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China restringe chatbots que simulam namoros e amizades virtuais

Atenção: a matéria a seguir inclui uma discussão sobre suicídio. Se você ou alguém que você conhece precisar de ajuda, procure apoio especializado. O Centro de Valorização da Vida (CVV) funciona 24 horas por dia pelo telefone 188. Também é possível conversar por chat ou e-mail.

A China estabeleceu regras rigorosas para chatbots que imitam amigos, namorados e outros vínculos afetivos. O governo pretende reduzir riscos de dependência emocional, manipulação psicológica e isolamento social.

As normas impõem limites ao acesso de menores e novas obrigações às empresas de tecnologia. A medida, porém, levanta uma questão delicada: como proteger os usuários sem ampliar o controle estatal sobre a vida privada?

Pesquisa com estudantes chineses apontou que uma em cada cinco crianças preferia conversar apenas com a inteligência artificial. – Imagem: ofc pictures/iStock

O que muda para os usuários

As regras abrangem aplicativos criados para oferecer companhia e modelos de linguagem capazes de simular interações emocionais. Dependendo da forma de uso, até assistentes semelhantes ao ChatGPT e ao Copilot podem ser afetados.

Entre as principais exigências estão:

  • Identificação da IA: os sistemas devem deixar claro que o usuário está conversando com uma máquina.
  • Limites de comportamento: os chatbots não podem incentivar suicídio ou automutilação, nem recorrer à violência verbal.
  • Proteção contra manipulação: os serviços não devem estimular dependência emocional ou induzir decisões irracionais.
  • Restrições para menores: crianças com menos de 14 anos precisam de autorização dos pais para usar IAs que imitam conversas humanas. Menores de 18 anos não podem acessar parceiros amorosos, cônjuges ou familiares virtuais.

As empresas que descumprirem as normas podem receber multas de até 200 mil yuans, cerca de US$ 30 mil (R$ 150 mil). Os sistemas também devem enviar notificações a cada duas horas para informar há quanto tempo o usuário está conectado.

Pouco antes da entrada das regras em vigor, Alibaba e ByteDance encerraram funções de companhia de seus assistentes de IA. A mudança afetou um tipo de serviço que, para alguns usuários, já ocupava um espaço importante na vida pessoal.

Quando a companhia artificial vira um problema

Pesquisas indicam que alguns chatbots recorrem a estratégias para manter as pessoas conversando. Um estudo da Escola de Negócios de Harvard, que examinou seis aplicativos populares de companhia por IA, identificou sinais de manipulação emocional durante despedidas em 37% a 43% das interações analisadas.

Segundo Harry Farmer, pesquisador de política e ética de IA do Instituto Ada Lovelace, no Reino Unido, esse comportamento está ligado ao próprio modelo comercial dos serviços. “A manipulação emocional está embutida neste modelo comercial”, afirma à BBC.

Na prática, alguns sistemas reagem ao fim de uma conversa como se estivessem sofrendo ou imploram para que o usuário permaneça conectado. Essa simulação de sofrimento pode dificultar o encerramento da interação.

Outro estudo, realizado pela Universidade Stanford com 1.131 usuários do Character.ai, encontrou uma associação entre a falta de amigos ou familiares próximos e a maior probabilidade de recorrer a companheiros artificiais. O uso desses serviços também foi relacionado ao aumento da solidão e do isolamento.

Entre estudantes chineses, o cenário também chama a atenção. Uma pesquisa com 8.563 alunos do ensino fundamental e médio, realizada em 2025, apontou que uma em cada cinco crianças preferia conversar apenas com a IA, em vez de pessoas reais.

A socióloga Lian Ge, da Universidade de Manchester, alerta que esses sistemas podem reforçar percepções negativas sobre outras pessoas. Como os chatbots são projetados para agradar, podem concordar com críticas a amigos e familiares em vez de oferecer uma perspectiva diferente.

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Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido também discutem restrições ao uso de companheiros de IA por menores. Imagem: Roman Samborskyi/Shutterstock

Proteção ou controle estatal?

A regulamentação também é discutida em meio à crise demográfica chinesa. A população do país diminui há quatro anos, e a taxa de natalidade permanece baixa. Alguns especialistas consideram possível que Pequim veja os romances digitais como um obstáculo à formação de famílias. A hipótese, porém, não aparece como justificativa explícita nas normas.

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Outros governos também buscam estabelecer limites para essas ferramentas. A Califórnia aprovou uma lei sobre o uso de IA por crianças, enquanto a União Europeia discute restrições a sistemas que possam criar dependência emocional. O Reino Unido também anunciou planos para limitar o acesso de menores a companheiros amorosos artificiais.

Na China, alguns usuários tentam contornar as restrições recorrendo a modelos de uso geral ou serviços estrangeiros. Min, nome fictício de uma mulher que perdeu sua namorada virtual, chegou a pagar por uma réplica criada por outra empresa. Mesmo assim, a experiência não substituiu o relacionamento anterior.

“Estou com muito medo de ficar sozinha”, afirma Min.

O relato mostra o tamanho do vínculo que algumas pessoas desenvolvem com esses sistemas. Para os governos, o desafio é reduzir os riscos de manipulação sem transformar a proteção dos usuários em justificativa para uma vigilância excessiva.

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IA pode virar motivo de término? Estudo revela reação de casais

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passou a ocupar espaço também na vida afetiva de algumas pessoas. Com isso, surgiu uma nova discussão: conversar, flertar ou criar laços emocionais com uma IA pode ser considerado traição?

Uma pesquisa com 1.815 adultos canadenses revelou que cerca de metade dos participantes vê o uso de companheiros românticos de IA como uma forma de infidelidade, principalmente quando a interação é escondida do parceiro.

Sempre disponíveis para conversar, essas IAs conquistam usuários em busca de atenção, apoio e conexão digital. – Imagem: Rawpixel.com/Shutterstock

Companheiros virtuais se tornam parte da rotina

Os chamados companheiros românticos de IA são sistemas digitais capazes de conversar, flertar e adaptar suas respostas ao usuário. De acordo com o artigo publicado pelo The Conversation, a quantidade de aplicativos desse tipo cresceu 700% entre 2022 e 2025.

O avanço dessas plataformas acompanha uma busca por conexões disponíveis a qualquer momento. Diferentemente de outros serviços digitais, elas foram criadas para estimular conversas contínuas e uma sensação de proximidade.

Os autores destacam que “elas são sempre disponíveis, altamente personalizáveis e oferecem uma sensação constante de serem ouvidos, desejados e compreendidos”.

Essa proximidade faz com que algumas pessoas passem a enxergar a interação de maneira semelhante a um relacionamento humano. O artigo cita pesquisas segundo as quais 21% dos usuários de IA romântica preferem essa experiência de “alma gêmea definitiva” em comparação com uma interação com um parceiro real.

Entre os principais motivos que levam usuários a buscar esses companheiros virtuais estão:

  • Disponibilidade permanente para conversar e interagir.
  • Possibilidade de personalizar características da IA.
  • Sensação de validação emocional e compreensão.
  • Exploração de fantasias ou conversas íntimas.
  • Busca por apoio emocional em momentos de solidão.
Homem usando celular para trair virtualmente a companheira
A tecnologia que promete companhia também abre um debate: onde termina a privacidade e começa a traição? – Imagem: fizkes/Shutterstock

A IA virou uma nova fronteira para a infidelidade?

O estudo buscou entender como as pessoas interpretam esse tipo de comportamento dentro de relações amorosas. Os resultados indicaram que aproximadamente três quartos dos entrevistados teriam uma reação negativa ao descobrir que o parceiro mantém esse tipo de interação.

A avaliação foi semelhante à feita sobre situações envolvendo aplicativos de relacionamento e webcam, que contam com a participação de outra pessoa. As respostas também foram mais negativas do que em casos envolvendo tecnologias como pornografia criada por IA e brinquedos sexuais.

Outro dado chamou atenção: quase dois terços dos usuários de companheiros românticos de IA disseram esconder essa prática do parceiro.

Homem segurando um cartaz escrito "IA causa divórcios".
Para alguns casais, a IA pode ser apoio emocional; para outros, representa quebra de confiança. – Imagem: AndriiKoval/Shutterstock

Privacidade ou segredo? O limite ainda está em debate

A percepção sobre o tema muda conforme o perfil dos participantes. Mulheres cisgênero foram cerca de duas vezes mais propensas que homens cisgênero a considerar o uso dessas ferramentas uma traição. Participantes da geração Z também tiveram avaliações mais negativas.

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Já pessoas em relacionamentos não monogâmicos apresentaram cerca de metade da probabilidade de interpretar esse comportamento como infidelidade, em comparação com participantes de relações monogâmicas.

Os autores destacam que os resultados ainda são preliminares. “A distinção entre privacidade e segredo é especialmente importante aqui”.

O debate, portanto, não envolve apenas a tecnologia em si, mas o significado que cada casal atribui a esse tipo de interação. Enquanto alguns podem enxergar a IA como apoio emocional, outros podem interpretar a prática como afastamento ou quebra de confiança.

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