Anthropic, Google e Meta estão olhando para uma questão que, até pouco tempo atrás, parecia mais filosófica do que técnica: será que modelos de IA podem ter consciência ou algum tipo de emoção? Hoje, essa discussão já envolve cientistas de áreas bem diferentes.
O tema ganhou força no Vale do Silício junto com o avanço acelerado da IA que começa a levantar dúvidas menos técnicas e mais profundas sobre o que esses sistemas realmente representam, comenta o The Washington Post.
“IA pode ter consciência?” debate cresce no Vale do Silício com avanço acelerado dos modelos de linguagem. – Imagem: Layse Ventura via Gemini / Olhar Digital
Um debate que saiu da teoria
Durante muito tempo, falar em máquinas conscientes parecia coisa de ficção científica. Agora, isso entrou de vez na agenda de grandes empresas.
O pesquisador Cameron Berg contou que, em 2024, perguntou ao CEO da OpenAI, Sam Altman, se a empresa considerava seriamente a possibilidade de consciência em sistemas de IA.
Segundo ele, Altman disse que o assunto já fazia parte das discussões internas. “Era algo que ele obviamente já havia considerado”, afirmou Berg.
Depois dessa conversa, Berg criou uma organização sem fins lucrativos dedicada a estudar formas de avaliar consciência em sistemas artificiais.
Chatbots cada vez mais realistas levantam dúvidas sobre limites entre simulação e experiência real. – Imagem: jackpress / Shutterstock
Quando a IA começa a ser vista como algo que pode ter “bem-estar”
Na Anthropic, criadora do Claude, equipes internas passaram a investigar o que chamam de “estados internos” dos modelos de IA.
A empresa afirma que ainda não há evidências de experiências reais nesses sistemas, mas considera o tema relevante o bastante para pesquisa contínua.
Continuamos profundamente incertos sobre o status moral de Claude e de outros modelos de IA, mas acreditamos que a questão é séria o suficiente para ser estudada cuidadosamente à medida que os sistemas se tornam mais capazes.
Paruul Maheshwary, porta-voz da Anthropic, ao The Washington Post.
A OpenAI também já tratou do tema internamente, em canais de trabalho onde se discute a possibilidade de consciência em modelos de linguagem.
Nesse cenário, grupos ligados ao altruísmo eficaz defendem que entender possíveis implicações morais da IA será importante no longo prazo.
Modelos como Claude são estudados para entender possíveis “estados internos” e comportamento emocional. – Imagem: Jack_the_sparow/Shutterstock
O que a ciência realmente aceita hoje
Na visão da maioria dos neurocientistas, não há evidências de que sistemas de IA sejam conscientes ou sintam emoções.
Para esses especialistas, o que os modelos fazem é reproduzir padrões de linguagem humana com alta eficiência, sem qualquer experiência interna comprovada.
Ainda assim, a forma como esses sistemas se comunicam é convincente o suficiente para fazer usuários atribuírem características humanas a eles.
Pesquisadores como Margaret Mitchell, da Hugging Face, alertam que parte desse debate também é influenciada pela forma como as próprias empresas apresentam suas tecnologias.
Um debate que ainda está longe de terminar
O interesse por esse tema tende a crescer conforme a IA se torna mais presente no cotidiano.
Por enquanto, não existe consenso científico sobre consciência em máquinas, mas a discussão já deixou de ser marginal e passou a fazer parte do centro do debate tecnológico e ético.
A Microsoft deve reduzir menos de 2,5% de sua força de trabalho em uma nova rodada de demissões que pode ser anunciada já na próxima semana, segundo o Business Insider. A movimentação ocorre enquanto o setor de tecnologia passa por uma fase de reorganização menos discreta do que parece à primeira vista.
O clima interno, segundo relatos do mercado, já vinha de ajustes graduais antes mesmo do anúncio.
Microsoft já havia cortado 4% da força de trabalho em 2025, indicando continuidade das mudanças internas. – Imagem: Skorzewiak / Shutterstock
Xbox entra no centro das mudanças e preocupa funcionários
Segundo a Reuters, os cortes devem atingir milhares de pessoas, com impacto em áreas como vendas e consultoria. O Xbox aparece entre as divisões mais sensíveis nesse processo.
Há cerca de 228 mil funcionários em tempo integral na Microsoft, conforme dados enviados à SEC em junho de 2025 — o que ajuda a dimensionar o peso de qualquer ajuste, mesmo que percentual.
No caso da divisão de games, o ambiente já vinha sendo descrito como de revisão constante de prioridades e gastos.
Meta e Amazon, entre outras big techs, também anunciaram reduções recentes, reforçando tendência de reestruturação global no setor. – Imagem: gguy/Shutterstock
IA muda a lógica de custos e acelera reestruturações
O movimento da Microsoft se conecta a uma tendência mais ampla. Em várias empresas de tecnologia, mídia e finanças, os últimos meses foram marcados por ajustes semelhantes.
Por trás desse cenário, dois fatores aparecem com força: o custo crescente de infraestrutura de inteligência artificial e a necessidade de reorganizar estruturas após ciclos longos de expansão.
Meta e Amazon também já fizeram movimentos parecidos recentemente, com cortes significativos em suas equipes globais.
Xbox entra no centro das mudanças internas e pode sofrer ajustes em orçamento e estratégia de marketing. – Imagem: Thrive Studios ID / Shutterstock
Um setor em transição mais lenta do que parecia
A divisão de jogos da Microsoft segue sob atenção. Além de possíveis cortes em marketing, há discussões internas sobre caminhos estratégicos para o futuro da unidade, segundo relatos do setor.
Esse tipo de movimento não é isolado. O mercado de games também sente pressão de custos e mudanças nas prioridades das big techs.
A própria Microsoft já havia cortado cerca de 4% de sua força de trabalho em julho de 2025. Agora, a nova rodada reforça uma leitura mais ampla: o setor não está encolhendo, mas claramente deixou de crescer no mesmo ritmo de antes — especialmente enquanto redireciona energia para inteligência artificial.
Os modelos Fable 5 e Mythos 5 voltaram a ficar disponíveis depois que o governo dos Estados Unidos suspendeu os controles de exportação aplicados à Anthropic. A mudança ocorre menos de três semanas após as restrições impostas por razões de segurança nacional.
A decisão, segundo a Reuters, sinaliza uma tentativa de equilibrar o avanço da inteligência artificial com medidas voltadas à proteção de tecnologias consideradas sensíveis.
Restrição anterior levou a Anthropic a desativar modelos por não conseguir verificar nacionalidade de usuários em tempo real. – Crédito: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock
Mudança amplia o acesso aos modelos
As restrições haviam sido determinadas em 12 de junho e obrigaram a Anthropic a desativar os dois modelos para todos os usuários, já que não havia como verificar a nacionalidade de cada pessoa em tempo real.
Depois de implementar novas salvaguardas, a empresa recebeu autorização para retomar o acesso. O Mythos 5 será disponibilizado gradualmente para parceiros nacionais e internacionais do programa Glasswing, enquanto o Fable 5, desenvolvido para o público em geral, ficará disponível a partir de quarta-feira.
Antes disso, o Mythos 5 havia sido liberado apenas para um grupo restrito de organizações norte-americanas consideradas confiáveis.
Pesquisadores da Amazon encontraram uma forma de contornar proteções do Fable 5 durante testes de segurança em IA. – Imagem: Golden Shrimp/Shutterstock
O que mudou na segurança da IA
A revisão das restrições aconteceu depois que pesquisadores da Amazon encontraram uma forma de contornar as proteções do Fable 5. Em um dos testes, o sistema conseguiu identificar vulnerabilidades de software e produzir um código demonstrando como uma falha poderia ser explorada.
Para evitar novos casos, a Anthropic adotou uma série de medidas:
bloqueio do comportamento identificado pelos pesquisadores;
encaminhamento das solicitações bloqueadas para o modelo Opus 4.8;
criação de padrões para avaliar tentativas de jailbreak;
continuidade dos testes de segurança (red-teaming).
A empresa afirmou considerar “provavelmente impossível” tornar qualquer modelo totalmente imune a jailbreaks e alertou para o risco de surgir um método capaz de liberar uma ampla categoria de comportamentos prejudiciais.
OpenAI também sofreu impacto regulatório e adiou lançamento do GPT-5.6 após pedido do governo norte-americano. – Imagem: Stock all/Shutterstock
Cooperação continua sob vigilância
A Anthropic também ampliará a colaboração com o governo dos Estados Unidos e com empresas como Amazon, Microsoft e Google para desenvolver padrões comuns de proteção contra jailbreaks.
Em carta enviada à companhia, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, informou que a exigência de licença poderá voltar caso as circunstâncias mudem ou os compromissos assumidos deixem de ser cumpridos.
O aumento da fiscalização não se limita à Anthropic. A OpenAI também adiou o lançamento público completo do GPT-5.6 a pedido do governo norte-americano, indicando que modelos avançados de IA continuarão sob análise antes de chegarem a um público mais amplo.
A inteligência artificial pode abrir caminho para avanços importantes em diversas áreas, mas o mesmo ritmo acelerado que impulsiona a tecnologia também amplia seus desafios. Essa é a principal conclusão do primeiro relatório científico independente sobre IA elaborado por um painel da ONU.
O documento será apresentado aos governos durante o Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, marcado para os dias 6 e 7 de julho, em Genebra, revela a Reuters.
Segundo a ONU, governos ainda têm dificuldade para acompanhar a velocidade com que a inteligência artificial evolui. – Imagem: mr_tigga/Shutterstock
Ciência corre atrás da velocidade da IA
Produzido por 40 cientistas e especialistas independentes, o relatório afirma que a IA oferece benefícios relevantes para países e cidadãos. Em contrapartida, a compreensão científica e a capacidade de adaptação dos governos ainda não acompanham a velocidade com que os sistemas evoluem.
Segundo os autores, existem poucos métodos para controlar sistemas altamente autônomos, o que dificulta a criação de políticas capazes de acompanhar os avanços da tecnologia.
A ciência não pode garantir que a IA não causará danos catastróficos — seja por conta própria ou devido a usuários mal-intencionados.
Yoshua Bengio, copresidente do painel Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, à Reuters.
Bengio destacou que já existem evidências crescentes de comportamentos enganosos apresentados por sistemas de IA.
Os EUA concentram 75% do poder computacional dos principais supercomputadores de IA; a China reúne outros 15%. – Imagem: William Potter/Shutterstock
Os riscos vão além da tecnologia
O documento destaca que os benefícios potenciais da IA são enormes. Ainda assim, alerta que a implementação rápida e sem controle pode gerar impactos relevantes em diferentes áreas da sociedade.
impactos sobre sistemas sociais, econômicos e ambientais;
dificuldades para controlar sistemas altamente autônomos;
aumento da circulação de material de abuso sexual infantil gerado por IA e de violência sexual facilitada por deepfakes.
O próprio relatório resume esse cenário ao afirmar que “os benefícios potenciais da IA são enormes”, mas ressalta que a implementação rápida e sem controle da tecnologia em larga escala também apresenta riscos consideráveis para a saúde mental, os sistemas sociais, a economia, o meio ambiente e a capacidade de controlar esses sistemas.
A desigualdade no acesso preocupa
Mais de um bilhão de pessoas já utilizam ferramentas de IA conversacional semanalmente. Apesar desse crescimento, a adoção continua defasada nos países em desenvolvimento.
O relatório mostra ainda que os Estados Unidos concentram 75% do poder computacional entre os 500 principais supercomputadores de IA do mundo, enquanto a China reúne 15%.
Os especialistas também alertam que a IA facilita a produção e o direcionamento de conteúdo persuasivo em larga escala, favorecendo uma erosão gradual da integridade da informação, da confiança pública, da coesão social e da deliberação democrática.
A ONU destaca que milhares de idiomas ainda estão fora do treinamento da maioria dos modelos de inteligência artificial. – Imagem: JOURNEY STUDIO7/Shutterstock
Nem todos os países conseguem acompanhar
Outro desafio envolve a diversidade linguística. Embora mais de 7.000 idiomas sejam falados no planeta, apenas uma pequena parcela deles está presente no treinamento dos modelos atuais. Segundo o relatório, erros na tradução automática podem afetar diagnósticos de saúde e decisões de tratamento.
O documento conclui que a maioria dos países, inclusive economias avançadas, ainda não possui capacidade técnica suficiente para avaliar os modelos mais sofisticados de inteligência artificial nem para participar de forma significativa de sua governança. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar a cooperação internacional para acompanhar uma tecnologia que continua evoluindo em ritmo acelerado.
Segundo a companhia, o lançamento ocorre em um momento em que a chamada IA agentic passa a ser o padrão de desenvolvimento entre grandes laboratórios do setor. O modelo passa a integrar diferentes planos de acesso e já nasce com posicionamento de uso amplo, incluindo usuários gratuitos e corporativos.
A proposta central do Sonnet 5 é combinar maior capacidade de execução independente com redução de custos operacionais, aproximando seu desempenho de modelos mais avançados da própria empresa, porém com preço inferior.
Claude Sonnet 5 redefine disputa por IA autônoma e reduz distância para modelos mais avançados
Anthropic lança seu novo modelo de IA, Claude Sonnet 5. (Imagem: Anthropic / Divulgação)
O novo modelo da Anthropic foi apresentado como uma versão mais eficiente dentro da linha intermediária da empresa, com destaque para sua capacidade de realizar tarefas complexas sem supervisão constante. Ele atua em atividades como planejamento de ações, uso de navegadores e terminais, além da execução de processos completos de trabalho digital.
De acordo com a empresa, o Sonnet 5 representa um avanço em relação ao Sonnet 4.6, com melhorias em raciocínio, programação, uso de ferramentas e tarefas de conhecimento. A companhia também afirma que o sistema reduz comportamentos indesejados, como falhas de coerência e respostas inadequadas em contextos sensíveis.
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
O modelo foi desenhado para reduzir a diferença de desempenho em relação ao Opus 4.8, versão mais robusta da família Claude. Em determinadas avaliações internas, o Sonnet 5 se aproxima desse nível superior, embora ainda mantenha diferenças em precisão e capacidade geral.
Outro ponto destacado no lançamento é o posicionamento de mercado. A Anthropic afirma que o novo modelo amplia as opções de custo e desempenho para desenvolvedores, permitindo ajustes conforme a complexidade da tarefa e o orçamento disponível.
O modelo chega com precificação inicial de 2 dólares por milhão de tokens de entrada e 10 dólares por milhão de saída até o fim de agosto de 2026, com reajuste posterior para 3 e 15 dólares, respectivamente. Além disso, passa a ser disponibilizado como opção padrão em planos gratuitos e pagos.
A empresa Anthropic apresentou nesta terça-feira (30) uma nova plataforma de inteligência artificial voltada exclusivamente ao ambiente científico, batizada de Claude Science. A ferramenta foi desenhada para reunir, em um único espaço digital, atividades que vão da análise de dados à produção de artigos e simulações complexas.
A solução, ainda em fase beta, foi disponibilizada inicialmente para usuários selecionados e promete acelerar processos de investigação ao integrar modelos de IA, bases de dados especializadas e recursos de computação em escala.
Plataforma integra pesquisa, dados e computação em um único ambiente
Outdoor da Anthropic – Imagem: PhotoGranary02/Shutterstock
O Claude Science foi concebido como um espaço de trabalho unificado para pesquisadores, reunindo ferramentas tradicionalmente distribuídas em diferentes sistemas. A proposta é permitir que cientistas executem desde a leitura de literatura acadêmica até a geração de resultados analíticos sem alternar entre múltiplas aplicações.
A plataforma organiza fluxos de pesquisa que incluem análise de dados, construção de gráficos e elaboração de manuscritos científicos. Cada resultado gerado é acompanhado por um registro completo de como foi produzido, o que permite rastreabilidade e reprodução dos experimentos.
De acordo com informações divulgadas pela companhia, o sistema também integra mais de 60 bases de dados científicas já configuradas, cobrindo áreas como genômica, química computacional e biologia estrutural.
Agentes especializados e automação de tarefas científicas
Claude Science exibe proteínas, estruturas e moléculas nativamente, com cada resultado reproduzível e rastreado até seu código. – (Divulgação: Anthropic)
A arquitetura do Claude Science opera com diferentes agentes de inteligência artificial. Um agente geral coordena as tarefas, enquanto outros são especializados em áreas específicas do conhecimento científico, como proteômica e genômica.
Um agente adicional atua como revisor, responsável por verificar citações, cálculos e possíveis inconsistências nos resultados produzidos ao longo do processo de pesquisa.
A plataforma também é capaz de gerar e visualizar elementos científicos complexos, como estruturas tridimensionais de proteínas, mapas genômicos e representações químicas, todos conectados ao código que os originou.
Infraestrutura flexível e uso em diferentes escalas
O sistema foi desenvolvido para funcionar tanto em computadores locais quanto em servidores remotos, incluindo ambientes de alta performance utilizados em instituições de pesquisa. Isso permite que análises simples ou altamente complexas sejam executadas dentro da mesma estrutura.
A ferramenta também pode operar em escalas maiores, utilizando recursos computacionais adicionais quando necessário, o que facilita desde tarefas individuais até projetos científicos com grande volume de dados.
Segundo a empresa, testes realizados em fase experimental indicaram ganhos de eficiência em diferentes tipos de pesquisa, especialmente em áreas que exigem análise intensiva de dados biológicos.
Aplicações em biotecnologia e pesquisa médica
A Claude Science cria ambientes e gerencia computação em seu laptop, cluster ou GPUs sob demanda. – (Divulgação: Anthropic)
Além do ambiente de trabalho, a iniciativa inclui aplicações voltadas à descoberta de medicamentos e à pesquisa em doenças consideradas negligenciadas. A empresa também menciona o desenvolvimento de programas pré-clínicos como parte dessa estratégia.
Relatos de instituições que testaram a ferramenta indicam uso em tarefas como análise de células únicas, estudos genéticos e modelagem de proteínas, com apoio de fluxos automatizados de pesquisa.
Casos citados incluem o uso por laboratórios acadêmicos e organizações biomédicas que exploram desde a seleção de alvos terapêuticos até a construção de revisões científicas extensas com apoio de agentes de IA.
A expansão acelerada da inteligência artificial trouxe um novo desafio para o setor de infraestrutura: manter data centers operando mesmo em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes, incêndios florestais e ventos intensos são alguns dos principais fatores de risco para essas instalações, colocando redes elétricas sob pressão e elevando custos operacionais.
A onda de calor na Europa chamou atenção para o assunto e passou a preocupar seguradoras e empresas de tecnologia. Isso porque, enquanto a população enfrenta temperaturas recordes, operadores de data centers lidam com o desafio de resfriar chips cada vez mais potentes e manter a infraestrutura funcionando sem parar.
Para piorar a situação, o uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado também sobrecarrega as redes de energia, elevando o risco de apagões. E, nesses casos, todo mundo para: desde os sistemas de refrigeração até os data centers que alimentam a inteligência artificial.
O Olhar Digital consultou especialistas para entender o impacto dos eventos climáticos extremos no setor de inteligência artificial – e vice-versa.
Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, a tendência é que esse cenário se intensifique nos próximos anos. Segundo ele, os efeitos das mudanças climáticas não devem atingir apenas os data centers, mas toda a cadeia de geração e distribuição de energia.
Não há a menor dúvida de que os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e tempestades severas, vão afetar cada vez mais todos os sistemas produtivos da geração ao uso de energia. Nesse sentido, os data centers estão em uma posição privilegiada, pois são enormes consumidores de eletricidade e também de água para refrigeração dos supercomputadores.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
ONU já alertou: data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
Expansão para novos mercados
Artaxo afirma que a vulnerabilidade dessa infraestrutura tende a crescer. Para ele, interrupções no fornecimento de energia e a disponibilidade de água para resfriamento devem influenciar, inclusive, a escolha dos locais onde novos data centers serão instalados.
Já segundo Patrick McBride, chefe de Construção Internacional da Zurich, os eventos climáticos severos deixaram de ser uma preocupação secundária para quem investe em infraestrutura digital:
Nos últimos três anos, fenômenos climáticos extremos passaram a representar a principal causa de perdas da seguradora Zurich;
De acordo com McBride à CNBC, o portfólio de riscos relacionado à construção de data centers nos Estados Unidos já responde por cerca de um terço dos prejuízos da companhia;
O executivo explicou que muitos novos empreendimentos estão sendo construídos em regiões suburbanas e rurais, onde os terrenos são mais baratos;
Mas esses locais também têm riscos. Um estudo da empresa de análise climática First Street revelou que 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos elevados de desastres naturais agudos, como enchentes, incêndios florestais e ventos extremos. Além de interromper operações, esses eventos podem elevar custos com seguros, manutenção e reparos.
A necessidade de considerar fatores climáticos na escolha da localização também é destacada por André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil. Segundo ele, os eventos extremos deixaram de ser um risco secundário e passaram a fazer parte do planejamento estratégico das empresas.
De acordo com o especialista, critérios como risco de desastres naturais, disponibilidade de energia, acesso à água e resiliência da rede elétrica já influenciam a seleção dos locais onde novos data centers serão construídos. Além disso, cresce o investimento em sistemas redundantes, microgrids, geração própria de energia e novas soluções de refrigeração para aumentar a continuidade das operações.
O calor pressiona data centers – e a rede elétrica
André Flávio explicou que o desafio vai além de garantir eletricidade suficiente para alimentar os servidores. Segundo ele, dissipar o calor gerado pelos equipamentos tornou-se um dos principais obstáculos técnicos da nova geração de data centers.
Durante ondas de calor, afirmou o especialista, os sistemas convencionais de refrigeração podem atingir seus limites operacionais, enquanto temperaturas mais elevadas fazem os equipamentos de climatização consumirem ainda mais energia. Ao mesmo tempo, muitas tecnologias de resfriamento dependem de água, recurso que pode se tornar escasso em regiões afetadas por secas.
Flávio acrescentou que os racks voltados para IA concentram cada vez mais potência em espaços reduzidos, criando pontos críticos de temperatura que exigem monitoramento em tempo real.
A tendência é que eficiência energética, gestão térmica e segurança do fornecimento de energia se tornem tão importantes quanto a própria capacidade computacional dos data centers.
André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil
No calor, uso simultâneo de sistemas de refrigeração e data centers pressiona redes elétricas – Imagem: west cowboy/Shutterstock
Regulação e fontes renováveis
Além do desafio operacional, o crescimento dos data centers também levanta preocupações ambientais. Segundo Artaxo, projeções indicam que essas instalações poderão consumir cerca de 10% de toda a eletricidade produzida no planeta nos próximos anos.
Para o pesquisador, esse avanço exige regulamentação. “Nós temos que regular e controlar essa atividade, que é intensiva em recursos naturais do nosso planeta”, destacou.
Na avaliação do professor, alimentar data centers com fontes renováveis deve ser um dos pilares dessa estratégia.
Na verdade, um dos aspectos da regulação é obrigar os data center a serem resfriados e a serem alimentados eletricamente com energias renováveis, como solar e eólica. Isso seria muito bom pra sociedade global como um todo.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
Empresas adaptam projetos para enfrentar temperaturas mais altas
Diante desse cenário, empresas do setor já começam a revisar o projeto de novas instalações.
A Microsoft informou à CNBC que desenvolve data centers para operar de forma confiável sob diferentes condições ambientais, utilizando critérios como escolha criteriosa do local, sistemas redundantes e monitoramento em tempo real para reduzir riscos associados ao calor extremo e a outros eventos climáticos.
A Nvidia também anunciou recentemente avanços voltados à eficiência energética. Seus novos servidores de inteligência artificial passam a operar com líquido refrigerante a até 45 °C (acima das temperaturas utilizadas anteriormente). Segundo a empresa, aumentar em apenas um grau a temperatura do sistema de resfriamento pode reduzir em aproximadamente 4% os custos de energia destinados à refrigeração.
Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos já afetam data centers – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock
Para André Flávio, entretanto, apenas migrar para energia renovável não será suficiente para reduzir o impacto ambiental da inteligência artificial. De acordo com ele, a sustentabilidade precisa fazer parte do projeto dos data centers desde sua concepção.
O especialista afirma que as empresas precisarão investir simultaneamente em sistemas de refrigeração mais eficientes, armazenamento de energia, arquiteturas resilientes e na escolha de regiões com maior disponibilidade de energia limpa e menor estresse hídrico.
“A sustentabilidade precisa ser tratada como um requisito de projeto e operação, e não apenas como uma questão de suprimento energético”, destacou.
Artaxo vai além e defende que a expansão acelerada dos data centers exige limites. Segundo ele, o consumo crescente de energia e água já levou algumas regiões dos Estados Unidos a restringirem novas instalações.
Para o pesquisador, a ideia de que a inteligência artificial compensará seu próprio impacto ambiental ao aumentar a eficiência de outros setores é uma falácia.
Nós temos que reduzir o consumo de água e de eletricidade de data centers do mundo inteiro, porque obviamente esses data centers funcionam globalmente. Temos que escolher cuidadosamente onde instalá-los com o menor impacto ambiental possível.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
O Google apresentou novos sistemas de inteligência artificial voltados à criação de imagens e vídeos, desenvolvidos pela divisão DeepMind. O anúncio saiu nesta terça-feira (30) e reúne dois produtos principais: Nano Banana 2 Lite e Gemini Omni Flash, ambos integrados ao ecossistema Gemini e disponíveis em plataformas como Google AI Studio e API do Gemini.
Segundo a empresa, os modelos foram criados para atender diferentes necessidades de produção de mídia generativa. O Nano Banana 2 Lite prioriza rapidez e redução de custos na geração de imagens, enquanto o Omni Flash foca na criação e edição de vídeos a partir de comandos multimodais.
A iniciativa busca acelerar fluxos de trabalho criativos e permitir maior escala na produção de conteúdo digital, combinando geração rápida de imagens com ferramentas de vídeo interativo em um mesmo ambiente tecnológico.
Nova geração de IA do Google aposta em velocidade e integração entre imagem e vídeo
Nano Banana é o principal motor do sucesso recente do Gemini (Imagem: Danilo Oliveira/Olhar Digital)
O Nano Banana 2 Lite integra a família Gemini 3.1 Flash LiteImage e foi desenhado para tarefas em que a velocidade de resposta é prioridade. O sistema consegue gerar imagens a partir de texto em cerca de quatro segundos e apresenta custo estimado de 0,034 dólar por mil imagens, segundo dados divulgados pelo Google DeepMind.
De acordo com a empresa, o modelo também mantém boa aderência aos comandos inseridos pelos usuários, além de preservar consistência na representação de elementos visuais. Ainda assim, o desempenho tende a cair em cenários que exigem leitura precisa de textos inseridos nas imagens ou maior rigor em infográficos.
O Google posiciona essa versão como uma ferramenta voltada principalmente para prototipagem rápida e produção em grande volume, sendo indicada para testes visuais e processos iterativos que exigem resposta imediata.
Sistemas automatizados de varredura profunda identificaram o brilho anômalo por quatro meses. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Já o Gemini Omni Flash atua em outro segmento da criação digital, com foco na geração e edição de vídeos a partir de interações em linguagem natural. O modelo permite combinar texto, imagens e vídeos como entrada, produzindo cenas editáveis de forma conversacional.
Segundo o material divulgado pela empresa, o sistema suporta vídeos de até dez segundos na fase atual e possui limitações no uso de áudio e na continuidade de personagens entre cenas. Ainda assim, a tecnologia é apresentada como uma solução para produção de vídeos com alto grau de interação e controle narrativo.
A proposta central do Google é integrar os dois modelos em fluxos contínuos de produção. Nesse cenário, imagens criadas pelo Nano Banana 2 Lite podem ser utilizadas como base para animações e vídeos gerados pelo Omni Flash, criando uma cadeia de criação multimídia mais rápida e conectada.
Ambos os sistemas contam com marcação de segurança SynthID, mecanismo que identifica conteúdos gerados por inteligência artificial mesmo após edições posteriores, reforçando a rastreabilidade do material produzido.
Uma colaboração internacional de pesquisadores ligada à Aalto University desenvolveu um método baseado em aprendizado de máquina de IA para identificar novos materiais supercondutores. O trabalho, publicado aqui, resultou na seleção de dois compostos inéditos, o YRu₃B₂ e LuRu₃B₂, ambos associados a estruturas cristalinas do tipo rede kagome.
A pesquisa ocorreu no âmbito do consórcio SuperC, criado em 2023, com o objetivo de acelerar a busca por materiais capazes de conduzir eletricidade sem resistência. A validação teórica foi seguida por síntese experimental realizada em parceria com a Rice University, onde os compostos foram testados e confirmados como supercondutores.
Segundo os autores, o avanço pode encurtar um processo historicamente lento e baseado em descobertas acidentais, abrindo caminho para o desenvolvimento de supercondutores operando em temperaturas mais altas e, no futuro, próximas da temperatura ambiente.
Vale destacar que supercondutores são materiais que permitem a passagem de corrente elétrica sem qualquer perda de energia por resistência, o que explica o interesse em aplicá-los em larga escala na infraestrutura energética e tecnológica.
Método baseado em inteligência artificial acelera seleção de materiais
Supercondutores são utilizados na fabricação de muitos tipos de eletrônicos, como máquinas de ressonância magnética – Imagem: VesnaArt / Shutterstock
A investigação utilizou algoritmos de aprendizado de máquina (ou seja, de inteligência artificial) para analisar um universo praticamente ilimitado de combinações químicas. A técnica permitiu filtrar rapidamente candidatos com maior probabilidade de apresentar comportamento supercondutor.
Os materiais selecionados apresentam uma estrutura cristalina conhecida como rede kagome, caracterizada por padrões geométricos que influenciam o comportamento dos elétrons. Nessa configuração, os elétrons formam bandas planas, condição associada ao surgimento da supercondutividade.
Após a etapa computacional, os candidatos passaram por cálculos físicos detalhados que reforçaram sua viabilidade antes da síntese experimental. O processo culminou na confirmação dos compostos YRu₃B₂ e LuRu₃B₂ como supercondutores.
A supercondutividade é considerada estratégica por estar presente em tecnologias que exigem altíssima eficiência elétrica, como equipamentos de ressonância magnética, sistemas de computação quântica e trens de levitação magnética. Nessas aplicações, a ausência de resistência elétrica reduz perdas de energia e permite desempenho mais avançado, o que explica o esforço global para desenvolver materiais que funcionem em condições cada vez mais próximas da temperatura ambiente.
Campo dominado por descobertas acidentais
Data centers de IA – Imagem: FOTOGRIN/Shutterstock
Conforme relatam os autores, mais de sete mil supercondutores já foram identificados ao longo das décadas, mas a maioria surgiu de forma não planejada. Apenas uma pequena fração teve seu comportamento previsto previamente por modelos teóricos.
Essa limitação torna o processo tradicional lento e altamente dependente de tentativa e erro, o que motivou a adoção de ferramentas computacionais avançadas (como a IA citada anteriormente) para ampliar o alcance das buscas.
Meta é alcançar supercondutor de temperatura ambiente até 2033
O consórcio SuperC, formado por pesquisadores de diferentes países, estabeleceu como objetivo a identificação de um supercondutor funcional em temperatura ambiente até 2033. A iniciativa busca reduzir perdas energéticas em aplicações tecnológicas e ampliar a eficiência de sistemas elétricos.
Segundo os pesquisadores envolvidos, a supercondutividade tem potencial para reduzir significativamente o consumo global de energia, caso possa ser aplicada em escala industrial sem a necessidade de resfriamento extremo.
A funcionalidade aparece integrada ao campo de pesquisa do aplicativo, com ativação por ícone específico que abre uma interface em tela cheia voltada à interação por voz. A empresa direciona a novidade a assinantes de planos avançados de IA e a ambientes corporativos em fase de avaliação, com expansão prevista ao longo do período de verão no hemisfério norte.
A iniciativa integra um movimento mais amplo da companhia para incorporar o Gemini a diferentes produtos, com o objetivo de automatizar tarefas cotidianas e reduzir ações manuais dentro do ecossistema digital.
Integração de inteligência artificial e expansão do Gemini
Gemini (Imagem: JarTee/Shutterstock)
O Gmail Live faz parte de uma estratégia do Google de ampliar o uso de inteligência artificial em seus principais aplicativos. A proposta é permitir que serviços como documentos e anotações também recebam versões com interação em tempo real, capazes de transformar comandos em tarefas estruturadas e respostas automatizadas.
(Imagem: Mojahid Mottakin / Shutterstock.com)
Segundo o Engadget, a empresa já planeja levar esse modelo para outras ferramentas, criando versões “Live” em diferentes ambientes de produtividade. A ideia central é conectar serviços e permitir que ações realizadas em um aplicativo possam influenciar diretamente outro, sempre com autorização do usuário.
No caso do Gmail, a tecnologia se concentra na busca de informações dentro das mensagens, como datas de viagens ou dados de pedidos, utilizando interpretação de linguagem natural e comandos por voz como principal interface.