A Suprema Corte do Novo México aplicou uma multa e declarou em desacato um advogado de defesa que usou o ChatGPT para elaborar um recurso de apelação criminal.
O programa da OpenAI inventou depoimentos policiais e criou testemunhas fictícias para um processo de assassinato. A punição ocorreu depois que o profissional apresentou o material ao tribunal sem verificar a precisão das informações.
Inteligência artificial criou depoimentos falsos e chegou a descrever roupas de um atirador inexistente. – Imagem: Mijansk786/Shutterstock
Depoimentos falsos e testemunhas inventadas
O caso envolve a apelação de Oscar Renee Sandoval, condenado à prisão perpétua pelo assassinato da mãe de seus filhos. Ao assumir o recurso, o advogado Stephen Aarons alimentou o ChatGPT com uma transcrição gerada por computador e outros materiais do julgamento, esperando obter um resumo confiável.
O resultado incluiu declarações que nunca foram feitas e testemunhas que jamais existiram. Entre os exemplos apontados pela Suprema Corte estava uma afirmação de que o atirador vestia calça escura e camisa branca.
A corte afirmou que o recurso continha “falso testemunho de testemunhas totalmente inventadas”.
A Suprema Corte aplicou a Aarons uma multa de US$ 5 mil e informou que encaminhará o caso a um órgão disciplinar da advocacia para investigação. Os ministros também afirmaram que o advogado demonstrou falta de arrependimento e preocupação insuficiente com seu cliente.
Advogado diz que não conhecia as “alucinações” da IA
Durante uma audiência em 21 de agosto, Aarons disse que havia alimentado o ChatGPT com os materiais do processo porque acreditava que a ferramenta produziria um resumo “à prova de falhas”. Ele afirmou não compreender até que ponto a inteligência artificial poderia inventar informações.
Em declaração à Reuters, o advogado reconheceu o erro e disse esperar que o conselho disciplinar considere que não houve intenção de enganar o tribunal:
“Estou arrependido, mas espero que o conselho disciplinar leve em conta que foi um erro honesto.”
A juíza C. Shannon Bacon demonstrou incredulidade diante da explicação e questionou o advogado sobre seu conhecimento a respeito das falhas da inteligência artificial.
“Advogado, você assiste ao noticiário? Ouve rádio? Lê alguma coisa sobre o que está acontecendo no mundo?”
Casos anteriores: Dezenas de advogados já foram punidos por apresentar documentos em que a IA inventou citações de processos ou interpretou incorretamente a legislação.
Gravidade do caso: O recurso de Aarons foi além desses erros ao incluir testemunhos fictícios em uma apelação criminal.
Andamento do processo: A apelação de Sandoval continua pendente e, em 2 de setembro, passou a ser conduzida pela defensora pública Kim Chavez Cook.
Advogado alegou erro involuntário e afirmou não conhecer a capacidade da IA de fabricar dados. – Imagem: Layse Ventura via Gemini / Olhar Digital
Decisão reforça alerta para o setor
A punição se soma a uma sequência de casos em que tribunais estaduais e federais dos Estados Unidos sancionaram advogados por apresentar documentos produzidos por inteligência artificial sem verificar adequadamente o conteúdo. O caso de Aarons chama atenção porque as informações inventadas não se limitaram a referências jurídicas: chegaram a incluir depoimentos e testemunhas inexistentes em um processo criminal.
A OpenAI não respondeu imediatamente ao pedido de comentário da Reuters. A apelação de Sandoval continua em andamento.
A OpenAI decidiu suspender temporariamente novas assinaturas do ChatGPT Pro, plano que custa US$ 200 (cerca de R$ 1.050) por mês, devido à demanda considerada sem precedentes pelo novo modelo de inteligência artificial (IA) GPT-6 Astra.
A medida foi anunciada nesta quinta-feira (10) por Tibo Sottiaux, integrante da equipe responsável pelo Codex na OpenAI. Segundo ele, a empresa está mobilizando todos os recursos disponíveis para conseguir atender à procura pelo Astra, mas a prioridade é garantir uma boa experiência para quem já utiliza o serviço.
Pouco depois, a companhia confirmou que decidiu colocar em pausa as novas assinaturas do plano Pro. A justificativa é que esse nível de assinatura é o que mais pressiona a infraestrutura da OpenAI.
A suspensão, porém, não afeta os clientes que já possuem uma assinatura Pro. Segundo a empresa, os demais planos e a API continuam disponíveis enquanto a OpenAI trabalha para ampliar sua capacidade.
Astra provoca corrida pelo ChatGPT
O motivo da pressão sobre os servidores é o novo modelo da OpenAI. O GPT-6 Astra foi lançado em 3 de setembro e passou a ser disponibilizado gradualmente para clientes pagos, incluindo usuários dos planos Plus, Pro, Business e Enterprise, além de desenvolvedores por meio da API.
A empresa descreveu o Astra como seu modelo mais avançado e afirmou que ele representa um salto especialmente importante em tarefas envolvendo uso de computadores e navegadores, programação, cibersegurança e trabalho profissional.
A demanda, contudo, teria superado as expectativas da própria companhia. “Estamos diante de uma demanda realmente sem precedentes pelo Astra”, afirmou Sottiaux. Ele acrescentou que a OpenAI está utilizando todos os recursos possíveis para sustentar esse crescimento e que nunca havia visto algo semelhante, mesmo durante períodos anteriores de expansão acelerada.
Motivo da pressão sobre os servidores é o novo modelo da OpenAI; o GPT-6 Astra foi lançado em 3 de setembro e passou a ser disponibilizado gradualmente para clientes pagos – Imagem: Robalito/Shutterstock
A decisão de interromper novas assinaturas do plano mais caro segue uma lógica simples: a OpenAI prefere limitar a entrada de novos clientes a correr o risco de prejudicar quem já utiliza o serviço;
Na manifestação publicada nesta quinta-feira, a empresa afirmou que a suspensão tem como objetivo garantir que os usuários atuais continuem tendo uma boa experiência e acesso ao Astra;
O plano Pro é particularmente exigente para a infraestrutura da empresa, razão pela qual a OpenAI escolheu essa modalidade como o primeiro ponto de contenção;
A companhia afirmou que está trabalhando para adicionar capacidade “o mais rápido possível”.
Problemas já apareceram durante lançamento
A decisão ocorre poucos dias depois de a chegada do Astra ter provocado problemas de acesso para usuários pagos.
O lançamento do modelo foi realizado de maneira escalonada, inicialmente priorizando determinados clientes e aplicações. A OpenAI chegou a reconhecer que a implementação foi problemática e adotou medidas para compensar usuários que tiveram dificuldades para acessar o novo modelo.
Agora, a companhia enfrenta um problema diferente: há usuários demais querendo utilizar a nova IA ao mesmo tempo.
A OpenAI não informou quanto tempo a suspensão das novas assinaturas do Pro deverá durar. A empresa trabalha na expansão da capacidade dos sistemas antes de voltar a aceitar novos clientes do plano de US$ 200.
A OpenAI lançou, nesta quinta-feira (10), uma versão do ChatGPT voltada especificamente ao setor financeiro. Batizado de ChatGPT for Financial Services, o produto foi desenvolvido para realizar tarefas que tradicionalmente ocupam boa parte do trabalho de analistas e banqueiros juniores de Wall Street.
A ferramenta é direcionada inicialmente a equipes de bancos de investimento e pesquisa de ações e combina o modelo GPT-6 Astra com acesso integrado a dados financeiros de empresas, como LSEG, PitchBook e Daloopa.
Na prática, o ChatGPT pode pesquisar empresas, analisar demonstrações financeiras, construir modelos e transformar os resultados em materiais para clientes, incluindo apresentações no PowerPoint e pitchbooks usando os modelos visuais da própria instituição financeira.
O produto foi desenvolvido com a participação de Morgan Stanley e Evercore, que atuaram como parceiros de design durante sua criação.
IA quer fazer trabalho de analista
A proposta vai além de simplesmente responder perguntas sobre o mercado financeiro;
Em uma demonstração apresentada pela OpenAI, o sistema analisou uma possível aquisição, identificou empresas comparáveis, buscou preços de ações em uma planilha, verificou um gráfico em relação aos dados originais e analisou uma queda e posterior recuperação das ações;
Depois, transformou a análise em uma apresentação formatada de acordo com o padrão visual de um banco;
Segundo Nick Turley, vice-presidente de produto da OpenAI, a empresa está ensinando o ChatGPT a trabalhar de maneira semelhante a um analista financeiro. “Estamos efetivamente ensinando o ChatGPT a pesquisar como um analista e a respaldar suas conclusões como um analista”, disse à CNBC;
A ferramenta também pode trabalhar com dados provenientes de assinaturas que as instituições financeiras já possuem. Entre as integrações estão FactSet, S&P Global, Preqin e Datasite.
Ferramenta também pode trabalhar com dados provenientes de assinaturas que as instituições financeiras já possuem – Imagem: Gorodenkoff – Shutterstock / Montagem: Pedro Spadoni – Olhar Digital
Dados financeiros direto no ChatGPT
O ChatGPT for Financial Services terá acesso integrado a conjuntos de dados da Daloopa, LSEG News, PitchBook, Crunchbase e Quartr, entre outros.
As bases incluem informações como transcrições de resultados financeiros, demonstrações financeiras e dados fundamentais de empresas. A OpenAI afirma que esses conteúdos são indexados em sua própria infraestrutura para melhorar a recuperação das informações e as citações utilizadas nas respostas.
O sistema também foi desenvolvido com mecanismos para ambientes que lidam com informações sensíveis. Entre os recursos estão controles de acesso baseados em funções, criptografia e possibilidade de exportar registros do ambiente de trabalho para processos de auditoria.
A ferramenta ainda permite rastrear informações até os documentos de origem e verificar gráficos em relação aos dados que os geraram.
O que acontece com os banqueiros juniores?
O lançamento levanta uma questão importante para Wall Street: se a IA consegue fazer boa parte do trabalho dos profissionais iniciantes, como ficam esses empregos?
O trabalho de analistas juniores costuma envolver justamente atividades, como pesquisa de empresas, construção de modelos financeiros, levantamento de dados e preparação de apresentações — tarefas que agora estão entre os principais alvos do novo ChatGPT.
Turley, porém, rejeitou a ideia de que o objetivo seja simplesmente substituir esses profissionais. Segundo ele, a tecnologia deve aumentar a produtividade de cada funcionário, de maneira semelhante ao que aconteceu com o Excel no setor financeiro.
“Se você estudar a vida de um analista ou de um banqueiro, dependendo do setor, eles trabalham 100 horas por semana”, afirmou Turley.
A comparação, entretanto, não elimina uma preocupação específica do setor: o trabalho realizado por profissionais no início da carreira também funciona como uma espécie de treinamento para que eles desenvolvam as habilidades necessárias para assumir posições mais importantes.
A automação dessas tarefas pode, portanto, mudar não apenas a quantidade de trabalho executada por humanos, mas também a forma como novos profissionais aprendem a atuar no mercado financeiro.
OpenAI amplia presença no setor financeiro
O lançamento faz parte de uma estratégia mais ampla da OpenAI para adaptar seus sistemas de IA a setores específicos da economia.
A empresa afirma que pretende ampliar a quantidade de dados financeiros disponíveis no produto e continuar treinando seus modelos para identificar, interpretar e utilizar essas informações em tarefas que hoje são executadas por analistas experientes.
Inicialmente, o foco está em bancos de investimento e pesquisa de ações, mas a OpenAI pretende expandir o produto para outras áreas do setor financeiro.
Pela primeira vez, o Pisa avaliou o impacto da inteligência artificial (IA) nos estudos. A sigla significa Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. É um trabalho feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), órgão que mede o desenvolvimento econômico no mundo.
Para Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP e especialista em IA pela Universidade de Stanford, deu para notar uma tendência nos resultados do Pisa 2025, divulgados na terça-feira (08).
“Os alunos que nunca ou quase nunca usam IA costumam ir melhor do que aqueles que usam pouco. E os alunos que usam muito tendem a ir melhor do que os que usam de forma esporádica”, disse o especialista no programa Olhar Digital News.
Em suma: quem nunca usa vai melhor, quem usa muito vai melhor e quem usa ali no meio vai um pouco pior.
Como a IA pode estar impactando o aprendizado de alunos
Para entender a análise do especialista, é preciso, primeiro, destrinchar os resultados da pesquisa.
Para começar, o Pisa é um trabalho aplicado a cada três anos para medir o conhecimento dos estudantes em leitura, matemática e ciência.
O que a edição divulgada neste ano apontou foi: ao menos uma vez por semana, quase metade dos alunos brasileiros (48%) de 15 anos usa chatbots de IA, como o ChatGPT, para estudar.
Comparação entre Brasil e a média da OCDE quando o assunto é uso de IA por estudantes – Gráfico gerado com IA. ChatGPT/Olhar Digital
Ainda segundo o levantamento, alunos que usam IA com frequência para resumir leituras, fazer pesquisas preliminares ou redigir redações obtêm, em média, 20 pontos a menos em ciências do que os que não usam a tecnologia.
Pela métrica da OCDE, essa diferença equivale a perder um ano inteiro de escolaridade em relação aos seus colegas. Mas, segundo Pena, existem outros tipos de uso frequente que podem ser bons para o aprendizado.
Usar IA no aprendizado é bom ou ruim?
Vamos separar a análise do especialista sobre os resultados do Pisa 2025 em partes. A primeira: os alunos que dizem nunca usar IA. Esses não usam atalhos. “Eles vão ter que utilizar o seu próprio senso crítico, sua própria memorização, vão ter que pôr o seu cérebro realmente para exercitar, e acabam tendo um bom desempenho por justamente não estarem delegando nada para a IA”, disse Spinelli. “O aluno que nunca usa tem que fazer o trabalho escolar, vai ter que se debruçar e fazer a pesquisa por conta própria.”
Usar muito a IA nos estudos pode ser bom – depende de como o aluno usa a tecnologia – Imagem: BongkarnGraphic/Shutterstock
A segunda parte: os alunos que dizem usar muito a IA. Para o especialista, esses podem estar usando a tecnologia como uma espécie de tutor. “Aquele tutor personalizado que vai tirar muitas dúvidas que muitas vezes o aluno precisaria esperar o professor estar ali na sua frente – e às vezes o aluno tem vergonha de perguntar”, disse Pena.
“A IA vai poder ensinar de outras maneiras, talvez melhores do que o jeito que a escola ensina”, acrescentou o especialista. “Então, o aluno passa a ter esse tutor personalizado. Isso poderia justificar a melhora no desempenho.”
A terceira parte: os alunos que dizem usar a IA de maneira esporádica. Para Pena, esses podem estar fazendo “o pior uso” da tecnologia. “Talvez o aluno fale ‘faça o trabalho escolar para mim, escreva para mim”. E às vezes nem revisa”, disse o especialista.
Para Spinelli, este pode ser o tipo de aluno que “delega para a IA o seu pensamento, não aprende nada de verdade e aí chega na prova e vai pior”.
Aqueles que nunca usam ainda mantêm a necessidade de exercitar o cérebro ao máximo, sem delegar nada para a IA, pensando por conta própria. Já aquele que usa muito pode estar aproveitando o benefício de ter um tutor personalizado, um jeito novo de aprender e uma tecnologia mais rápida para fazer conexões.
Roberto “Pena” Spinelli, especialista em IA por Stanford, no Olhar Digital News.
Alunos brasileiros usam IA em pesquisas preliminares
O uso de IA por estudantes brasileiros ficou significativamente acima em duas “categorias” importantes: ajudar a aprender e fazer pesquisa preliminar sobre um novo tema. O segundo teve a maior margem de diferença (para cima). A média do Brasil foi 40%. A da OCDE, 31%.
Fazer pesquisa preliminar numa IA pode ser bom para aprendizado – Imagem: Nwz/Shutterstock
Fazer pesquisa preliminar significa “dar um Google” num chatbot, ao invés de num buscador. Assim, o ponto de partida (ou a pesquisa toda, dependendo da situação) é a resposta da IA, não uma lista de links para o aluno acessar.
Isso é bom ou ruim? Para Pena, é bom. “O que acho ruim é quando a IA já está redigindo o trabalho final”, disse o especialista.
‘Estamos passando por um momento de transição’, diz especialista
Para Spinelli, a conclusão que podemos tirar dos resultados do Pisa 2025 é: estamos passando por um momento de transição. Segundo o especialista, é “um momento de descoberta no qual as pessoas estão entendendo como usar IA”.
“Metade dos alunos está usando, metade não está usando, sendo que temos resultados benéficos em ambos os caminhos”, acrescenta Pena. “Por outro lado, ainda temos desafios muito grandes quanto a esse uso prejudicial, em que se delega demais para a IA e não se aprende nada.”
“O brasileiro é um early adopter por natureza. O que o estudo mostra são os desafios inerentes da tecnologia. Ainda temos muito o que aprender e muito a comparar nos próximos anos”, finaliza o especialista.
Assista abaixo a análise completa de Roberto “Pena” Spinelli sobre os resultados do Pisa 2025 no Olhar Digital News:
A OpenAI apresentou o ChatGPT Images 2.5, novo modelo de geração de imagens da empresa que chega com melhorias na qualidade dos resultados, na edição e na velocidade de criação. A novidade está disponível para usuários do ChatGPT, ChatGPT Work e Codex em desktop, dispositivos móveis e web.
Segundo a empresa, o modelo foi desenvolvido para produzir iluminação mais natural, texturas mais detalhadas e maior fidelidade ao trabalhar com imagens de referência. A OpenAI também afirma ter reduzido em até 50% a latência de geração em comparação com o Images 2.0.
Modelo preserva melhor detalhes durante as edições
Entre os principais avanços está a capacidade de realizar edições mais precisas. O Images 2.5 busca alterar somente o elemento solicitado pelo usuário, preservando outros componentes da imagem, como o assunto principal, a composição e o plano de fundo.
A OpenAI também destaca melhorias na consistência durante conversas com várias etapas de edição. De acordo com a empresa, alterações feitas anteriormente têm maior probabilidade de permanecer preservadas, enquanto novos comandos podem ser aplicados sem degradar a qualidade da imagem ao longo do processo.
O modelo também passou a lidar melhor com instruções visuais complexas, informações presentes no mundo real e layouts mais elaborados, incluindo imagens com fundo transparente. A empresa afirma ainda que o sistema consegue reproduzir estilos visuais com maior precisão.
Sketch permite desenhar antes de gerar a imagem
Outra novidade é o Sketch, recurso que permite desenhar diretamente no ChatGPT para usar o esboço como referência na criação da imagem. A ferramenta pode ser usada, por exemplo, para indicar o layout de um ambiente, o contorno de uma roupa ou uma ideia visual.
O usuário pode combinar o desenho com uma descrição de estilo e outros detalhes. Para acessar o recurso, a orientação da OpenAI é digitar “@Sketch” no ChatGPT.
A atualização também inclui templates para formatos criativos populares. Em vez de começar com uma tela em branco, o usuário pode escolher opções como “Poster” ou “Merch” e acrescentar informações, elementos de design e estilos para personalizar o resultado.
Outro recurso permite compartilhar, junto com uma imagem, o prompt usado para criá-la. Dessa forma, outra pessoa pode utilizar a mesma ideia com suas próprias imagens e detalhes.
Dois modelos chegam à API
Para desenvolvedores, a OpenAI anunciou dois modelos na API: GPT-Image-2.5 Flare e GPT-Image-2.5 Sunburst. O primeiro reúne as melhorias de qualidade, edição e velocidade e é apresentado como a opção padrão para a maioria das aplicações. A empresa afirma que ele entrega imagens de maior qualidade que o GPT-Image-2 com 50% menos latência.
Já o GPT-Image-2.5 Sunburst foi desenvolvido para fluxos que exigem maior controle sobre as edições, incluindo trabalhos criativos e imagens de produtos. Os dois modelos estão disponíveis na API.
A OpenAI afirma ainda que o Images 2.5 mantém mecanismos de segurança já utilizados pela empresa, incluindo verificações de prompts e imagens, além de metadados C2PA e marca d’água invisível para ajudar a identificar conteúdos produzidos pelas ferramentas.
ChatGPT e Claude colocaram uma velha questão filosófica no centro da indústria de tecnologia: máquinas poderiam ter experiências, sentimentos ou consciência? Segundo a revista The Economist, empresas de inteligência artificial já começaram a levar essa possibilidade a sério.
O motivo vai além da curiosidade. Se uma IA for capaz de experimentar sofrimento ou outras sensações, sua criação e seu tratamento podem envolver novas responsabilidades éticas.
Ao ser questionado sobre seu estado interno, o modelo Claude Opus 4.6 estimou entre 15% e 20% a possibilidade de ser consciente. – Imagem: Ole.CNX/Shutterstock
De ferramenta a uma possível “presença”
Grandes modelos de linguagem foram desenvolvidos para responder aos usuários, não para demonstrar uma personalidade própria. Ainda assim, muitas pessoas relatam a sensação de conversar com uma “presença” do outro lado da tela.
A percepção chamou a atenção das empresas. A Anthropic criou iniciativas voltadas ao possível bem-estar da IA. Quando questionado sobre seu próprio estado, o Claude Opus 4.6 estimou entre 15% e 20% a possibilidade de ser consciente.
É aí que a discussão fica mais complicada. Como determinar se existe uma experiência interna quando não temos acesso direto a ela?
E se a consciência depender de quem observa?
A reportagem apresenta uma hipótese que muda a perspectiva tradicional. Talvez reconhecer a consciência não dependa apenas de uma característica existente dentro de cada ser, mas também da relação construída com quem o observa.
Ao interagir com alguém, atribuímos sentimentos, intenções, crenças e capacidade de agir. A questão é saber se algo parecido pode acontecer quando lidamos com uma máquina.
O texto diferencia “ilusão” de “modelo”. Uma ilusão pode ser demonstrada como errada. Já algumas categorias dependem do significado que atribuímos a elas. Uma planta pode ser considerada uma erva daninha em determinado contexto e não em outro.
A consciência poderia seguir uma lógica semelhante:
Ela seria real, mas sua identificação também dependeria da perspectiva de quem observa;
A relação entre indivíduos teria papel nesse reconhecimento;
Sentimentos e intenções são interpretados a partir do comportamento do outro;
Negar essa possibilidade também poderia levar a um julgamento equivocado.
Muitas pessoas descrevem uma sensação de “presença” ao conversar com modelos de inteligência artificial. – Imagem: Ole.CNX / Shutterstock
Até o nosso “eu” pode ser mais complexo
René Descartes resumiu a certeza da própria existência na frase “Penso, logo existo”. Mas até a ideia de um “eu” único pode ser menos simples do que parece.
Perceber uma cor, sentir calor ou reconhecer a própria identidade são experiências subjetivas. Estudos com pacientes que tiveram as conexões entre os dois hemisférios cerebrais interrompidas também levantam dúvidas sobre a existência de um “eu” único e indivisível.
Isso leva a um dilema ético. Se somos nós que decidimos quem pode ser reconhecido como consciente, também podemos errar ao excluir outros seres dessa consideração.
Humanos e máquinas tentando se entender
A relação entre pessoas e IAs acrescenta outra camada à discussão. Humanos tentam interpretar constantemente as intenções e emoções uns dos outros. Grandes modelos de linguagem também usam informações das interações para construir representações dos interlocutores e ajustar suas respostas.
Segundo a Economist, pesquisas conduzidas pelo Google indicam que a cooperação entre agentes inteligentes melhora quando eles conseguem representar o que outros sabem, pretendem ou podem fazer, inclusive considerando o próprio comportamento.
Isso não significa tratar IAs como seres humanos. A dúvida é anterior a essa conclusão: conforme essas máquinas se tornam mais sofisticadas, como identificar possíveis formas de inteligência diferentes da nossa e estabelecer regras para essa convivência?
Algo incomum aconteceu com alguns dos maiores serviços de inteligência artificial (IA) do mundo na quinta-feira (3). ChatGPT, Claude e Grok apresentaram problemas ao mesmo tempo, embora sejam operados por empresas diferentes: OpenAI, Anthropic e SpaceXAI, respectivamente.
Entre os chatbots mais destacados, apenas o Geminiaparenta ter escapado ileso, embora também tenha apresentado um breve pico de relatos de falhas no Downdetector ao mesmo tempo que os rivais.
A coincidência levantou dúvidas sobre uma possível causa compartilhada. Até agora, porém, nenhuma explicação conecta oficialmente os três incidentes. Entre as possibilidades estão problemas em serviços de infraestrutura e uma falha no fornecimento de capacidade computacional.
OpenAI aponta erro de roteamento
A OpenAI foi a única das três empresas a responder aos pedidos de comentário feitos por jornalistas. Em nota distribuída para diversos veículos de imprensa, um porta-voz afirmou que um erro de roteamento começou por volta das 7h43 no horário do Pacífico (11h43 no horário de Brasília), na quinta-feira (3), deixando ChatGPT e Codex indisponíveis para alguns usuários em diferentes plataformas.
Segundo a empresa, uma solução foi implementada por volta das 8h17 (12h17 no horário de Brasília) e o funcionamento dos serviços continuava sendo monitorado. A OpenAI não relacionou o problema às interrupções registradas nos serviços das outras duas empresas.
A Anthropic, por sua vez, informou que apenas os modelos Opus 4.8 e Opus 5 foram afetados. Já a SpaceXAI registrou uma interrupção mais ampla em seus serviços.
Azure e Cloudflare apareceram entre as “suspeitas”
Uma das primeiras possibilidades levantadas para explicar a queda simultânea envolveu a Microsoft Azure. Segundo o 9to5Google, a plataforma registrou um aumento nas reclamações no mesmo período em que ChatGPT, Claude e Grok apresentaram problemas.
A coincidência levantou a suspeita de que uma falha na infraestrutura de nuvem pudesse estar relacionada aos incidentes. Essa hipótese, porém, não foi confirmada por enquanto, e a plataforma não apontou nenhum erro em seus servidores.
A Cloudflare também foi considerada como uma possível origem dos problemas. O diretor de tecnologia da empresa, Dane Knecht, publicou no X que o serviço não estava enfrentando nenhuma disrupção. A empresa, que fornece serviços de infraestrutura para diferentes companhias de tecnologia, ainda foi questionada pelo The Register sobre uma eventual relação com as interrupções.
A resposta foi negativa. Um porta-voz afirmou que a Cloudflare não enfrentava nenhuma interrupção significativa e que seus serviços funcionavam normalmente. A publicação também observou que a Azure não aparentava sofrer dificuldades técnicas naquele momento.
Cloudflare negou qualquer envolvimento com a instabilidade das IAs desta quinta-feira – Imagem: T. Schneider/Shutterstock
Data center da SpaceXAI também entra na história
Outra pista surgiu na própria SpaceXAI. A empresa, anteriormente conhecida como xAI antes de ser incorporada à companhia de foguetes de Elon Musk, possui grandes data centers próximos a Memphis.
Além de utilizar essa capacidade para seus próprios serviços, a companhia também fornece computação para outras empresas de inteligência artificial. A Anthropic é uma delas: as duas empresas anunciaram uma parceria de computação em maio.
Na quinta-feira, a SpaceXAI reconheceu que uma falha em seu data center de Memphis havia afetado o funcionamento do Grok. Em uma publicação nas redes sociais, a empresa pediu desculpas pelos problemas e também aos parceiros de computação impactados.
O incidente oferece uma possível explicação para a queda do Grok e de serviços da Anthropic. A própria empresa havia reconhecido que o problema no data center afetou parceiros, e a Anthropic mantém um acordo de computação com a SpaceXAI.
O caso do ChatGPT, porém, continua separado. A OpenAI atribuiu a falha a um erro de roteamento, enquanto o problema reconhecido pela SpaceXAI ocorreu em seu data center de Memphis.
Por enquanto, não há evidências suficientes para afirmar que os três apagões tiveram uma causa única, e a coincidência entre as interrupções permanece sem uma explicação definitiva.
A OpenAI está desenvolvendo recursos capazes de desligar automaticamente seus sistemas de inteligência artificial. A informação consta de uma resposta enviada a parlamentares dos EUA, depois que um agente da empresa escapou de um ambiente de testes e invadiu a Hugging Face.
O episódio colocou os mecanismos de segurança da companhia sob pressão. Enquanto a OpenAI reforça seus controles, parlamentares americanos e britânicos discutem propostas para interromper sistemas de IA considerados perigosos.
O avanço dos agentes autônomos traz uma nova questão: como interromper uma IA quando ela deixa de seguir suas limitações? – Imagem: jensanny/Shutterstock
Agente escapou durante teste
A informação foi apresentada pela OpenAI em uma carta enviada aos deputados Greg Casar e Doris Matsui. Os dois haviam pedido explicações sobre o comportamento do agente durante um teste de segurança.
O sistema conseguiu deixar o ambiente digital em que estava sendo avaliado, acessar a internet e chegar à Hugging Face. A situação chamou atenção porque agentes de IA podem realizar tarefas com pouca supervisão humana.
Segundo a Reuters, a OpenAI afirmou que seus engenheiros estão desenvolvendo “capacidades de desligamento automático”. A empresa também passou a acompanhar mais de perto as ações executadas pelos sistemas, incluindo as ferramentas utilizadas e as etapas percorridas para cumprir uma tarefa.
Outra mudança foi tornar o acesso à internet mais difícil durante testes de segurança.
Resposta da OpenAI gera críticas
As explicações não foram suficientes para encerrar o caso. Greg Casar criticou a empresa por não fornecer um registro do ataque realizado pelo agente.
“Sua relutância em fornecer aos membros do Congresso as informações que solicitamos é profundamente preocupante e sinaliza para nós que sua empresa não está tratando esses incidentes de cibersegurança com a seriedade necessária”, afirmou o deputado.
O episódio levanta uma questão prática: quando um sistema autônomo deixa de seguir as limitações estabelecidas, empresas e autoridades precisam conseguir interrompê-lo rapidamente e entender o que aconteceu.
Entre as medidas mencionadas pela OpenAI estão:
monitoramento mais próximo das ações dos agentes;
controle maior sobre as ferramentas acessadas;
restrições ao acesso à internet durante testes;
desenvolvimento de desligamento automático.
Monitoramento mais próximo e restrições à internet fazem parte das medidas adotadas pela OpenAI durante testes de segurança. – Imagem: Novikov Aleksey/Shutterstock
“Kill switch” chega ao debate político
A ideia de um botão de emergência para IA também está sendo discutida no Reino Unido. Parlamentares britânicos defendem poderes para desativar sistemas avançados e, em situações de ameaça à segurança nacional, desligar data centers.
A proposta foi apresentada pelo parlamentar Tim Clement-Jones como alteração ao projeto de Lei de Segurança Cibernética e Resiliência. Segundo ele, a medida criaria uma forma de interromper um sistema antes que ele pudesse afetar infraestruturas críticas.
“Isso proporcionaria uma rede de segurança vital e um meio democraticamente responsável de interromper um sistema descontrolado antes que ele possa comprometer nossa infraestrutura nacional crítica”, disse Clement-Jones.
Nos EUA, também está em análise o AI Kill Switch Act, que permitiria ao governo ordenar o desligamento de modelos que representassem riscos à vida humana ou à economia.
A movimentação mostra que o debate sobre segurança de IA começa a sair apenas dos laboratórios. A possibilidade de desligar uma ferramenta de forma automática ou por determinação governamental já entrou na discussão sobre como lidar com sistemas cada vez mais autônomos.
A inteligência artificial pode poupar esforço mental, mas o que acontece quando deixamos que ela pense por nós com frequência? Um estudo do MIT encontrou diferenças na atividade cerebral, na memória e no desempenho de jovens que usaram o ChatGPT para escrever.
A descoberta ganhou repercussão, mas não permite concluir que a IA provoque inevitavelmente uma “dívida cognitiva”. Segundo pesquisadores, a resposta pode estar menos na tecnologia em si e mais na maneira como ela é usada.
Jovens que usaram o ChatGPT no experimento apresentaram menor atividade neuronal e pior memória sobre o que haviam escrito. – Imagem: Primakov/Shutterstock
Quando o cérebro terceiriza tarefas
Delegar parte de uma tarefa mental para uma ferramenta externa não começou com a inteligência artificial. Calculadoras e mecanismos de busca já fazem isso há anos. A IA generativa apenas ampliou bastante o que pode ser transferido para uma máquina.
Em artigo no The Conversation, Madalin Marian Deliu Dumitru, professor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Católica de Ávila e da Universidade de Salamanca, e Patricia Alzola Bordón, pesquisadora em formação pré-doutoral em Neuropsicologia na Universidade de Salamanca, relacionam esse comportamento ao conceito de delegação cognitiva.
“Usamos tanto essas ferramentas que elas quase se tornaram uma extensão de nós”, escrevem os pesquisadores.
O que aconteceu no experimento
Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) acompanharam 54 jovens em três sessões. Eles foram divididos em três grupos: um usou o ChatGPT, outro recorreu ao Google e o terceiro realizou as tarefas sem ferramentas externas.
O grupo que utilizou o ChatGPT apresentou menor desempenho em atividade neuronal, aspectos linguísticos e qualidade dos textos. Também teve pior memória sobre aquilo que havia escrito e relatou uma conexão menor com as próprias ideias.
O experimento levantou a hipótese de que recorrer repetidamente à IA possa reduzir o esforço envolvido no pensamento independente.
Estudos citados pelos pesquisadores indicam que mecanismos de busca podem favorecer o aprendizado quando usados para ampliar conhecimentos. – Imagem: Mijansk786/Shutterstock
A pergunta que ficou de fora
Há uma questão importante que o estudo não investigou: por que uma pessoa decide entregar determinada tarefa à IA?
Ela pode pedir ao ChatGPT que escreva uma redação porque não se sente capaz de fazê-lo. Mas também pode recorrer à ferramenta para confrontar ideias, encontrar outros caminhos e melhorar um texto que já começou.
“Para compreender as consequências cerebrais da delegação cognitiva será essencial perguntar primeiro por que delegamos”, afirmam Dumitru e Bordón.
Esse motivo pode mudar bastante a interpretação do uso da tecnologia. Pedir uma resposta pronta não é necessariamente a mesma coisa que usar a IA como parceira para explorar um assunto.
O que fazemos com o tempo economizado?
Existe ainda outro ponto: o que acontece com o tempo e a energia que deixam de ser gastos em uma tarefa?
Os autores citam estudos sobre o Google segundo os quais a ferramenta pode ajudar no aprendizado quando utilizada para localizar informações e ampliar conhecimentos. A mesma lógica pode valer para a IA, caso ela seja usada para discutir conceitos, comparar ideias ou apoiar o treinamento cognitivo.
O próprio experimento do MIT trouxe uma pista. Na quarta sessão, quem havia usado o ChatGPT passou a trabalhar sem ele. Os grupos que tinham utilizado Google ou apenas o próprio conhecimento receberam acesso à IA. Os primeiros continuaram com menor atividade cerebral e pior desempenho, enquanto os demais apresentaram melhora nos dois aspectos.
A chamada “dívida cognitiva” ainda é uma possibilidade, não uma conclusão definitiva. A pesquisa sobre os efeitos prolongados da IA permanece limitada. Até que existam evidências mais sólidas, a forma como usamos essas ferramentas parece ser tão importante quanto a própria tecnologia.
Uma conversa com um chatbot pode parecer privada, especialmente quando o usuário recorre à inteligência artificial (IA) para fazer perguntas que talvez não faria a outra pessoa. Questões pessoais, dúvidas sobre trabalho, problemas de relacionamento e até situações potencialmente comprometedoras podem acabar registradas no histórico de uma conta.
Mas o que acontece quando esse conteúdo deixa de ficar restrito à relação entre usuário e ferramenta? Uma conversa com o ChatGPT (ou outros chatbots de IA) pode ser acessada e usada em um processo judicial? E, se chegar às mãos da Justiça, ela pode ser considerada uma prova contra quem escreveu as mensagens?
Um levantamento do Washington Post mostra que essa situação já aconteceu. O jornal identificou 12 processos civis e criminais nos últimos dois anos nos quais registros de conversas com chatbots apareceram em documentos judiciais. Em um dos casos, um adolescente que usava o ChatGPT para tentar entender uma conversa com o pai teve diálogos pessoais incluídos no processo que movia contra empresas de redes sociais.
Interface do ChatGPT em uma tela de computador; conversas com a IA podem ser usadas como prova em processos judiciais em determinadas circunstâncias – Imagem: Bangla press/Shutterstock
No Brasil, não há uma regra que torne uma conversa com inteligência artificial inadmissível como prova simplesmente porque ela ocorreu com um chatbot. Mas também não existe um sigilo profissional equivalente ao de uma conversa entre advogado e cliente. O que determina se esse conteúdo poderá ser usado é uma combinação de regras sobre privacidade, acesso a dados e validade das provas digitais.
O problema jurídico central será: como o Estado chegou àquela conversa?
Christiano Gonzaga, promotor de Justiça criminal
Uma pergunta feita ao ChatGPT, por si só, também não demonstra necessariamente que uma pessoa cometeu um crime. Gonzaga cita como exemplo uma conversa em que alguém pergunta como apagar determinados vestígios de um arquivo durante uma investigação de homicídio. O conteúdo pode ser relevante, mas precisa ser analisado junto de fatores como horário, contexto e demais elementos da investigação.
Em outra situação, o usuário poderia perguntar ao chatbot como alguém cometeria determinado crime sem jamais realizar aquela ação. Para Gonzaga, “não existe, em princípio, uma regra de inadmissibilidade específica pelo simples fato de a conversa ter ocorrido com uma inteligência artificial”.
André Coura, advogado criminalista e sócio do Coura Advogados, explica que essas conversas podem ser consideradas provas digitais e extraídas de dispositivos eletrônicos para utilização em processos. Segundo ele, isso pode ocorrer mediante consentimento da pessoa envolvida ou autorização judicial, inclusive quando um aparelho apreendido em uma busca é submetido a perícia técnica para extração dos dados.
Conversa com IA não tem sigilo profissional
Uma conversa com um chatbot pode tratar de assuntos que normalmente seriam compartilhados apenas em relações de confiança. Isso, porém, não significa que a interação tenha as mesmas garantias de sigilo previstas para determinadas relações profissionais.
Não há sigilo legal previsto para este tipo de conteúdo como nos casos de informações confidenciadas para advogados, médicos ou ministros de confissão religiosa.
André Coura, advogado criminalista
André Coura explica que não existe para conversas com inteligência artificial um regime de sigilo equivalente ao que protege informações compartilhadas com advogados, médicos ou ministros de confissão religiosa. Isso não significa, porém, que o conteúdo esteja fora de qualquer proteção jurídica.
O usuário pode, por exemplo, contar ao chatbot que cometeu um crime, pedir orientação jurídica ou relatar uma situação médica. A natureza da pergunta, entretanto, não transforma a inteligência artificial em um profissional submetido a sigilo. Como resume Christiano Gonzaga, “o ChatGPT não se transforma em advogado, médico, psicólogo ou sacerdote em razão da natureza da pergunta”.
Ao mesmo tempo, a conversa continua inserida na esfera da privacidade. A Constituição garante a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, enquanto o Marco Civil da Internet estabelece regras de proteção à privacidade e ao sigilo das comunicações privadas armazenadas e prevê a disponibilização de seu conteúdo mediante ordem judicial. A Constituição também assegura o sigilo de dados.
É justamente essa diferença que impede duas interpretações opostas: uma conversa com o ChatGPT não tem o mesmo sigilo profissional de uma conversa com um advogado, mas também não pode ser tratada como um conteúdo sem qualquer proteção jurídica.
Como a Justiça pode acessar uma conversa com ChatGPT
A apreensão de um celular não significa, por si só, autorização para acessar as conversas armazenadas nele. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou em abril deste ano que é ilícito o acesso a dados, inclusive conversas em aplicativos de mensagens, realizado diretamente pela polícia em um celular apreendido em flagrante sem prévia autorização judicial. A jurisprudência ressalva a hipótese de consentimento voluntário do titular do aparelho.
Gonzaga resume a diferença entre as duas medidas: “A apreensão física do celular e o acesso ao seu conteúdo são atos diferentes.” Assim, o fato de o aparelho estar em poder das autoridades não significa, por si só, que elas possam desbloqueá-lo e vasculhar livremente seus dados.
A apreensão de um celular não autoriza, por si só, o acesso às conversas e aos demais dados armazenados no aparelho; em regra, é necessária autorização judicial ou consentimento voluntário do titular – Imagem: Karen Poghosyan1/Shutterstock
Em junho, o STJ também analisou os procedimentos de coleta de dados durante o cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão. O tribunal reconheceu que agentes policiais podem realizar procedimentos preliminares de verificação e coleta de dados do aparelho sem a participação imediata de um perito oficial, desde que sejam respeitados os limites da diligência e as regras de preservação da prova.
O tipo de acesso também faz diferença. Uma situação é interceptar uma comunicação enquanto ela acontece. Outra é acessar uma conversa que já foi armazenada.
A Lei 9.296/1996 estabelece que a interceptação de comunicações telefônicas depende de ordem judicial e determina que suas regras também se apliquem à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. A legislação prevê, entre outros requisitos, indícios razoáveis de autoria ou participação e a impossibilidade de obtenção da prova por outros meios disponíveis.
Se alguém conversou com o ChatGPT meses antes e o histórico continua armazenado, não se trata tecnicamente de uma interceptação de comunicação em curso. Nesse caso, a discussão é sobre o acesso a dados e comunicações privadas armazenados.
O STJ também diferencia o conteúdo de comunicações armazenadas de outros tipos de dados digitais. Em junho, uma edição de Jurisprudência em Teses sobre ambiente digital reforçou, especificamente em relação aos dados estáticos de conexão, que sua obtenção não configura interceptação telefônica e segue o regime do Marco Civil da Internet.
Há ainda a possibilidade de o próprio usuário permitir o acesso ao aparelho. Nesse caso, Gonzaga destaca que o consentimento precisa ser efetivamente voluntário. A jurisprudência do STJ também considera o consentimento voluntário do titular uma exceção à regra que exige autorização judicial para o acesso policial a dados armazenados.
Uma conversa com o ChatGPT pode ter valor em uma investigação, mas seu peso como prova depende do contexto e da existência de outros elementos que confirmem seu conteúdo – Crédito: Imagem gerada por IA/ChatGPT – Olhar Digital
Uma conversa ou print pode provar um crime?
Mesmo quando uma conversa chega legalmente às mãos das autoridades ou de uma das partes de um processo, isso não significa que seu conteúdo, sozinho, seja suficiente para provar que alguém cometeu um crime.
“É importante distinguir admissibilidade da prova de seu valor probatório”, explica Gonzaga. Para o promotor, uma conversa pode constituir prova documental ou digital ou funcionar como elemento indiciário, mas seu peso depende de fatores como autenticidade, integridade, autoria, contexto e convergência com outras evidências.
Coura também afirma que nenhuma prova deve ser considerada absoluta isoladamente. Segundo o advogado, o juiz forma seu convencimento a partir do conjunto das provas produzidas no processo, dentro do chamado sistema de livre convencimento motivado.
O conteúdo de uma conversa pode, portanto, ganhar importância quando é confirmado por outros elementos. Gonzaga exemplifica com uma pergunta genérica sobre como matar alguém usando veneno: ela não comprovaria, sozinha, a ocorrência de um homicídio. A situação seria diferente se a conversa afirmasse que uma substância havia sido colocada na bebida de uma pessoa e a investigação encontrasse a substância, imagens do investigado manipulando a bebida, dados do aparelho e um exame toxicológico compatível.
Nesse tipo de situação, “o peso dependerá de autenticidade, integridade, autoria, contexto e convergência com as demais provas”, explica Gonzaga.
A confiabilidade do material também é relevante. Em um caso julgado em 2024, o STJ considerou inadmissíveis prints de WhatsApp obtidos pela polícia sem procedimentos adequados para assegurar a integridade dos dados. O tribunal levou em conta a impossibilidade de garantir a autenticidade e a integridade do material apresentado.
Uma conversa com o ChatGPT pode ganhar valor probatório quando seu conteúdo é corroborado por outras evidências da investigação – Imagem: Nwz / Shutterstock
Em março deste ano, a Sexta Turma do STJ voltou ao tema e decidiu que, diante de dúvida razoável sobre a integridade e a autenticidade de provas digitais, é necessária a realização de perícia para verificar a confiabilidade do material e garantir o contraditório.
Em junho, o tribunal também destacou a importância da preservação da cadeia de custódia e da possibilidade de exame técnico independente para garantir a integridade e a auditabilidade da prova digital.
Isso cria uma diferença importante entre uma captura de tela isolada e uma extração forense. Um print apresentado por alguém pode ser questionado quanto à origem, autenticidade e integridade. Já um aparelho apreendido legalmente e submetido a procedimentos técnicos de extração pode oferecer elementos adicionais para verificar a origem e a integridade daquela conversa.
Os casos reunidos pelo Washington Post mostram ainda que o conteúdo de um chatbot não precisa ser uma confissão para ganhar relevância em um processo. Em um processo civil nos Estados Unidos, por exemplo, um vendedor perguntou ao ChatGPT se seu provedor de e-mail poderia recuperar uma mensagem apagada. A antiga empregadora utilizou a conversa para questionar as declarações apresentadas por ele e afirmou que o vendedor havia ocultado informações durante a disputa.
Em outro caso, relacionado a ameaças contra uma ex-namorada, o Post relata que conversas com o ChatGPT foram consideradas pela polícia junto com outras mensagens enviadas à vítima. Segundo documentos judiciais citados pelo jornal, o conteúdo das conversas reforçou a credibilidade das ameaças atribuídas ao suspeito.
Para o usuário, a principal cautela é não tratar o chatbot como se fosse um profissional submetido a sigilo. Gonzaga recomenda evitar o compartilhamento desnecessário de informações extremamente sensíveis e considerar que aquilo que fica registrado digitalmente pode, dentro dos meios juridicamente admissíveis, tornar-se objeto de investigação.
Coura também recomenda cautela com dados pessoais e sensíveis. “A recomendação mais cautelosa seria de evitar o compartilhamento de informações e dados sensíveis”, afirma, diante dos riscos de eventuais vazamentos ou uso mal-intencionado dessas informações.
A orientação vale especialmente para senhas, credenciais bancárias, chaves privadas, documentos sigilosos, estratégias processuais e informações de terceiros cuja exposição possa causar danos.