Conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) tomaram o lugar das fake news tradicionais e viraram a maior ameaça digital para as eleições no Brasil. É o que diz o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que lançou recentemente a segunda edição do Guia Internet, Democracia e Eleições – um estudo completo sobre o impacto do ecossistema tecnológico moderno na opinião pública nacional.
Desde as eleições de 2018, a dinâmica da internet sofreu transformações profundas. Se antes a desinformação circulava principalmente em redes sociais abertas, hoje os aplicativos fechados de mensagens diretas, como o WhatsApp, dominam esse fluxo. Além disso, a estratégia se multiplicou em diferentes plataformas de forma integrada, colocando as produções em vídeo como o principal motor desse movimento.
O grande salto tecnológico ocorre pela evolução acelerada da IA generativa. As ferramentas atuais criam textos, imagens, áudios e gravações em vídeo com extremo realismo. Esses materiais são direcionados a perfis específicos de usuários de acordo com seus hábitos, aumentando bastante a capacidade de persuasão e a chance de enganar até leitores mais atentos.
Novo guia do CGI.br mostra como vídeos, IA generativa e redes restritas mudaram a circulação de desinformação nas eleições. – Crédito: Collagery/Shutterstock
O destaque da publicação é o avanço devastador das deepfakes, técnica que permite manipular rosto, corpo e voz para simular falas de figuras públicas que jamais aconteceram na realidade. Por se apresentarem tão perfeitas, essas simulações visuais tornam o processo de checagem uma tarefa bem mais complexa para o cidadão comum no dia a dia.
Quer saber mais sobre o assunto? O Olhar Digital preparou uma matéria especial, que está disponível para assinantes do Clube Olhar Digital.
Vídeos falsos usando voz e imagem de figuras conhecidas ganharam circulação nas redes sociais nas últimas semanas, especialmente com a chegada das eleições. Casos recentes mostram a força da inteligência artificial (IA) nesse movimento – ela é capaz de inventar declarações políticas, alterar áudios e criar cenas tão realistas que enganam facilmente quem está rolando a tela do celular.
Essa tática explora a influência de pessoas populares para dar credibilidade a conteúdos inventados. Dessa forma, nomes de grande alcance passam a integrar manipulações que combinam elementos reais e falsos para enganar o público.
As deepfakes avançadas manipulam rostos e vozes com alta perfeição, dificultando muito a verificação de informações falsas pelo eleitor. – Crédito: Imagem gerada por IA
A IA a serviço do debate político enganoso
Um dos exemplos envolve Caetano Veloso e Neymar Jr. No caso do cantor, circula no TikTok uma gravação criada para parecer que ele disse que “Lula salvou este país do ódio” e defendeu a continuidade do governo em 2026. Trata-se de uma montagem enganosa, pois o cantor não deu essa declaração.
A falsificação explorava elementos verdadeiros para ganhar aparência de autenticidade. Caetano realmente participou, em 2026, de um material de campanha de Lula no qual artistas aparecem dizendo “Bora, Lula!”. No vídeo falso, entretanto, a imagem do cantor foi reaproveitada e recebeu um novo áudio, produzido com auxílio de IA, com palavras que ele nunca pronunciou. A própria assessoria de Caetano confirmou à DW que o conteúdo era falso.
Com Neymar, a estratégia foi semelhante, mas com viés político oposto. Um vídeo manipulado fazia o jogador afirmar que estava acompanhando uma suposta perseguição contra Jair Bolsonaro e que Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes estariam “com medo da força do presidente”. A declaração também nunca foi feita pelo jogador. O vídeo aproveitou a imagem do atleta para atribuir a ele uma manifestação política que não ocorreu.
Nesse caso, também havia um elemento real que ajudava a dar aparência de autenticidade à falsificação. Neymar declarou voto em Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e, em 2026, apareceu em uma fotografia verdadeira autografando uma camisa da Seleção Brasileira para Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato à Presidência. A imagem real, no entanto, não comprova que o jogador tenha feito a declaração política apresentada no vídeo falso.
A combinação entre fatos verdadeiros e conteúdo fabricado é um dos aspectos que tornam esses casos particularmente difíceis de identificar. Quem já sabe que Caetano participou de uma campanha de Lula ou que Neymar teve uma relação pública com Jair Bolsonaro pode considerar o vídeo “plausível” antes mesmo de verificar sua origem. A mistura dificulta a checagem porque o conteúdo falso se apoia em fatos que o público já sabe serem verdadeiros.
Infográfico mostra como conteúdos falsos ganham credibilidade ao misturar fatos reais, manipulações por IA e elementos inventados. – Crédito: Imagem gerada por IA
Fraudes comerciais, fotos falsas e a regulamentação do TSE
O uso de imagens e vozes de pessoas conhecidas não se limita à propaganda política. Tony Ramos também foi vítima da deepfake, conforme noticiado pelo Olhar Digital. Em participação recente no programa Roda Viva, da TV Cultura, o ator contou que sua imagem havia sido usada em um vídeo falso ao lado de Ana Maria Braga para vender um medicamento. Segundo o relato, sua fala foi dublada e usada para dar aparência de autenticidade a uma publicidade que ele não havia feito.
Também circulou nos últimos dias uma imagem falsa de Alexandre de Moraes e Edson Fachin, também ministro do STF. A publicação sugeria que eles estivessem discutindo, mas a imagem foi gerada por IA, segundo plataformas de checagem de fatos. O episódio mostra que a manipulação não depende necessariamente de vídeo: uma fotografia também pode construir uma situação inexistente e produzir uma narrativa enganosa.
A Resolução 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados por IA devem ser identificados quando usados na propaganda. A norma também proíbe, na propaganda eleitoral, deepfakes que criem, substituam ou alterem a imagem ou a voz de pessoas para favorecer ou prejudicar candidaturas. No começo de setembro, o TSE ainda fixou critérios para definir esse tipo de conteúdo.
Segundo o órgão, deepfake é o conteúdo sintético gerado ou alterado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente, com alto grau de realismo, capaz de criar, reproduzir ou modificar imagem, voz ou declaração de qualquer pessoa – viva, falecida ou fictícia. Pelo entendimento fixado, a proibição expressa da ferramenta vale para conteúdos configurados como propaganda eleitoral.
A IA não eliminou as técnicas antigas de manipulação. Vídeos reais continuam sendo retirados de contexto, cortados ou combinados com outros áudios para criar situações que nunca aconteceram. Checagem do UOL Confere publicada nesta quarta-feira (30) revelou a manipulação em um vídeo antigo que mostra um homem atacando um padre no Rio de Janeiro, em 2022.
Na gravação original, a agressão ocorreu após um desentendimento pessoal; na versão adulterada que circulou esta semana, o áudio original foi substituído por uma fala sobre soberania nacional. A edição simulava que o religioso havia sido agredido por motivação política – corte fora de contexto que acumulava mais de 100 mil visualizações no Facebook até a publicação da matéria.
Cuidados simples para reconhecer conteúdos manipulados, evitar golpes e interromper a disseminação de informações falsas nas redes sociais. – Crédito: Imagem gerada por IA
Aumento de deepfakes impulsiona desinformação e golpes no Brasil
Dados do Primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, publicado pela Agência Lupa em fevereiro, mostram que os conteúdos falsos gerados ou manipulados com IA identificados nas checagens da organização passaram de 39, em 2024, para 159, em 2025 – alta de 308%. E um estudo recém-divulgado pela Ekō, organização internacional de responsabilidade corporativa, identificou ao menos R$1,1 milhão pagos por 26 perfis para impulsionar anúncios eleitorais que, segundo a pesquisa, violavam regras da Meta e a legislação brasileira, incluindo deepfakes sem identificação.
A mesma combinação de imagem manipulada, conteúdo político e aparência de notícia também pode ser usada para algo além da desinformação: aplicar golpes financeiros. Recentemente, imagens geradas por IA e a simulação de um portal de notícias sugeriam que o empresário Luciano Hang, proprietário das lojas Havan, teria sofrido um “atentado” a mando do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, atual candidato ao governo de SP pelo PT.
A história apelava para a rivalidade política para direcionar o público a um site falso com promessa de lucros de até R$10 mil por dia, no qual os usuários eram induzidos a fazer depósitos ou fornecer dados pessoais.
Com a inteligência artificial, criminosos conseguem manipular rostos e vídeos, criando conteúdos falsos que podem se passar facilmente por autênticos nas redes sociais. – Crédito: Tero Vesalainen/Shutterstock
Wilder Martins, especialista em cibersegurança da EXA, desenvolvedora de soluções contra ameaças virtuais, reforça que a tecnologia atualmente simula a realidade com perfeição, cria links e sites falsos, muito semelhantes aos originais. “Por isso, a principal barreira de defesa mudou: a pergunta não deve ser mais apenas ‘isso parece verdadeiro?’, mas sim ‘por que estão me pedindo para clicar em um link, fornecer um dado sensível ou fazer uma transferência?’”.
Como identificar conteúdos manipulados e evitar armadilhas
Segundo Martins, a mesma estrutura pode ser adaptada para diferentes temas que ganham relevância durante o período eleitoral. A maior circulação de informações políticas cria novas oportunidades para criminosos explorarem nomes de candidatos, autoridades, instituições e veículos de comunicação. Entre as possibilidades estão mensagens sobre título de eleitor, biometria, local de votação, pesquisas eleitorais, falsas multas, arrecadações de campanha e conteúdos manipulados com voz ou imagem de figuras públicas.
“Se a mensagem cria uma emergência (seja para evitar um bloqueio, garantir um direito ou cobrar um pagamento), pare imediatamente”, alerta o especialista. “Esse é o gatilho clássico da fraude. A sua principal defesa é não seguir o atalho oferecido pelo golpista. Feche a mensagem e acesse ferramentas e softwares de verificação, distribuídas de forma paga e gratuita, como a EVA [inteligência artificial da EXA que analisa conteúdos suspeitos pelo WhatsApp] para confirmar a informação antes de realizar qualquer transação”.
Com o avanço da IA, identificar uma fraude apenas pelos sinais visuais ou sonoros ficou mais difícil. Falhas que antes entregavam algumas manipulações são menos evidentes, e a verificação precisa ir além da aparência do conteúdo. Em vez de procurar apenas defeitos visuais, a orientação é checar o rastro do conteúdo: confirmar se a pessoa realmente deu aquela declaração em canais oficiais, verificar se veículos de imprensa noticiaram o fato e desconfiar de vídeos polêmicos que circulam sem origem clara.
Conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) tomaram o lugar das fake news tradicionais e viraram a maior ameaça digital para as eleições no Brasil. É o que diz o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que lançou recentemente a segunda edição do Guia Internet, Democracia e Eleições – um estudo completo sobre o impacto do ecossistema tecnológico moderno na opinião pública nacional.
Desde as eleições de 2018, a dinâmica da internet sofreu transformações profundas. Se antes a desinformação circulava principalmente em redes sociais abertas, hoje os aplicativos fechados de mensagens diretas, como o WhatsApp, dominam esse fluxo. Além disso, a estratégia se multiplicou em diferentes plataformas de forma integrada, colocando as produções em vídeo como o principal motor desse movimento.
IA está muito presente em campanhas para eleições de 2026 – Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O grande salto tecnológico ocorre pela evolução acelerada da IA generativa. As ferramentas atuais criam textos, imagens, áudios e gravações em vídeo com extremo realismo. Esses materiais são direcionados a perfis específicos de usuários de acordo com seus hábitos, aumentando bastante a capacidade de persuasão e a chance de enganar até leitores mais atentos.
O destaque da publicação é o avanço devastador das deepfakes, técnica que permite manipular rosto, corpo e voz para simular falas de figuras públicas que jamais aconteceram na realidade. Por se apresentarem tão perfeitas, essas simulações visuais tornam o processo de checagem uma tarefa bem mais complexa para o cidadão comum no dia a dia.
Na avaliação de Renata Mielli, que atua na coordenação do CGI.br, as grandes redes virtuais viraram o principal meio pelo qual a população consome informações. Segundo ela, por conta desse forte poder de alcance diário, compreender os bastidores da tecnologia e seus algoritmos tornou-se indispensável para defender a própria transparência e a integridade do debate social.
De acordo com o guia do CGI.br, as maiores redes digitais pertencem a corporações privadas focadas em lucro. Seus sistemas internos de recomendação selecionam automaticamente aquilo que cada pessoa vai assistir no feed. Essa arquitetura do sistema prioriza postagens de alto apelo emocional, o que acaba aumentando imensamente a circulação involuntária de informações mentirosas ou distorcidas.
Outro ponto grave envolve a erosão generalizada da confiança no ambiente virtual. Quando todo conteúdo visual passa a ser encarado como potencialmente fabricado por IA, a sociedade passa a duvidar inclusive de gravações autênticas e dados oficiais. Esse fenômeno amplia a polarização política e enfraquece instituições cruciais para a estabilidade do país.
A mente humana tende a aceitar rapidamente postagens que confirmam velhos preconceitos, rejeitando fatos reais que contrariem seus gostos. Esse comportamento natural, somado ao alcance massivo de influencers sem compromisso jornalístico de apuração, cria o cenário ideal para o espalhamento de enganos. Checar a fonte antes de dar o clique de compartilhamento virou a melhor defesa individual.
Novo guia do CGI.br mostra como vídeos, IA generativa e redes restritas mudaram a circulação de desinformação nas eleições. – Crédito: Collagery/Shutterstock
Ações integradas de proteção reduzem o alcance de fraudes por IA
Para Paulo Cesar Camargo, engenheiro de software sênior, arquiteto de dados e nuvem AWS, graduado em Gestão de Sistemas de Informação e pós-graduado em Ciência de Dados e Analytics, as plataformas de redes sociais devem adotar múltiplos mecanismos de defesa.
Segundo ele, em vez de depender de um único detector infalível, os sistemas precisam avaliar metadados, marcas d’água e padrões de compartilhamento desde a ingestão do vídeo para aplicar respostas proporcionais ao risco.
“O caminho mais eficaz é adotar uma arquitetura de defesa em profundidade, em vez de depender de um único detector de conteúdo gerado por IA”, explica Camargo. “Em ambientes de altíssimo tráfego, a análise pode começar no momento da ingestão do vídeo, combinando informações de proveniência, metadados, marcas d’água quando disponíveis, fingerprinting do conteúdo, modelos de detecção e análise comportamental da forma como aquele material está sendo distribuído. Esses mecanismos podem produzir um nível de risco ou confiança para cada conteúdo, permitindo respostas proporcionais”.
Do lado dos usuários, o cenário também exige cautela extra. O especialista alerta que a recompressão efetuada por aplicativos de mensagens costuma remover rastros técnicos úteis para perícias. Como os detectores automatizados operam com probabilidades e estão sujeitos a erros, o cidadão não deve utilizá-los como prova definitiva. A apuração exige cruzar fatos em veículos de imprensa e agências de checagem.
Infográfico ilustra como o conteúdo falso gerado por IA se espalha rapidamente na internet. – Crédito: Imagem gerada por IA
“Hoje não existe uma ferramenta única, simples e totalmente precisa que permita ao público identificar instantaneamente se qualquer vídeo ou áudio recebido pelo WhatsApp foi produzido por inteligência artificial”, disse Camargo em entrevista ao Olhar Digital. “Um dos problemas é que aplicativos de mensagens podem recomprimir as mídias e alterar ou eliminar informações que seriam úteis para uma análise de autenticidade. Além disso, os próprios detectores de conteúdo sintético trabalham com probabilidades e podem apresentar falsos positivos e falsos negativos, principalmente quando o material passou por edição ou compressão”.
Checagem de procedência reduz o impacto de desinformação nas eleições
Com a evolução dos recursos sintéticos, a verificação do conteúdo passa a depender fortemente da identificação da origem e do histórico das mídias. Uma das apostas da indústria para essa rastreabilidade é o padrão C2PA, que insere assinaturas criptográficas em imagens e vídeos desde a sua captura.
No entanto, Camargo faz uma importante ressalva: comprovar a origem de um arquivo não garante que seu conteúdo traga uma verdade factual. A validação exige combinar esses dados criptográficos com o contexto e fontes independentes.
“Quando a geração de conteúdo sintético se torna cada vez mais convincente, a segurança precisa deixar de depender exclusivamente da análise visual e passar a considerar também a proveniência e a rastreabilidade do conteúdo. Uma das tecnologias importantes nesse cenário é o padrão C2PA, que permite associar ao conteúdo informações verificáveis sobre sua origem, autoria e histórico de modificações por meio de mecanismos criptográficos. Câmeras, softwares de edição e plataformas de publicação podem participar dessa cadeia de proveniência, permitindo verificar quais informações foram registradas e quais alterações foram realizadas por ferramentas compatíveis”, detalha o engenheiro.
Outro aspecto destacado por ele é a separação entre indícios técnicos e enquadramento legal. A tecnologia consegue detectar se há comportamento robótico ou campanhas coordenadas de disparo. Porém, a caracterização de crime eleitoral exige avaliar intenção e contexto, cabendo exclusivamente às autoridades jurídicas essa conclusão. Por essa razão, um eleitor comum que apenas repassa um conteúdo falso sem saber não deve ser colocado no mesmo patamar de quem orquestra um ataque desinformativo.
Dicas de como diferenciar conteúdos verdadeiros e falsos e não ser enganado às vésperas das eleições. – Crédito: Imagem gerada por IA
Além disso, existe uma clara diferença de ritmo entre conter um conteúdo nocivo e punir seus idealizadores. Sistemas em nuvem conseguem limitar a distribuição de uma publicação suspeita em poucos minutos em redes abertas. No entanto, quando a desinformação circula por canais privados e criptografados, identificar a autoria original requer investigações que frequentemente extrapolam o período da votação.
“Esse cenário evidencia uma diferença fundamental entre detectar, conter, atribuir autoria e responsabilizar alguém. São etapas diferentes, com tempos de resposta diferentes. Plataformas que utilizam infraestrutura escalável em nuvem, sistemas automatizados de moderação e mecanismos de análise de comportamento podem detectar sinais de conteúdo manipulado e reduzir sua distribuição em minutos ou poucas horas, especialmente em redes abertas. Também podem remover conteúdo, bloquear determinados mecanismos de amplificação e sinalizar materiais suspeitos”, conclui o especialista.
No próximo domingo (4), os eleitores brasileiros vão às urnas para votar para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Em um momento marcado pelo avanço de conteúdos gerados por IA, reconhecer manipulações e checar dados antes de compartilhá-los também integra as atenções exigidas no processo eleitoral.
Vídeos falsos produzidos por inteligência artificial e informações de baixa qualidade já representam uma ameaça maior às eleições e à democracia do que as tradicionais fake news. É o que aponta o novo Guia Internet, Democracia e Eleições, publicado pelo CGI.br.
Segundo a Agência Brasil, o documento compara o cenário atual com o de 2018, quando as redes abertas tinham papel central na disseminação de desinformação. Hoje, redes mais restritas, como o WhatsApp, ganharam espaço nessa circulação.
A multiplicação de conteúdos falsos pode alimentar a desconfiança até diante de informações verdadeiras. Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil – Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Vídeo assume protagonismo
A desinformação também deixou de depender de uma única plataforma. Segundo o guia, conteúdos enganosos circulam ao mesmo tempo em diferentes ambientes digitais, com o vídeo passando a ser o principal vetor.
Em geral, esses vídeos vêm acompanhados de textos curtos que ajudam a sustentar e dar aparência de legitimidade à narrativa falsa. A IA generativa, que já apareceu no ciclo eleitoral de 2022, deve ganhar ainda mais espaço neste ano, combinada a ferramentas capazes de direcionar mensagens para perfis específicos.
maior circulação de conteúdos em redes restritas, como o WhatsApp;
uso de IA generativa para produzir conteúdos enganosos;
direcionamento de mensagens a perfis específicos;
técnicas que tornam narrativas falsas mais convincentes.
Hoje, as plataformas digitais ocupam um lugar central na forma como os brasileiros se informam sobre o que acontece no mundo, no país e nas cidades onde vivem.
Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, à Agência Brasil.
O problema das deepfakes
O realismo das deepfakes está entre as principais preocupações levantadas pelo estudo. À medida que essas ferramentas avançam, identificar uma falsificação pode se tornar difícil até para pessoas acostumadas a avaliar informações.
A consequência pode ir além de acreditar em uma mentira. O guia alerta para a possibilidade de que a multiplicação de conteúdos falsos provoque desconfiança até diante de informações verdadeiras.
A perda de confiança na imprensa e no Judiciário, associada à polarização política, também aparece como fator de preocupação. Segundo o guia, esse ambiente pode favorecer situações em que convicções pessoais acabam se sobrepondo à checagem dos fatos.
Aplicativos como o WhatsApp ganharam espaço na circulação de conteúdos enganosos durante a transformação do ambiente digital. – Imagem: Primakov/Shutterstock
Quando a crença pesa mais
O estudo chama atenção para outro comportamento: a tendência de buscar conteúdos que confirmem aquilo que a pessoa já pensa. Informações contrárias às próprias convicções podem ser descartadas. O guia chama esse mecanismo de racionalidade motivada e aponta seu potencial de reforçar posições ideológicas.
Os influenciadores também entram nessa discussão. O CGI.br reconhece sua relevância na comunicação digital, mas ressalta uma diferença em relação ao jornalismo: eles não seguem um código de ética nem respondem institucionalmente pela veracidade de suas afirmações da mesma forma que o jornalismo.
A publicação explica o funcionamento dos sistemas de recomendação e discute o impacto da IA generativa nas eleições. Também apresenta conceitos ligados às deepfakes e aos modelos de linguagem conversacionais.
O material reúne ainda orientações para instituições enfrentarem a desinformação e recomendações para que cidadãos não se tornem vítimas ou propagadores de conteúdos falsos ou enganosos.
A mudança apontada pelo CGI.br mostra como a desinformação eleitoral passou a combinar novos formatos, inteligência artificial e diferentes canais de distribuição. O desafio envolve não apenas identificar uma informação falsa, mas também compreender como ela é produzida e chega a públicos específicos.
Uma nova pesquisa, conduzida pela agência de checagem Lupa, evidenciou um aumento considerável da inteligência artificial em conteúdos falsos divulgados online. Dentre os principais assuntos, as postagens com desinformação apresentam temas como eleições, guerras e golpes. É possível consultar os resultados do estudo clicando aqui.
Os dados obtidos pelo estudo concentram o todo de 1.294 checagens profissionais em, pelo menos, dez idiomas diferentes, e asseguram que 81,2% das fake news com algum uso de IA surgiram apenas nos últimos dois anos (entre janeiro de 2024 e março de 2026).
Os posts com informações falsas podem apresentar recortes de notícias inteiramente produzidas por geradores de imagens e até deepfakes (um vídeo falso com o rosto de alguém conhecido e com a mesma voz, falando coisas que a pessoa em si nunca disse ou distorcendo algo já dito).
Com isso, a Lupa sugere que o uso das ferramentas de geração e edição de conteúdo, alimentadas por IA, elevou a necessidade de desconfiança daquilo que é visto online.
Além disso, o levantamento aponta que a disseminação de conteúdos falsos com inteligência artificial cresceu 308% no Brasil entre 2024 e 2025, indicando uma aceleração significativa desse tipo de desinformação. No período analisado, o número de casos envolvendo IA passou de 39 para 159 ocorrências, representando uma mudança estrutural no uso dessas tecnologias para produção de conteúdos enganosos.
Para quem tem pressa:
Uma pesquisa, conduzida pela Agência Lupa, acendeu um alerta para o aumento escalonado de fake news com uso de inteligência artificial;
Posts com desinformação abordam assuntos como guerra, eleições e golpes;
Cenário é ainda mais preocupante em períodos eleitorais.
O perigo da disseminação online de fake news
Ilustração de fake news (Imagem: Arkadiusz Warguła/iStock)
Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, disse em entrevista à Agência Brasil que “A IA dificilmente tem sido feita para impulsionar conteúdos verdadeiros.”
Segundo a pesquisadora, a desinformação pode atingir o público em inúmeras frentes (fotos, vídeos, textos e áudios) e gera grande preocupação em períodos eleitorais.
Isso porque, ainda no cenário eleitoral, os eleitores são constantemente bombardeados com conteúdos que, frequentemente, apresentam informações falsas ou distorcidas. Ou seja, o uso da IA deixou de ser pontual para se tornar uma estratégia permanente de manipulação.
Ela ainda informa que, pelo menos no Brasil, o volume de checagens para esse tipo de conteúdo foi de 160 casos (em 2023) para 578 (em 2025). Até março de 2026, já acumularam mais de 205 verificações.
O estudo também indica que a desinformação produzida com IA passou a ter forte viés político. Em 2025, quase 45% dos conteúdos falsos gerados com essas ferramentas estavam ligados a disputas ideológicas, enquanto no ano anterior esse percentual era menor. Além disso, a maioria das peças utilizou imagens ou vozes de figuras públicas para aumentar a credibilidade das mensagens falsas.
Reflexões da pesquisadora sobre o estudo conduzido
Deepfakes são muito comuns em épocas de eleição (Imagem: FAMILY STOCK/Shutterstock)
O estudo conduzido pela Agência Lupa apresenta recortes linguísticos. Em língua inglesa, foram encontrados 427 casos de desinformações por IA, incluindo deepfakes. Em espanhol, foram 198; em português, 111.
Tardáguila defende que a atitude mais importante para combater as fake news é incentivar a “educação midiática”. Isto é, um conjunto de práticas para melhorar o senso de interpretação e raciocínio lógico dos internautas para fazê-los questionar aquilo que recebem e incentivá-los a apurar a informação.
Outro ponto destacado pela pesquisa é a mudança nas plataformas de disseminação. Embora o WhatsApp ainda concentre parte significativa da circulação de conteúdos falsos, houve uma redução da dependência desse aplicativo e uma maior dispersão para outras redes sociais, incluindo plataformas de vídeos curtos e redes emergentes.
A jornalista também afirma que os projetos e empresas especializadas em checagem de informação apoiam legislações que buscam promover, incentivar e estimular os cidadãos a analisar possíveis dados falsos em postagens.
Título de eleitor (Imagem: Leonidas Santana / Shutterstock.com)
O levantamento também identificou que líderes políticos e autoridades públicas figuram entre os principais alvos das desinformações criadas com inteligência artificial, reforçando o caráter estratégico desse tipo de conteúdo no debate público.
A gente precisa que a vacina contra a desinformação, que é, na verdade, a informação de qualidade, chegue antes para que as pessoas possam estar preparadas e resilientes quando elas virem a mentira em formato de IA.
— Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, em entevista à Agência Brasil
A jornalista sugere a criação de uma política pública que instaure nas escolas uma rotina de aprendizado sobre a educação midiática, a fim de estimular os jovens, desde cedo, a analisar e questionar as informações recebidas online.
O relatório também integra o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, que inaugura uma série histórica para analisar padrões, estratégias e impactos da desinformação no país, com o objetivo de subsidiar jornalistas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas no enfrentamento desse fenômeno.