O resfriamento de data centers é um problema cada vez maior para a indústria de tecnologia. Com o avanço da inteligência artificial e a construção de estruturas de computação mais potentes, também cresce a preocupação com a quantidade de água necessária para manter os servidores em temperaturas adequadas.
É nesse contexto que uma campanha publicitária levantou uma pergunta inusitada: seria possível usar urina para ajudar a resfriar data centers? A ideia parece brincadeira, mas chama atenção para uma solução que já existe na prática: o uso de água residual tratada para reduzir a dependência de água potável.
Para quem tem pressa:
O crescimento dos data centers e da inteligência artificial aumenta a demanda por água para resfriar servidores, levando empresas e cidades a buscar alternativas ao uso de água potável;
Apesar da brincadeira com urina em uma campanha publicitária, a solução que já existe é o tratamento e reúso de água residual. Em Quincy, nos EUA, um projeto com a Microsoft economiza cerca de 522 milhões de litros de água por ano;
A tecnologia ainda não é adotada em larga escala porque exige infraestrutura, investimento e planejamento, mas pode se tornar uma opção interessante para a redução dos impactos ambientais.
O que o xixi tem a ver com os data centers?
A ideia veio de uma campanha da marca de energéticos Liquid Death e a cervejaria Garage Beer. O comercial ainda contou com o ex-jogador de futebol americano Jason Kelce, um dos investidores da empresa de cerveja. A ação usou o slogan “We want your pee” (algo como “Queremos o seu xixi”) e brincou com a possibilidade de utilizar urina para ajudar na refrigeração de data centers, lançando até um copo que poderia ser utilizado como recipiente para o “líquido”.
Por trás da piada existe uma questão importante. Servidores produzem muito calor durante o funcionamento e precisam de sistemas capazes de manter a temperatura sob controle. Em algumas tecnologias de refrigeração, a água em abundância é parte fundamental desse processo.
Em 2025, os data centers do Google consumiram cerca de 10,9 bilhões de galões de água, o equivalente a 41,3 bilhões de litros. No ano anterior, apenas uma das instalações da empresa, em Council Bluffs, nos Estados Unidos, consumiu aproximadamente 3,8 bilhões de litros.
O crescimento da inteligência artificial tornou o assunto ainda mais relevante. Modelos de IA mais avançados exigem grandes estruturas computacionais, aumentando a quantidade de servidores e, consequentemente, a necessidade de sistemas de resfriamento.
E, calma, todo esse gasto não significa que despejar urina nos equipamentos seja uma alternativa viável. O líquido contém substâncias que podem causar problemas nos sistemas de refrigeração, mas podemos dizer que a base da ideia pode não estar de todo errada.
A solução real já existe, mas ainda enfrenta obstáculos
(Imagem: Frame Stock Footage/Shutterstock)
A alternativa utilizada em alguns locais é tratar e reutilizar água residual. Depois de passar por processos específicos de tratamento, a água pode ser destinada a atividades que não exigem água potável, incluindo sistemas de refrigeração de data centers.
Um exemplo está em Quincy, no estado de Washington, nos Estados Unidos. A cidade criou, em parceria com a Microsoft, um sistema que trata e reutiliza água para o resfriamento de data centers. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), a iniciativa reduz em cerca de 138 milhões de galões, ou 522 milhões de litros, por ano, o uso de água.
Apesar de funcionar, esse tipo de sistema ainda não é uma solução simples de implementar em qualquer lugar. A construção da infraestrutura pode custar milhões de dólares e exigir anos de planejamento. Também é necessário instalar tubulações para transportar a água tratada até os data centers, além de lidar com diferentes regras e processos de licenciamento em cada região.
No caso de Quincy, por exemplo, o projeto custou cerca de US$ 31 milhões e levou mais de uma década entre o planejamento e o início da operação. A distância entre os data centers e a estrutura de tratamento também pode aumentar os custos de conexão.
A própria EPA reconhece essas dificuldades e vem trabalhando para ampliar o uso de água de reúso. A agência incluiu, em seu plano de ação para 2026, medidas para ajudar estados e comunidades a aumentar a utilização de água reciclada no resfriamento de data centers e reduzir obstáculos regulatórios.
Assim, o “xixi” da campanha é apenas uma forma divertida de chamar atenção para uma questão séria: a água de reúso já pode ajudar a reduzir o impacto dos data centers, mas sua expansão depende de infraestrutura, investimento e regras que permitam levar essa solução a mais lugares.
A Amazon está investindo em uma usina movida a gás natural para abastecer um enorme data center de inteligência artificial no Texas. Segundo o The New York Times, a instalação poderá se tornar a maior fonte individual de poluição climática entre as usinas elétricas dos Estados Unidos.
O projeto, no condado de Pecos, no Texas, expõe um desafio da expansão da IA: a tecnologia exige enormes quantidades de energia enquanto a Amazon tenta cumprir a meta de eliminar efetivamente suas emissões de gases de efeito estufa até 2040.
Até 33 milhões de toneladas de CO2 por ano: esse é o limite de emissões autorizado para a futura usina da Amazon. Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon – Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon
Usina poderá gerar 7,65 gigawatts
A futura usina terá 35 turbinas movidas a gás natural, com capacidade para gerar até 7,65 gigawatts. A energia será destinada ao data center planejado pela Amazon.
As licenças permitem que a instalação emita cerca de 33 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano. O volume autorizado supera o dobro das emissões anuais da usina de carvão James H. Miller Jr., no Alabama, que libera aproximadamente 16 milhões de toneladas.
Isso não significa que a usina necessariamente atingirá esse limite. Instalações desse tipo normalmente não operam no máximo permitido pelas licenças.
Por que a IA precisa de tanta energia?
Data centers de inteligência artificial consomem enormes quantidades de eletricidade para realizar os trilhões de cálculos necessários à criação e ao funcionamento desses sistemas.
Como a expansão da IA pressiona a capacidade das redes elétricas, empresas estão buscando alternativas para evitar longas esperas pela conexão com concessionárias. Uma delas é construir usinas próprias no local dos data centers.
O gás natural aparece como uma opção considerada rápida e simples de implementar.
Vamos ver uma explosão de projetos de gás fora da rede no Texas e em outros lugares.
Michael Thomas, fundador da Cleanview, ao The New York Times.
A IA avança, mas precisa de muita energia. O desafio agora é ampliar a infraestrutura sem aumentar o impacto ambiental. Imagem: Amazon/Divulgação
Amazon mantém compromisso climático
As emissões da Amazon vêm aumentando nos últimos anos, e a própria empresa reconheceu que o crescimento dos data centers de IA pode dificultar suas metas ambientais.
Margaret Callahan, porta-voz da Amazon, afirmou que o cenário atual é diferente daquele existente quando a companhia ajudou a criar o Climate Pledge, mas reforçou que o compromisso continua.
A empresa também avalia o uso de energia solar e baterias no data center e afirma que o empreendimento criará milhares de empregos.
O projeto preocupa grupos ambientais pelo potencial impacto sobre o clima e a qualidade do ar. Além do dióxido de carbono, usinas a gás liberam poluentes que contribuem para a formação de smog e podem estar associados a problemas como asma e doenças cardíacas.
O caso mostra o tamanho do desafio energético criado pela corrida da IA: ampliar a infraestrutura necessária para esses sistemas sem aumentar na mesma proporção o impacto ambiental.
Segundo o TechXplore, pesquisadores descobriram que esses sistemas podem gastar até 136,5 vezes mais eletricidade por consulta do que a IA generativa convencional, colocando a eficiência energética no centro das próximas discussões sobre a tecnologia.
Uma única consulta a um agente de IA pode consumir, em média, 348,41 watts-hora em modelos de grande porte. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Muito além de responder perguntas
Os agentes de IA representam uma evolução dos grandes modelos de linguagem. Em vez de apenas gerar respostas, conseguem planejar tarefas, utilizar ferramentas externas, executar códigos e tomar decisões ao longo de várias etapas.
Foi justamente esse comportamento que levou pesquisadores do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (KAIST) a medir, pela primeira vez, o custo computacional e energético desses sistemas em condições reais de operação.
O consumo cresce rapidamente
A pesquisa mostrou que o gasto energético pode ser até 136,5 vezes maior do que o registrado em sistemas tradicionais de perguntas e respostas.
Isso acontece porque um agente de IA consulta repetidamente os grandes modelos de linguagem (LLMs) durante uma mesma tarefa, exigindo muito mais processamento.
Entre os principais resultados estão:
consumo de energia até 136,5 vezes maior por consulta;
aumento da latência em até 153,7 vezes;
GPUs permanecendo ociosas por até 54,5% do tempo de execução;
consumo médio de 348,41 watts-hora por consulta em um modelo com 70 bilhões de parâmetros.
Este estudo é o primeiro a demonstrar quantitativamente não apenas como a IA está se tornando mais inteligente, mas também quanta eletricidade e quais custos são necessários para implementar e sustentar essa inteligência.
Minsoo Rhu, professor da Escola de Engenharia Elétrica do KAIST, em nota.
Data centers podem sentir o impacto da nova geração de agentes de IA, que exigem muito mais processamento para cada tarefa. – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O próximo desafio da inteligência artificial
Os pesquisadores também simularam um cenário com 13,7 bilhões de solicitações diárias de agentes de IA, volume semelhante ao das pesquisas feitas atualmente no Google. Nessa situação, os data centers consumiriam cerca de 198,9 gigawatts, o equivalente a aproximadamente metade do consumo médio de energia dos Estados Unidos.
O estudo também identificou outro gargalo: enquanto ferramentas externas executam determinadas etapas, GPUs de alto desempenho permanecem ociosas durante parte do tempo, reduzindo a eficiência do sistema.
Para a equipe do KAIST, o avanço da IA dependerá da evolução conjunta de modelos, chips de IA, data centers e infraestrutura energética.
“À medida que os agentes de IA se disseminam, será cada vez mais importante adotar uma abordagem integrada de codesign que otimize não apenas a infraestrutura de data centers para IA, mas também os modelos de agentes de IA e a infraestrutura de energia”, destacou Minsoo Rhu.
Os pesquisadores também disponibilizaram em código aberto as implementações dos agentes de IA e os benchmarks utilizados no estudo, o que pode acelerar novas pesquisas e contribuir para o desenvolvimento de uma infraestrutura mais sustentável.
A expansão acelerada da inteligência artificial trouxe um novo desafio para o setor de infraestrutura: manter data centers operando mesmo em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes, incêndios florestais e ventos intensos são alguns dos principais fatores de risco para essas instalações, colocando redes elétricas sob pressão e elevando custos operacionais.
A onda de calor na Europa chamou atenção para o assunto e passou a preocupar seguradoras e empresas de tecnologia. Isso porque, enquanto a população enfrenta temperaturas recordes, operadores de data centers lidam com o desafio de resfriar chips cada vez mais potentes e manter a infraestrutura funcionando sem parar.
Para piorar a situação, o uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado também sobrecarrega as redes de energia, elevando o risco de apagões. E, nesses casos, todo mundo para: desde os sistemas de refrigeração até os data centers que alimentam a inteligência artificial.
O Olhar Digital consultou especialistas para entender o impacto dos eventos climáticos extremos no setor de inteligência artificial – e vice-versa.
Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, a tendência é que esse cenário se intensifique nos próximos anos. Segundo ele, os efeitos das mudanças climáticas não devem atingir apenas os data centers, mas toda a cadeia de geração e distribuição de energia.
Não há a menor dúvida de que os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e tempestades severas, vão afetar cada vez mais todos os sistemas produtivos da geração ao uso de energia. Nesse sentido, os data centers estão em uma posição privilegiada, pois são enormes consumidores de eletricidade e também de água para refrigeração dos supercomputadores.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
ONU já alertou: data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
Expansão para novos mercados
Artaxo afirma que a vulnerabilidade dessa infraestrutura tende a crescer. Para ele, interrupções no fornecimento de energia e a disponibilidade de água para resfriamento devem influenciar, inclusive, a escolha dos locais onde novos data centers serão instalados.
Já segundo Patrick McBride, chefe de Construção Internacional da Zurich, os eventos climáticos severos deixaram de ser uma preocupação secundária para quem investe em infraestrutura digital:
Nos últimos três anos, fenômenos climáticos extremos passaram a representar a principal causa de perdas da seguradora Zurich;
De acordo com McBride à CNBC, o portfólio de riscos relacionado à construção de data centers nos Estados Unidos já responde por cerca de um terço dos prejuízos da companhia;
O executivo explicou que muitos novos empreendimentos estão sendo construídos em regiões suburbanas e rurais, onde os terrenos são mais baratos;
Mas esses locais também têm riscos. Um estudo da empresa de análise climática First Street revelou que 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos elevados de desastres naturais agudos, como enchentes, incêndios florestais e ventos extremos. Além de interromper operações, esses eventos podem elevar custos com seguros, manutenção e reparos.
A necessidade de considerar fatores climáticos na escolha da localização também é destacada por André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil. Segundo ele, os eventos extremos deixaram de ser um risco secundário e passaram a fazer parte do planejamento estratégico das empresas.
De acordo com o especialista, critérios como risco de desastres naturais, disponibilidade de energia, acesso à água e resiliência da rede elétrica já influenciam a seleção dos locais onde novos data centers serão construídos. Além disso, cresce o investimento em sistemas redundantes, microgrids, geração própria de energia e novas soluções de refrigeração para aumentar a continuidade das operações.
O calor pressiona data centers – e a rede elétrica
André Flávio explicou que o desafio vai além de garantir eletricidade suficiente para alimentar os servidores. Segundo ele, dissipar o calor gerado pelos equipamentos tornou-se um dos principais obstáculos técnicos da nova geração de data centers.
Durante ondas de calor, afirmou o especialista, os sistemas convencionais de refrigeração podem atingir seus limites operacionais, enquanto temperaturas mais elevadas fazem os equipamentos de climatização consumirem ainda mais energia. Ao mesmo tempo, muitas tecnologias de resfriamento dependem de água, recurso que pode se tornar escasso em regiões afetadas por secas.
Flávio acrescentou que os racks voltados para IA concentram cada vez mais potência em espaços reduzidos, criando pontos críticos de temperatura que exigem monitoramento em tempo real.
A tendência é que eficiência energética, gestão térmica e segurança do fornecimento de energia se tornem tão importantes quanto a própria capacidade computacional dos data centers.
André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil
No calor, uso simultâneo de sistemas de refrigeração e data centers pressiona redes elétricas – Imagem: west cowboy/Shutterstock
Regulação e fontes renováveis
Além do desafio operacional, o crescimento dos data centers também levanta preocupações ambientais. Segundo Artaxo, projeções indicam que essas instalações poderão consumir cerca de 10% de toda a eletricidade produzida no planeta nos próximos anos.
Para o pesquisador, esse avanço exige regulamentação. “Nós temos que regular e controlar essa atividade, que é intensiva em recursos naturais do nosso planeta”, destacou.
Na avaliação do professor, alimentar data centers com fontes renováveis deve ser um dos pilares dessa estratégia.
Na verdade, um dos aspectos da regulação é obrigar os data center a serem resfriados e a serem alimentados eletricamente com energias renováveis, como solar e eólica. Isso seria muito bom pra sociedade global como um todo.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
Empresas adaptam projetos para enfrentar temperaturas mais altas
Diante desse cenário, empresas do setor já começam a revisar o projeto de novas instalações.
A Microsoft informou à CNBC que desenvolve data centers para operar de forma confiável sob diferentes condições ambientais, utilizando critérios como escolha criteriosa do local, sistemas redundantes e monitoramento em tempo real para reduzir riscos associados ao calor extremo e a outros eventos climáticos.
A Nvidia também anunciou recentemente avanços voltados à eficiência energética. Seus novos servidores de inteligência artificial passam a operar com líquido refrigerante a até 45 °C (acima das temperaturas utilizadas anteriormente). Segundo a empresa, aumentar em apenas um grau a temperatura do sistema de resfriamento pode reduzir em aproximadamente 4% os custos de energia destinados à refrigeração.
Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos já afetam data centers – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock
Para André Flávio, entretanto, apenas migrar para energia renovável não será suficiente para reduzir o impacto ambiental da inteligência artificial. De acordo com ele, a sustentabilidade precisa fazer parte do projeto dos data centers desde sua concepção.
O especialista afirma que as empresas precisarão investir simultaneamente em sistemas de refrigeração mais eficientes, armazenamento de energia, arquiteturas resilientes e na escolha de regiões com maior disponibilidade de energia limpa e menor estresse hídrico.
“A sustentabilidade precisa ser tratada como um requisito de projeto e operação, e não apenas como uma questão de suprimento energético”, destacou.
Artaxo vai além e defende que a expansão acelerada dos data centers exige limites. Segundo ele, o consumo crescente de energia e água já levou algumas regiões dos Estados Unidos a restringirem novas instalações.
Para o pesquisador, a ideia de que a inteligência artificial compensará seu próprio impacto ambiental ao aumentar a eficiência de outros setores é uma falácia.
Nós temos que reduzir o consumo de água e de eletricidade de data centers do mundo inteiro, porque obviamente esses data centers funcionam globalmente. Temos que escolher cuidadosamente onde instalá-los com o menor impacto ambiental possível.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
A Oracle decidiu acelerar de vez sua aposta em inteligência artificial enquanto faz um ajuste pesado no tamanho da própria operação. No último ano, a empresa cortou cerca de 21 mil empregos, em um movimento que já vinha sendo desenhado junto à expansão de sua infraestrutura de dados.
O cenário não é exclusivo da companhia. O setor de tecnologia como um todo vive uma fase de reorganização, com cortes em várias frentes e uma migração clara de recursos para projetos de IA e construção de data centers mais robustos.
“IA resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”, diz a Oracle sobre sua nova fase de reestruturação. – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
Cortes de empregos e o peso da mudança
A Oracle, baseada em Austin (Texas), reduziu aproximadamente 13% de sua força de trabalho no último ano fiscal. No fim de maio, a empresa contabilizava cerca de 141 mil funcionários, contra 162 mil no período anterior, comenta o The Wall Street Journal.
As demissões começaram em março e fazem parte de um processo contínuo de reestruturação, segundo o relatório anual. Nesse período, a companhia também informou gastos de US$ 1,84 bilhão (cerca de R$ 9,2 bilhões) ligados a desligamentos e reorganização interna.
Em meio a esse ajuste, a inteligência artificial já aparece como peça central das decisões. A própria Oracle afirmou, em comunicado, que o uso dessas tecnologias “resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”. A frase, direta, resume bem o momento: a IA deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a influenciar diretamente o tamanho das equipes.
Bilhões em infraestrutura e uma aposta crescente
Enquanto reduz sua estrutura, a Oracle acelera investimentos em outra direção. A empresa está ampliando sua rede de data centers voltados à inteligência artificial, com previsão de gastos líquidos de US$ 70 bilhões (aproximadamente R$ 350 bilhões) neste ano fiscal.
O valor é bem acima dos US$ 55,7 bilhões (cerca de R$ 278 bilhões) investidos no ano anterior — um salto que ajuda a dimensionar o ritmo da estratégia.
Esse movimento não é isolado. Meta e Amazon também vêm seguindo caminho parecido, com cortes de pessoal enquanto direcionam mais recursos para infraestrutura de IA.
Entre os principais pilares dessa estratégia estão:
expansão global de data centers voltados à inteligência artificial
aumento contínuo dos investimentos em infraestrutura digital
reorganização interna com redução de milhares de postos de trabalho
foco crescente em serviços de nuvem e IA
busca por eficiência em um mercado cada vez mais competitivo
Meta e Amazon também seguem tendência de cortes enquanto redirecionam recursos para projetos de IA. Imagem: Poetra.RH/Shutterstock
Riscos altos e uma disputa em andamento
A própria Oracle reconhece que a estratégia envolve incertezas relevantes. A empresa afirma que, se concorrentes alcançarem maior aceitação de mercado com suas soluções de IA ou se os custos superarem o esperado, os resultados podem não acompanhar o volume de investimentos.
Ao mesmo tempo, há outro ponto de pressão: recuar agora pode significar perder espaço numa disputa tecnológica que avança rapidamente.
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Nos últimos anos, a companhia ganhou destaque ao fechar contratos bilionários ligados à capacidade de processamento. Um deles envolve a OpenAI, com previsão de cerca de US$ 300 bilhões (aproximadamente R$ 1,5 trilhão) em computação ao longo de cinco anos.
Apesar do entusiasmo inicial do mercado, investidores começam a olhar com mais cautela para o tamanho dos aportes das big techs, especialmente diante da pressão sobre margens de lucro causada pela expansão agressiva da infraestrutura de IA.
No fim das contas, o que está em jogo vai além de cortes ou investimentos isolados. É uma mudança mais profunda: a inteligência artificial está redesenhando não só os produtos dessas empresas, mas também o tamanho, a estrutura e a lógica de operação das gigantes de tecnologia.
A Organização das Nações Unidas (ONU) fez um alerta direto às grandes empresas de inteligência artificial: chegou a hora de abrir a conta e mostrar quanto essa tecnologia realmente custa ao planeta. O recado foi dado durante a Climate Action Week, em Londres.
Segundo a Reuters, o secretário-geral da ONU, António Guterres, voltou a cobrar transparência sobre o impacto ambiental dos data centers que sustentam sistemas de IA.
Data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água, segundo alerta feito pela ONU em Londres. – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O custo invisível da IA
A discussão não é exatamente nova, mas ganhou outro peso com a velocidade da inteligência artificial. Por trás dos modelos que viraram parte do dia a dia, existe uma infraestrutura enorme — e cara — de data centers que funcionam sem parar.
Guterres defende que as empresas divulguem, de forma clara, quanto emitem de carbono, quanta água consomem e quanto solo ocupam. E fez um alerta direto: até 2030, esses sistemas podem consumir mais energia do que todos os países do mundo, exceto cinco. Também podem demandar água suficiente para abastecer cerca de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana por um ano.
“Se a IA deve ajudar a construir um futuro melhor, ela precisa ser honesta sobre o que nos custa hoje”, disse António Guterres.
Data centers, energia e uma conta que cresce rápido
Os data centers são o coração da inteligência artificial moderna. E, para funcionar, eles não param nunca. Isso significa consumo constante de energia e sistemas intensos de refrigeração — que também exigem muita água.
Na tentativa de sustentar esse crescimento, empresas vêm combinando diferentes fontes de energia, incluindo gás natural e até nuclear, ao mesmo tempo em que anunciam metas de neutralização de carbono. Mas, para a ONU, isso ainda não é suficiente.
A organização quer acelerar a mudança para fontes renováveis e defende que toda essa infraestrutura seja alimentada por energia limpa até 2030.
E aqui o cenário fica mais claro quando se observa o conjunto:
consumo de energia segue crescendo com a expansão da IA
sistemas de refrigeração aumentam a demanda por água
a infraestrutura digital se espalha em ritmo acelerado pelo mundo
metas de energia renovável ainda estão distantes da prática
falta clareza sobre o impacto ambiental real das operações
Data centers funcionam sem parar e ampliam consumo de energia, segundo alerta da Organização das Nações Unidas. – Imagem: KM Stock/Shutterstock
O metano entra de novo na conversa
No meio desse debate sobre IA, Guterres puxou outro tema que costuma ficar em segundo plano: o metano. Ele pediu mais ação do setor de petróleo e gás para cortar emissões desse gás, que é altamente poluente e tem papel importante no aquecimento global.
O pedido é direto: reduzir vazamentos, acabar com a queima rotineira de gás e adotar padrões científicos mais rígidos. E ele foi além — disse que o mundo ainda não está na rota certa para cumprir suas metas climáticas.
Antes da COP31, uma cobrança global
A ONU também já olha para a próxima grande reunião do clima. Antes da COP31, marcada para a Turquia, Guterres vai reunir líderes mundiais em setembro para tentar acelerar compromissos.
A ideia é empurrar uma transição energética mais organizada, menos dependente de combustíveis fósseis. Mas, no fim das contas, o recado principal não muda: a inteligência artificial pode até estar moldando o futuro, mas o impacto ambiental que ela deixa no presente não dá mais para ficar fora da conta.
A SpaceX fechou um acordo de computação com a Reflection AI, startup de código aberto, em um contrato que pode chegar a US$ 6,3 bilhões, segundo documentos citados pela CNBC.
Data centers da SpaceX passam a atender clientes externos em nova fase do negócio de tecnologia. – Imagem: FOTOGRIN/Shutterstock
O que está por trás do acordo bilionário
A SpaceX firmou uma parceria de computação com a Reflection AI, startup focada em modelos de código aberto, para fornecimento de infraestrutura de processamento em larga escala. O acordo envolve o uso de chipsNvidia GB300 e reforça a disputa crescente por capacidade de computação avançada no setor de inteligência artificial.
Se o contrato for cumprido até o fim do prazo, o valor total pode atingir US$ 6,3 bilhões. Na prática, isso coloca a parceria entre as mais relevantes do setor de infraestrutura de IA.
O acordo pode ser encerrado por qualquer uma das partes com aviso prévio de 90 dias após os primeiros três meses.
Infraestrutura da SpaceX ganha outro papel
A SpaceX vem ampliando o uso de seus data centers, especialmente o sistema Colossus, criado em parte para sustentar o Grok, chatbot de IA de Elon Musk.
Agora, essa estrutura também passa a ser oferecida a clientes externos. É uma mudança importante: de uso interno para um serviço disputado no mercado de computação em nuvem.
A SpaceX já vinha fechando acordos com empresas como Anthropic, Google e Cursor. Aos poucos, vai se consolidando como mais um player nesse mercado de infraestrutura de IA.
Chips Nvidia GB300 estão no centro da disputa por poder computacional em inteligência artificial. – Imagem: alexgo.photography/Shutterstock
IA aberta volta ao centro do debate
A Reflection AI aposta no modelo de código aberto em um momento em que empresas e governos questionam a dependência de sistemas fechados de inteligência artificial.
O tema ganhou força depois de episódios envolvendo restrições de acesso a modelos, o que acelerou a busca por alternativas mais controláveis.
Na prática, isso abriu espaço para empresas que defendem mais transparência e flexibilidade no uso de IA.
Entre os principais pontos do acordo estão:
Acesso imediato aos chips Nvidia GB300 para IA avançada
Pagamento mensal de US$ 150 milhões até 2029
Uso da infraestrutura Colossus da SpaceX em escala externa
Possibilidade de rescisão após aviso prévio de 90 dias
No fim, o movimento reforça uma tendência mais ampla: o poder computacional virou peça central na disputa global por inteligência artificial — e, cada vez mais, um ativo estratégico disputado por grandes empresas de tecnologia.
A inteligência artificial (IA) promete revolucionar o mundo, mas isso tem um preço. Os grandes data centers que sustentam essa tecnologia consomem quantidades cada vez maiores de energia e água, aumentando a pressão sobre recursos limitados. Diante desse cenário, empresas passaram a considerar uma alternativa que parecia improvável: instalar parte dessa infraestrutura no espaço.
Com a SpaceX expandindo rapidamente suas operações, a união entre foguetes e processamento de dados deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começou a se tornar realidade.
Ilustração de data center de inteligência artificial (IA) a bordo de satélite no espaço – Crédito: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital
Mas o espaço é a solução definitiva ou uma aposta megalomaníaca com riscos catastróficos? Em uma conversa no programa Olhar Espacial, que vai ao ar ao vivo todas as sextas-feiras pelas plataformas do Olhar Digital, o apresentador Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON), e o físico Roberto ‘Pena’ Spinelli, especialista em Machine Learning, debateram esse cenário. Para eles, o que o mercado vende como “energia ilimitada” no espaço enfrenta gargalos de física, regulação e segurança que a indústria ainda não superou.
Ideia audaciosa enfrenta desafios
A ideia de levar servidores para o espaço começou a ganhar tração no final de 2024. Pena destaca que os primeiros projetos, como o da empresa Lumen, propunham painéis solares de quatro quilômetros quadrados. “Parecia um delírio técnico, dado o tamanho e a complexidade de manobra”, explica, relatando que essa iniciativa evoluiu para a StarCloud, que em maio de 2025 lançou com sucesso uma GPU Nvidia H100 ao espaço. Foi a prova de conceito que legitimou a discussão para o mercado financeiro.
Segundo Pena, a transição daquele conceito inicial para constelações de milhares de microsatélites, como o projeto TeraWave, da Blue Origin, ou a meta de um milhão de satélites de Elon Musk, alterou a mecânica orbital. Para o físico, essa corrida é movida pelo custo de oportunidade. “Investidores não focam apenas na viabilidade atual. Eles querem garantir que, caso essa tecnologia se torne o novo padrão, eles já sejam os proprietários da infraestrutura crítica em órbita”.
À esquerda, Marcelo Zurita, astrônomo e apresentador do Programa Olhar Espacial. À direita, o convidado Roberto ‘Pena’ Spinelli, físico e especialista em Machine Learning. – Crédito: Olhar Espacial
Zurita ressaltou o apelo da energia ininterrupta. “A ideia reside na órbita heliossíncrona. Ao lançar o satélite em uma inclinação específica, é possível manter a mesma posição relativa ao Sol, garantindo iluminação contínua durante todo o ano”, explica. “Dessa forma, evita-se o ciclo de sombra terrestre, que exigiria baterias massivas e ineficientes.”
Entretanto, a física impõe barreiras severas. Se você busca baixa latência para IAs, precisa estar na órbita terrestre baixa (LEO). “Não é um espaço infinito”, alerta Pena. “É um recurso limitado e quem o ocupa primeiro trava o acesso de outros. Além disso, no espaço, não há convecção ou condução. A única forma de emitir ou dissipar o calor é por radiação, um processo extremamente ineficiente.”
Pena reforça que a complexidade térmica é o maior gargalo. Na Terra, utilizamos água e ar para resfriar servidores. No vácuo, não há ar para transportar calor. “Quando olhamos a Estação Espacial Internacional, aqueles grandes painéis que parecem colchas de retalhos são radiadores. Sem eles, o calor gerado pelos chips derreteria o equipamento.” Para escalar processamento, precisaríamos de corpos gigantescos que estariam expostos a detritos e radiação cósmica o tempo todo.
Uma solução é o “trem de satélites”, uma espécie de “anel” de máquinas girando em torno da Terra. Cada unidade se comunicaria com a vizinha, reduzindo a latência necessária para computação. Embora mais viável que um painel gigante, manter esse alinhamento perfeitamente coeso diante de variações gravitacionais e efeitos de maré é um desafio de engenharia brutal, que exigiria satélites com capacidades de manobra autônoma muito além do que vemos hoje.
Futuro da IA pode ser no espaço (em breve) – Crédito: Imagem gerada por IA/Shutterstock
Especialistas protestam: Elon Musk não pode ser o “dono do espaço”
A fusão de interesses de Musk, com a SpaceX, a Tesla e XAI, desenha um império vertical inalcançável para a maioria. Para Zurita, isso traz uma dimensão geopolítica perigosa. “O Tratado do Espaço Exterior, dos anos de 1960, é obsoleto. Não há regulação que impeça uma empresa de ocupar uma órbita crítica e cobrar o equivalente a um aluguel de toda a humanidade pelo uso do espaço”.
Em 9 de janeiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos autorizou a expansão da constelação de segunda geração da Starlink em mais 7.500 satélites. Pouco depois, no dia 30 do mesmo mês, a agência passou a analisar um novo pedido da SpaceX para a operação de um sistema que prevê até um milhão de satélites dedicados exclusivamente ao processamento de dados de IA.
Essa postura de licenciamento em escala massiva é contestada por Pena. “A FCC é um órgão dos EUA. Que direito ela tem de autorizar o preenchimento da órbita baixa com um milhão de satélites, ignorando o impacto para o resto do planeta? O espaço é um bem universal”.
Além da ética, há o risco físico: o Efeito Kessler. Com milhares de satélites operando próximos, o impacto de um simples parafuso perdido poderia desencadear uma reação em cadeia de colisões.
Representação artística da Síndrome de Kessler. – Crédito: Gerador de imagens IA/Shutterstock
Zurita detalha esse efeito. Se um satélite é destruído, ele gera milhares de novos fragmentos. Se isso atinge o vizinho, iniciamos uma catástrofe que pode inviabilizar o acesso ao espaço por décadas. “Em 2009, Donald Kessler previu que chegaríamos a um ponto crítico. Desde então, a SpaceX lançou milhares de satélites. Somar um milhão a essa conta é uma escala de risco que a humanidade nunca enfrentou”.
A poluição visual é outro custo negligenciado. Se a infraestrutura de IA ocupar órbitas heliossíncronas, o brilho desses satélites seria visível em todo o globo no pôr do Sol. “Estamos dispostos a sacrificar a beleza natural do céu e a astronomia básica para garantir que uma IA processe dados mais rápido?”, questiona Zurita.
Planeta paga preço elevado por lançamento
A ideia de que o espaço salvaria a Terra parece ignorar o custo ambiental dos lançamentos. O metano queimado pelos foguetes e a renovação obrigatória das constelações a cada cinco anos impõem um custo de carbono que pode anular os ganhos de eficiência. “O lançamento espacial custa milhares de dólares por quilo (cerca de US$5 mil). Mesmo com a Starship barateando esse processo, a viabilidade econômica exigiria uma queda para patamares de 50 dólares por quilo, algo longe de ser sustentável sem subsídios externos massivos”, diz Zurita.
Sobre o destino do capital, a pergunta não é se os projetos são viáveis, mas por que são financiados. “É o pensamento de que, no futuro, quem fizer a Inteligência Artificial Geral vira o dono do mundo”, explica Pena.
É um movimento que prioriza o controle de infraestrutura em detrimento da sustentabilidade. Enquanto o mercado se curva a essas visões de órbita baixa megalomaníacas, os especialistas pedem cautela e fortalecimento de alternativas terrestres.
Em vez de buscar soluções espaciais de alto risco, Zurita defende que a inovação deve focar na eficiência terrestre. Ele aponta para projetos de data centers de próxima geração, que já começam a reutilizar o calor residual para alimentar turbinas ou aquecer sistemas urbanos, transformando um subproduto da computação em energia útil aqui no solo.
Pena ressalta que o cenário é de alerta total. Segundo ele, estamos criando um risco real para o ecossistema orbital que sustenta a comunicação e a navegação da era moderna.
Embora entusiasta da exploração espacial, o físico enfatiza que o desenvolvimento tecnológico precisa ser um esforço humanitário, guiado por interesses coletivos, e não uma ferramenta de poder privado que coloca em xeque a soberania do nosso próprio céu. “O espaço é a nossa última grande fronteira e a nossa janela para o cosmos. Transformá-lo em uma extensão estéril de data centers privados é um retrocesso que a humanidade não pode aceitar sem um debate global intenso. Devemos ter o direito de dizer não”.
Data centers na Lua: atraso de sinal torna uso ineficaz para IAs – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
A opção de mover esse processamento para locais mais distantes, como a Lua, esbarra na barreira da latência. O atraso de sinal (dois segundos para um ciclo completo de ida e volta) torna o uso ineficaz para qualquer IA que dependa de processamento em tempo real. Por isso, a pressão tecnológica é concentrada na órbita baixa da Terra. É esse funil, que obriga o mundo a aglomerar servidores no espaço que nos cerca, que nos devolve, invariavelmente, ao risco de saturação e ao pesadelo do Efeito Kessler, transformando a nossa órbita em um tabuleiro onde cada satélite a mais aumenta, exponencialmente, a chance de uma colisão catastrófica.
Debate vai além da capacidade de processamento dos satélites
A corrida para levar infraestrutura de IA ao espaço não envolve apenas desafios tecnológicos. A órbita baixa da Terra é um recurso limitado e cada vez mais disputado, o que levanta preocupações sobre segurança, regulação e sustentabilidade. O aumento do número de satélites pode elevar o risco de colisões e da geração de detritos espaciais, agravando a possibilidade do chamado Efeito Kessler. Diante desse cenário, cresce a pressão por acordos internacionais que estabeleçam limites e regras para a ocupação orbital, conciliando a expansão econômica do setor com a preservação do ambiente espacial.
Para os especialistas, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial para o espaço também levanta questionamentos sobre transparência e governança. A possibilidade de decisões com impacto global serem conduzidas por empresas privadas e órgãos reguladores nacionais alimenta discussões sobre quem deve definir os limites da ocupação orbital nas próximas décadas.
Nesse cenário, o debate vai além da capacidade de processamento ou da oferta de energia. Questões relacionadas à preservação do céu noturno, ao acesso ao espaço e à sustentabilidade das operações orbitais passam a integrar a discussão sobre o futuro da computação em larga escala.
À medida que projetos cada vez mais ambiciosos são anunciados, cresce também a preocupação com a concentração de infraestrutura estratégica nas mãos de poucos atores. O desafio está em garantir que os benefícios dessas tecnologias sejam compartilhados sem comprometer a segurança e a utilização sustentável da órbita terrestre.
A Anthropic está estruturando uma expansão agressiva de sua infraestrutura de inteligência artificial ao arrendar e operar data centers próprios nos Estados Unidos, movimento sustentado pela forte demanda por seus modelos e ancorado em uma relação cada vez mais estratégica com a Alphabet. A informação foi apurada e publicada pelo site The Information.
Nesse arranjo, a controladora do Google surge não apenas como possível financiadora, mas também como parceira tecnológica, ao participar do ecossistema de chips de servidor que pode sustentar as novas instalações da startup.
As conversas incluem ainda a possibilidade de a Alphabet oferecer garantias financeiras para pagamentos bilionários de arrendamento, enquanto a Anthropic avança em direção a uma oferta pública inicial mantida sob confidencialidade.
Expansão de infraestrutura e escala de computação
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
A empresa assinou mais de uma dúzia de acordos preliminares para contratação de data centers nos Estados Unidos, somando capacidade superior a 1 gigawatt. O objetivo é garantir escala suficiente para suportar o crescimento acelerado do uso de seus modelos de IA.
Esse movimento representa uma mudança relevante de postura operacional, já que a Anthropic passa a controlar de forma mais direta a base física necessária para rodar seus sistemas de inteligência artificial em larga escala.
A pressão por capacidade vem do aumento contínuo da demanda pela família de modelos Claude, especialmente em aplicações empresariais e de desenvolvimento de software.
Alphabet como pilar financeiro e tecnológico
(Imagem: Markus Mainka / Shutterstock.com)
A relação com a Alphabet se intensifica em múltiplas frentes. Além de já ter sido citada como investidora com potencial de aporte de até 40 bilhões de dólares, a empresa também participa do desenvolvimento de chips de servidor que podem ser utilizados nos data centers planejados pela Anthropic.
Nesse contexto, discute-se um mecanismo de garantia financeira em que a Alphabet poderia respaldar pagamentos de contratos de arrendamento, reduzindo o risco da expansão agressiva da infraestrutura da startup.
Esse vínculo coloca a Alphabet simultaneamente como financiadora potencial, parceira tecnológica e agente de estabilidade para a estratégia de crescimento da Anthropic.
IPO e pressão de crescimento
A Anthropic também teria submetido, de forma confidencial, documentos para uma oferta pública inicial nos Estados Unidos, sem divulgar termos ou tamanho da operação.
O avanço da infraestrutura e os acordos com grandes parceiros ocorrem em paralelo a uma rodada de captação recente, que avaliou a empresa em aproximadamente 965 bilhões de dólares após levantar outros 65 bilhões.
A combinação entre expansão física, apoio de grandes grupos de tecnologia e forte demanda por seus modelos posiciona a companhia em uma disputa direta por escala no mercado global de inteligência artificial.
A Amazon divulgou que seus data centers consumiram 2,5 bilhões de galões (9,46 bilhões de litros) de água no último ano, reacendendo o debate sobre o impacto ambiental da infraestrutura digital em escala global.
O número surge em um momento de pressão crescente sobre grandes empresas de tecnologia, que enfrentam cobranças por mais transparência no uso de recursos naturais.
Consumo de água da Amazon equivale a cerca de 5% de Seattle e levanta alerta sobre infraestrutura digital. Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon
Consumo de água volta ao centro da discussão
Segundo a Bloomberg, o dado divulgado pela Amazon não passou despercebido: são 2,5 bilhões de galões de água usados globalmente em apenas um ano — algo em torno de 5% do consumo anual da região metropolitana de Seattle.
A empresa diz que resolveu abrir essas informações para mostrar eficiência em seus sistemas de resfriamento e também se posicionar em relação a outras gigantes da tecnologia.
Mas o contexto é mais amplo e, em alguns pontos, até desconfortável para o setor. Em várias regiões, o crescimento acelerado de data centers já levou governos locais a discutir limites para novas instalações. Em certos casos, até moratórias entram no radar.
Transparência ainda é o ponto mais sensível
Apesar dos números divulgados, o setor ainda enfrenta críticas fortes pela falta de dados padronizados sobre consumo de água.
E isso pesa. Sem métricas iguais entre empresas, comparar impacto ambiental vira quase um exercício de aproximação.
“Precisamos de mais transparência”, disse Iris Stewart-Frey, professora de ciências ambientais da Universidade de Santa Clara. Ela destaca que, sem isso, comunidades locais ficam sem clareza sobre os impactos reais dessas instalações.
Hoje, poucas empresas divulgam dados mais completos — entre elas, Google e Meta. Ainda assim, o setor segue longe de um padrão consolidado.
Data centers usam água para resfriar servidores e operação pode variar conforme clima e localização. Imagem: eric1207cvb/Shutterstock
Como a água entra no funcionamento dos data centers
Na prática, a água é usada principalmente para resfriar servidores que operam continuamente em alta carga. O sistema varia conforme clima e localização.
Em alguns casos, o ar externo é usado como base de resfriamento. Em períodos de calor mais intenso, ele passa por filtros com água, que evapora durante o processo.
O funcionamento pode ser resumido assim:
Uso de ar externo como primeira etapa de resfriamento
Aplicação de filtros com água em temperaturas mais altas
Evaporação parcial durante o processo térmico
Alternativas sem uso direto de água em regiões secas
Sistemas fechados que priorizam resfriamento a ar
A Amazon afirma que, em regiões como Phoenix e partes da Arábia Saudita, evita o uso de fontes externas de água e adota sistemas alternativos.
Eficiência vira argumento de comparação
Segundo a empresa, sua eficiência chegou a 0,12 litro por quilowatt-hora no último ano — abaixo do registrado em 2024. A Amazon também afirma estar à frente da Microsoft, que reportou 0,27 litro por quilowatt-hora.
A AWS ainda calcula que a média do setor seja mais alta, o que colocaria suas operações em posição relativamente eficiente.
Mas aqui entra um ponto que o próprio setor reconhece como problema: sem uma metodologia única de medição, qualquer comparação acaba sendo parcial.
Meta de retorno hídrico até 2030
A Amazon afirma que pretende devolver ao meio ambiente mais água do que consome até 2030. Para isso, investe em projetos de recuperação de bacias hidrográficas e restauração de sistemas hídricos.
A empresa também já leva água por tubulações para parte de seus data centers e participa de mais de 100 iniciativas de reuso e compensação hídrica.
O tema tende a ganhar ainda mais peso nos próximos anos, especialmente com a expansão da computação em nuvem e o avanço de aplicações de inteligência artificial, que aumentam a demanda por infraestrutura de processamento.