O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira (6) que pretende apoiar estados interessados em expandir a inteligência artificial (IA). Em publicação nas redes sociais, classificou a tecnologia como uma fonte de riqueza e declarou ser favorável ao desenvolvimento da superinteligência artificial.
A manifestação ocorre após uma onda de vendas de ações de empresas de tecnologia e em meio à preocupação dos investidores com os altos investimentos em IA e possíveis restrições à construção de data centers.
Trump prometeu trabalhar com governos estaduais interessados em apostar na tecnologia e criticou lideranças contrárias à expansão do setor.
“Como presidente, sou 100% a favor da Superinteligência (SI) e trabalharei com os muitos estados dos EUA que querem se tornar RICOS ao tê-la. Eles são OURO, e só uma liderança tola vai dizer ‘NÃO’ às riquezas que ela traz!”, escreveu.
O presidente não detalhou quais medidas pretende adotar. A declaração também ocorre após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato, realizadas na terça-feira (3), que ampliou as discussões sobre possíveis regras para o setor.
Investidores demonstraram apreensão com o volume de investimentos exigido e os custos de infraestrutura para operar superinteligências. Imagem criada por inteligência artificial: Dall-E/Olhar Digital
Vitória democrata aumenta preocupação com data centers
O resultado eleitoral acrescentou incertezas aos planos de expansão das empresas de tecnologia. Investidores temem que uma maior resistência à construção de centros de dados dificulte novos projetos nos Estados Unidos.
Essas instalações concentram os equipamentos responsáveis por armazenar e processar grandes volumes de informações. Embora sejam fundamentais para o funcionamento de sistemas de inteligência artificial, enfrentam resistência de comunidades em algumas regiões americanas devido ao consumo elevado de energia e água.
Para Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), a vitória democrata não provocou a queda das ações, mas acrescentou um risco a um mercado que já apresentava sinais de fragilidade.
“A eleição americana não é a causa da queda. Ela foi o gatilho. O mercado de IA já vinha frágil”, afirma ao g1.
Segundo o especialista, os riscos mais imediatos estão nos estados, onde decisões sobre licenciamento, fornecimento de energia e eventuais moratórias podem afetar a construção de data centers. Ele também aponta possíveis mudanças nos incentivos fiscais.
Camilo ressalta que alterações legislativas relevantes costumam demorar e que o presidente americano mantém o poder de veto. Na avaliação do professor, a reação mais intensa do mercado tende a ser pontual, mas a revisão das expectativas de valorização das empresas ligadas à IA pode continuar.
O alto consumo de energia e água por data centers provoca resistência de comunidades em algumas regiões dos EUA. – Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock
Queda das ações atinge mercados asiáticos
A pressão sobre as empresas de tecnologia também chegou aos mercados asiáticos nesta sexta-feira (6). No Japão, o índice Nikkei caiu 5,96%, enquanto o Kospi, da Coreia do Sul, recuou 6,02%. Durante o pregão, a queda do índice sul-coreano chegou a 8,55%, levando à suspensão das negociações por 20 minutos.
Entre as fabricantes de chips afetadas, a sul-coreana SK Hynix perdeu 10,4%, e a Samsung Electronics recuou 6,4%. No Japão, a SoftBank caiu cerca de 11%. Já a taiwanesa TSMC fechou em baixa de 4,7%.
Nos Estados Unidos, as perdas também atingiram as maiores empresas de tecnologia. As sete gigantes conhecidas como Magnificent Seven encerraram o pregão em queda. A Tesla recuou 10,8%, a Nvidia perdeu 9,3% e a AMD caiu 17,3%. O índice de semicondutores da Filadélfia registrou baixa de 12,2%.
O desempenho desses mercados também tem reflexos sobre a indústria asiática de tecnologia. A região concentra algumas das principais fabricantes de chips do mundo, fornecedoras de componentes essenciais para o desenvolvimento da inteligência artificial. Uma possível desaceleração dos investimentos em infraestrutura da tecnologia pode afetar diretamente essas companhias.
Os democratas conquistaram o controle do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato de 2026, impondo uma derrota ao presidente Donald Trump e aos candidatos apoiados por grandes empresários do setor de tecnologia.
O resultado reflete a insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a corrupção e a expansão dos data centers de inteligência artificial (IA). Também representa um revés para bilionários que investiram centenas de milhões de dólares nas campanhas republicanas.
Donald Trump sofreu uma derrota eleitoral com a conquista democrata do controle do Congresso dos Estados Unidos. – Imagem: YousufDean/Shutterstock
Texas se torna símbolo da derrota republicana
No Texas, James Talarico derrotou Ken Paxton e se tornou o primeiro democrata eleito para o Senado pelo estado em quase quatro décadas. Na disputa pelo governo estadual, Gina Hinojosa venceu Greg Abbott, que estava no cargo havia três mandatos. Ela será a primeira governadora democrata do Texas desde Ann Richards, que deixou o posto em 1995.
A derrota também atingiu candidatos escolhidos pessoalmente por Trump, que havia feito dezenas de endossos durante a campanha. O resultado no Texas ganhou destaque em meio à resistência de parte dos eleitores à expansão da infraestrutura tecnológica. Hinojosa defendeu a suspensão de novos projetos de data centers até que regras mais rigorosas sejam adotadas.
A preocupação com essas instalações apareceu em uma pesquisa da CNBC: 56% dos entrevistados disseram que a questão teve importância decisiva ou significativa na escolha de seus candidatos.
Bilionários da tecnologia enfrentam reação dos eleitores
A derrota republicana também representa um revés para empresários e grupos de interesse que financiaram candidatos favoráveis à expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Elon Musk, o maior doador individual do ciclo eleitoral e o homem mais rico do mundo, gastou valores recordes para tentar manter os republicanos no poder. No Texas, investiu mais de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,08 bilhão) em esforços para impedir a vitória de Talarico.
O peso desse financiamento aparece também no perfil dos principais doadores: 14 dos 20 maiores grupos apoiaram exclusivamente ou quase exclusivamente candidatos republicanos. Interesses ligados a criptomoedas, inteligência artificial e jogos de azar on-line investiram mais de US$ 377 milhões (aproximadamente R$ 2,04 bilhões).
A vitória democrata no Texas foi marcada por propostas de interrupção de novos projetos de data centers até a criação de regras rígidas. – Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock
Congresso deve ampliar fiscalização sobre empresas de IA
Com a conquista da maioria na Câmara e no Senado, os democratas terão mais poder para fiscalizar o governo Trump, convocar autoridades e abrir investigações. Parlamentares já defenderam chamar executivos de empresas de inteligência artificial para depor sob juramento.
A mudança no equilíbrio político também põe em xeque as tentativas republicanas de redesenhar distritos eleitorais para favorecer seus candidatos. Democratas venceram disputas em áreas do Texas, da Flórida e da Carolina do Norte cujos limites haviam sido alterados com esse objetivo.
Outras vitórias ampliaram o alcance da mudança no mapa eleitoral: os democratas venceram disputas na Carolina do Sul, em Ohio, na Geórgia e em New Hampshire, além de conquistar cadeiras no Senado em Iowa e na Carolina do Norte.
A insatisfação econômica teve papel central na eleição. Muitos eleitores atribuíram a piora das condições econômicas às tarifas impostas por Trump e à guerra contra o Irã. Uma pesquisa da CNBC realizada em outubro apontou a corrupção como a principal preocupação dos entrevistados.
Após a divulgação dos resultados, os contratos futuros dos índices Dow Jones e S&P 500 recuaram. Com o novo controle do Congresso, os democratas poderão bloquear parte da agenda presidencial e intensificar a fiscalização sobre o governo nos dois últimos anos do mandato de Trump.
A corrida para construir data centers capazes de alimentar a inteligência artificial (IA) está impulsionando um mercado pouco óbvio: o de tintas e revestimentos industriais. Com empresas, como Microsoft, Google e Amazon, ampliando suas estruturas de computação, fabricantes de materiais de proteção veem a demanda crescer — mesmo quando o produto é quase sempre da mesma cor: cinza.
A PPG, companhia de Pittsburgh (EUA), espera que suas vendas de tintas destinadas a data centers tripliquem neste ano em relação ao anterior. A projeção supera com folga o desempenho geral da empresa, cujas vendas totais cresceram 7% e chegaram a US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões) no trimestre mais recente.
“Eu nunca vi um boom tão grande quanto este”, afirmou Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos protetores e marítimos da PPG nas Américas.
Tinta que protege estruturas contra incêndios
Parte da demanda vem de produtos desenvolvidos para aumentar a segurança das instalações. Um dos destaques da PPG é o Steelguard 951, revestimento que se expande quando exposto a temperaturas elevadas e forma camada espessa, capaz de retardar a chegada do calor ao aço;
Em teste realizado no centro de inovação da empresa, pesquisadores direcionaram chamas a painéis metálicos cobertos pelo produto. A tinta, aplicada originalmente em camada de cerca de um milímetro, transformou-se em crosta escura com quase um centímetro de espessura;
A expansão cria barreira que ajuda a impedir que o aço aqueça e perca resistência durante um incêndio. Segundo a PPG, o Steelguard pode proteger estruturas metálicas por até quatro horas, dando às pessoas mais tempo para deixar o local;
O risco de incêndio em data centers não se limita aos servidores. Geradores de energia de reserva, baterias e instalações elétricas próximas também podem ser fontes de fogo, explicou Paul Fenton, químico e engenheiro da companhia;
Os revestimentos têm outras funções importantes. Eles podem proteger estruturas metálicas contra ferrugem, reduzir o acúmulo de eletricidade estática e limitar interferências elétricas entre equipamentos. Pisos especiais, por exemplo, ajudam a evitar que descargas danifiquem máquinas ou provoquem incêndios.
Data centers ampliam mercado de revestimentos
A PPG percebeu a oportunidade há cerca de três anos, depois do lançamento do ChatGPT e da multiplicação de anúncios de novos data centers e fábricas de chips. Contratantes, fabricantes de estruturas metálicas e fornecedores de equipamentos passaram a disputar projetos ligados à expansão da infraestrutura de IA.
A empresa organizou equipes dedicadas ao setor de tecnologia e começou a trabalhar com arquitetos, engenheiros e construtoras antes mesmo do início das obras. A estratégia busca incluir seus produtos nas listas de materiais aprovados para cada projeto desde as etapas iniciais.
Em abril, a companhia apresentou um pacote de soluções voltado a data centers. A oferta inclui revestimentos para proteger estruturas de aço contra incêndios, primers que ajudam a prevenir a corrosão, pisos que reduzem riscos associados à eletricidade estática e materiais destinados a bloquear interferências elétricas.
A PPG também fornece revestimentos para mais de 75 tipos de componentes usados nessas instalações, incluindo carcaças de câmeras de segurança e equipamentos de refrigeração.
A empresa afirma que seus produtos já foram usados em data centers do Brasil à China. Mais da metade das oportunidades comerciais, porém, está nos Estados Unidos, que concentram cerca de 5,5 mil instalações desse tipo, segundo o relatório Artificial Intelligence Index, da Universidade Stanford (EUA).
Corrida para construir data centers capazes de alimentar a inteligência artificial (IA) está impulsionando um mercado pouco óbvio: o de tintas e revestimentos industriais – Imagem: shihabsarkar/Shutterstock
O setor também beneficia concorrentes. A Sherwin-Williams, maior rival da PPG, informou que seus produtos são usados em diversas áreas dos data centers, das vigas metálicas às estruturas que abrigam servidores. Em julho, a presidente-executiva da companhia, Heidi Petz, afirmou que as vendas da divisão de revestimentos protetores e marítimos haviam crescido em faixa percentual de dois dígitos na casa das dezenas em relação ao ano anterior, impulsionadas, entre outros fatores, pela construção dessas instalações.
Apesar da sofisticação dos produtos, o resultado visual costuma ser discreto. A maior parte dos revestimentos é vendida em diferentes tons de cinza, aplicados sobre concreto e aço, que também têm aparência semelhante.
A razão é simples: data centers são construídos principalmente para abrigar máquinas, e não para receber pessoas. Por isso, a aparência dos ambientes internos raramente é prioridade para proprietários, arquitetos e engenheiros.
Matthew Giddings, profissional da empresa imobiliária comercial JLL, que trabalha com a gestão de data centers, estima que os revestimentos possam custar entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões (cerca de R$ 16 milhões a R$ 43 milhões) em um único edifício. Embora o valor represente apenas pequena parte do custo total da construção, ele ajuda a dimensionar o mercado criado pela expansão da infraestrutura de IA.
Há exceções à predominância do cinza. Tubulações de água gelada podem receber pintura azul, enquanto canos ligados aos sistemas de combate a incêndios costumam ser vermelhos, facilitando a identificação por equipes de manutenção. Em resposta à pressão de comunidades locais para que os empreendimentos tenham aparência menos industrial, algumas empresas também passaram a adicionar cores às fachadas.
A PPG, fundada em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Company, originalmente era uma fabricante de vidro. Com o tempo, tornou-se uma das maiores empresas de revestimentos do mundo e passou a atender setores, como os de automóveis, aviões e embalagens.
A companhia prefere, inclusive, chamar seus produtos de “revestimentos”, em vez de simplesmente tintas. As soluções podem combinar um primer para aderir ao aço, uma camada funcional de proteção e um acabamento final.
Expansão da IA enfrenta obstáculos
Apesar das perspectivas positivas, o avanço do mercado não está garantido. Alguns projetos de data centers sofreram atrasos enquanto aguardam acesso à energia, segundo a PPG. A escassez de transformadores e de outros equipamentos elétricos também tem prolongado cronogramas de construção.
Além disso, a resistência de comunidades à instalação de novos empreendimentos tornou-se desafio para o setor. A PPG avalia que os revestimentos destinados a data centers ainda representam parcela pequena de suas vendas, mas espera que esse mercado cresça várias vezes mais rápido do que outros segmentos de infraestrutura.
A expansão da IA, portanto, não movimenta apenas empresas que desenvolvem modelos ou fabricam chips. Ela também cria oportunidades para fornecedores de materiais e componentes essenciais à construção e à operação dos enormes edifícios que sustentam essa tecnologia.
A Meta pretende captar até US$ 95 bilhões (cerca de R$ 475 bilhões) com a venda de ações para financiar a expansão de sua infraestrutura de inteligência artificial (IA), incluindo data centers e capacidade de computação em nuvem.
A dona do Facebook, Instagram e WhatsApp iniciou ofertas de ações de aproximadamente US$ 35 bilhões (R$ 175 bilhões) e planeja vender até US$ 60 bilhões (R$ 300 bilhões) adicionais a partir de 2027.
A Meta planeja captar até 95 bilhões de dólares em ações para financiar a construção de novos data centers e expandir sua IA. – Imagem: FOTOGRIN/Shutterstock
Fabricantes de chips demonstram interesse
A oferta inicial reúne ações ordinárias e preferenciais conversíveis. Já o segundo programa de vendas depende do início das negociações de novas ações Classe C, sem direito a voto, previsto para o primeiro trimestre de 2027.
Nvidia, AMD e Broadcom demonstraram interesse em comprar até US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões) em ações ordinárias Classe A da Meta incluídas na oferta.
A captação ocorre enquanto a empresa amplia os gastos para competir com OpenAI e Anthropic. Na semana passada, a Meta elevou o limite mínimo de sua previsão de despesas de capital para 2026, que passou de US$ 130 bilhões para US$ 135 bilhões. O teto permaneceu em US$ 145 bilhões.
A companhia também assumiu compromissos de gastos futuros de aproximadamente US$ 825 bilhões (R$ 4,125 trilhões), impulsionados principalmente pelos investimentos em data centers, infraestrutura de IA e computação em nuvem.
A busca massiva por investimentos visa garantir capacidade computacional para disputar espaço contra a OpenAI e a Anthropic. – Imagem: miss.cabul/Shutterstock
Pressão sobre o caixa
O aumento dos gastos já aparece nos resultados financeiros. No terceiro trimestre, a Meta registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 2,12 bilhões (R$ 10,6 bilhões), seu primeiro resultado negativo nesse indicador em mais de dez anos. No mesmo período do ano anterior, havia registrado fluxo positivo de US$ 10,63 bilhões (R$ 53,15 bilhões).
Em 30 de setembro, a empresa tinha US$ 82,45 bilhões (R$ 412,25 bilhões) em caixa, equivalentes de caixa e títulos negociáveis, pouco acima dos US$ 80,92 bilhões (R$ 404,6 bilhões) em dívida de longo prazo.
Apesar da pressão financeira, a receita superou as expectativas dos analistas no terceiro trimestre. A Meta faturou US$ 64,60 bilhões (R$ 323 bilhões), ante projeção de US$ 63,37 bilhões (R$ 316,85 bilhões).
Para o quarto trimestre, a companhia estima uma receita entre US$ 73 bilhões (R$ 365 bilhões) e US$ 76 bilhões (R$ 380 bilhões).
Inteligência artificial e mudanças climáticas são temas que se relacionam de várias formas. Há quem diga que o primeiro piora o segundo. Há quem diga que o primeiro pode ajudar a resolver o segundo.
Seja como for, os dois temas estão entre as questões mais importantes com as quais a humanidade precisa lidar atualmente.
É o que disse Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, em entrevista ao Olhar Digital. Artaxo também é coordenador do Amazônia Sustentável, um centro de estudos da universidade.
Quando o assunto é mudanças climáticas, IA pode tanto ajudar quanto piorar
A IA pode ser uma ferramenta útil no combate às mudanças climáticas.
Por meio da tecnologia, pessoas poderiam desenvolver, por exemplo, sistemas de alerta de desastres mais sofisticados. Ou, quem sabe, encontrar maneiras de amenizar a escassez de água mundo afora.
No entanto, quando se considera o futuro de curto prazo, a perspectiva é que a IA dificulte a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa.
Por que? É uma tecnologia que precisa de data centers para funcionar. E data centers consomem muita energia.
Data centers precisam de eletricidade – e nem sempre dá para gerá-la por meio de fontes renováveis – Imagem: Frame Stock Footage/Shutterstock
Para você ter ideia, data centers de IA devem consumir quase três vezes mais eletricidade do que a Nigéria, o Paquistão e Bangladesh juntos, segundo a ONU. Somados, esses países abrigam 650 milhões de pessoas.
Data centers precisam de eletricidade. E nem sempre dá para gerar eletricidade por meio de fontes renováveis, como sol (solar), água (hidrelétrica) e vento (eólica). O Brasil, por exemplo, tem termelétricas.
A questão termelétrica
Usinas termelétricas transformam calor em energia elétrica. Primeiro, queima-se combustível (carvão, gás natural, óleo ou biomassa). Isso gera calor.
Esse calor esquenta muita água numa caldeira. Isso gera vapor, que é direcionado para as pás de uma turbina.
A força do vapor faz a turbina girar em alta velocidade. A turbina fica conectada a um gerador, que transforma essa energia mecânica em elétrica.
Impacto ambiental de usinas termelétricas varia conforme o combustível usado – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT
O problema desse tipo de usina é o impacto ambiental, que varia conforme o combustível usado.
Para começar, a queima de combustíveis fósseis (principalmente óleo e carvão) libera toneladas de gás carbônico.
Além disso, o processo para gerar energia emite gases tóxicos (óxidos de enxofre e nitrogênio, por exemplo) e fuligem, o que piora a qualidade do ar, além de causar doenças respiratórias e até chuva ácida.
IA precisa de data centers para funcionar – e isso pode ser um problema
Artaxo aponta que “data centers gigantescos consomem uma quantidade brutal de recursos naturais – eletricidade e água, em particular”.
“Instalar data centers para emitir gases de efeito estufa na geração de eletricidade não faz o menor sentido, nem no Brasil, nem em outros países”, diz o especialista.
Por isso, o professor frisa ser “muito importante que haja uma regulação no Brasil e global para que esses data centers só possam ser instalados com a sua energia gerada por energia solar e eólica”.
‘Data centers gigantescos consomem quantidade brutal de recursos naturais’, diz professor da USP – Imagem: shihabsarkar/Shutterstock
Enquanto isso, empresas de tecnologia, que se tornaram grandes compradoras de energia, apoiam projetos tanto de fontes renováveis quanto de combustíveis fósseis.
Num discurso recente, Simon Stiell, chefe do “departamento” clima na ONU, classificou a indústria de IA como “devoradora de energia”.
Para Stiell, o setor precisa “respeitar a ciência e começar a se alinhar aos esforços climáticos globais — com urgência”. Para Artaxo, também. Mas não parece que isso vai acontecer tão cedo.
O resfriamento de data centers é um problema cada vez maior para a indústria de tecnologia. Com o avanço da inteligência artificial e a construção de estruturas de computação mais potentes, também cresce a preocupação com a quantidade de água necessária para manter os servidores em temperaturas adequadas.
É nesse contexto que uma campanha publicitária levantou uma pergunta inusitada: seria possível usar urina para ajudar a resfriar data centers? A ideia parece brincadeira, mas chama atenção para uma solução que já existe na prática: o uso de água residual tratada para reduzir a dependência de água potável.
Para quem tem pressa:
O crescimento dos data centers e da inteligência artificial aumenta a demanda por água para resfriar servidores, levando empresas e cidades a buscar alternativas ao uso de água potável;
Apesar da brincadeira com urina em uma campanha publicitária, a solução que já existe é o tratamento e reúso de água residual. Em Quincy, nos EUA, um projeto com a Microsoft economiza cerca de 522 milhões de litros de água por ano;
A tecnologia ainda não é adotada em larga escala porque exige infraestrutura, investimento e planejamento, mas pode se tornar uma opção interessante para a redução dos impactos ambientais.
O que o xixi tem a ver com os data centers?
A ideia veio de uma campanha da marca de energéticos Liquid Death e a cervejaria Garage Beer. O comercial ainda contou com o ex-jogador de futebol americano Jason Kelce, um dos investidores da empresa de cerveja. A ação usou o slogan “We want your pee” (algo como “Queremos o seu xixi”) e brincou com a possibilidade de utilizar urina para ajudar na refrigeração de data centers, lançando até um copo que poderia ser utilizado como recipiente para o “líquido”.
Por trás da piada existe uma questão importante. Servidores produzem muito calor durante o funcionamento e precisam de sistemas capazes de manter a temperatura sob controle. Em algumas tecnologias de refrigeração, a água em abundância é parte fundamental desse processo.
Em 2025, os data centers do Google consumiram cerca de 10,9 bilhões de galões de água, o equivalente a 41,3 bilhões de litros. No ano anterior, apenas uma das instalações da empresa, em Council Bluffs, nos Estados Unidos, consumiu aproximadamente 3,8 bilhões de litros.
O crescimento da inteligência artificial tornou o assunto ainda mais relevante. Modelos de IA mais avançados exigem grandes estruturas computacionais, aumentando a quantidade de servidores e, consequentemente, a necessidade de sistemas de resfriamento.
E, calma, todo esse gasto não significa que despejar urina nos equipamentos seja uma alternativa viável. O líquido contém substâncias que podem causar problemas nos sistemas de refrigeração, mas podemos dizer que a base da ideia pode não estar de todo errada.
A solução real já existe, mas ainda enfrenta obstáculos
(Imagem: Frame Stock Footage/Shutterstock)
A alternativa utilizada em alguns locais é tratar e reutilizar água residual. Depois de passar por processos específicos de tratamento, a água pode ser destinada a atividades que não exigem água potável, incluindo sistemas de refrigeração de data centers.
Um exemplo está em Quincy, no estado de Washington, nos Estados Unidos. A cidade criou, em parceria com a Microsoft, um sistema que trata e reutiliza água para o resfriamento de data centers. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), a iniciativa reduz em cerca de 138 milhões de galões, ou 522 milhões de litros, por ano, o uso de água.
Apesar de funcionar, esse tipo de sistema ainda não é uma solução simples de implementar em qualquer lugar. A construção da infraestrutura pode custar milhões de dólares e exigir anos de planejamento. Também é necessário instalar tubulações para transportar a água tratada até os data centers, além de lidar com diferentes regras e processos de licenciamento em cada região.
No caso de Quincy, por exemplo, o projeto custou cerca de US$ 31 milhões e levou mais de uma década entre o planejamento e o início da operação. A distância entre os data centers e a estrutura de tratamento também pode aumentar os custos de conexão.
A própria EPA reconhece essas dificuldades e vem trabalhando para ampliar o uso de água de reúso. A agência incluiu, em seu plano de ação para 2026, medidas para ajudar estados e comunidades a aumentar a utilização de água reciclada no resfriamento de data centers e reduzir obstáculos regulatórios.
Assim, o “xixi” da campanha é apenas uma forma divertida de chamar atenção para uma questão séria: a água de reúso já pode ajudar a reduzir o impacto dos data centers, mas sua expansão depende de infraestrutura, investimento e regras que permitam levar essa solução a mais lugares.
A Amazon está investindo em uma usina movida a gás natural para abastecer um enorme data center de inteligência artificial no Texas. Segundo o The New York Times, a instalação poderá se tornar a maior fonte individual de poluição climática entre as usinas elétricas dos Estados Unidos.
O projeto, no condado de Pecos, no Texas, expõe um desafio da expansão da IA: a tecnologia exige enormes quantidades de energia enquanto a Amazon tenta cumprir a meta de eliminar efetivamente suas emissões de gases de efeito estufa até 2040.
Até 33 milhões de toneladas de CO2 por ano: esse é o limite de emissões autorizado para a futura usina da Amazon. Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon – Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon
Usina poderá gerar 7,65 gigawatts
A futura usina terá 35 turbinas movidas a gás natural, com capacidade para gerar até 7,65 gigawatts. A energia será destinada ao data center planejado pela Amazon.
As licenças permitem que a instalação emita cerca de 33 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano. O volume autorizado supera o dobro das emissões anuais da usina de carvão James H. Miller Jr., no Alabama, que libera aproximadamente 16 milhões de toneladas.
Isso não significa que a usina necessariamente atingirá esse limite. Instalações desse tipo normalmente não operam no máximo permitido pelas licenças.
Por que a IA precisa de tanta energia?
Data centers de inteligência artificial consomem enormes quantidades de eletricidade para realizar os trilhões de cálculos necessários à criação e ao funcionamento desses sistemas.
Como a expansão da IA pressiona a capacidade das redes elétricas, empresas estão buscando alternativas para evitar longas esperas pela conexão com concessionárias. Uma delas é construir usinas próprias no local dos data centers.
O gás natural aparece como uma opção considerada rápida e simples de implementar.
Vamos ver uma explosão de projetos de gás fora da rede no Texas e em outros lugares.
Michael Thomas, fundador da Cleanview, ao The New York Times.
A IA avança, mas precisa de muita energia. O desafio agora é ampliar a infraestrutura sem aumentar o impacto ambiental. Imagem: Amazon/Divulgação
Amazon mantém compromisso climático
As emissões da Amazon vêm aumentando nos últimos anos, e a própria empresa reconheceu que o crescimento dos data centers de IA pode dificultar suas metas ambientais.
Margaret Callahan, porta-voz da Amazon, afirmou que o cenário atual é diferente daquele existente quando a companhia ajudou a criar o Climate Pledge, mas reforçou que o compromisso continua.
A empresa também avalia o uso de energia solar e baterias no data center e afirma que o empreendimento criará milhares de empregos.
O projeto preocupa grupos ambientais pelo potencial impacto sobre o clima e a qualidade do ar. Além do dióxido de carbono, usinas a gás liberam poluentes que contribuem para a formação de smog e podem estar associados a problemas como asma e doenças cardíacas.
O caso mostra o tamanho do desafio energético criado pela corrida da IA: ampliar a infraestrutura necessária para esses sistemas sem aumentar na mesma proporção o impacto ambiental.
Segundo o TechXplore, pesquisadores descobriram que esses sistemas podem gastar até 136,5 vezes mais eletricidade por consulta do que a IA generativa convencional, colocando a eficiência energética no centro das próximas discussões sobre a tecnologia.
Uma única consulta a um agente de IA pode consumir, em média, 348,41 watts-hora em modelos de grande porte. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Muito além de responder perguntas
Os agentes de IA representam uma evolução dos grandes modelos de linguagem. Em vez de apenas gerar respostas, conseguem planejar tarefas, utilizar ferramentas externas, executar códigos e tomar decisões ao longo de várias etapas.
Foi justamente esse comportamento que levou pesquisadores do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (KAIST) a medir, pela primeira vez, o custo computacional e energético desses sistemas em condições reais de operação.
O consumo cresce rapidamente
A pesquisa mostrou que o gasto energético pode ser até 136,5 vezes maior do que o registrado em sistemas tradicionais de perguntas e respostas.
Isso acontece porque um agente de IA consulta repetidamente os grandes modelos de linguagem (LLMs) durante uma mesma tarefa, exigindo muito mais processamento.
Entre os principais resultados estão:
consumo de energia até 136,5 vezes maior por consulta;
aumento da latência em até 153,7 vezes;
GPUs permanecendo ociosas por até 54,5% do tempo de execução;
consumo médio de 348,41 watts-hora por consulta em um modelo com 70 bilhões de parâmetros.
Este estudo é o primeiro a demonstrar quantitativamente não apenas como a IA está se tornando mais inteligente, mas também quanta eletricidade e quais custos são necessários para implementar e sustentar essa inteligência.
Minsoo Rhu, professor da Escola de Engenharia Elétrica do KAIST, em nota.
Data centers podem sentir o impacto da nova geração de agentes de IA, que exigem muito mais processamento para cada tarefa. – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O próximo desafio da inteligência artificial
Os pesquisadores também simularam um cenário com 13,7 bilhões de solicitações diárias de agentes de IA, volume semelhante ao das pesquisas feitas atualmente no Google. Nessa situação, os data centers consumiriam cerca de 198,9 gigawatts, o equivalente a aproximadamente metade do consumo médio de energia dos Estados Unidos.
O estudo também identificou outro gargalo: enquanto ferramentas externas executam determinadas etapas, GPUs de alto desempenho permanecem ociosas durante parte do tempo, reduzindo a eficiência do sistema.
Para a equipe do KAIST, o avanço da IA dependerá da evolução conjunta de modelos, chips de IA, data centers e infraestrutura energética.
“À medida que os agentes de IA se disseminam, será cada vez mais importante adotar uma abordagem integrada de codesign que otimize não apenas a infraestrutura de data centers para IA, mas também os modelos de agentes de IA e a infraestrutura de energia”, destacou Minsoo Rhu.
Os pesquisadores também disponibilizaram em código aberto as implementações dos agentes de IA e os benchmarks utilizados no estudo, o que pode acelerar novas pesquisas e contribuir para o desenvolvimento de uma infraestrutura mais sustentável.
A expansão acelerada da inteligência artificial trouxe um novo desafio para o setor de infraestrutura: manter data centers operando mesmo em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes, incêndios florestais e ventos intensos são alguns dos principais fatores de risco para essas instalações, colocando redes elétricas sob pressão e elevando custos operacionais.
A onda de calor na Europa chamou atenção para o assunto e passou a preocupar seguradoras e empresas de tecnologia. Isso porque, enquanto a população enfrenta temperaturas recordes, operadores de data centers lidam com o desafio de resfriar chips cada vez mais potentes e manter a infraestrutura funcionando sem parar.
Para piorar a situação, o uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado também sobrecarrega as redes de energia, elevando o risco de apagões. E, nesses casos, todo mundo para: desde os sistemas de refrigeração até os data centers que alimentam a inteligência artificial.
O Olhar Digital consultou especialistas para entender o impacto dos eventos climáticos extremos no setor de inteligência artificial – e vice-versa.
Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, a tendência é que esse cenário se intensifique nos próximos anos. Segundo ele, os efeitos das mudanças climáticas não devem atingir apenas os data centers, mas toda a cadeia de geração e distribuição de energia.
Não há a menor dúvida de que os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e tempestades severas, vão afetar cada vez mais todos os sistemas produtivos da geração ao uso de energia. Nesse sentido, os data centers estão em uma posição privilegiada, pois são enormes consumidores de eletricidade e também de água para refrigeração dos supercomputadores.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
ONU já alertou: data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
Expansão para novos mercados
Artaxo afirma que a vulnerabilidade dessa infraestrutura tende a crescer. Para ele, interrupções no fornecimento de energia e a disponibilidade de água para resfriamento devem influenciar, inclusive, a escolha dos locais onde novos data centers serão instalados.
Já segundo Patrick McBride, chefe de Construção Internacional da Zurich, os eventos climáticos severos deixaram de ser uma preocupação secundária para quem investe em infraestrutura digital:
Nos últimos três anos, fenômenos climáticos extremos passaram a representar a principal causa de perdas da seguradora Zurich;
De acordo com McBride à CNBC, o portfólio de riscos relacionado à construção de data centers nos Estados Unidos já responde por cerca de um terço dos prejuízos da companhia;
O executivo explicou que muitos novos empreendimentos estão sendo construídos em regiões suburbanas e rurais, onde os terrenos são mais baratos;
Mas esses locais também têm riscos. Um estudo da empresa de análise climática First Street revelou que 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos elevados de desastres naturais agudos, como enchentes, incêndios florestais e ventos extremos. Além de interromper operações, esses eventos podem elevar custos com seguros, manutenção e reparos.
A necessidade de considerar fatores climáticos na escolha da localização também é destacada por André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil. Segundo ele, os eventos extremos deixaram de ser um risco secundário e passaram a fazer parte do planejamento estratégico das empresas.
De acordo com o especialista, critérios como risco de desastres naturais, disponibilidade de energia, acesso à água e resiliência da rede elétrica já influenciam a seleção dos locais onde novos data centers serão construídos. Além disso, cresce o investimento em sistemas redundantes, microgrids, geração própria de energia e novas soluções de refrigeração para aumentar a continuidade das operações.
O calor pressiona data centers – e a rede elétrica
André Flávio explicou que o desafio vai além de garantir eletricidade suficiente para alimentar os servidores. Segundo ele, dissipar o calor gerado pelos equipamentos tornou-se um dos principais obstáculos técnicos da nova geração de data centers.
Durante ondas de calor, afirmou o especialista, os sistemas convencionais de refrigeração podem atingir seus limites operacionais, enquanto temperaturas mais elevadas fazem os equipamentos de climatização consumirem ainda mais energia. Ao mesmo tempo, muitas tecnologias de resfriamento dependem de água, recurso que pode se tornar escasso em regiões afetadas por secas.
Flávio acrescentou que os racks voltados para IA concentram cada vez mais potência em espaços reduzidos, criando pontos críticos de temperatura que exigem monitoramento em tempo real.
A tendência é que eficiência energética, gestão térmica e segurança do fornecimento de energia se tornem tão importantes quanto a própria capacidade computacional dos data centers.
André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil
No calor, uso simultâneo de sistemas de refrigeração e data centers pressiona redes elétricas – Imagem: west cowboy/Shutterstock
Regulação e fontes renováveis
Além do desafio operacional, o crescimento dos data centers também levanta preocupações ambientais. Segundo Artaxo, projeções indicam que essas instalações poderão consumir cerca de 10% de toda a eletricidade produzida no planeta nos próximos anos.
Para o pesquisador, esse avanço exige regulamentação. “Nós temos que regular e controlar essa atividade, que é intensiva em recursos naturais do nosso planeta”, destacou.
Na avaliação do professor, alimentar data centers com fontes renováveis deve ser um dos pilares dessa estratégia.
Na verdade, um dos aspectos da regulação é obrigar os data center a serem resfriados e a serem alimentados eletricamente com energias renováveis, como solar e eólica. Isso seria muito bom pra sociedade global como um todo.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
Empresas adaptam projetos para enfrentar temperaturas mais altas
Diante desse cenário, empresas do setor já começam a revisar o projeto de novas instalações.
A Microsoft informou à CNBC que desenvolve data centers para operar de forma confiável sob diferentes condições ambientais, utilizando critérios como escolha criteriosa do local, sistemas redundantes e monitoramento em tempo real para reduzir riscos associados ao calor extremo e a outros eventos climáticos.
A Nvidia também anunciou recentemente avanços voltados à eficiência energética. Seus novos servidores de inteligência artificial passam a operar com líquido refrigerante a até 45 °C (acima das temperaturas utilizadas anteriormente). Segundo a empresa, aumentar em apenas um grau a temperatura do sistema de resfriamento pode reduzir em aproximadamente 4% os custos de energia destinados à refrigeração.
Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos já afetam data centers – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock
Para André Flávio, entretanto, apenas migrar para energia renovável não será suficiente para reduzir o impacto ambiental da inteligência artificial. De acordo com ele, a sustentabilidade precisa fazer parte do projeto dos data centers desde sua concepção.
O especialista afirma que as empresas precisarão investir simultaneamente em sistemas de refrigeração mais eficientes, armazenamento de energia, arquiteturas resilientes e na escolha de regiões com maior disponibilidade de energia limpa e menor estresse hídrico.
“A sustentabilidade precisa ser tratada como um requisito de projeto e operação, e não apenas como uma questão de suprimento energético”, destacou.
Artaxo vai além e defende que a expansão acelerada dos data centers exige limites. Segundo ele, o consumo crescente de energia e água já levou algumas regiões dos Estados Unidos a restringirem novas instalações.
Para o pesquisador, a ideia de que a inteligência artificial compensará seu próprio impacto ambiental ao aumentar a eficiência de outros setores é uma falácia.
Nós temos que reduzir o consumo de água e de eletricidade de data centers do mundo inteiro, porque obviamente esses data centers funcionam globalmente. Temos que escolher cuidadosamente onde instalá-los com o menor impacto ambiental possível.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
A Oracle decidiu acelerar de vez sua aposta em inteligência artificial enquanto faz um ajuste pesado no tamanho da própria operação. No último ano, a empresa cortou cerca de 21 mil empregos, em um movimento que já vinha sendo desenhado junto à expansão de sua infraestrutura de dados.
O cenário não é exclusivo da companhia. O setor de tecnologia como um todo vive uma fase de reorganização, com cortes em várias frentes e uma migração clara de recursos para projetos de IA e construção de data centers mais robustos.
“IA resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”, diz a Oracle sobre sua nova fase de reestruturação. – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
Cortes de empregos e o peso da mudança
A Oracle, baseada em Austin (Texas), reduziu aproximadamente 13% de sua força de trabalho no último ano fiscal. No fim de maio, a empresa contabilizava cerca de 141 mil funcionários, contra 162 mil no período anterior, comenta o The Wall Street Journal.
As demissões começaram em março e fazem parte de um processo contínuo de reestruturação, segundo o relatório anual. Nesse período, a companhia também informou gastos de US$ 1,84 bilhão (cerca de R$ 9,2 bilhões) ligados a desligamentos e reorganização interna.
Em meio a esse ajuste, a inteligência artificial já aparece como peça central das decisões. A própria Oracle afirmou, em comunicado, que o uso dessas tecnologias “resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”. A frase, direta, resume bem o momento: a IA deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a influenciar diretamente o tamanho das equipes.
Bilhões em infraestrutura e uma aposta crescente
Enquanto reduz sua estrutura, a Oracle acelera investimentos em outra direção. A empresa está ampliando sua rede de data centers voltados à inteligência artificial, com previsão de gastos líquidos de US$ 70 bilhões (aproximadamente R$ 350 bilhões) neste ano fiscal.
O valor é bem acima dos US$ 55,7 bilhões (cerca de R$ 278 bilhões) investidos no ano anterior — um salto que ajuda a dimensionar o ritmo da estratégia.
Esse movimento não é isolado. Meta e Amazon também vêm seguindo caminho parecido, com cortes de pessoal enquanto direcionam mais recursos para infraestrutura de IA.
Entre os principais pilares dessa estratégia estão:
expansão global de data centers voltados à inteligência artificial
aumento contínuo dos investimentos em infraestrutura digital
reorganização interna com redução de milhares de postos de trabalho
foco crescente em serviços de nuvem e IA
busca por eficiência em um mercado cada vez mais competitivo
Meta e Amazon também seguem tendência de cortes enquanto redirecionam recursos para projetos de IA. Imagem: Poetra.RH/Shutterstock
Riscos altos e uma disputa em andamento
A própria Oracle reconhece que a estratégia envolve incertezas relevantes. A empresa afirma que, se concorrentes alcançarem maior aceitação de mercado com suas soluções de IA ou se os custos superarem o esperado, os resultados podem não acompanhar o volume de investimentos.
Ao mesmo tempo, há outro ponto de pressão: recuar agora pode significar perder espaço numa disputa tecnológica que avança rapidamente.
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Nos últimos anos, a companhia ganhou destaque ao fechar contratos bilionários ligados à capacidade de processamento. Um deles envolve a OpenAI, com previsão de cerca de US$ 300 bilhões (aproximadamente R$ 1,5 trilhão) em computação ao longo de cinco anos.
Apesar do entusiasmo inicial do mercado, investidores começam a olhar com mais cautela para o tamanho dos aportes das big techs, especialmente diante da pressão sobre margens de lucro causada pela expansão agressiva da infraestrutura de IA.
No fim das contas, o que está em jogo vai além de cortes ou investimentos isolados. É uma mudança mais profunda: a inteligência artificial está redesenhando não só os produtos dessas empresas, mas também o tamanho, a estrutura e a lógica de operação das gigantes de tecnologia.