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Como o espaço pode alimentar as IAs do futuro?

A inteligência artificial (IA) promete revolucionar o mundo, mas isso tem um preço. Os grandes data centers que sustentam essa tecnologia consomem quantidades cada vez maiores de energia e água, aumentando a pressão sobre recursos limitados. Diante desse cenário, empresas passaram a considerar uma alternativa que parecia improvável: instalar parte dessa infraestrutura no espaço. 

Com a SpaceX expandindo rapidamente suas operações, a união entre foguetes e processamento de dados deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começou a se tornar realidade. 

Ilustração de data center de inteligência artificial (IA) a bordo de satélite no espaço – Crédito: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital

Mas o espaço é a solução definitiva ou uma aposta megalomaníaca com riscos catastróficos? Em uma conversa no programa Olhar Espacial, que vai ao ar ao vivo todas as sextas-feiras pelas plataformas do Olhar Digital, o apresentador Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON), e o físico Roberto ‘Pena’ Spinelli, especialista em Machine Learning, debateram esse cenário. Para eles, o que o mercado vende como “energia ilimitada” no espaço enfrenta gargalos de física, regulação e segurança que a indústria ainda não superou. 

Ideia audaciosa enfrenta desafios

A ideia de levar servidores para o espaço começou a ganhar tração no final de 2024. Pena destaca que os primeiros projetos, como o da empresa Lumen, propunham painéis solares de quatro quilômetros quadrados. “Parecia um delírio técnico, dado o tamanho e a complexidade de manobra”, explica, relatando que essa iniciativa evoluiu para a StarCloud, que em maio de 2025 lançou com sucesso uma GPU Nvidia H100 ao espaço. Foi a prova de conceito que legitimou a discussão para o mercado financeiro.

Segundo Pena, a transição daquele conceito inicial para constelações de milhares de microsatélites, como o projeto TeraWave, da Blue Origin, ou a meta de um milhão de satélites de Elon Musk, alterou a mecânica orbital. Para o físico, essa corrida é movida pelo custo de oportunidade. “Investidores não focam apenas na viabilidade atual. Eles querem garantir que, caso essa tecnologia se torne o novo padrão, eles já sejam os proprietários da infraestrutura crítica em órbita”.

Roberto ‘Pena’ Spinelli é físico graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, nos EUA, e colunista do Olhar Digital News.
À esquerda, Marcelo Zurita, astrônomo e apresentador do Programa Olhar Espacial. À direita, o convidado Roberto ‘Pena’ Spinelli, físico e especialista em Machine Learning. – Crédito: Olhar Espacial

Zurita ressaltou o apelo da energia ininterrupta. “A ideia reside na órbita heliossíncrona. Ao lançar o satélite em uma inclinação específica, é possível manter a mesma posição relativa ao Sol, garantindo iluminação contínua durante todo o ano”, explica. “Dessa forma, evita-se o ciclo de sombra terrestre, que exigiria baterias massivas e ineficientes.”

Entretanto, a física impõe barreiras severas. Se você busca baixa latência para IAs, precisa estar na órbita terrestre baixa (LEO). “Não é um espaço infinito”, alerta Pena. “É um recurso limitado e quem o ocupa primeiro trava o acesso de outros. Além disso, no espaço, não há convecção ou condução. A única forma de emitir ou dissipar o calor é por radiação, um processo extremamente ineficiente.”

Pena reforça que a complexidade térmica é o maior gargalo. Na Terra, utilizamos água e ar para resfriar servidores. No vácuo, não há ar para transportar calor. “Quando olhamos a Estação Espacial Internacional, aqueles grandes painéis que parecem colchas de retalhos são radiadores. Sem eles, o calor gerado pelos chips derreteria o equipamento.” Para escalar processamento, precisaríamos de corpos gigantescos que estariam expostos a detritos e radiação cósmica o tempo todo.

Uma solução é o “trem de satélites”, uma espécie de “anel” de máquinas girando em torno da Terra. Cada unidade se comunicaria com a vizinha, reduzindo a latência necessária para computação. Embora mais viável que um painel gigante, manter esse alinhamento perfeitamente coeso diante de variações gravitacionais e efeitos de maré é um desafio de engenharia brutal, que exigiria satélites com capacidades de manobra autônoma muito além do que vemos hoje.

Representação artística de satélites misturados com data centers
Futuro da IA pode ser no espaço (em breve) – Crédito: Imagem gerada por IA/Shutterstock

Especialistas protestam: Elon Musk não pode ser o “dono do espaço”

A fusão de interesses de Musk, com a SpaceX, a Tesla e XAI, desenha um império vertical inalcançável para a maioria. Para Zurita, isso traz uma dimensão geopolítica perigosa. “O Tratado do Espaço Exterior, dos anos de 1960, é obsoleto. Não há regulação que impeça uma empresa de ocupar uma órbita crítica e cobrar o equivalente a um aluguel de toda a humanidade pelo uso do espaço”.

Em 9 de janeiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos autorizou a expansão da constelação de segunda geração da Starlink em mais 7.500 satélites. Pouco depois, no dia 30 do mesmo mês, a agência passou a analisar um novo pedido da SpaceX para a operação de um sistema que prevê até um milhão de satélites dedicados exclusivamente ao processamento de dados de IA. 

Essa postura de licenciamento em escala massiva é contestada por Pena. “A FCC é um órgão dos EUA. Que direito ela tem de autorizar o preenchimento da órbita baixa com um milhão de satélites, ignorando o impacto para o resto do planeta? O espaço é um bem universal”. 

Além da ética, há o risco físico: o Efeito Kessler. Com milhares de satélites operando próximos, o impacto de um simples parafuso perdido poderia desencadear uma reação em cadeia de colisões. 

Síndrome de Kessler
Representação artística da Síndrome de Kessler. – Crédito: Gerador de imagens IA/Shutterstock

Zurita detalha esse efeito. Se um satélite é destruído, ele gera milhares de novos fragmentos. Se isso atinge o vizinho, iniciamos uma catástrofe que pode inviabilizar o acesso ao espaço por décadas. “Em 2009, Donald Kessler previu que chegaríamos a um ponto crítico. Desde então, a SpaceX lançou milhares de satélites. Somar um milhão a essa conta é uma escala de risco que a humanidade nunca enfrentou”.

A poluição visual é outro custo negligenciado. Se a infraestrutura de IA ocupar órbitas heliossíncronas, o brilho desses satélites seria visível em todo o globo no pôr do Sol. “Estamos dispostos a sacrificar a beleza natural do céu e a astronomia básica para garantir que uma IA processe dados mais rápido?”, questiona Zurita. 

Planeta paga preço elevado por lançamento

A ideia de que o espaço salvaria a Terra parece ignorar o custo ambiental dos lançamentos. O metano queimado pelos foguetes e a renovação obrigatória das constelações a cada cinco anos impõem um custo de carbono que pode anular os ganhos de eficiência. “O lançamento espacial custa milhares de dólares por quilo (cerca de US$5 mil). Mesmo com a Starship barateando esse processo, a viabilidade econômica exigiria uma queda para patamares de 50 dólares por quilo, algo longe de ser sustentável sem subsídios externos massivos”, diz Zurita.

Sobre o destino do capital, a pergunta não é se os projetos são viáveis, mas por que são financiados. “É o pensamento de que, no futuro, quem fizer a Inteligência Artificial Geral vira o dono do mundo”, explica Pena. 

É um movimento que prioriza o controle de infraestrutura em detrimento da sustentabilidade. Enquanto o mercado se curva a essas visões de órbita baixa megalomaníacas, os especialistas pedem cautela e fortalecimento de alternativas terrestres.

Em vez de buscar soluções espaciais de alto risco, Zurita defende que a inovação deve focar na eficiência terrestre. Ele aponta para projetos de data centers de próxima geração, que já começam a reutilizar o calor residual para alimentar turbinas ou aquecer sistemas urbanos, transformando um subproduto da computação em energia útil aqui no solo.

Pena ressalta que o cenário é de alerta total. Segundo ele, estamos criando um risco real para o ecossistema orbital que sustenta a comunicação e a navegação da era moderna. 

Embora entusiasta da exploração espacial, o físico enfatiza que o desenvolvimento tecnológico precisa ser um esforço humanitário, guiado por interesses coletivos, e não uma ferramenta de poder privado que coloca em xeque a soberania do nosso próprio céu. “O espaço é a nossa última grande fronteira e a nossa janela para o cosmos. Transformá-lo em uma extensão estéril de data centers privados é um retrocesso que a humanidade não pode aceitar sem um debate global intenso. Devemos ter o direito de dizer não”. 

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Data centers na Lua: atraso de sinal torna uso ineficaz para IAs – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

A opção de mover esse processamento para locais mais distantes, como a Lua, esbarra na barreira da latência. O atraso de sinal (dois segundos para um ciclo completo de ida e volta) torna o uso ineficaz para qualquer IA que dependa de processamento em tempo real. Por isso, a pressão tecnológica é concentrada na órbita baixa da Terra. É esse funil, que obriga o mundo a aglomerar servidores no espaço que nos cerca, que nos devolve, invariavelmente, ao risco de saturação e ao pesadelo do Efeito Kessler, transformando a nossa órbita em um tabuleiro onde cada satélite a mais aumenta, exponencialmente, a chance de uma colisão catastrófica.

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Debate vai além da capacidade de processamento dos satélites

A corrida para levar infraestrutura de IA ao espaço não envolve apenas desafios tecnológicos. A órbita baixa da Terra é um recurso limitado e cada vez mais disputado, o que levanta preocupações sobre segurança, regulação e sustentabilidade. O aumento do número de satélites pode elevar o risco de colisões e da geração de detritos espaciais, agravando a possibilidade do chamado Efeito Kessler. Diante desse cenário, cresce a pressão por acordos internacionais que estabeleçam limites e regras para a ocupação orbital, conciliando a expansão econômica do setor com a preservação do ambiente espacial.

Para os especialistas, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial para o espaço também levanta questionamentos sobre transparência e governança. A possibilidade de decisões com impacto global serem conduzidas por empresas privadas e órgãos reguladores nacionais alimenta discussões sobre quem deve definir os limites da ocupação orbital nas próximas décadas.

Nesse cenário, o debate vai além da capacidade de processamento ou da oferta de energia. Questões relacionadas à preservação do céu noturno, ao acesso ao espaço e à sustentabilidade das operações orbitais passam a integrar a discussão sobre o futuro da computação em larga escala.

À medida que projetos cada vez mais ambiciosos são anunciados, cresce também a preocupação com a concentração de infraestrutura estratégica nas mãos de poucos atores. O desafio está em garantir que os benefícios dessas tecnologias sejam compartilhados sem comprometer a segurança e a utilização sustentável da órbita terrestre.

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Anthropic amplia aposta em data centers e negocia apoio financeiro do Google, diz The Information

A Anthropic está estruturando uma expansão agressiva de sua infraestrutura de inteligência artificial ao arrendar e operar data centers próprios nos Estados Unidos, movimento sustentado pela forte demanda por seus modelos e ancorado em uma relação cada vez mais estratégica com a Alphabet. A informação foi apurada e publicada pelo site The Information.

Nesse arranjo, a controladora do Google surge não apenas como possível financiadora, mas também como parceira tecnológica, ao participar do ecossistema de chips de servidor que pode sustentar as novas instalações da startup.

As conversas incluem ainda a possibilidade de a Alphabet oferecer garantias financeiras para pagamentos bilionários de arrendamento, enquanto a Anthropic avança em direção a uma oferta pública inicial mantida sob confidencialidade.

Expansão de infraestrutura e escala de computação

Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)

A empresa assinou mais de uma dúzia de acordos preliminares para contratação de data centers nos Estados Unidos, somando capacidade superior a 1 gigawatt. O objetivo é garantir escala suficiente para suportar o crescimento acelerado do uso de seus modelos de IA.

Esse movimento representa uma mudança relevante de postura operacional, já que a Anthropic passa a controlar de forma mais direta a base física necessária para rodar seus sistemas de inteligência artificial em larga escala.

A pressão por capacidade vem do aumento contínuo da demanda pela família de modelos Claude, especialmente em aplicações empresariais e de desenvolvimento de software.

Alphabet como pilar financeiro e tecnológico

Alphabet dispara na bolsa enquanto disputa mercado de IA com Nvidia
(Imagem: Markus Mainka / Shutterstock.com)

A relação com a Alphabet se intensifica em múltiplas frentes. Além de já ter sido citada como investidora com potencial de aporte de até 40 bilhões de dólares, a empresa também participa do desenvolvimento de chips de servidor que podem ser utilizados nos data centers planejados pela Anthropic.

Nesse contexto, discute-se um mecanismo de garantia financeira em que a Alphabet poderia respaldar pagamentos de contratos de arrendamento, reduzindo o risco da expansão agressiva da infraestrutura da startup.

Esse vínculo coloca a Alphabet simultaneamente como financiadora potencial, parceira tecnológica e agente de estabilidade para a estratégia de crescimento da Anthropic.

IPO e pressão de crescimento

A Anthropic também teria submetido, de forma confidencial, documentos para uma oferta pública inicial nos Estados Unidos, sem divulgar termos ou tamanho da operação.

O avanço da infraestrutura e os acordos com grandes parceiros ocorrem em paralelo a uma rodada de captação recente, que avaliou a empresa em aproximadamente 965 bilhões de dólares após levantar outros 65 bilhões.

A combinação entre expansão física, apoio de grandes grupos de tecnologia e forte demanda por seus modelos posiciona a companhia em uma disputa direta por escala no mercado global de inteligência artificial.

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9,46 bilhões de litros: o consumo de água da Amazon que virou polêmica

A Amazon divulgou que seus data centers consumiram 2,5 bilhões de galões (9,46 bilhões de litros) de água no último ano, reacendendo o debate sobre o impacto ambiental da infraestrutura digital em escala global.

O número surge em um momento de pressão crescente sobre grandes empresas de tecnologia, que enfrentam cobranças por mais transparência no uso de recursos naturais.

Consumo de água da Amazon equivale a cerca de 5% de Seattle e levanta alerta sobre infraestrutura digital. Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon

Consumo de água volta ao centro da discussão

Segundo a Bloomberg, o dado divulgado pela Amazon não passou despercebido: são 2,5 bilhões de galões de água usados globalmente em apenas um ano — algo em torno de 5% do consumo anual da região metropolitana de Seattle.

A empresa diz que resolveu abrir essas informações para mostrar eficiência em seus sistemas de resfriamento e também se posicionar em relação a outras gigantes da tecnologia.

Mas o contexto é mais amplo e, em alguns pontos, até desconfortável para o setor. Em várias regiões, o crescimento acelerado de data centers já levou governos locais a discutir limites para novas instalações. Em certos casos, até moratórias entram no radar.

Transparência ainda é o ponto mais sensível

Apesar dos números divulgados, o setor ainda enfrenta críticas fortes pela falta de dados padronizados sobre consumo de água.

E isso pesa. Sem métricas iguais entre empresas, comparar impacto ambiental vira quase um exercício de aproximação.

“Precisamos de mais transparência”, disse Iris Stewart-Frey, professora de ciências ambientais da Universidade de Santa Clara. Ela destaca que, sem isso, comunidades locais ficam sem clareza sobre os impactos reais dessas instalações.

Hoje, poucas empresas divulgam dados mais completos — entre elas, Google e Meta. Ainda assim, o setor segue longe de um padrão consolidado.

Data center preocupa entidades nos EUA por consumo de energia, água e aumento da poluição
Data centers usam água para resfriar servidores e operação pode variar conforme clima e localização. Imagem: eric1207cvb/Shutterstock

Como a água entra no funcionamento dos data centers

Na prática, a água é usada principalmente para resfriar servidores que operam continuamente em alta carga. O sistema varia conforme clima e localização.

Em alguns casos, o ar externo é usado como base de resfriamento. Em períodos de calor mais intenso, ele passa por filtros com água, que evapora durante o processo.

O funcionamento pode ser resumido assim:

  • Uso de ar externo como primeira etapa de resfriamento
  • Aplicação de filtros com água em temperaturas mais altas
  • Evaporação parcial durante o processo térmico
  • Alternativas sem uso direto de água em regiões secas
  • Sistemas fechados que priorizam resfriamento a ar

A Amazon afirma que, em regiões como Phoenix e partes da Arábia Saudita, evita o uso de fontes externas de água e adota sistemas alternativos.

Eficiência vira argumento de comparação

Segundo a empresa, sua eficiência chegou a 0,12 litro por quilowatt-hora no último ano — abaixo do registrado em 2024. A Amazon também afirma estar à frente da Microsoft, que reportou 0,27 litro por quilowatt-hora.

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A AWS ainda calcula que a média do setor seja mais alta, o que colocaria suas operações em posição relativamente eficiente.

Mas aqui entra um ponto que o próprio setor reconhece como problema: sem uma metodologia única de medição, qualquer comparação acaba sendo parcial.

Meta de retorno hídrico até 2030

A Amazon afirma que pretende devolver ao meio ambiente mais água do que consome até 2030. Para isso, investe em projetos de recuperação de bacias hidrográficas e restauração de sistemas hídricos.

A empresa também já leva água por tubulações para parte de seus data centers e participa de mais de 100 iniciativas de reuso e compensação hídrica.

O tema tende a ganhar ainda mais peso nos próximos anos, especialmente com a expansão da computação em nuvem e o avanço de aplicações de inteligência artificial, que aumentam a demanda por infraestrutura de processamento.

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RJ terá R$ 2,8 bi em data centers de IA no Parque Olímpico

A empresa estadunidense Elea vai investir US$ 550 milhões (R$ 2,8 bilhões) na primeira etapa do Rio AI City, um campus de data centers a ser instalado no Parque Olímpico do Rio de Janeiro (RJ). O anúncio foi feito nesta terça-feira (9) pelo prefeito Eduardo Cavaliere durante coletiva de imprensa no Web Summit Rio, o maior evento de tecnologia da América do Sul.

O projeto prevê capacidade para alcançar até 3,2 gigawatts de geração até 2032. Cavaliere apontou a combinação de ampla oferta de água, conectividade por cabos submarinos e capacidade de formar e atrair talentos locais como pilares do empreendimento.

Educação como parte da estratégia para formação de profissionais para data centers

O prefeito reforçou o investimento da prefeitura em educação voltada para STEM — sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Segundo ele, 312 escolas do município já contam com programas de robótica, programação e lógica desde os primeiros anos. “É preciso aprender matemática, mas também português, para executar bem os prompts”, disse.

Cavaliere também destacou crescimento de 12% nos anos iniciais do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), conforme o relatório de 2024.

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Instalações serão criadas no Parque Olímpico – Imagem: Diego Thomazini/iStock

Web Summit Rio cresce 20% ao ano

A coletiva contou com a presença de Paddy Cosgrove, fundador do Web Summit, que organiza cinco edições ao redor do mundo — em Lisboa (Portugal), Rio de Janeiro (RJ), Doha (Catar) e Vancouver (Canadá). No Brasil, o crescimento é de cerca de 20% ao ano desde a primeira edição, há quatro anos.

Para Cosgrove, o Rio percorre o mesmo caminho de Lisboa: “cidades que têm qualidade de vida, retêm e atraem talentos.” Ele afirmou ainda que o Rio é uma porta de entrada para a América Latina e registra interesse crescente de empresas chinesas. Nesta edição, cerca de 40 mil participantes de mais de 100 países devem circular pelo evento, cujo público principal é composto por investidores e empreendedores de startups.

  • No último painel do dia, Bruno Lewicki, head de políticas públicas da OpenAI, e o advogado especializado em tecnologia Ronaldo Lemos subiram ao palco principal;
  • Lewicki destacou a parceria da OpenAI com o TSE no desenvolvimento do Synth ID, protocolo para identificação de imagens geradas por IA. “Com a presença de novas tecnologias, teremos uma eleição de aprendizado mútuo”, afirmou;
  • Os dois criticaram a tramitação do PL 2338/2023, o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil;
  • Lemos foi direto: “Copiamos a lei europeia de 2019, que já foi toda modificada. Somos o país que criou o Marco Civil da Internet. Não precisamos copiar ninguém“;
  • Ao encerrar sua participação, o advogado defendeu a adoção de modelos open source e provocou os presentes. “Precisamos de regulamentação no Brasil para não depender da OpenAI. O Brasil tem desenvolvedores incríveis.”

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Na era das IAs, qual é o consumo de data centers? Outros países têm a resposta

O avanço acelerado da inteligência artificial está ampliando a pressão sobre redes elétricas ao redor do mundo e começando a gerar resistência política e comunitária em alguns países. E tem motivo: um estudo da Autoridade Internacional de Centros de Dados (IDCA) apontou que data centers já consomem cerca de 6% de toda a eletricidade utilizada no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Segundo o levantamento, o consumo global de energia por parte dessas estruturas cresceu 15% nos últimos dois anos. O aumento acompanha uma onda de investimentos no setor: os aportes anuais em data centers se aproximam de US$ 1 trilhão, valor equivalente a quase 1% da economia mundial.

O estudo afirma que o crescimento da demanda energética está “desencadeando preocupações sociais e políticas” e defende que empresas de tecnologia sejam mais transparentes sobre seus projetos de expansão para reduzir a “frustração da comunidade”.

A pesquisa identificou que o Reino Unido e os EUA já ultrapassaram com folga a média global de consumo energético ligado a centros de dados, atualmente estimada em 2%. No Reino Unido, eles respondem por 5,9% do consumo elétrico nacional; nos EUA, o índice chega a 6%.

Em alguns países, a pressão é ainda maior. Em Singapura, os data centers consomem cerca de 19% da energia da rede nacional. Na Lituânia, a participação é de 11%.

Boom de IA tem levado empresas a investirem em data centers – Imagem: FOTOGRIN/Shutterstock

Data centers começam a gerar resistência

A IDCA afirmou que, quando a presença de data centers atinge um nível de consumo de 5% das redes elétricas nacionais, a resistência pública (tanto por parte das autoridades quanto da população) começa a aparecer.

O tema ganha força em meio a dificuldades energéticas enfrentadas pelo Reino Unido. Desenvolvedores de data centers relatam esperas de anos para conseguir conexão à rede elétrica britânica. Dados do governo indicam que, apenas no primeiro semestre de 2025, a fila para conexão cresceu 460%.

Embora autoridades britânicas tenham estimado no início de 2025 que os data centers consumiam cerca de 2,5% da eletricidade do país, a projeção oficial é de que esse número quadruplique até 2030.

Por que os pássaros não levam choque nos fios de alta tensão?
Consumo de eletricidade e água por parte dos data centers tem gerado preocupação em comunidades locais – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Impactos ambientais dos data centers

A discussão também envolve impactos ambientais. O jornal The Guardian revelou que empresas ligadas ao Google teriam apresentado estimativas muito abaixo do real sobre as emissões de carbono de dois futuros data centers voltados à IA no Reino Unido.

O Greenpeace Reino Unido alertou que um “boom descontrolado da IA” pode provocar aumento nas contas de energia, pressão sobre recursos hídricos e até ampliar a dependência de combustíveis fósseis.

Doug Parr, cientista-chefe da organização, afirmou: “Antes de nos deixarmos levar pelo entusiasmo dos bilionários da tecnologia cujos lucros dependem dessa expansão, devemos parar e nos perguntar se vale a pena o preço a pagar”. Ele também defendeu maior fiscalização sobre o setor, principalmente em relação ao consumo de água e energia.

O estudo também aponta desperdícios relevantes dentro da própria infraestrutura digital. Nos EUA, cerca de 13% do consumo de dados em data centers estaria ligado a chamados serviços “zumbis”, aplicativos e sistemas que continuam ativos sem uso real. Segundo a pesquisa, esse desperdício representa mais de 3 gigawatts de consumo energético.

Além das preocupações ambientais e energéticas, o documento destaca uma nova ameaça: a segurança física dos data centers.

“Os ataques a centros de dados – agora considerados infraestrutura crítica – no Oriente Médio chocaram operadores e clientes de centros de dados com o espectro de violação da segurança física. A segurança cibernética agora está intrinsecamente ligada à segurança física como parte integrante de uma estratégia de segurança unificada e abrangente”, diz o relatório.

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RS se prepara para ter verdadeira “cidade de data centers”; conheça

Com o forte crescimento da inteligência artificial (IA) nos últimos anos, a demanda por data centers específicos vem aumentando no mundo todo. Sendo assim, as empresas que operam no setor estão construindo grandes complexos voltados para a tecnologia.

Um exemplo é a xAI, que construiu um supercomputador em Abilene, Texas (EUA), em 2024, mas que enfrentou resistência local por conta do consumo de recursos locais, que poderiam prejudicar a população que vive nos arredores.

No Brasil, a Scala Data Centers está se preparando para construir um complexo de data centers no em Eldorado do Sul (RS), que promete ser o maior complexo de infraestrutura digital da América Latina.

Em outubro de 2024, o governo estadual fechou parceria com a empresa para a realização do projeto. À época, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Ernani Polo (PP), disse que o contrato “é oportunidade de transformar o Rio Grande do Sul no novo Vale do Silício no Brasil“.

“A interlocução entre o governo estadual e Eldorado do Sul assegurou alinhamento em infraestrutura urbana, planejamento territorial e qualificação de mão de obra, além de diálogo com o setor elétrico para viabilizar a demanda energética do campus”, explicou, ao Olhar Digital, Leandro Evaldt, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul.

“Essa atuação está inserida no Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável, que trabalha seus cinco habilitadores — capital humano, infraestrutura, ambiente de negócios, inovação e recursos naturais — como bases para atrair investimentos estruturantes como esse”, afirma.

Novo Vale do Silício no Brasil?

O empreendimento é chamado de Scala AI City. Confira mais informações do projeto, segundo dados do governo do Estado do Rio Grande do Sul:

  • O investimento inicial é de cerca de R$ 3 bilhões, com espaço total de mais de sete milhões de metros quadrados;
  • Contudo, as empresas que utilizarão as instalações injetarão mais R$ 4 bilhões, podendo passar dos R$ 600 bilhões no projeto total;
  • A título de comparação, o maior investimento do Estado realizado até hoje é de R$ 24 bilhões — a ampliação da CMPC, fábrica de celulose chilena, em 2024;
  • Mais de três mil empregos diretos e indiretos deverão ser gerados;
  • Quanto à capacidade inicial de TI do data center, serão 54 MW, podendo chegar a 4,75 GW;
  • O governo estadual afirma que a região escolhida tem segurança comprovada contra desastres naturaisgrande oferta de energia elétrica e capacidade imobiliária;
  • O data center será ligado a outro do mesmo tipo, que se encontra em Porto Alegre (RS). Futuramente, ele será conectado ao cabo submarino Malbec, que liga São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Buenos Aires (Argentina).

Segundo a Scala, atualmente, o projeto está na fase de masterplan (plano diretor), com permits e validações em aspectos, como viabilidade, mobilidade, sustentabilidade, entre outros, sendo analisados.

A primeira etapa do empreendimento deverá entrar em operação em breve e, inicialmente, será híbrido, ou seja, servirá para cloud e IA.

Para Evaldt, o projeto é “estratégico” para o Estado. “O Estado já vinha estruturando políticas para inserir o RS na economia digital, e o projeto da Scala se conecta diretamente a essa visão de futuro”, disse ao OD.

“Estamos falando da criação de um novo eixo econômico, baseado em dados, inteligência artificial e serviços digitais de alta complexidade, posicionando o RS em uma indústria estratégica para as próximas décadas”, prosseguiu.

O secretário também explanou quais serão os benefícios da obra para a região. “A localização também favorece a logística, integração com redes de fibra óptica e acesso a talentos formados nas universidades da região”, pontuou.

“A escolha demonstra racionalidade técnica e visão de longo prazo, consolidando o município como núcleo de um novo cluster digital no Sul do país”. “O governo vê o projeto como um marco estruturante capaz de posicionar o RS como hub estratégico de infraestrutura digital na América Latina”, finalizou.

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Dona do empreendimento frisa que o Scala AI City será dotado dos “mais altos padrões de sustentabilidade, inovação e governança” durante sua construção (Imagem: Nomad_Soul/Shutterstock)

Questões ambientais preocupam na construção da cidade de data centers

Porém, há preocupações com relação ao meio ambiente. Isso porque os data centers demandam muita energia e água para alimentar seu hardware e resfriamento, sem contar o lixo eletrônico gerado.

Data centers consomem muita água. Isso é um problema porque a escassez de água está se tornando uma das principais razões de conflitos no mundo”, aponta Golestan Radwan, diretora digital do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Uma lei municipal aprovada exclusivamente para o projeto aponta que o licenciamento da obra “se dará de forma simplificada e autodeclaratória“.

A Scala garante que a operação do data center “não teria qualquer efeito no abastecimento elétrico da cidade ou de municípios vizinhos”, além de que a “energia utilizada será 100% renovável e certificada, com fornecimento garantido por parcerias estratégicas”, mas não cita de onde será obtida a energia demandada.

A Scala alega usar “tecnologias de resfriamento sem desperdício de água no resfriamento” e que não há “necessidade de reposição, mas apenas uma carga inicial no sistema”.

O governo estadual, por sua vez, afirma que, “com o auxílio do clima mais ameno do sul do Brasil, os data centers serão mais eficientes“, com eficiência energética e de água zerados, “ou seja, não utilizarão troca de água em seus sistemas de refrigeração”.

A dona do empreendimento frisa que o Scala AI City será dotado dos “mais altos padrões de sustentabilidade, inovação e governança” durante sua construção e prossegue, dizendo que “cumpre rigorosamente todos os requisitos legais em todos os seus empreendimentos“. A companhia enfatiza ainda que o licenciamento seguirá a mesma conduta.

Sobre a capacidade energética, a Scala aponta que os 4,75 GW de processamento de dados a serem alcançados quando a “cidade data center” estiver funcionando a pleno vapor a transformará “em um dos maiores polos de processamento de dados do mundo“.

Só que a quantidade de gigawatts anunciada é superlativa, já que, hoje, o Brasil tem capacidade total de 777 MW, tendo capacidade real de 54 MW. Ao colunista Renan Setti, do jornal O Globo, o CEO e cofundador da Scala, Marcos Peigo, comentou mais sobre as questões de capacidade da futura Scala AI City.

“O sonho é construir uma cidade. O plano eventual é ter até 4.750 MW, com consumo equivalente ao de todo o estado do Rio [de Janeiro]. No mundo, não há nada parecido; o maior de que tenho notícia é um projeto com cerca de 1.500 MW anunciados… Exigiria um investimento nosso da ordem de US$ 50 bilhões [R$ 261,7 bilhões] e seria um trabalho para dez, 20 anos…”

Enquanto isso, a prefeita de Eldorado do Sul, Juliana Carvalho (PSDB), ressalta que vai “olhar para todos os detalhes do empreendimento“, mesmo que a lei municipal deixe o licenciamento ambiental mais simples. “Qualquer intervenção tem algum impacto. O trabalho da prefeitura tem que ser amenizar isso de alguma forma, mas sem prejudicar o investimento e o desenvolvimento do município“, prossegue.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul diz que “o Estado já levou ao governo federal a pauta que visa criar ambiente regulatório favorável aos data centers e às questões ligadas à inteligência artificial. Caso se efetive, será uma conquista que beneficiaria todo o país“, não citando informações sobre riscos e impactos ambientais.

Em setembro de 2024, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), defendeu a celeridade do processo no Brasil. “Se não construirmos imediatamente este ambiente favorável, corremos o risco de ver a transição energética acontecer em outros países, deixando-nos para trás. Agir agora é crucial para garantir que o Brasil não fique no final da fila nesta importante transformação global”, pontuou.

Por que Eldorado do Sul?

A Scala justifica a escolha da região para construir sua “cidade data center” não só pelas condições citadas nesta reportagem, mas, também, por fatores ligados ao “maior desafio para o setor, especialmente com a ascensão da IA“, sem contar que o município tem “robusta estrutura de transmissão, com uma subestação de capacidade de até 5 GW — a esmagadora maioria não utilizada”.

O governo do Estado também ressalta o clima ameno do sul do Brasil, que contribui para que a Scala AI City seja construída na região, pois, teoricamente, temperaturas mais baixas favorecem o resfriamento dos servidores, que demandariam menos energia elétrica para isso.

O hidrólogo Iporã Brito Possantti ressaltanecessidade de estudo sobre quais os possíveis impactos ao meio ambiente que esse tipo de projeto pode causar.

“Esse tipo de impacto precisa ser previsto no licenciamento. É importante que não haja isenção desses estudos para qualquer empreendimento, porque, depois, quem vai precisar pagar para corrigir e mitigar os impactos é a sociedade, os governos. É uma questão de economia e de justiça“, afirma.

“Não podemos simplesmente achar que uma inovação tecnológica, que é bem-vinda e necessária, está desprovida de impacto”, pontua ao Repórter Brasil o professor Ricardo Soares.

De acordo com a EBC, em 2024, o município da futura cidade data center teve toda a área urbana afetada pelas enchentes de 2024 (que assolaram o Estado todo), que segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é consequência da crise climática que o planeta enfrenta.

Em contrapartida, o terreno no qual o empreendimento será erguido ficou intacto.

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Meta revela quatro chips próprios para IA em seus data centers

A Meta anunciou nesta quarta-feira (11) uma nova geração de chips próprios voltados para inteligência artificial (IA). Ao todo, são quatro modelos desenvolvidos internamente pela empresa para tarefas específicas relacionadas ao processamento de IA em seus data centers.

Os componentes fazem parte da família Meta Training and Inference Accelerator (MTIA), cuja primeira versão foi apresentada publicamente em 2023 e ganhou uma segunda geração em 2024. Segundo a companhia, os novos chips integram os planos de expansão de infraestrutura para suportar a crescente demanda por processamento de IA.

Meta anunciou novos chips próprios para seus data centers (Imagem: Divulgação / Meta)

Nova geração de chips MTIA

De acordo com Yee Jiun Song, vice-presidente de engenharia da Meta, os chips foram projetados pela própria empresa e são fabricados pela Taiwan Semiconductor. A estratégia permite otimizar a relação entre desempenho e custo dentro dos data centers da companhia.

Além disso, o desenvolvimento interno amplia as opções de fornecimento de silício. “Isso também nos oferece mais diversidade em termos de suprimento e nos protege, até certo ponto, contra mudanças de preços”, afirmou Song.

O primeiro modelo dessa nova geração, chamado MTIA 300, começou a ser utilizado há algumas semanas. O chip é voltado ao treinamento de modelos menores de IA, responsáveis por funções centrais nas plataformas da empresa, como sistemas de ranking e recomendação de conteúdo.

Esses sistemas ajudam a determinar quais publicações e anúncios aparecem para os usuários em aplicativos como Facebook e Instagram.

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Chips foram projetados pela própria Meta e fabricados pela Taiwan Semiconductor (Imagem: Divulgação / Meta)

Chips focados em IA generativa

Os próximos modelos da série — MTIA 400, MTIA 450 e MTIA 500 — terão foco em tarefas mais avançadas de inferência em IA generativa. Entre os usos previstos estão sistemas capazes de criar imagens e vídeos a partir de comandos em texto.

Segundo Song, esses chips não serão utilizados para treinar grandes modelos de linguagem (LLMs). A empresa informou em uma publicação no blog oficial que concluiu os testes do MTIA 400 e está se preparando para implantá-lo em seus data centers.

Já os modelos MTIA 450 e MTIA 500 devem entrar em operação até 2027. A Meta pretende manter um ritmo acelerado de desenvolvimento, com novos chips sendo lançados aproximadamente a cada seis meses.

“É incomum que qualquer empresa de silício lance um novo chip nesse intervalo”, disse Song. “Mas estamos expandindo capacidade muito rapidamente e investindo muito em CapEx, então queremos sempre implantar o chip mais avançado disponível.”

A empresa estima que cada chip terá uma vida útil superior a cinco anos.

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A estimativa da Meta é que a vida útil dos novos chips supere cinco anos (Imagem: Divulgação / Meta)

Leia mais:

Expansão de data centers e desafios de memória

O investimento em IA também envolve a expansão da infraestrutura física da Meta. Entre os projetos mencionados estão um grande data center na Louisiana e outras duas unidades nos estados de Ohio e Indiana.

A empresa também avalia alugar espaço no complexo Stargate, no Texas, após mudanças nos planos de expansão do local por parte de OpenAI e Oracle, segundo informações da Bloomberg citadas no texto original.

Assim como outras gigantes de tecnologia, a Meta busca alternativas às GPUs de alto custo e oferta limitada produzidas por Nvidia e AMD. Uma das estratégias é o desenvolvimento de ASICs (circuitos integrados específicos para aplicações), chips projetados para executar tarefas específicas com menor custo.

No entanto, o plano também enfrenta desafios ligados ao fornecimento de componentes. Os futuros chips MTIA usarão mais HBM (memória de alta largura de banda), essencial para tarefas de IA generativa.

A demanda crescente por IA tem provocado escassez global desse tipo de memória, o que pode impactar a cadeia de suprimentos. “Estamos absolutamente preocupados com o fornecimento de HBM”, afirmou Song, acrescentando que a empresa acredita ter garantido os volumes necessários para seus planos atuais.

Os chips MTIA são utilizados exclusivamente para operações internas da Meta e contam com o trabalho de uma equipe de centenas de engenheiros, majoritariamente baseada nos Estados Unidos. Dos 30 data centers operacionais ou planejados pela empresa, 26 estão no país.

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IA deixa conta de luz mais cara nos EUA. Brasil deve estar de olho?

O avanço da inteligência artificial e a corrida por novos data centers reacenderam um debate nos Estados Unidos: o crescimento acelerado dessas estruturas pode pressionar a rede elétrica (o sistema que envolve geração, transmissão e distribuição de energia) e, em alguns casos, impactar tarifas. O movimento ocorre em meio à expansão de infraestrutura dedicada a modelos de IA generativa, que exigem grande capacidade computacional e consumo contínuo de energia.

Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que o consumo elétrico associado a data centers, criptomoedas e IA pode mais que dobrar até o fim da década. Segundo a entidade, centros de dados já respondem por algo próximo de 1% a 1,5% da demanda global de eletricidade, com tendência de alta puxada principalmente por aplicações de IA.

Nos Estados Unidos, onde há concentração significativa dessas instalações, o crescimento regional da carga elétrica, ou seja, o volume de energia demandado em determinado ponto da rede, tem exigido reforços em geração e transmissão.

O debate não se limita ao volume consumido. Envolve qualidade de energia, estabilidade de tensão, critérios de contingência — parâmetros que garantem operação mesmo em caso de falhas — e, em alguns casos, a possibilidade de repasse de custos à tarifa. Diante desse cenário, surge a questão: o sistema elétrico brasileiro está preparado para uma expansão semelhante?

Aplicações de inteligência artificial elevam a demanda por capacidade computacional e consumo contínuo de energia (Imagem: Gorodenkoff / Shutterstock.com)

Governo dos EUA quer que big techs banquem energia de data centers

Nos Estados Unidos, o debate sobre o impacto energético dos data centers ganhou dimensão política ao longo dos últimos meses. Em diferentes manifestações públicas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a defender que as grandes empresas de tecnologia assumam diretamente os custos da energia necessária para sustentar a expansão da infraestrutura de inteligência artificial.

Durante discurso realizado em fevereiro, o presidente afirmou ter determinado que as principais companhias do setor construam suas próprias usinas de geração para abastecer centros de dados. A medida, segundo ele, busca proteger consumidores de possíveis aumentos na conta de luz em um cenário de alta no custo de vida e crescente oposição local a novos projetos.

A posição da Casa Branca não surgiu de forma isolada. Desde janeiro, o governo vinha pressionando empresas para firmar compromissos formais que evitassem o repasse de custos energéticos aos consumidores residenciais. A Microsoft foi a primeira a anunciar ajustes operacionais com esse objetivo, enquanto outras companhias passaram a discutir alternativas como autoprodução e contratos dedicados de fornecimento.

Donald Trump falando
Governo dos Estados Unidos mantém discurso de reforçar corrida tecnológica contra a China, mas afirma que big techs terão que arcar com custos energéticos (Imagem: Joshua Sukoff / Shutterstock.com)

Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, a Casa Branca agendou para 4 de março uma reunião com executivos de empresas como Microsoft, Meta e Anthropic para formalizar um compromisso voltado à contenção do impacto dos data centers nos preços da eletricidade. A proposta envolve a assinatura de um “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia Elétrica”, embora o formato final das exigências e eventuais obrigações adicionais ainda não tenha sido detalhado publicamente.

No mês anterior, a operadora PJM Interconnection já havia apresentado alternativas para grandes consumidores reduzirem o impacto sobre a rede, como conectar geração própria ou limitar consumo em momentos de sobrecarga. Empresas como Anthropic e Microsoft anunciaram iniciativas voluntárias para mitigar efeitos dos centros de dados nos preços de energia ao consumidor.

Comparações exigem escala e maturidade de mercado

Para o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, a análise precisa considerar diferenças estruturais entre os dois países, especialmente o tamanho da base instalada. Assim, é um comparativo que necessita de cuidado ao ser feito.

“Em relação ao número de data centers que já tem nos Estados Unidos e ao número que está sendo instalado. Tudo tem que ser colocado em perspectiva”, explica ele. “Um aumento de 10% do que tem nos Estados Unidos é um aumento massivo. Já 10% do que tem no Brasil não é”.

Segundo ele, variáveis energéticas são monitoráveis e historicamente vinculadas ao crescimento econômico. O Brasil já viveu períodos em que a expansão do PIB esbarrou na limitação de oferta de energia. Hoje, porém, o cenário é distinto, com fontes como solar e eólica permitindo acréscimos mais rápidos de capacidade instalada, diferentemente das grandes hidrelétricas que demandam anos de construção.

Igreja também destaca que o país conta com mercado livre de energia (ambiente em que grandes consumidores negociam energia diretamente com geradores) estruturado e geração distribuída consolidada, instrumentos que ampliam alternativas contratuais para grandes consumidores. Ainda assim, alerta para o ritmo projetado de crescimento da IA no consumo global.

Estima-se que a IA vai caminhar para ser de 5% a 7% do consumo de energia global muito rapidamente. O Brasil tem que ter uma agenda para isso para não ser pego de surpresa, mas, mais uma vez, a comparação com os Estados Unidos tem que ser colocada em perspectiva.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

A dinâmica técnica da pressão energética

Se o debate macroeconômico exige cautela, no plano técnico os impactos são objetivos. A instalação de um grande data center introduz uma carga de elevada potência concentrada — grande consumo de energia conectado em um único ponto físico —, com exigências rigorosas de confiabilidade.

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A conexão de grandes data centers à rede pode exigir ampliações em subestações, novos transformadores e reforços nos sistemas de proteção e contingência (Imagem: Bohbeh creations / Shutterstock.com)

Segundo Rudolf Bühler, coordenador dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação, Inteligência Artificial e Ciência de Dados do Instituto Mauá de Tecnologia, a alteração começa no próprio desenho da rede local.

“A mudança na dinâmica da rede elétrica local ocorre principalmente por introduzir uma carga de elevada potência concentrada em um único ponto de conexão e com exigências rigorosas de confiabilidade e qualidade de energia”, explica ele.

Na prática, isso implica transformadores operando continuamente próximos da plena carga, necessidade de cumprimento de critérios de contingência mais exigentes e revisão de sistemas de proteção. A conexão de centenas de megawatts não exige apenas geração adicional, mas adequações na malha de transmissão — rede de linhas de alta tensão que transporta energia entre regiões —, na transformação e na estabilidade de tensão.

Outro ponto relevante é o perfil eletrônico dessas instalações. A presença massiva de retificadores, UPS e sistemas de conversão pode gerar harmônicos (distorções na forma de onda da corrente elétrica causadas por equipamentos eletrônicos), variações no fator de potência (indicador da eficiência com que a energia é efetivamente utilizada) e oscilações de tensão. O professor Bühler explica que esses efeitos precisam ser monitorados e compensados para evitar impactos na rede local e em consumidores vizinhos.

Uma fileira de racks com equipamentos de fornecimento de energia (UPS) dentro de uma sala de servidores.
Equipamentos de alimentação ininterrupta (UPS) e sistemas de conversão eletrônica influenciam qualidade de energia, fator de potência e estabilidade de tensão na rede local (Imagem: pavlinec / iStock)

Carga base elevada e degraus de expansão

Diferentemente de consumidores industriais que podem reduzir operação em horários de pico, data centers operam com utilização elevada e relativamente constante ao longo do dia, atendendo demanda global ininterrupta.

“A demanda elétrica em um data center tende a ser relativamente contínua e previsível”, afirma Bühler. “No entanto, existem variações decorrentes da expansão das instalações, com a entrada em operação de novos clusters e mudanças operacionais, como momentos em que ocorrem treinamentos intensivos de novos modelos de IA.”

Esses eventos podem produzir degraus de carga significativos — aumentos abruptos no consumo de energia em curtos intervalos de tempo. Por isso, a infraestrutura não pode ser dimensionada apenas pela média de consumo, mas pela demanda contratada máxima, ou seja, o pico de consumo previamente reservado junto à concessionária, e pelas condições de contingência previstas no planejamento da rede.

Nos centros dedicados à IA, explica Bühler, a diferença em relação a data centers tradicionais também é significativa. Há maior densidade de potência por rack (mais energia consumida em menos espaço físico), maior geração de calor e adoção crescente de refrigeração líquida. Esse conjunto eleva a carga total da instalação e pode introduzir maior variabilidade diária, dependendo da estratégia operacional do operador.

Gargalos: geração não é o único fator

Até em países com matriz energética ampla, o risco de sobrecarga regional permanece. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede.

Mesmo em países com matriz energética ampla, existe risco de sobrecarga regional. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede, como capacidade de transformação, corredores de transmissão saturados ou limitações impostas por critérios de estabilidade.

Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de Tecnologia

Segundo Bühler, na maior parte das vezes, o primeiro gargalo aparece na distribuição, sobretudo em áreas urbanas onde subestações e alimentadores já operam próximos ao limite. Em projetos de maior porte, conectados em alta tensão, passam a ser necessários reforços em linhas de transmissão e ampliações de subestações.

Em matrizes diversificadas como a brasileira, a geração tende a não ser o principal problema quando se observa o consumo anual agregado. No entanto, podem surgir dificuldades em momentos pontuais de maior demanda ou em regiões específicas com alta concentração de cargas.

Planejamento estruturado e riscos de expansão reativa

No Brasil, a expansão da rede elétrica é conduzida de forma estruturada, com base nos estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e na análise técnica do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A integração de novas cargas ao Sistema Interligado Nacional — rede que conecta a maior parte da geração e do consumo de energia do país — depende da verificação de impactos elétricos e do atendimento a critérios de segurança e contingência.

Esse desenho institucional tende a reduzir improvisações. Ainda assim, o crescimento acelerado e concentrado de grandes cargas pode introduzir caráter parcialmente reativo ao processo.

Obras de transmissão e ampliação de subestações exigem anos para licenciamento e construção. Quando múltiplos empreendimentos buscam conexão em um mesmo corredor elétrico ou região metropolitana, pode ser necessário realizar reforços que não estavam detalhados no planejamento original.

Além disso, Bühler ressalta a importância de mecanismos de garantias financeiras para grandes cargas. Sem esses instrumentos, existe o risco de investimentos em infraestrutura serem realizados para projetos que eventualmente não se concretizam, gerando ineficiências sistêmicas.

É nesse contexto — de necessidade de coordenação entre expansão digital e planejamento elétrico — que surgem propostas de política pública voltadas especificamente ao setor de data centers, como o Redata.

Redata: incentivo a data centers e exigências energéticas

A criação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, surgiu em um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica, tanto no Brasil quanto no exterior. A Medida Provisória nº 1.318/2025 instituiu o programa com foco em reduzir o custo de instalação e expansão de data centers, mas vinculou os benefícios a compromissos diretos relacionados ao suprimento e ao perfil de consumo de energia dessas operações.

O texto alterou a Lei nº 11.196/2005 para incluir o novo regime e estabeleceu regras específicas para empresas interessadas em implantar ou ampliar serviços de datacenter no país. Entre as contrapartidas, estão obrigações ligadas à matriz energética utilizada pelas operações.

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Redata foi instituído com MP, mas prazo para votação no Senado se encerrou sem aprovação (Imagem: Reprodução/CanalGov)

Uso de fontes limpas e atendimento integral da demanda

Para aderir ao Redata, as empresas precisam cumprir critérios de sustentabilidade definidos em regulamento e atender integralmente sua demanda de energia elétrica por meio de contratos de suprimento ou autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis. O texto também prevê metas relacionadas à eficiência hídrica, como limite de consumo de água por quilowatt-hora processado.

Além disso, o regime condiciona os incentivos fiscais à realização de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação na cadeia da economia digital. Na prática, a política combina desoneração tributária com exigências ambientais e energéticas, em um cenário no qual o consumo intensivo de eletricidade por data centers se tornou ponto central do debate público.

MP caducou e projeto depende do Senado

Embora a Câmara dos Deputados tenha avançado na análise do tema por meio de projeto de lei que incorporou o conteúdo da medida provisória, a MP 1.318/2025 não foi votada a tempo pelo Senado e perdeu validade. Com isso, o regime especial deixou de ter eficácia automática.

O futuro do Redata passa agora por nova articulação legislativa. Em um contexto de expansão da inteligência artificial e aumento da demanda por energia, a definição sobre incentivos fiscais atrelados a compromissos energéticos se tornou parte da discussão mais ampla sobre como financiar e estruturar a infraestrutura elétrica necessária para sustentar o crescimento dos data centers no Brasil.

Independentemente do formato final do Redata, a discussão sobre incentivos fiscais não elimina a questão central do debate energético: quem arca com os investimentos necessários para adaptar a rede elétrica à chegada de grandes cargas?

O custo pode chegar à conta de luz?

O eventual impacto tarifário depende do tipo de investimento necessário.

Reforços ou ampliações de caráter sistêmico (obras que beneficiam o funcionamento geral da rede), quando aprovados pela ANEEL, podem ser incorporados às tarifas e repassados aos usuários da rede. Já obras diretamente atribuíveis ao novo empreendimento — como instalações dedicadas de conexão — tendem a ser custeadas pelo próprio responsável pelo data center, conforme as regras de acesso vigentes.

Isolar não, mas mitigar sim. É possível estruturar contratos e modelos de fornecimento por meio de contratação no mercado livre, acordos de compra de energia de longo prazo e autoprodução associada.

Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de Tecnologia

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O eventual repasse de investimentos em infraestrutura elétrica depende do tipo de reforço e das regras regulatórias aplicáveis a cada projeto (Imagem: Andrzej Rostek/iStock)

Esses mecanismos permitem mitigar risco de preço e garantir suprimento energético, mas não eliminam completamente os impactos. Mesmo na autoprodução (quando o consumidor investe ou participa de usinas para garantir seu próprio suprimento), permanece a utilização da rede de transmissão e a incidência de custos sistêmicos regulados, salvo quando geração e consumo estão fisicamente no mesmo local.

Em larga escala, também entram em jogo limites de disponibilidade de área, licenciamento ambiental e capacidade de conexão à rede existente.

Leia mais:

O sistema brasileiro está preparado?

Para Rudolf Bühler, não é possível afirmar categoricamente que sim ou que não. A resposta depende de fatores técnicos e regionais.

O Brasil possui matriz diversificada e majoritariamente renovável, além de estrutura regulatória consolidada para planejamento e controle da expansão. No entanto, a prontidão varia conforme a região específica, o nível de tensão de conexão e a margem disponível em subestações e linhas locais. Em áreas com alta densidade de pedidos de conexão, redes menos malhadas ou subestações operando próximas da plena carga, podem ser necessários reforços significativos antes da implantação de projetos de grande porte.

Arthur Igreja acrescenta que o país dispõe de instrumentos de monitoramento que reduzem o risco de surpresas estruturais. “Essas variáveis são monitoráveis. Por exemplo, no Brasil que se tem o operador do sistema, sabemos quanto tem de carga instalada, o consumo médio e isso está muito atrelado ao crescimento econômico.” Segundo ele, esse acompanhamento permite antecipar tendências de expansão da demanda.

Painéis solares e turbinas eólicas sob um pôr do sol alaranjado, simbolizando a transição energética e o uso crescente de fontes renováveis no mundo
Fontes como solar e eólica permitem expansão mais rápida da capacidade instalada, fator apontado como diferencial da matriz elétrica brasileira (Imagem: Soft grass / Shutterstock.com)

Igreja também observa que o contexto atual é diferente de ciclos anteriores, quando o crescimento econômico esbarrava na limitação de oferta. “Hoje tem formas mais rápidas de se adicionar a carga, com fotovoltaico, com eólica, não são aquelas obras que levam 5, 10 anos, como grandes hidrelétricas.” Para ele, a combinação de matriz limpa, mercado livre estruturado e geração distribuída madura cria condições para absorver parte do crescimento, desde que haja coordenação.

Ainda assim, Bühler ressalta que a expansão precisa ser tecnicamente planejada. Ele considera razoável discutir contrapartidas energéticas específicas para novos data centers, desde que contribuam para mitigar riscos sistêmicos e alinhar incentivos, como compromissos firmes de demanda, padrões rigorosos de qualidade de energia e eventual integração com soluções de armazenamento ou autoprodução.

O objetivo, segundo ele, não deve ser criar barreiras artificiais, mas garantir que a expansão ocorra de forma coordenada com o planejamento da rede, preservando segurança elétrica, previsibilidade regulatória e equilíbrio tarifário para os demais consumidores.

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IA deixa conta de luz mais cara nos EUA. Brasil deve estar de olho?

O avanço da inteligência artificial e a corrida por novos data centers reacenderam um debate nos Estados Unidos: o crescimento acelerado dessas estruturas pode pressionar a rede elétrica (o sistema que envolve geração, transmissão e distribuição de energia) e, em alguns casos, impactar tarifas. O movimento ocorre em meio à expansão de infraestrutura dedicada a modelos de IA generativa, que exigem grande capacidade computacional e consumo contínuo de energia.

Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que o consumo elétrico associado a data centers, criptomoedas e IA pode mais que dobrar até o fim da década. Segundo a entidade, centros de dados já respondem por algo próximo de 1% a 1,5% da demanda global de eletricidade, com tendência de alta puxada principalmente por aplicações de IA.

Nos Estados Unidos, onde há concentração significativa dessas instalações, o crescimento regional da carga elétrica, ou seja, o volume de energia demandado em determinado ponto da rede, tem exigido reforços em geração e transmissão.

O debate não se limita ao volume consumido. Envolve qualidade de energia, estabilidade de tensão, critérios de contingência — parâmetros que garantem operação mesmo em caso de falhas — e, em alguns casos, a possibilidade de repasse de custos à tarifa. Diante desse cenário, surge a questão: o sistema elétrico brasileiro está preparado para uma expansão semelhante?

Aplicações de inteligência artificial elevam a demanda por capacidade computacional e consumo contínuo de energia (Imagem: Gorodenkoff / Shutterstock.com)

Governo dos EUA quer que big techs banquem energia de data centers

Nos Estados Unidos, o debate sobre o impacto energético dos data centers ganhou dimensão política ao longo dos últimos meses. Em diferentes manifestações públicas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a defender que as grandes empresas de tecnologia assumam diretamente os custos da energia necessária para sustentar a expansão da infraestrutura de inteligência artificial.

Durante discurso realizado em fevereiro, o presidente afirmou ter determinado que as principais companhias do setor construam suas próprias usinas de geração para abastecer centros de dados. A medida, segundo ele, busca proteger consumidores de possíveis aumentos na conta de luz em um cenário de alta no custo de vida e crescente oposição local a novos projetos.

A posição da Casa Branca não surgiu de forma isolada. Desde janeiro, o governo vinha pressionando empresas para firmar compromissos formais que evitassem o repasse de custos energéticos aos consumidores residenciais. A Microsoft foi a primeira a anunciar ajustes operacionais com esse objetivo, enquanto outras companhias passaram a discutir alternativas como autoprodução e contratos dedicados de fornecimento.

Donald Trump falando
Governo dos Estados Unidos mantém discurso de reforçar corrida tecnológica contra a China, mas afirma que big techs terão que arcar com custos energéticos (Imagem: Joshua Sukoff / Shutterstock.com)

Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, a Casa Branca agendou para 4 de março uma reunião com executivos de empresas como Microsoft, Meta e Anthropic para formalizar um compromisso voltado à contenção do impacto dos data centers nos preços da eletricidade. A proposta envolve a assinatura de um “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia Elétrica”, embora o formato final das exigências e eventuais obrigações adicionais ainda não tenha sido detalhado publicamente.

No mês anterior, a operadora PJM Interconnection já havia apresentado alternativas para grandes consumidores reduzirem o impacto sobre a rede, como conectar geração própria ou limitar consumo em momentos de sobrecarga. Empresas como Anthropic e Microsoft anunciaram iniciativas voluntárias para mitigar efeitos dos centros de dados nos preços de energia ao consumidor.

Comparações exigem escala e maturidade de mercado

Para o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, a análise precisa considerar diferenças estruturais entre os dois países, especialmente o tamanho da base instalada. Assim, é um comparativo que necessita de cuidado ao ser feito.

“Em relação ao número de data centers que já tem nos Estados Unidos e ao número que está sendo instalado. Tudo tem que ser colocado em perspectiva”, explica ele. “Um aumento de 10% do que tem nos Estados Unidos é um aumento massivo. Já 10% do que tem no Brasil não é”.

Segundo ele, variáveis energéticas são monitoráveis e historicamente vinculadas ao crescimento econômico. O Brasil já viveu períodos em que a expansão do PIB esbarrou na limitação de oferta de energia. Hoje, porém, o cenário é distinto, com fontes como solar e eólica permitindo acréscimos mais rápidos de capacidade instalada, diferentemente das grandes hidrelétricas que demandam anos de construção.

Igreja também destaca que o país conta com mercado livre de energia (ambiente em que grandes consumidores negociam energia diretamente com geradores) estruturado e geração distribuída consolidada, instrumentos que ampliam alternativas contratuais para grandes consumidores. Ainda assim, alerta para o ritmo projetado de crescimento da IA no consumo global.

Estima-se que a IA vai caminhar para ser de 5% a 7% do consumo de energia global muito rapidamente. O Brasil tem que ter uma agenda para isso para não ser pego de surpresa, mas, mais uma vez, a comparação com os Estados Unidos tem que ser colocada em perspectiva.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

A dinâmica técnica da pressão energética

Se o debate macroeconômico exige cautela, no plano técnico os impactos são objetivos. A instalação de um grande data center introduz uma carga de elevada potência concentrada — grande consumo de energia conectado em um único ponto físico —, com exigências rigorosas de confiabilidade.

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A conexão de grandes data centers à rede pode exigir ampliações em subestações, novos transformadores e reforços nos sistemas de proteção e contingência (Imagem: Bohbeh creations / Shutterstock.com)

Segundo Rudolf Bühler, coordenador dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação, Inteligência Artificial e Ciência de Dados do Instituto Mauá de Tecnologia, a alteração começa no próprio desenho da rede local.

“A mudança na dinâmica da rede elétrica local ocorre principalmente por introduzir uma carga de elevada potência concentrada em um único ponto de conexão e com exigências rigorosas de confiabilidade e qualidade de energia”, explica ele.

Na prática, isso implica transformadores operando continuamente próximos da plena carga, necessidade de cumprimento de critérios de contingência mais exigentes e revisão de sistemas de proteção. A conexão de centenas de megawatts não exige apenas geração adicional, mas adequações na malha de transmissão — rede de linhas de alta tensão que transporta energia entre regiões —, na transformação e na estabilidade de tensão.

Outro ponto relevante é o perfil eletrônico dessas instalações. A presença massiva de retificadores, UPS e sistemas de conversão pode gerar harmônicos (distorções na forma de onda da corrente elétrica causadas por equipamentos eletrônicos), variações no fator de potência (indicador da eficiência com que a energia é efetivamente utilizada) e oscilações de tensão. O professor Bühler explica que esses efeitos precisam ser monitorados e compensados para evitar impactos na rede local e em consumidores vizinhos.

Uma fileira de racks com equipamentos de fornecimento de energia (UPS) dentro de uma sala de servidores.
Equipamentos de alimentação ininterrupta (UPS) e sistemas de conversão eletrônica influenciam qualidade de energia, fator de potência e estabilidade de tensão na rede local (Imagem: pavlinec / iStock)

Carga base elevada e degraus de expansão

Diferentemente de consumidores industriais que podem reduzir operação em horários de pico, data centers operam com utilização elevada e relativamente constante ao longo do dia, atendendo demanda global ininterrupta.

“A demanda elétrica em um data center tende a ser relativamente contínua e previsível”, afirma Bühler. “No entanto, existem variações decorrentes da expansão das instalações, com a entrada em operação de novos clusters e mudanças operacionais, como momentos em que ocorrem treinamentos intensivos de novos modelos de IA.”

Esses eventos podem produzir degraus de carga significativos — aumentos abruptos no consumo de energia em curtos intervalos de tempo. Por isso, a infraestrutura não pode ser dimensionada apenas pela média de consumo, mas pela demanda contratada máxima, ou seja, o pico de consumo previamente reservado junto à concessionária, e pelas condições de contingência previstas no planejamento da rede.

Nos centros dedicados à IA, explica Bühler, a diferença em relação a data centers tradicionais também é significativa. Há maior densidade de potência por rack (mais energia consumida em menos espaço físico), maior geração de calor e adoção crescente de refrigeração líquida. Esse conjunto eleva a carga total da instalação e pode introduzir maior variabilidade diária, dependendo da estratégia operacional do operador.

Gargalos: geração não é o único fator

Até em países com matriz energética ampla, o risco de sobrecarga regional permanece. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede.

Mesmo em países com matriz energética ampla, existe risco de sobrecarga regional. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede, como capacidade de transformação, corredores de transmissão saturados ou limitações impostas por critérios de estabilidade.

Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de Tecnologia

Segundo Bühler, na maior parte das vezes, o primeiro gargalo aparece na distribuição, sobretudo em áreas urbanas onde subestações e alimentadores já operam próximos ao limite. Em projetos de maior porte, conectados em alta tensão, passam a ser necessários reforços em linhas de transmissão e ampliações de subestações.

Em matrizes diversificadas como a brasileira, a geração tende a não ser o principal problema quando se observa o consumo anual agregado. No entanto, podem surgir dificuldades em momentos pontuais de maior demanda ou em regiões específicas com alta concentração de cargas.

Planejamento estruturado e riscos de expansão reativa

No Brasil, a expansão da rede elétrica é conduzida de forma estruturada, com base nos estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e na análise técnica do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A integração de novas cargas ao Sistema Interligado Nacional — rede que conecta a maior parte da geração e do consumo de energia do país — depende da verificação de impactos elétricos e do atendimento a critérios de segurança e contingência.

Esse desenho institucional tende a reduzir improvisações. Ainda assim, o crescimento acelerado e concentrado de grandes cargas pode introduzir caráter parcialmente reativo ao processo.

Obras de transmissão e ampliação de subestações exigem anos para licenciamento e construção. Quando múltiplos empreendimentos buscam conexão em um mesmo corredor elétrico ou região metropolitana, pode ser necessário realizar reforços que não estavam detalhados no planejamento original.

Além disso, Bühler ressalta a importância de mecanismos de garantias financeiras para grandes cargas. Sem esses instrumentos, existe o risco de investimentos em infraestrutura serem realizados para projetos que eventualmente não se concretizam, gerando ineficiências sistêmicas.

É nesse contexto — de necessidade de coordenação entre expansão digital e planejamento elétrico — que surgem propostas de política pública voltadas especificamente ao setor de data centers, como o Redata.

Redata: incentivo a data centers e exigências energéticas

A criação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, surgiu em um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica, tanto no Brasil quanto no exterior. A Medida Provisória nº 1.318/2025 instituiu o programa com foco em reduzir o custo de instalação e expansão de data centers, mas vinculou os benefícios a compromissos diretos relacionados ao suprimento e ao perfil de consumo de energia dessas operações.

O texto alterou a Lei nº 11.196/2005 para incluir o novo regime e estabeleceu regras específicas para empresas interessadas em implantar ou ampliar serviços de datacenter no país. Entre as contrapartidas, estão obrigações ligadas à matriz energética utilizada pelas operações.

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Redata foi instituído com MP, mas prazo para votação no Senado se encerrou sem aprovação (Imagem: Reprodução/CanalGov)

Uso de fontes limpas e atendimento integral da demanda

Para aderir ao Redata, as empresas precisam cumprir critérios de sustentabilidade definidos em regulamento e atender integralmente sua demanda de energia elétrica por meio de contratos de suprimento ou autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis. O texto também prevê metas relacionadas à eficiência hídrica, como limite de consumo de água por quilowatt-hora processado.

Além disso, o regime condiciona os incentivos fiscais à realização de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação na cadeia da economia digital. Na prática, a política combina desoneração tributária com exigências ambientais e energéticas, em um cenário no qual o consumo intensivo de eletricidade por data centers se tornou ponto central do debate público.

MP caducou e projeto depende do Senado

Embora a Câmara dos Deputados tenha avançado na análise do tema por meio de projeto de lei que incorporou o conteúdo da medida provisória, a MP 1.318/2025 não foi votada a tempo pelo Senado e perdeu validade. Com isso, o regime especial deixou de ter eficácia automática.

O futuro do Redata passa agora por nova articulação legislativa. Em um contexto de expansão da inteligência artificial e aumento da demanda por energia, a definição sobre incentivos fiscais atrelados a compromissos energéticos se tornou parte da discussão mais ampla sobre como financiar e estruturar a infraestrutura elétrica necessária para sustentar o crescimento dos data centers no Brasil.

Independentemente do formato final do Redata, a discussão sobre incentivos fiscais não elimina a questão central do debate energético: quem arca com os investimentos necessários para adaptar a rede elétrica à chegada de grandes cargas?

O custo pode chegar à conta de luz?

O eventual impacto tarifário depende do tipo de investimento necessário.

Reforços ou ampliações de caráter sistêmico (obras que beneficiam o funcionamento geral da rede), quando aprovados pela ANEEL, podem ser incorporados às tarifas e repassados aos usuários da rede. Já obras diretamente atribuíveis ao novo empreendimento — como instalações dedicadas de conexão — tendem a ser custeadas pelo próprio responsável pelo data center, conforme as regras de acesso vigentes.

Isolar não, mas mitigar sim. É possível estruturar contratos e modelos de fornecimento por meio de contratação no mercado livre, acordos de compra de energia de longo prazo e autoprodução associada.

Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de Tecnologia

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O eventual repasse de investimentos em infraestrutura elétrica depende do tipo de reforço e das regras regulatórias aplicáveis a cada projeto (Imagem: Andrzej Rostek/iStock)

Esses mecanismos permitem mitigar risco de preço e garantir suprimento energético, mas não eliminam completamente os impactos. Mesmo na autoprodução (quando o consumidor investe ou participa de usinas para garantir seu próprio suprimento), permanece a utilização da rede de transmissão e a incidência de custos sistêmicos regulados, salvo quando geração e consumo estão fisicamente no mesmo local.

Em larga escala, também entram em jogo limites de disponibilidade de área, licenciamento ambiental e capacidade de conexão à rede existente.

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O sistema brasileiro está preparado?

Para Rudolf Bühler, não é possível afirmar categoricamente que sim ou que não. A resposta depende de fatores técnicos e regionais.

O Brasil possui matriz diversificada e majoritariamente renovável, além de estrutura regulatória consolidada para planejamento e controle da expansão. No entanto, a prontidão varia conforme a região específica, o nível de tensão de conexão e a margem disponível em subestações e linhas locais. Em áreas com alta densidade de pedidos de conexão, redes menos malhadas ou subestações operando próximas da plena carga, podem ser necessários reforços significativos antes da implantação de projetos de grande porte.

Arthur Igreja acrescenta que o país dispõe de instrumentos de monitoramento que reduzem o risco de surpresas estruturais. “Essas variáveis são monitoráveis. Por exemplo, no Brasil que se tem o operador do sistema, sabemos quanto tem de carga instalada, o consumo médio e isso está muito atrelado ao crescimento econômico.” Segundo ele, esse acompanhamento permite antecipar tendências de expansão da demanda.

Painéis solares e turbinas eólicas sob um pôr do sol alaranjado, simbolizando a transição energética e o uso crescente de fontes renováveis no mundo
Fontes como solar e eólica permitem expansão mais rápida da capacidade instalada, fator apontado como diferencial da matriz elétrica brasileira (Imagem: Soft grass / Shutterstock.com)

Igreja também observa que o contexto atual é diferente de ciclos anteriores, quando o crescimento econômico esbarrava na limitação de oferta. “Hoje tem formas mais rápidas de se adicionar a carga, com fotovoltaico, com eólica, não são aquelas obras que levam 5, 10 anos, como grandes hidrelétricas.” Para ele, a combinação de matriz limpa, mercado livre estruturado e geração distribuída madura cria condições para absorver parte do crescimento, desde que haja coordenação.

Ainda assim, Bühler ressalta que a expansão precisa ser tecnicamente planejada. Ele considera razoável discutir contrapartidas energéticas específicas para novos data centers, desde que contribuam para mitigar riscos sistêmicos e alinhar incentivos, como compromissos firmes de demanda, padrões rigorosos de qualidade de energia e eventual integração com soluções de armazenamento ou autoprodução.

O objetivo, segundo ele, não deve ser criar barreiras artificiais, mas garantir que a expansão ocorra de forma coordenada com o planejamento da rede, preservando segurança elétrica, previsibilidade regulatória e equilíbrio tarifário para os demais consumidores.

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Por que o Redata acabou? Entenda o fim dos incentivos para data centers no Brasil

O programa Redata, que dava descontos em impostos para incentivar a construção de data centers no Brasil, chegou ao fim nesta quinta-feira (26). Isso aconteceu porque a regra que garantia esse alívio (uma medida provisória) perdeu a validade.

O plano era substituir essa regra temporária, criada pelo governo em setembro de 2025, pelo Projeto de Lei nº 278 de 2026, aprovado pela Câmara dos Deputados na quarta-feira (25). Mas o Senado não votou a proposta dentro do prazo legal. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), encerrou a sessão sem decidir sobre o tema, o que pegou o governo de surpresa.

Governo estuda meios de reativar incentivos sem violar a Lei de Responsabilidade Fiscal

Agora, o Ministério da Fazenda tenta descobrir se existe um caminho jurídico para reativar os incentivos sem desrespeitar as leis de controle de gastos. 

Com o fim do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (nome completo do Redata), volta a cobrança de impostos como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação sobre os equipamentos usados nos data centers (você encontra mais detalhes sobre o programa no final desta matéria). O problema é que o programa era considerado essencial para atrair parte dos US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 257 bilhões) que o setor pretende investir na América Latina.

Redata era considerado essencial para atrair parte dos bilhões de dólares que o setor pretende investir no Brasil e na América Latina (Imagem: AlexLMX/Shutterstock)

O governo defende que ter esses data centers aqui é uma questão de segurança e soberania nacional. Hoje, 60% dos dados pessoais dos brasileiros são processados em outros países, longe do alcance direto das nossas leis de proteção. Além disso, depender de infraestrutura estrangeira deixa os serviços digitais mais caros e gera prejuízo para a economia do país. Em 2025, o Brasil gastou US$ 7,9 bilhões (R$ 41 bilhões) a mais do que recebeu nesse setor.

Empresas de tecnologia criticam a falta de votação. Para elas, o Brasil está perdendo a chance de ser competitivo nesse setor. De um lado, Alcolumbre justifica que o projeto chegou tarde demais ao Senado. De outro, o governo afirma que o texto já estava alinhado entre as Casas (mas já se percebia um impasse no Congresso sobre o tema). O maior obstáculo agora é uma lei de 2025 que proíbe novos benefícios fiscais. A volta do Redata depende de um novo acordo político entre o governo e os presidentes da Câmara e do Senado.

Glossário

O que é data center:

  • Um data center é uma instalação (física ou modular) onde ficam servidores, redes e sistemas de armazenamento que processam e guardam dados de empresas e serviços online;
  • Ele fornece energia, refrigeração, segurança e conexão para manter aplicativos e sites funcionando com alta disponibilidade;
  • Com o avanço das IAs, esse é um mercado em expansão em todo o mundo.

O que o PL do Redata determinava:

  • As empresas interessadas em investir no setor aqui no Brasil vão contar com a suspensão de tributos por cinco anos na compra de equipamentos.
  • A habilitação no Redata será autorizada pelo Ministério da Fazenda e envolve diversos tributos na compra de componentes eletrônicos – seja no mercado interno ou por importação. São eles: Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
  • A empresa vendedora dos equipamentos também será beneficiada, mas apenas para os produtos usados na fabricação dos computadores do data center.
  • No caso do IPI, a suspensão vale para componentes industrializados na Zona Franca de Manaus e listados pelo governo.
  • No caso do Imposto de Importação, a suspensão vale para produtos sem similar no mercado interno.
  • Depois de cumpridos todos os requisitos e entrega dos produtos, a suspensão será convertida em isenção definitiva.

Exemplos de contrapartidas presentes no PL:

  • Uso de energia de fonte limpa (hidrelétricas) ou renovável (solar e eólica);
  • Para ter direito aos benefícios, também é preciso estar em dia com os tributos federais;
  • Direcionar ao mercado interno um mínimo de 10% do fornecimento efetivo de processamento;
  • Realizar investimentos no país equivalentes a 2% do valor dos produtos comprados no mercado interno ou importados com o benefício fiscal;
  • Honrar a totalidade de sua demanda contratual de energia elétrica – seja com contratos de suprimento ou autoprodução de fontes limpas ou renováveis.

(Essa matéria usou informações de CNN Brasil e G1.)

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