão encerra a primeira de duas ações judiciais apresentadas pela empresa contra o governo.
Um contrato de US$ 200 milhões com o Pentágono esteve no centro da disputa entre Anthropic e governo Trump. – Imagem: Chip Somodevilla e Stockinq – Shutterstock
Contrato de US$ 200 milhões está no centro da disputa
A briga ganhou força no início do ano, quando Anthropic e governo não chegaram a um acordo sobre um contrato de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,03 bilhão) para fornecer tecnologia de IA ao Pentágono em sistemas classificados.
A empresa queria impedir dois usos específicos: vigilância em massa de americanos e armas autônomas capazes de matar alvos sem supervisão humana.
O Pentágono discordou. Para o governo, uma empresa privada não poderia estabelecer políticas para os Estados Unidos. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, acabou classificando a Anthropic como um risco à cadeia de fornecimento.
Essa categoria havia sido utilizada contra empresas estrangeiras consideradas ameaças à segurança nacional. Com a classificação, fornecedores e contratados das Forças Armadas ficaram impedidos de fazer negócios com a Anthropic.
Governo não convenceu a juíza
A Anthropic levou o caso à Justiça e alegou que a classificação não se aplicava à companhia. Também afirmou que a medida tinha motivação ideológica e violava seus direitos constitucionais.
Na decisão de 59 páginas, Rita Lin concluiu que o governo retaliou a empresa por atividades protegidas pela Constituição.
“O uso vazio da segurança nacional não é um cheque em branco para punir e retaliar críticos do governo”, escreveu a juíza.
Outro argumento analisado envolvia a possibilidade de a Anthropic desativar ou alterar seus modelos durante uma guerra. Lin já havia questionado a existência de evidências para essa hipótese. De acordo com o The New York Times, o governo recuou de várias de suas principais alegações sobre o assunto.
Para a juíza, a decisão de barrar a empresa tinha como objetivo transformá-la em um exemplo público por sua postura crítica.
A vitória da Anthropic não encerra a disputa: uma segunda ação judicial contra o governo Trump continua em andamento. – Imagem: PhotoGranary02/Shutterstock
Disputa ainda continua
A Anthropic apresentou duas ações em 9 de março. A primeira, na Califórnia, resultou na decisão de Lin. A segunda tramita no Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia.
O episódio também teve um novo capítulo envolvendo o modelo de IA Mythos. Em junho, o governo pediu que a Anthropic restringisse o acesso de clientes ao sistema por razões de segurança nacional. Após duas semanas de negociações, a empresa pôde restaurar o acesso à maioria dos clientes, com algumas salvaguardas.
“Saudamos a decisão do tribunal de que essa classificação de risco à cadeia de fornecimento foi ilegal”, afirmou a Anthropic.
A decisão é uma vitória para a empresa, mas não encerra a disputa. O governo Trump ainda pode recorrer, enquanto o segundo processo continua em andamento.