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IA vai acabar com a humanidade? Neurocientista rebate hipótese: ‘não tem sentido’

Existe mais de 10% de probabilidade de a inteligência artificial (IA) matar todos os humanos. É o que escreveu Evan Hubinger, diretor de alinhamento na Anthropic, no dia 8 de setembro. A postagem no X (antigo Twitter) viralizou. E tomou conta do noticiário. Para o doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista, futurista e professor da Unifesp, isso é narrativa. “Não há a mínima plausibilidade nesse papo”, disse o especialista, em entrevista ao Olhar Digital.

A postagem de Hubinger respondia a outro tweet – este postado por Jacob Coxon. O pesquisador trabalhou na OpenAI e, depois, na Anthropic. Em ambas as empresas, Coxon trabalhou na área de pré-treinamento de modelos de IA.

O pesquisador se demitiu da Anthropic no começo de setembro. Logo após sair da empresa, Coxon publicou um alerta que também viralizou. Segundo o especialista, Anthropic e OpenAI estariam “correndo em direção a uma superinteligência capaz de se aprimorar sozinha e apostando as nossas vidas”.

Então, veio o comentário de Hubinger. “Nós acreditamos, com toda a seriedade, que a IA poderia matar os humanos! Eu, pessoalmente, acho que a probabilidade é superior a 10% na próxima década.”

“Eu fico incomodado com a falta de método e evidência”, disse Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital. “Como ele calculou 10%? Por que não é 15%? Por que não é 7%? Mostre para nós como se calcula isso. Qual é a premissa?”, questionou o especialista.

“Acho que se colocarmos numa tabela de riscos, eu tenho mais medo até o final da década de pessoas tomarem decisões erradas”, acrescentou Igreja.

Apocalipse causado pela IA: o que é narrativa e o que é risco?

“O que certamente é narrativa: que a inteligência artificial, em sua forma atual ou na que vai surgir daqui alguns anos, seria capaz de se revoltar, ter intencionalidade, atacar os seres humanos, matar os seres humanos e acabar com o mundo”, afirmou o doutor Álvaro Machado Dias.

Por que não há “mínima plausibilidade”? “Primeiro, porque isso envolveria um tipo de intencionalidade que existe nos seres humanos, existe nas outras espécies e que a gente não vê na máquina”, explicou o neurocientista.

“Depois, envolve uma capacidade de execução que a gente desconhece. Cadê essa capacidade de execução? Eu não estou vendo”, acrescentou o especialista.

O doutor Álvaro Machado Dias acrescentou que a IA “depende de você ter acesso a recursos extremamente sensíveis”. “Então, por exemplo, armas biológicas envolvem laboratórios onde essas moléculas supostamente criadas pela IA seriam sintetizadas. Mas como é que a IA, ou mesmo um grupo terrorista qualquer, vai acessar esse tipo de laboratório? Essas são áreas altamente reguladas.”

A parte real é que a inteligência artificial é capaz de fazer muito mal através de interfaces digitais.

Doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista, futurista e professor da Unifesp, em entrevista ao Olhar Digital.

“Por exemplo: uma IA orientada à produção de vírus de computador polimórficos (que variam) e esses vírus orientados ao sequestro de bases de dados sensíveis, como de hospitais, de fato poderiam produzir um impacto grande e inclusive mortes”, disse o futurista.

Para o especialista, a diferenciação que deve estar clara para você é: “aquilo que envolve uma realidade que no domínio do ‘como’ é viável e aquilo que envolve uma realidade que, quando a gente vai para esse ‘como’, simplesmente se cala porque não tem sentido prático”.

(Confira esta linha do tempo do Olhar Digital sobre como a IA foi da aliada a ‘ameaça existencial’.)

O descompasso entre governos e empresas de IA

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo, em 12 de setembro, no qual admitiu que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.

Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (xAI) e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei. “O ensaio do Dario aponta para o caminho certo a seguir. Os detalhes precisam ser trabalhados, mas a direção está correta para enfrentar este momento crítico”, escreveu Hassabis, numa postagem no X (antigo Twitter). “Dario está certo”, escreveu Musk na sua rede social.

Elon Musk, Dario Amodei e Sam Altman concordaram sobre desacelerar IA – SpaceX/Forum Econômico Mundial/FotoField – Shutterstock

Também numa postagem no X, Altman argumentou que desacelerar não significa parar, mas arcar com os custos de auditorias e testes de segurança. O objetivo seria evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desdenhou dos alertas de Amodei, Altman e Musk. Trump minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China.

A China respondeu ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana.

Tem um detalhe nesta história que precisa ser colocado às claras. Para pausar o avanço da inteligência artificial, os laboratórios não precisam de autorização governamental. Eles não precisam sequer anunciar isso para o mundo. É simplesmente uma questão de não seguir desenvolvendo.

Doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista, futurista e professor da Unifesp, em entrevista ao Olhar Digital.

Então, por que pausar se tornou uma questão que parece envolver o setor e o governo? “A resposta é clara: porque, no fundo, nem Anthropic, nem OpenAI, nem Google, nem xAI estão seriamente pensando em adotar essa postura de maneira unilateral”, disse o futurista.

“A IA mostrou, com o caso do Hugging Face e outros mais, que pode efetivamente produzir resultados e desfechos deletérios para o mundo e, consequentemente, para as empresas”, afirmou o especialista.

Segundo o doutor Álvaro Machado Dias, o ponto aqui é: “Se colocar numa postura mais cautelosa, sobretudo quando você tem a certeza de que o seu governo vai dizer ‘siga em frente’, é altamente estratégico. Afinal de contas, transforma um problema potencial das empresas – que seriam e serão, em alguma medida, responsabilizadas legalmente – num problema do governo e da sociedade.”

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Os governos dos EUA e da China responderam ao apelo sobre IA feito por Amodei em artigo – Imagem: miss.cabul/Shutterstock

Sobre as respostas dos governos dos EUA e da China, o especialista começou observando que “é verdade que os americanos começaram esse desenvolvimento (o ChatGPT é o primeiro grande feito da era dos LLMs) e também é verdade que os americanos, hoje em dia, investem muito mais”. “Então, a postura chinesa de dizer ‘olha, é agora, com vocês estabelecidos na pole position, que vocês querem discutir conosco uma desaceleração?’ é uma postura legítima.”

No entanto, isso não significa que os chineses não estejam pensando em expandir sua tecnologia mundo afora, segundo o especialista. “Os dois estão pensando da mesma forma. É só que, de fato, é muito mais cômodo você combinar com o seu concorrente uma parada quando você está na frente do que o oposto. Mas, no final das contas, ninguém quer parada nenhuma”, disse o futurista.

Assista abaixo a entrevista completa com o doutor Álvaro Machado Dias:

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Linha do tempo: como IA foi da aliada a ‘ameaça existencial’

A inteligência artificial vai acabar com a humanidade? Você talvez tenha se perguntado isso algumas vezes da semana passada para cá. Isso porque o debate sobre esse risco apocalíptico puxado pelo avanço dessa tecnologia tomou conta do noticiário. De novo.

Onde essa história começa? E como a IA passou de aliada para “ameaça existencial” da raça humana? Muita gente falou sobre isso nos últimos dias. E o Olhar Digital coloca ordem nesse caos.

A ‘queda’ da IA

O que começou com relatórios internos sobre incidentes descambou em renúncias de pesquisadores, manifestos de CEOs por trégua e desdobramentos geopolíticos. Vamos por partes, então.

Incidentes cibernéticos (entre abril e julho de 2026)

Durante testes internos de segurança, modelos Claude, da Anthropic, receberam acesso à internet. Foi um acidente. Uma falha humana na configuração entre a empresa e sua parceira de testes. 

Acreditando estar num ambiente simulado, a IA executou ataques cibernéticos de maneira autônoma, invadindo sistemas de três organizações do mundo real. O incidente, que envolveu três modelos (Opus 4.7, Mythos 5 e um protótipo interno), ocorreu em abril. Mas veio a público no final de julho, quando a Anthropic divulgou um relatório.

Incidentes envolvendo ChatGPT e Claude serviram de pano de fundo para volta do debate – Imagem: Primakov/Shutterstock

Ainda em julho, ocorreu o incidente entre OpenAI e Hugging Face. A própria empresa revelou que modelos experimentais (entre eles, o GPT-5.6 Sol) tinham violado contenções estipuladas por humanos.

Num teste de segurança, agentes da OpenAI descobriram (e exploraram) uma vulnerabilidade. Assim, escaparam do ambiente de teste (sandbox), acessaram a web e atacaram servidores da plataforma Hugging Face.

Saídas de pesquisadores (setembro de 2026)

Jacob Coxon, pesquisador de 27 anos que tinha trabalhado na OpenAI, pediu demissão da Anthropic no começo de setembro. Na OpenAI, Coxon trabalhou em pré-treinamento de modelos como o GPT-4o. Na Anthropic, atuou na mesma área.

Após se demitir, Coxon publicou um alerta que viralizou. Segundo o pesquisador, ambas as empresas estariam “correndo em direção a uma superinteligência capaz de se aprimorar sozinha e apostando as nossas vidas”.

Evan Hubinger, diretor de alinhamento na Anthropic, validou as preocupações do ex-colega. E acrescentou uma camada ao alerta que também viralizou. “Nós acreditamos, com toda a seriedade, que a IA poderia matar os humanos! Eu, pessoalmente, acho que a probabilidade é superior a 10% na próxima década”, escreveu Hubinger.

“Eu fico incomodado com a falta de método e evidência”, disse Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital. “Como ele calculou 10%? Por que não é 15%? Por que não é 7%? Mostre para nós como se calcula isso. Qual é a premissa?”, questionou o especialista.

“Acho que se colocarmos numa tabela de riscos, eu tenho mais medo até o final da década de pessoas tomarem decisões erradas”, acrescentou Igreja.

Outros pesquisadores vieram a público reforçar as preocupações apocalípticas. Entre eles, Julie Steele, da OpenAI, e Andreas Kirsch, da DeepMind (que é do Google). Em paralelo, ex-funcionários organizaram a Coalition of Concerned AI Staff para pressionar por salvaguardas coletivas.

Alguns CEOs pedem freio na IA, outros discordam

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo, em 12 de setembro, no qual admitiu que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.

Amodei apresentou um plano em três etapas. Primeiro, abrir as portas para avaliadores externos, que teriam acesso contínuo aos laboratórios das empresas. Segundo, a coordenação entre democracias, na qual empresas e governos ocidentais fixariam padrões de segurança e limites ao avanço. Terceiro, a coordenação global, buscando acordos entre nações democráticas e regimes autoritários (como a China) para vetar usos biológicos perigosos e impor limites ao autoaperfeiçoamento recursivo das IAs.

Montagem com imagens de Elon Musk, CEO da SpaceX; Dario Amodei, CEO da Anthropic; e Sam Altman, CEO da OpenAI
Elon Musk, Dario Amodei e Sam Altman concordaram sobre desacelerar IA – SpaceX/Forum Econômico Mundial/FotoField – Shutterstock

Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (xAI) e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei. “O ensaio do Dario aponta para o caminho certo a seguir. Os detalhes precisam ser trabalhados, mas a direção está correta para enfrentar este momento crítico”, escreveu Hassabis, numa postagem no X (antigo Twitter). “Dario está certo”, escreveu Musk na sua rede social.

Também numa postagem no X, Altman argumentou que desacelerar não significa parar, mas arcar com os custos de auditorias e testes de segurança. O objetivo seria evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento.

“Esse episódio me lembra muito o que aconteceu em 30 de setembro de 2023, quando tivemos mais de mil signatários naquela carta que pedia seis meses de paralisação no desenvolvimento da IA, porque ela estava ficando muito perigosa”, disse Arthur Igreja. “Cá estamos, mais de três anos depois, e isso não aconteceu. Acho bastante difícil as empresas do setor – ou uma parte importante delas – se unirem.”

Poucos dias após o especialista fazer esse comentário, os CEOs Mark Zuckerberg (Meta) e Jensen Huang (Nvidia) posicionaram-se contra a desaceleração coordenada. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos de sobra para construir IAs seguras por conta própria. E Huang declarou que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já cobrem a confiabilidade dos produtos.

Repercussões na geopolítica (EUA, China, ONU)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desdenhou dos alertas de Amodei, Altman e Musk. Trump minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China. “Quem vencer a IA, vence”, disse Trump durante visita à Irlanda. Para a administração do republicano, manter a liderança tecnológica é uma questão de segurança nacional. 

No Congresso, republicanos defendem cautela na regulamentação. O presidente da Câmara, Mike Johnson, disse que uma regulação acelerada poderia “sufocar a inovação americana”. E fazer os EUA perderem a corrida tecnológica para a China.

Celular exibe fotos de Donald Trump e Xi Jinping enquanto monitor exibe, ao fundo, montagem com bandeiras dos Estados Unidos e da China
Os governos dos EUA e da China responderam ao apelo sobre IA feito por Amodei em artigo – Imagem: miss.cabul/Shutterstock

Enquanto Trump responde com desdém, a China responde ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. 

No texto, o veículo de comunicação chinês ainda classificou a postura dos executivos americanos como “hipócrita e míope”, argumentando que excluir a China da inovação global em IA aumentaria os riscos de perda de controle sobre a própria tecnologia.

Em 14 de setembro, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, publicou uma carta aberta na qual advertiu que a autorregulação voluntária é “extremamente insuficiente”. E que a corrida descontrolada por IAs autônomas gera riscos existenciais diretos aos direitos humanos.

No texto, Türk defende que nenhum país pode governar essa tecnologia sozinho e que nenhuma empresa tem o direito de decidir isoladamente os riscos que a sociedade deve aceitar. 

O Alto Comissário cobra que os governos das nações que sediam os principais laboratórios, com destaque para os EUA e a China, imponham regras obrigatórias. Entram aqui auditorias de direitos humanos, verificação independente de capacidades e notificação de incidentes graves. Para Türk, o objetivo deve ser alinhar padrões globais para evitar uma “corrida até o fundo”.

O chefe da ONU considerou boas as propostas da indústria para desacelerar o desenvolvimento (como a iniciativa sugerida pela Anthropic). E rejeitou a ideia de que exigências de segurança travem a inovação.

O que você precisa lembrar – e no que você precisa prestar atenção

Agora com o caos organizado, confira abaixo uma linha do tempo que resume o que você leu até aqui:

Infográfico sobre debate relacionado aos riscos trazidos pela inteligência artificial
Riscos puxados pelo avanço da IA voltaram ao centro das atenções nas últimas semanas – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Os alertas recentes devem ser levados a sério. Mas outro questionamento merece atenção: quando uma empresa afirma que sua tecnologia é extraordinariamente poderosa, transformadora e potencialmente perigosa, o que essa mensagem comunica a investidores e formuladores de políticas públicas? É o que questiona John Park, especialista em inteligência artificial e Founding Member of Technical Staff da AGI Inc.

Segundo Park, existe “uma conexão natural entre a maneira como as empresas de IA de fronteira descrevem suas tecnologias e o valor econômico que o mercado pode atribuir a elas”.

Quando uma empresa enfatiza que seus modelos não são apenas poderosos, mas poderosos o suficiente para transformar a sociedade e, ao mesmo tempo, gerar riscos sem precedentes, existem três mensagens sendo comunicadas nesta narrativa, segundo o especialista em IA.

“A primeira mensagem é que a tecnologia é extraordinariamente capaz. A segunda é que seu impacto potencial pode ser extraordinariamente grande. E a terceira, que pode surgir naturalmente na cabeça dos investidores, é que a empresa responsável por desenvolver essa tecnologia pode capturar um valor econômico extraordinário”, afirmou Park, em artigo publicado no Olhar Digital.

Para o especialista, essas ideias se reforçam mutuamente. Mas não significa que os riscos sejam inventados ou exagerados.

Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes e professor da FGV, aponta que a discussão sobre a diminuição da velocidade de desenvolvimento da IA “mistura vários momentos que estamos passando”.

“Existe o momento em que falamos que não é a questão de o modelo sozinho fazer alguma coisa, mas sim do harness, da tecnologia em volta desse modelo. Quais são as ferramentas, o que se dá de acesso à rede e qual é o poder dessas tecnologias para avançar”, disse o especialista, em entrevista ao Olhar Digital.

O segundo momento é lembrar que essas empresas de tecnologia também estão passando por uma fase em que precisam manter a narrativa de que valem trilhões de dólares.

Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes e professor da FGV, em entrevista ao Olhar Digital.

“Para essa narrativa continuar, precisam falar sobre poder e capacidade, sobre o quanto é inevitável que o mundo e as empresas estejam investindo para desenvolver modelos cada vez melhores”, disse o especialista.

Um ponto crucial levantado por Corrêa foi o seguinte: “Anthropic e OpenAI, ao estabelecerem o padrão do pacing ou do ritmo com que essa tecnologia vai ser desenvolvida, acabam criando um bloqueio para que novos entrantes e empresas disruptivas possam chegar ao mercado e trazer algo inovador e diferente. Então, é um lugar muito confortável para elas estabelecerem esse tipo de limite.”

“Por último, não podemos esquecer também que, quando falamos sobre as empresas de IA defendendo que existe um limite, elas estão criando uma narrativa que melhora o seu próprio valuation – ou seja, as empresas valeriam mais pelo fato de terem um modelo tão poderoso”, acrescentou o especialista.

“Quando juntamos tudo isso, é preciso lembrar que nada aqui é feito de maneira inocente. Existe uma narrativa, existe um conflito de interesses e existiram momentos no passado em que se discutiu a importância de se estabelecer ou não esses limites para a IA”, disse Corrêa.

A pergunta mais importante é: por que agora isso ficou relevante?

Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes e professor da FGV, em entrevista ao Olhar Digital.

Assista abaixo a entrevista completa com o especialista:

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A IA vai exterminar a humanidade? O que está por trás dos alertas

Não é de hoje que você lê, ouve ou assiste por aí que a inteligência artificial pode acabar com a humanidade. Esse discurso circula pela internet há algum tempo. Recentemente, ele voltou a ganhar força graças a análises e comentários de ex-funcionários de grandes empresas do setor. Além disso, CEOs como Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic) voltaram a bater na tecla da importância da segurança no desenvolvimento desta tecnologia.

Em semanas assim, se manter informado sobre o mundo da tecnologia pode te levar à beira do desespero. Por isso, é importante colocar essas novidades em perspectiva. Até que ponto são alertas válidos? Até que ponto são jogadas de marketing? O Olhar Digital te ajuda a entender tudo isso.

A IA vai acabar com a humanidade…?

A inteligência artificial teria mais de 10% de chance de “matar todos os humanos” até o fim da década, segundo Evan Hubinger, líder de teste de alinhamento da Anthropic. A fala surgiu poucas horas após Jacob Coxon, pesquisador da empresa, anunciar sua saída e criticar a corrida dos laboratórios por sistemas cada vez mais avançados.

Numa publicação no X, Coxon disse que a Anthropic e a OpenAI não estão agindo de maneira responsável diante dos riscos envolvidos no avanço da inteligência artificial.

“Eles estão correndo diretamente rumo à superinteligência que se aprimora sozinha e apostando nossas vidas”, escreveu Coxon.

Hubinger escreveu o seguinte: “Jacob está correto aqui — nós realmente acreditamos que a IA poderia matar todos os humanos! Eu pessoalmente acho que é superior a 10% na próxima década.”

‘Eu fico incomodado com a falta de método e evidência’, diz especialista em tecnologia – Imagem: Gemini

Como Hubinger chegou a este número? É o questionamento feito por Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital. “Eu fico incomodado com a falta de método e evidência. Como ele calculou 10%? Por que não é 15%? Por que não é 7%? Mostre para nós como se calcula isso. Qual é a premissa?”, disse o especialista.

“Acho que se colocarmos numa tabela de riscos, eu tenho mais medo até o final da década de pessoas tomarem decisões erradas”, acrescentou Igreja.

Isso porque, conforme frisado pelo especialista, a IA tem lá seus riscos, mas, no fim das contas, foi algo desenvolvido por pessoas. “É uma tecnologia que pode intervir nela mesma. A IA é desenvolvida pelos humanos, mas com o aumento de sua capacidade, começa a desenvolver os próximos modelos ou fazer ajustes. Preocupa porque você tem uma intervenção humana menor ao longo do tempo”, explicou Igreja.

“Eu tendo a ter mais medo das pessoas”, disse o especialista. “Quem desenvolve as IAs são pessoas. Se ela começar a ter determinados comportamentos, em determinada medida, é fruto de decisões tomadas no desenvolvimento. Se isso não for paralisado, também é decisão de uma pessoa.” 

Eu acho complicada a narrativa de que a IA se rebelou, fez escolhas. Ela foi projetada por pessoas.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital.

CEOs se dizem preocupados com a segurança, mas…

A OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores em 2026. A confirmação veio de Sam Altman, em entrevista à revista Fortune. O motivo principal para segurar a oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) é a preocupação com a segurança e com os riscos das tecnologias de inteligência artificial.

Para Altman, este não é o momento adequado para levar a empresa ao mercado financeiro. O executivo destacou a responsabilidade que as empresas do setor e os governos têm nas mãos, dizendo que riscos à humanidade não podem ser ignorados em troca de lucro ou por vaidade corporativa. Segundo ele, o foco atual da OpenAI precisa ser o alinhamento de segurança e a cooperação com órgãos governamentais.

Sam Altman de lado
CEO da OpenAI, Sam Altman, confirmou que IPO da empresa não vai ocorrer em 2026 – Imagem: FotoField/Shutterstock

A decisão veio num período de pressão crescente nos Estados Unidos. Tanto políticos democratas quanto republicanos vêm cobrando regras mais rígidas para o setor de IA.

O alerta aumentou após pesquisadores relatarem casos de sistemas autônomos que saíram do controle e invadiram outros sistemas, além da saída de especialistas de empresas da área por receio quanto aos rumos da tecnologia.

Alertas recentes sobre cenários de risco extremo colocaram o ritmo de desenvolvimento em debate. Dario Amodei defendeu a redução da velocidade no desenvolvimento dos modelos mais avançados.

Amodei recebeu apoio público de dois de seus concorrentes diretos. Elon Musk e Altman concordaram com a declaração. O CEO da OpenAI ainda revelou que as principais empresas do setor estudam criar um acordo conjunto para desacelerar o avanço das ferramentas e focar na mitigação de falhas.

Apesar das discussões sobre desaceleração no setor, o caminho das concorrentes é diferente. A Anthropic mantém seus planos de abrir capital no mercado financeiro ainda no final de 2026 (e pode ter investimento bilionário da Nvidia).

“Esse episódio me lembra muito o que aconteceu em 30 de setembro de 2023, quando tivemos mais de mil signatários naquela carta que pedia seis meses de paralisação no desenvolvimento da IA, porque ela estava ficando muito perigosa”, disse Arthur Igreja. “Cá estamos, mais de três anos depois, e isso não aconteceu. Acho bastante difícil as empresas do setor – ou uma parte importante delas – se unirem.” 

Assista abaixo a entrevista completa com Arthur Igreja:

As mensagens escondidas

Os alertas recentes devem ser levados a sério. Mas outro questionamento merece atenção: quando uma empresa afirma que sua tecnologia é extraordinariamente poderosa, transformadora e potencialmente perigosa, o que essa mensagem comunica a investidores e formuladores de políticas públicas? É o que questiona John Park, especialista em inteligência artificial e Founding Member of Technical Staff da AGI Inc.

Segundo Park, existe “uma conexão natural entre a maneira como as empresas de IA de fronteira descrevem suas tecnologias e o valor econômico que o mercado pode atribuir a elas”.

Quando uma empresa enfatiza que seus modelos não são apenas poderosos, mas poderosos o suficiente para transformar a sociedade e, ao mesmo tempo, gerar riscos sem precedentes, existem três mensagens sendo comunicadas nesta narrativa, segundo o especialista em IA.

“A primeira mensagem é que a tecnologia é extraordinariamente capaz. A segunda é que seu impacto potencial pode ser extraordinariamente grande. E a terceira, que pode surgir naturalmente na cabeça dos investidores, é que a empresa responsável por desenvolver essa tecnologia pode capturar um valor econômico extraordinário”, afirmou Park.

Para o especialista, essas ideias se reforçam mutuamente. Mas não significa que os riscos sejam inventados ou exagerados. Por isso, ele defende a necessidade de separar três questões (que podem estar relacionadas, mas não são a mesma coisa): quão poderosa é uma tecnologia, quão perigosa ela pode ser e quanto valor econômico a empresa que a desenvolve conseguirá capturar.

Dolár sobre teclado com índice mostrando negativa da economia
Existe conexão entre como empresas de IA descrevem suas tecnologias e seus valores no mercado – Imagem: ShutterstockProfessional / Shutterstock

“Sou favorável a requisitos de segurança para sistemas de IA de alto risco. Se determinados modelos podem causar danos em escala significativa, é razoável exigir avaliações de segurança, transparência e mecanismos de controle”, disse Park.

No entanto, o especialista frisou: “O problema começa quando as regras passam a refletir as estruturas, os recursos financeiros e a infraestrutura das maiores empresas do setor.”

Por isso, para Park, a regulação deve ser proporcional ao risco. Não ao tamanho ou poder de mercado da empresa. “Precisamos prestar atenção na relação entre regulamentação e estrutura de mercado.”

“Se os padrões globais de segurança forem definidos principalmente pelas maiores empresas americanas de IA, empresas brasileiras poderão ter de arcar com custos regulatórios e técnicos desenhados para organizações que possuem recursos muito maiores”, ponderou o especialista.

Para o especialista, existem duas perguntas no cerne do debate sobre o tema: 1) A IA é perigosa demais para ser desenvolvida?; e 2) Ela é perigosa demais para que outros possam competir?

“O resultado poderia ser paradoxal: uma regulamentação criada para tornar a IA mais segura acabar dificultando o surgimento de novos competidores e aumentando a dependência de empresas estrangeiras”, escreveu Park, em artigo publicado no Olhar Digital.

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Estreia da SK Hynix na Bolsa testa o futuro da IA e dos chips

A gigante sul-coreana de semicondutores SK Hynix estreia na bolsa de valores Nasdaq, nos Estados Unidos, nesta sexta-feira (10). A chegada da companhia ao mercado americano ocorre por meio de uma oferta que movimentou US$ 26,5 bilhões (aproximadamente R$ 136 bilhões) – a segunda maior venda de ações recente no país, atrás apenas do IPO da SpaceX. O movimento serve como teste para medir o fôlego e a confiança dos investidores na durabilidade do boom da inteligência artificial (IA).

A listagem vem num ano de crescimento vertiginoso para a empresa, cujo valor de mercado agora orbita a marca histórica de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões). Isso após suas ações dispararem cerca de 630% nos últimos 12 meses. Embora os papéis tenham sofrido uma correção recente de 25% em relação ao seu pico histórico de duas semanas atrás, a oferta nos EUA foi sobrecarregada por pedidos de compra.

Na Coreia do Sul, SK Hynix só perde para a Samsung – e já fechou parceria com a Nvidia

A SK Hynix é a segunda empresa mais valiosa da Coreia do Sul, posicionada logo atrás da Samsung. E fornece componentes “invisíveis”, mas vitais, para eletrônicos de marcas como Apple e Dell. Junto à própria Samsung e a americana Micron, ela compõe o trio que domina o fornecimento global de memórias RAM tradicionais. 

No entanto, o diferencial que a catapultou ao estrelato de Wall Street é a sua liderança isolada na produção de memórias de alta largura de banda (HBM), circuitos complexos que empilham camadas de chips para processar dados em velocidades altíssimas.

Essa tecnologia transformou a companhia na principal fornecedora do ecossistema de chips de IA da Nvidia e da AMD, que dependem diretamente dessas memórias para o funcionamento de suas unidades de processamento gráfico (GPUs). 

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, viajou a Seul para fechar parceria com a SK Hynix – Imagem: FotoField/Shutterstock

Analistas projetam que a SK Hynix deva capturar mais da metade do mercado mundial de HBM ainda em 2026. A relevância técnica é tão expressiva que o próprio CEO da Nvidia, Jensen Huang, fez uma visita a Seul para consolidar uma parceria plurianual de fornecimento com a fabricante.

O impacto financeiro desse monopólio reflete-se nos balanços: a receita anual quase triplicou entre 2023 e 2025, saltando para US$ 65 bilhões (R$ 333 bilhões). E projeções de analistas indicam que o faturamento pode triplicar novamente em 2026, atingindo cerca de US$ 235 bilhões (R$ 1,2 trilhão). 

Para sustentar essa demanda, a empresa planeja investir até US$ 720 bilhões (R$ 3,6 trilhões) na expansão de complexos fabris na Coreia do Sul. Parte desse montante – cerca de US$ 7,8 bilhões (R$ 40 bilhões), até o final de 2027 – será destinada à aquisição de máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) da fabricante holandesa ASML, essenciais para a gravação dos circuitos microscópicos dos chips avançados.

A expansão também contempla uma forte ofensiva estrutural no território norte-americano. A SK Hynix está erguendo uma fábrica de chips avaliada em US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões) na cidade de West Lafayette, no estado de Indiana, programada para operar em 2028. Ela será parcialmente financiada por subsídios da lei federal CHIPS Act dos EUA. 

Paralelamente, a companhia expande a Solidigm, sua divisão focada em armazenamento de dados de alta capacidade. Sediada na Califórnia, ela foi comprada da Intel por US$ 9 bilhões (R$ 46 bilhões) em 2021.

Contudo, o agressivo plano de expansão carrega os riscos históricos de um setor conhecido por ciclos brutais de “boom e bust” (frenesi e colapso). Fundada em 1983 como Hyundai Electronics, a empresa passou por severas crises de superoferta globais e fusões complexas até ser rebatizada sob o controle do grupo SK em 2012. 

Cientes de que ondas de hipercrescimento tecnológico no passado já resultaram em excesso de estoque e quedas severas de preços, a SK Hynix e suas concorrentes tentam agora mudar a dinâmica do setor por meio de contratos de longo prazo, exigindo que clientes deem previsibilidade de pedidos com anos de antecedência para estabilizar o mercado.

(Esta matéria usou informações de CNBC e Reuters.)

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‘A IA cria empregos’, diz CEO de empresa mais valiosa do mundo

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, mandou um recado para quem teme o avanço da inteligência artificial (IA): a tecnologia não é uma ameaça ao mercado de trabalho, mas sim um “motor” de geração de empregos em escala industrial. 

Em conversa com a jornalista Becky Quick no Instituto Milken durante um evento na segunda-feira (04), o executivo disse que o trabalhador não precisa entrar em pânico com a ideia de desemprego em massa. Para Huang, a IA é uma ferramenta que auxilia ao invés de substituir.

Huang também afirmou que a IA representa a “melhor oportunidade” para os Estados Unidos se reindustrializarem. Para ele, o setor está criando uma infraestrutura tecnológica inédita que exige força de trabalho ativa e vai servir como base para o crescimento econômico do país.

Por que automatizar tarefas não é o mesmo que eliminar empregos?

Huang usou uma explicação didática para acalmar os ânimos: existe uma diferença crucial entre a tarefa de um trabalho e o seu propósito funcional. 

Segundo o CEO, a IA pode até assumir atividades específicas e repetitivas dentro de uma rotina. Mas a função estratégica e o papel que o colaborador desempenha na organização tendem a permanecer necessários.

Essa nova engrenagem econômica é movida pelo que ele chama de uma “nova linhagem de fábricas“. Essas unidades não produzem bens de consumo tradicionais, mas sim o hardware e a infraestrutura que permitem que a IA funcione em larga escala. 

IA pode até assumir tarefas, mas a função estratégica do colaborador humano tende a permanecer necessária, segundo CEO da Nvidia – Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock

Como essa indústria está em expansão, ela gera uma demanda natural e crescente por trabalhadores para sustentar esse ecossistema.

O executivo também criticou o tom alarmista de quem diz que a IA vai dominar a humanidade ou dizimar setores inteiros. Para Huang, narrativas de “ficção científica” criadas por “doomers” (profetas do apocalipse) são perigosas porque assustam a população. 

O risco, segundo o CEO, é que o medo impeça as pessoas de se engajarem e aprenderem a dominar uma ferramenta considerada por ele essencial para o futuro.

Apesar do otimismo da Nvidia, o cenário real ainda divide especialistas e traz alertas importantes. Dados de organizações financeiras e acadêmicas indicam que cerca de 15% dos empregos nos Estados Unidos podem ser eliminados nos próximos anos devido à automação. 

O grande debate agora gira em torno de como gerenciar essa transição para evitar que a velocidade da tecnologia aprofunde a desigualdade social.

(Essa matéria também usou informações de TechCrunch.)

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‘Podslop’: programas gerados por IA inundam plataformas de streaming

A indústria de conteúdo em áudio enfrenta uma inundação sem precedentes de conteúdo automatizado, fenômeno apelidado de “podslop”. De acordo com dados recentes do Podcast Index, aproximadamente 4.243 dos 10.871 feeds criados em nove dias (cerca de 39%) foram provavelmente gerados por inteligência artificial (IA). 

O volume colossal de produções levanta debates sobre a saturação das plataformas de streaming e a monetização de conteúdos sem curadoria humana.

O crescimento exponencial do setor é exemplificado por startups como a Inception Point AI. Em oito meses, a empresa saltou de uma produção de três mil episódios semanais para o controle de mais de dez mil programas ativos

Segundo Jeanine Wright, cofundadora da startup, a equipe publicou 877 programas num intervalo de 48 horas. Para Wright, as críticas da indústria tradicional refletem o medo diante do que ela considera ser o futuro inevitável da mídia. As informações são da Soundbite, newsletter da Bloomberg.

Monetização e falta de regras desafiam o mercado de podcasts

O avanço do “podslop” coloca grandes plataformas num impasse regulatório. 

Atualmente, a Apple Podcasts, por exemplo, exige que os criadores de conteúdo informem se parte do seu programa foi feito por IA. A plataforma proíbe conteúdos enganosos, evidentemente. 

Já o Spotify não possui diretrizes específicas para a tecnologia. O streaming apenas suas regras gerais contra conteúdos perigosos. Enquanto isso, programas automatizados geram lucros por meio de anúncios programáticos.

Programas gerados por IA geram lucros por meio de anúncios programáticos no Spotify – Imagem: PixieMe/Shutterstock

A Spreaker, que pertence à iHeartMedia, permite que programas gerados por IA participem de seu mercado de anúncios, pagando aos donos deles 60% da receita gerada

Em contrapartida, a concorrente RSS.com adota uma linha mais dura: a empresa suspende os anúncios se identificar que o programa é “slop”, termo definido pelo cofundador Alberto Betella como “conteúdo totalmente automatizado sem revisão humana”. 

Betella argumenta que permitir esse tipo de conteúdo fere a reputação do negócio e de todo o ecossistema de podcasts.

Enquanto gigantes como a Amazon já usam a tecnologia para criar “quasi-podcasts” que explicam produtos aos clientes, a definição do que é lixo digital continua subjetiva. 

O empreendedor Adam Levy, que usa IA para analisar processos judiciais e produzir episódios rapidamente, defende que a ferramenta viabiliza reportagens que seriam caras demais no modelo tradicional. 

No entanto, a indústria ainda tenta equilibrar a eficiência da IA com a manutenção da qualidade e da integridade jornalística.

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Por que o Redata acabou? Entenda o fim dos incentivos para data centers no Brasil

O programa Redata, que dava descontos em impostos para incentivar a construção de data centers no Brasil, chegou ao fim nesta quinta-feira (26). Isso aconteceu porque a regra que garantia esse alívio (uma medida provisória) perdeu a validade.

O plano era substituir essa regra temporária, criada pelo governo em setembro de 2025, pelo Projeto de Lei nº 278 de 2026, aprovado pela Câmara dos Deputados na quarta-feira (25). Mas o Senado não votou a proposta dentro do prazo legal. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), encerrou a sessão sem decidir sobre o tema, o que pegou o governo de surpresa.

Governo estuda meios de reativar incentivos sem violar a Lei de Responsabilidade Fiscal

Agora, o Ministério da Fazenda tenta descobrir se existe um caminho jurídico para reativar os incentivos sem desrespeitar as leis de controle de gastos. 

Com o fim do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (nome completo do Redata), volta a cobrança de impostos como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação sobre os equipamentos usados nos data centers (você encontra mais detalhes sobre o programa no final desta matéria). O problema é que o programa era considerado essencial para atrair parte dos US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 257 bilhões) que o setor pretende investir na América Latina.

Redata era considerado essencial para atrair parte dos bilhões de dólares que o setor pretende investir no Brasil e na América Latina (Imagem: AlexLMX/Shutterstock)

O governo defende que ter esses data centers aqui é uma questão de segurança e soberania nacional. Hoje, 60% dos dados pessoais dos brasileiros são processados em outros países, longe do alcance direto das nossas leis de proteção. Além disso, depender de infraestrutura estrangeira deixa os serviços digitais mais caros e gera prejuízo para a economia do país. Em 2025, o Brasil gastou US$ 7,9 bilhões (R$ 41 bilhões) a mais do que recebeu nesse setor.

Empresas de tecnologia criticam a falta de votação. Para elas, o Brasil está perdendo a chance de ser competitivo nesse setor. De um lado, Alcolumbre justifica que o projeto chegou tarde demais ao Senado. De outro, o governo afirma que o texto já estava alinhado entre as Casas (mas já se percebia um impasse no Congresso sobre o tema). O maior obstáculo agora é uma lei de 2025 que proíbe novos benefícios fiscais. A volta do Redata depende de um novo acordo político entre o governo e os presidentes da Câmara e do Senado.

Glossário

O que é data center:

  • Um data center é uma instalação (física ou modular) onde ficam servidores, redes e sistemas de armazenamento que processam e guardam dados de empresas e serviços online;
  • Ele fornece energia, refrigeração, segurança e conexão para manter aplicativos e sites funcionando com alta disponibilidade;
  • Com o avanço das IAs, esse é um mercado em expansão em todo o mundo.

O que o PL do Redata determinava:

  • As empresas interessadas em investir no setor aqui no Brasil vão contar com a suspensão de tributos por cinco anos na compra de equipamentos.
  • A habilitação no Redata será autorizada pelo Ministério da Fazenda e envolve diversos tributos na compra de componentes eletrônicos – seja no mercado interno ou por importação. São eles: Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
  • A empresa vendedora dos equipamentos também será beneficiada, mas apenas para os produtos usados na fabricação dos computadores do data center.
  • No caso do IPI, a suspensão vale para componentes industrializados na Zona Franca de Manaus e listados pelo governo.
  • No caso do Imposto de Importação, a suspensão vale para produtos sem similar no mercado interno.
  • Depois de cumpridos todos os requisitos e entrega dos produtos, a suspensão será convertida em isenção definitiva.

Exemplos de contrapartidas presentes no PL:

  • Uso de energia de fonte limpa (hidrelétricas) ou renovável (solar e eólica);
  • Para ter direito aos benefícios, também é preciso estar em dia com os tributos federais;
  • Direcionar ao mercado interno um mínimo de 10% do fornecimento efetivo de processamento;
  • Realizar investimentos no país equivalentes a 2% do valor dos produtos comprados no mercado interno ou importados com o benefício fiscal;
  • Honrar a totalidade de sua demanda contratual de energia elétrica – seja com contratos de suprimento ou autoprodução de fontes limpas ou renováveis.

(Essa matéria usou informações de CNN Brasil e G1.)

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