Detectar deepfakes já é difícil. Explicar por que uma imagem é falsa é mais difícil ainda. Pesquisadores do Instituto Fraunhofer de Optrônica, Tecnologias de Sistemas e Exploração de Imagens (IOSB), na Alemanha, desenvolveram uma ferramenta que faz os dois, e com taxa de detecção entre 85% e 91%, segundo comunicado do instituto.
A ferramenta se chama RealorRender e foi desenvolvida em parceria com o Escritório Federal Alemão de Segurança da Informação (BSI), que também financia o projeto.
Como funciona
A abordagem é híbrida e inédita. Em vez de usar apenas um classificador tradicional de aprendizado profundo, a RealorRender combina dois métodos:
Primeiro, um gerador de imagens de IA tenta reconstruir a imagem analisada. Quanto mais bem-sucedida a reconstrução, maior a probabilidade de que a imagem original também tenha sido gerada por IA – afinal, uma IA consegue replicar com mais facilidade o que outra IA criou.
Em seguida, um modelo de classificação calcula o erro de reconstrução e gera uma estimativa de autenticidade em porcentagem.
“Primeiro, usamos um gerador de imagens de IA para reconstruir a imagem. Em seguida, um modelo de IA assume a classificação e realiza um cálculo híbrido do erro de reconstrução. Por fim, obtemos uma estimativa que exibe a precisão do reconhecimento em porcentagem”, explicou Andreas Specker, cientista sênior do grupo de pesquisa de Sistemas de Segurança e Assistência por Vídeo do Fraunhofer IOSB, em comunicado.
O que diferencia: a explicação
Detectar não basta. A RealorRender também explica por que classificou uma imagem como falsa, usando métodos de IA explicável (XAI).
“Texturas distintivas ou padrões de frequência característicos podem indicar a origem sintética de uma imagem. O XAI ajuda a mostrar quais características o modelo usa em sua decisão”, disse Nadia Burkart, chefe do grupo de IA Explicável Aplicada do Fraunhofer IOSB, em comunicado.
A ferramenta usa dois tipos de visualização: mapas de calor, que destacam as regiões da imagem que mais contribuíram para a decisão do modelo, e análise por segmentos, que identifica áreas semânticas específicas (como rosto, cabelo ou fundo) que denunciam a origem artificial.
Por que isso importa
O problema que a RealorRender tenta resolver é massivo. Em 2025, fraudes envolvendo deepfakes ultrapassaram US$ 1,5 bilhão globalmente. Uma investigação de 2023 encontrou 276.149 deepfakes sexuais em um único site dedicado ao tema, 96% deles retratando mulheres.
Humanos têm enorme dificuldade em distinguir imagens autênticas de falsificações. Ferramentas automáticas existem, mas raramente explicam seus resultados – o que limita sua utilidade para jornalistas, plataformas de redes sociais e agências de segurança que precisam justificar decisões de moderação.
Quem pode usar
A RealorRender está sendo incorporada a um demonstrador que inicialmente auxiliará o BSI na detecção de deepfakes. O uso é simples: o usuário faz o upload da imagem, recebe o resultado da detecção seguido de uma explicação e um resumo em texto.
Os pesquisadores publicaram dois relatórios sobre o projeto. A tecnologia tem aplicação potencial para agências de segurança, plataformas de redes sociais, empresas de mídia e agências de fotografia.
A exibição de um vídeo criado com inteligência artificial (IA) para simular um discurso de Jair Bolsonaro durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), no último sábado (25), colocou a tecnologia no centro do debate eleitoral. Após o evento, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu 48 horas para que a defesa do ex-presidente esclarecesse se ele autorizou o uso de sua imagem e voz na produção do material.
Na decisão, Moraes apontou dois possíveis cenários. Caso Bolsonaro tivesse autorizado a gravação, a participação poderia representar novo descumprimento das medidas cautelares impostas para a manutenção da prisão domiciliar humanitária. Se não houvesse autorização, o ministro afirmou que o caso poderia configurar uma hipótese de conteúdo sintético manipulado em desacordo com a legislação eleitoral.
O episódio levantou dúvidas sobre o uso da inteligência artificial nas eleições. Afinal, um candidato pode usar um avatar criado por IA? É obrigatório avisar quando um conteúdo é sintético? O que caracteriza um deepfake proibido? E quais são as consequências para quem descumprir as regras?
O Olhar Digital analisou a resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que disciplina o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral e ouviu especialistas para explicar o que é permitido, o que continua proibido e quais pontos ainda podem depender da interpretação da Justiça.
Resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece regras para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, incluindo identificação obrigatória de conteúdos sintéticos e restrições ao uso de deepfakes nas eleições de 2026 – Imagem: Blossom Stock Studio / Shutterstock
Um candidato pode usar inteligência artificial na campanha?
Sim. A Justiça Eleitoral não proibiu o uso de inteligência artificial nas campanhas eleitorais. O que mudou para as eleições de 2026 foi a criação de um conjunto de regras para disciplinar como a tecnologia pode ser utilizada por candidatos, partidos, federações e plataformas digitais.
A principal delas está no artigo 9º-B da Resolução nº 23.610. Sempre que uma propaganda utilizar conteúdo sintético produzido ou manipulado por inteligência artificial para criar, substituir, omitir, mesclar, alterar ou sobrepor imagens e sons, o responsável deverá informar, de forma explícita, destacada e acessível, que aquele material foi produzido com IA e qual tecnologia foi utilizada.
A exigência vale para diferentes formatos. Em vídeos, por exemplo, a identificação deve aparecer tanto no início da peça quanto de forma visual durante sua exibição. Em imagens estáticas, deve haver marca d’água e audiodescrição. Já em materiais impressos, a informação precisa constar em cada página ou face que utilize conteúdo gerado por inteligência artificial.
A resolução também deixa claro que nem toda edição exige esse aviso. Ficam de fora ajustes simples para melhorar a qualidade de imagem ou som, além de elementos gráficos como logomarcas, vinhetas e recursos de marketing já comuns em campanhas eleitorais.
Na reportagem publicada pelo Olhar Digital no início de julho, a advogada Tayná Frota de Araújo, do VLK Advogados, resumiu essa mudança afirmando que esta será a primeira eleição geral realizada sob um conjunto mais estruturado de regras para o uso da inteligência artificial, com medidas preventivas, identificação obrigatória de conteúdos sintéticos e novas responsabilidades para as plataformas digitais.
Na avaliação de Willians Sebriam, advogado da Revio, o objetivo do TSE não foi banir a tecnologia das campanhas, mas impedir seu uso para fabricar situações inexistentes. Segundo ele, “o uso de IA não foi banido das campanhas, ele foi regulamentado”, permitindo que candidatos utilizem a tecnologia “desde que respeitem os princípios da transparência e da veracidade”.
Essa também é a interpretação de Juliano Maranhão, professor da Faculdade de Direito da USP. Segundo ele, “a Resolução do TSE somente proíbe o uso de IA que não seja transparente e tenha por finalidade desinformar, com potencial de desequilibrar o jogo eleitoral”.
Quando a IA deixa de ser permitida?
Embora a IA possa ser utilizada em campanhas, essa autorização não é irrestrita. O artigo 9º-C da Resolução nº 23.610 estabelece situações em que o uso da tecnologia passa a ser proibido. Entre essas hipóteses está o uso dos chamados deepfakes.
Os deepfakes — conteúdos sintéticos que simulam a imagem ou a voz de uma pessoa — estão entre os usos de inteligência artificial proibidos pela resolução do TSE na propaganda eleitoral – Imagem: FAMILY STOCK/Shutterstock
O artigo 9º-C determina que é vedado o uso, para favorecer ou prejudicar uma candidatura, de conteúdo sintético em áudio ou vídeo que tenha sido gerado ou manipulado digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de uma pessoa viva, falecida ou fictícia — ainda que haja autorização da pessoa retratada.
Além dos deepfakes, a resolução também veda conteúdos fabricados, manipulados ou descontextualizados capazes de comprometer a integridade das eleições ou desequilibrar a disputa. O descumprimento dessas regras pode caracterizar abuso do poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com consequências que incluem a cassação do registro ou do mandato, além de outras sanções previstas na legislação eleitoral.
A advogada Beatriz Haikal explicou que a regulamentação não impede o uso da inteligência artificial, mas estabelece critérios para separar aplicações legítimas da propaganda irregular. Segundo ela, ferramentas de IA podem ser utilizadas para criar peças gráficas, avatares e outros materiais de campanha, desde que haja transparência quando o conteúdo for significativamente alterado. Já a fabricação de cenas falsas utilizando voz ou imagem de pessoas reais continua proibida.
Juliano Maranhão observa que, na prática, a análise da Justiça Eleitoral dependerá do contexto em que o conteúdo for utilizado.
Segundo o professor, “a avaliação é contextual”: será preciso verificar “se o vídeo sintético é voltado para disseminar informação patentemente falsa, que favoreça o próprio candidato ou prejudique o seu adversário, com potencial de impactar o eleitor”. Também deve ser considerado se o conteúdo tem caráter humorístico ou satírico, sem intenção de enganar o público.
Como exemplo, Maranhão cita uma publicação feita por Tabata Amaral durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo em 2024, em que o rosto do então prefeito Ricardo Nunes foi inserido no boneco Ken, da Barbie. Segundo ele, o caso “não se tratava de desinformação, mas uma forma humorística de colocar sua opinião sobre o candidato concorrente”.
Então por que o vídeo de Bolsonaro virou alvo da Justiça?
As regras ajudam a explicar parte da controvérsia envolvendo o vídeo exibido na convenção do PL. No entanto, antes mesmo de discutir se o conteúdo poderia violar a legislação eleitoral, Alexandre de Moraes levantou outra questão: Jair Bolsonaro autorizou ou não o uso de sua imagem e voz? A resposta para essa pergunta pode levar a consequências jurídicas diferentes.
Ex-presidente Jair Bolsonaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes – Imagem: Marcello Casal Jr. – Agência Brasil / Antônio Augusto – STF
Se Bolsonaro autorizou a produção do vídeo, o caso poderá representar novo descumprimento das medidas cautelares impostas pelo STF. Desde julho de 2025, o ex-presidente está proibido de utilizar redes sociais, direta ou indiretamente, condição que foi mantida para a continuidade da prisão domiciliar humanitária. O ministro também lembra que Bolsonaro já havia sido advertido anteriormente por participar da elaboração de uma carta posteriormente divulgada por seu filho, Flávio Bolsonaro, nas redes sociais.
Por outro lado, se ficar demonstrado que a imagem foi utilizada sem a autorização do ex-presidente, Moraes afirma que a conduta poderá caracterizar uma hipótese de desinformação eleitoral mediante conteúdo sintético manipulado, sujeita às sanções previstas na legislação eleitoral. Para fundamentar esse entendimento, o ministro cita o artigo 9º-C da Resolução nº 23.610 e decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o uso de deepfakes em campanhas.
Para Juliano Maranhão, o caso Bolsonaro exige uma análise diferente daquela prevista apenas pela resolução do TSE. Segundo o professor, o principal questionamento de Alexandre de Moraes não diz respeito ao conteúdo do vídeo em si, mas à eventual participação do ex-presidente na encomenda ou na decisão de produzi-lo. Isso porque Bolsonaro está sujeito a medidas cautelares específicas impostas pelo STF, além das regras gerais da legislação eleitoral.
Já Alberto Rollo afirma que uma eventual responsabilização dependerá justamente da forma como a Justiça interpretará a participação de Bolsonaro na produção do vídeo. Segundo ele, “se a Justiça considerar que o avatar feito com IA é a mesma coisa que se fosse o próprio Jair, então ele teria desrespeitado a vedação do ministro Alexandre Moraes de produzir manifestação política”.
O advogado ressalva, porém, que a convenção ocorreu antes do início oficial da propaganda eleitoral, que começa em 16 de agosto, e que o vídeo informava ter sido produzido com inteligência artificial. Por isso, Rollo entende que, nesse caso específico, “não houve ilegalidade”, embora a resolução do TSE proíba o uso de deepfakes durante a propaganda eleitoral.
A regulamentação já resolve todos os casos?
Embora o TSE tenha endurecido as regras para o uso de inteligência artificial nas eleições, especialistas avaliam que muitas situações ainda dependerão da interpretação da Justiça Eleitoral.
Isso porque a tecnologia evolui rapidamente e novas formas de utilização surgem antes mesmo que a legislação consiga prever todos os cenários.
Para Juliano Maranhão, esse desafio é inevitável. Segundo o professor, “não há como definir previamente todos os tipos possíveis de uso desinformativo de IA em conteúdo eleitoral”. Na prática, explica, apenas o contexto permite avaliar se houve enganosidade, se o conteúdo prejudica um rival ou favorece um candidato e em que medida isso ocorreu. A regulamentação estabelece um princípio geral, mas caberá aos tribunais aplicá-lo aos casos concretos. Em síntese, Maranhão resume a lógica da regulamentação da seguinte forma:
A regulação determina o conceito central: a IA não pode ser usada para desinformar e prejudicar ou favorecer arbitrariamente candidato levando o eleitor a erro.
Juliano Maranhão, advogado especialista em direito eleitoral
Especialistas avaliam que a regulamentação da inteligência artificial nas eleições continuará exigindo interpretação da Justiça à medida que novas aplicações da tecnologia surgirem – Imagem: Supatman/iStock
Enquanto isso, o próprio TSE vem ampliando gradualmente as regras. Além da obrigatoriedade de identificar conteúdos produzidos por inteligência artificial e da proibição dos deepfakes eleitorais, as eleições de 2026 também inauguram uma “janela de silêncio” para conteúdos sintéticos. Entre as 72 horas que antecedem cada turno e as 24 horas seguintes ao encerramento da votação, fica proibida a publicação, o compartilhamento e o impulsionamento de novos conteúdos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas.
As plataformas digitais também ganharam novas responsabilidades. Elas devem disponibilizar mecanismos para identificar conteúdos produzidos com IA, remover rapidamente materiais ilícitos, impedir que publicações equivalentes continuem circulando e criar canais específicos para denúncias de candidatos e partidos.
Para a advogada Beatriz Haikal, uma das intenções da chamada “janela de silêncio” é evitar o chamado efeito calúnia de véspera — quando um conteúdo falso viraliza às vésperas da votação e não há tempo suficiente para que ele seja desmentido antes de os eleitores irem às urnas.
A inteligência artificial pode abrir caminho para avanços importantes em diversas áreas, mas o mesmo ritmo acelerado que impulsiona a tecnologia também amplia seus desafios. Essa é a principal conclusão do primeiro relatório científico independente sobre IA elaborado por um painel da ONU.
O documento será apresentado aos governos durante o Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, marcado para os dias 6 e 7 de julho, em Genebra, revela a Reuters.
Segundo a ONU, governos ainda têm dificuldade para acompanhar a velocidade com que a inteligência artificial evolui. – Imagem: mr_tigga/Shutterstock
Ciência corre atrás da velocidade da IA
Produzido por 40 cientistas e especialistas independentes, o relatório afirma que a IA oferece benefícios relevantes para países e cidadãos. Em contrapartida, a compreensão científica e a capacidade de adaptação dos governos ainda não acompanham a velocidade com que os sistemas evoluem.
Segundo os autores, existem poucos métodos para controlar sistemas altamente autônomos, o que dificulta a criação de políticas capazes de acompanhar os avanços da tecnologia.
A ciência não pode garantir que a IA não causará danos catastróficos — seja por conta própria ou devido a usuários mal-intencionados.
Yoshua Bengio, copresidente do painel Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, à Reuters.
Bengio destacou que já existem evidências crescentes de comportamentos enganosos apresentados por sistemas de IA.
Os EUA concentram 75% do poder computacional dos principais supercomputadores de IA; a China reúne outros 15%. – Imagem: William Potter/Shutterstock
Os riscos vão além da tecnologia
O documento destaca que os benefícios potenciais da IA são enormes. Ainda assim, alerta que a implementação rápida e sem controle pode gerar impactos relevantes em diferentes áreas da sociedade.
impactos sobre sistemas sociais, econômicos e ambientais;
dificuldades para controlar sistemas altamente autônomos;
aumento da circulação de material de abuso sexual infantil gerado por IA e de violência sexual facilitada por deepfakes.
O próprio relatório resume esse cenário ao afirmar que “os benefícios potenciais da IA são enormes”, mas ressalta que a implementação rápida e sem controle da tecnologia em larga escala também apresenta riscos consideráveis para a saúde mental, os sistemas sociais, a economia, o meio ambiente e a capacidade de controlar esses sistemas.
A desigualdade no acesso preocupa
Mais de um bilhão de pessoas já utilizam ferramentas de IA conversacional semanalmente. Apesar desse crescimento, a adoção continua defasada nos países em desenvolvimento.
O relatório mostra ainda que os Estados Unidos concentram 75% do poder computacional entre os 500 principais supercomputadores de IA do mundo, enquanto a China reúne 15%.
Os especialistas também alertam que a IA facilita a produção e o direcionamento de conteúdo persuasivo em larga escala, favorecendo uma erosão gradual da integridade da informação, da confiança pública, da coesão social e da deliberação democrática.
A ONU destaca que milhares de idiomas ainda estão fora do treinamento da maioria dos modelos de inteligência artificial. – Imagem: JOURNEY STUDIO7/Shutterstock
Nem todos os países conseguem acompanhar
Outro desafio envolve a diversidade linguística. Embora mais de 7.000 idiomas sejam falados no planeta, apenas uma pequena parcela deles está presente no treinamento dos modelos atuais. Segundo o relatório, erros na tradução automática podem afetar diagnósticos de saúde e decisões de tratamento.
O documento conclui que a maioria dos países, inclusive economias avançadas, ainda não possui capacidade técnica suficiente para avaliar os modelos mais sofisticados de inteligência artificial nem para participar de forma significativa de sua governança. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar a cooperação internacional para acompanhar uma tecnologia que continua evoluindo em ritmo acelerado.
Em um comunicado publicado no fórum oficial de criadores, o YouTube anunciou a ampliação de sua ferramenta de detecção de deepfakes criados por inteligência artificial para todos os usuários maiores de 18 anos.
Com a mudança, qualquer pessoa adulta poderá usar o sistema para identificar vídeos que utilizem sua imagem de forma falsa ou manipulada dentro da plataforma.
Em resumo:
YouTube libera detector de deepfakes para todos os usuários adultos;
Sistema usa selfie para identificar rostos falsificados por inteligência artificial;
Plataforma avisa usuários sobre vídeos suspeitos encontrados no YouTube;
Pessoas poderão pedir remoção de conteúdos manipulados com suas imagens;
Ferramenta busca reduzir golpes, fraudes e desinformação com deepfakes.
Sistema monitora o YouTube em busca de rostos parecidos que possam indicar o uso indevido da imagem das pessoas em conteúdos gerados por IA – Crédito: Tada Images / Shutterstock
Como funciona o detector de deepfakes do YouTube
A ferramenta funciona a partir de uma digitalização facial feita pelo próprio usuário, semelhante a uma selfie. Com esses dados, o sistema monitora o YouTube em busca de rostos parecidos que possam indicar o uso indevido da imagem da pessoa em conteúdos gerados por IA.
Quando encontra uma possível correspondência, a plataforma envia um aviso ao usuário. A partir disso, ele pode pedir a remoção do vídeo. Segundo o YouTube, o número de solicitações registradas até agora ainda é considerado pequeno.
O recurso começou a ser testado inicialmente com criadores de conteúdo. Depois, foi liberado para jornalistas, políticos, autoridades públicas e profissionais da indústria do entretenimento. Agora, a empresa decidiu abrir o acesso para o público em geral.
A expansão representa um passo importante no combate aos deepfakes, tecnologia que permite criar vídeos muito realistas com rostos falsificados digitalmente. O avanço dessas ferramentas tem aumentado preocupações sobre golpes, desinformação e uso indevido da imagem de pessoas comuns.
Mulher com cara de desconfiada vendo outro perfil fake se passando por ela (ironicamente, esta mulher também não existe e foi feita por IA) – Crédito: Layse Ventura via ChatGPT / Olhar Digital
Remoção é feita após análise criteriosa dos vídeos
O YouTube informou que os pedidos de remoção passam por análise baseada em sua política de privacidade. Entre os critérios avaliados estão o nível de realismo do vídeo, a identificação clara de que o conteúdo foi criado por IA e a possibilidade de reconhecer a pessoa mostrada nas imagens.
A plataforma destacou ainda que existem exceções para materiais de sátira, humor ou paródia. Além disso, a ferramenta atua apenas na identificação facial e não inclui outros elementos, como imitações de voz.
Os usuários também poderão deixar o programa quando quiserem e solicitar a exclusão de seus dados faciais armazenados pela empresa.
No anúncio, o porta-voz Jack Malon afirmou que não há exigência mínima para que alguém participe da ferramenta. “Com essa expansão, estamos deixando claro que, independentemente de os criadores estarem publicando conteúdo no YouTube há uma década ou estarem apenas começando, eles terão acesso ao mesmo nível de proteção”.
O crescimento das deepfakes vem preocupando cada vez mais especialistas, tendo em vista que a tecnologia já foi usada em casos de assédio, fraudes e criação de conteúdos falsos envolvendo adolescentes, celebridades e figuras públicas.
Uma nova pesquisa, conduzida pela agência de checagem Lupa, evidenciou um aumento considerável da inteligência artificial em conteúdos falsos divulgados online. Dentre os principais assuntos, as postagens com desinformação apresentam temas como eleições, guerras e golpes. É possível consultar os resultados do estudo clicando aqui.
Os dados obtidos pelo estudo concentram o todo de 1.294 checagens profissionais em, pelo menos, dez idiomas diferentes, e asseguram que 81,2% das fake news com algum uso de IA surgiram apenas nos últimos dois anos (entre janeiro de 2024 e março de 2026).
Os posts com informações falsas podem apresentar recortes de notícias inteiramente produzidas por geradores de imagens e até deepfakes (um vídeo falso com o rosto de alguém conhecido e com a mesma voz, falando coisas que a pessoa em si nunca disse ou distorcendo algo já dito).
Com isso, a Lupa sugere que o uso das ferramentas de geração e edição de conteúdo, alimentadas por IA, elevou a necessidade de desconfiança daquilo que é visto online.
Além disso, o levantamento aponta que a disseminação de conteúdos falsos com inteligência artificial cresceu 308% no Brasil entre 2024 e 2025, indicando uma aceleração significativa desse tipo de desinformação. No período analisado, o número de casos envolvendo IA passou de 39 para 159 ocorrências, representando uma mudança estrutural no uso dessas tecnologias para produção de conteúdos enganosos.
Para quem tem pressa:
Uma pesquisa, conduzida pela Agência Lupa, acendeu um alerta para o aumento escalonado de fake news com uso de inteligência artificial;
Posts com desinformação abordam assuntos como guerra, eleições e golpes;
Cenário é ainda mais preocupante em períodos eleitorais.
O perigo da disseminação online de fake news
Ilustração de fake news (Imagem: Arkadiusz Warguła/iStock)
Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, disse em entrevista à Agência Brasil que “A IA dificilmente tem sido feita para impulsionar conteúdos verdadeiros.”
Segundo a pesquisadora, a desinformação pode atingir o público em inúmeras frentes (fotos, vídeos, textos e áudios) e gera grande preocupação em períodos eleitorais.
Isso porque, ainda no cenário eleitoral, os eleitores são constantemente bombardeados com conteúdos que, frequentemente, apresentam informações falsas ou distorcidas. Ou seja, o uso da IA deixou de ser pontual para se tornar uma estratégia permanente de manipulação.
Ela ainda informa que, pelo menos no Brasil, o volume de checagens para esse tipo de conteúdo foi de 160 casos (em 2023) para 578 (em 2025). Até março de 2026, já acumularam mais de 205 verificações.
O estudo também indica que a desinformação produzida com IA passou a ter forte viés político. Em 2025, quase 45% dos conteúdos falsos gerados com essas ferramentas estavam ligados a disputas ideológicas, enquanto no ano anterior esse percentual era menor. Além disso, a maioria das peças utilizou imagens ou vozes de figuras públicas para aumentar a credibilidade das mensagens falsas.
Reflexões da pesquisadora sobre o estudo conduzido
Deepfakes são muito comuns em épocas de eleição (Imagem: FAMILY STOCK/Shutterstock)
O estudo conduzido pela Agência Lupa apresenta recortes linguísticos. Em língua inglesa, foram encontrados 427 casos de desinformações por IA, incluindo deepfakes. Em espanhol, foram 198; em português, 111.
Tardáguila defende que a atitude mais importante para combater as fake news é incentivar a “educação midiática”. Isto é, um conjunto de práticas para melhorar o senso de interpretação e raciocínio lógico dos internautas para fazê-los questionar aquilo que recebem e incentivá-los a apurar a informação.
Outro ponto destacado pela pesquisa é a mudança nas plataformas de disseminação. Embora o WhatsApp ainda concentre parte significativa da circulação de conteúdos falsos, houve uma redução da dependência desse aplicativo e uma maior dispersão para outras redes sociais, incluindo plataformas de vídeos curtos e redes emergentes.
A jornalista também afirma que os projetos e empresas especializadas em checagem de informação apoiam legislações que buscam promover, incentivar e estimular os cidadãos a analisar possíveis dados falsos em postagens.
Título de eleitor (Imagem: Leonidas Santana / Shutterstock.com)
O levantamento também identificou que líderes políticos e autoridades públicas figuram entre os principais alvos das desinformações criadas com inteligência artificial, reforçando o caráter estratégico desse tipo de conteúdo no debate público.
A gente precisa que a vacina contra a desinformação, que é, na verdade, a informação de qualidade, chegue antes para que as pessoas possam estar preparadas e resilientes quando elas virem a mentira em formato de IA.
— Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, em entevista à Agência Brasil
A jornalista sugere a criação de uma política pública que instaure nas escolas uma rotina de aprendizado sobre a educação midiática, a fim de estimular os jovens, desde cedo, a analisar e questionar as informações recebidas online.
O relatório também integra o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, que inaugura uma série histórica para analisar padrões, estratégias e impactos da desinformação no país, com o objetivo de subsidiar jornalistas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas no enfrentamento desse fenômeno.
O YouTube quer que você crie Shorts usando uma versão sua gerada por inteligência artificial. É o que anunciou o CEO Neal Mohan em carta detalhando os planos da plataforma para 2026. Por que importa: A maior plataforma de vídeo do mundo está dobrando a aposta em IA generativa no exato momento em que a …