O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) recomendou, nesta segunda-feira (21), que a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) avalie os riscos dos chamados “companheiros de IA”, serviços que usam inteligência artificial (IA) para simular relações de amizade, companheirismo e até romance com usuários.
A recomendação consta de uma nota técnica da Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), vinculada ao Ministério da Justiça. O documento sugere que a ANPD examine esses serviços à luz do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) e de suas competências de fiscalização.
O documento não afirma que as plataformas cometeram infrações. A análise aponta, porém, indícios de “desconformidades” após uma avaliação preliminar de 13 serviços.
Foram analisadas as plataformas Character.AI, Replika, Nomi, Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, CrushOn.AI, EVA AI, Anima, Swipey e SpicyChat.AI. Segundo o próprio Ministério da Justiça, o levantamento tem caráter preliminar.
Quais são os riscos apontados pelo governo
Entre os pontos que a Sedigi considera merecerem investigação estão os mecanismos de verificação de idade, o risco de uso excessivo ou compulsivo, a exposição a conteúdo inadequado e a utilização de dados para criar perfis emocionais e comportamentais dos usuários;
A secretaria afirma que a maior parte dos serviços analisados utiliza a autodeclaração como único mecanismo de aferição de idade;
“Os achados técnicos indicam que a maior parte dos serviços analisados adota a autodeclaração como único mecanismo de aferição de idade”, disse a secretaria;
Segundo o órgão, a facilidade para contornar esse tipo de verificação pode indicar que os serviços são acessados por menores de idade e, portanto, estariam sujeitos às obrigações previstas no ECA Digital;
“Assim, a facilidade com que a autodeclaração é contornada não configura apenas deficiência do dever de aferição etária. Ela constitui, também, elemento indicativo do acesso provável, que submete o serviço ao conjunto das obrigações da lei”, acrescentou a Sedigi;
As plataformas analisadas possuem características diferentes, mas podem manter o histórico das conversas, adaptar respostas de acordo com o usuário e simular personalidade e emoções. Alguns serviços também oferecem interações de amizade, romance e conteúdo adulto.
Recomendação está nas mãos da ANPD – Imagem: Reprodução/ANPD
A análise faz parte das ações do governo relacionadas à implementação do ECA Digital, a Lei nº 15.211/2025, que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
A legislação se aplica a produtos e serviços de tecnologia direcionados a esse público ou cujo acesso por crianças e adolescentes seja provável. Entre os critérios previstos está justamente o risco à privacidade, à segurança e ao desenvolvimento biopsicossocial, especialmente em serviços voltados à interação social.
O ECA Digital entrou em vigor em março de 2026. A ANPD recebeu competências para zelar pela aplicação da legislação, regulamentar parte de seus dispositivos e fiscalizar o cumprimento das regras.
A própria agência publicou, em março, orientações preliminares para a adoção de mecanismos confiáveis de aferição de idade por serviços direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por esse público.
Senacon também pode analisar as plataformas
Além da recomendação à ANPD, o documento do Ministério da Justiça sugere que o assunto seja analisado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).
Nesse caso, a avaliação deverá considerar possíveis problemas relacionados à publicidade, monetização e uso das informações dos usuários pelas plataformas.
A recomendação ocorre enquanto o governo amplia a aplicação das regras brasileiras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Em setembro, o MJSP afirmou que o ECA Digital havia completado seis meses de vigência e destacou a atuação da ANPD na fiscalização das novas regras.
O Brasil será um dos principais testes para o uso de inteligência artificial em eleições, segundo Bruno Lewicki, 51, head de políticas públicas da OpenAI na América Latina. Em entrevista ao podcast A Máquina, publicada pela Folha neste sábado (19), o executivo afirmou que a experiência brasileira poderá servir de aprendizado para outros países que terão eleições no ano seguinte.
Lewicki disse que a OpenAI se preparou para o pleito brasileiro e espera uma eleição sem grandes problemas relacionados ao uso de IA. Ao mesmo tempo, destacou que várias regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são novas e que ainda não existe jurisprudência para determinar como algumas delas serão aplicadas na prática.
Como a OpenAI diz que se preparou?
Segundo Lewicki, a estratégia da empresa envolve três frentes. A primeira é a transparência sobre conteúdos gerados por IA. Arquivos produzidos pelo ChatGPT recebem uma etiqueta digital com metadados sobre sua origem e uma marca d’água invisível que pode indicar quando uma imagem foi criada pelo serviço.
O executivo citou um caso recente envolvendo um suposto relatório da Polícia Federal que circulou nas redes sociais. Uma jornalista de uma agência de checagem identificou que o documento havia sido produzido com IA usando uma ferramenta disponibilizada ao público pela OpenAI. A ferramenta permite o envio de uma imagem ou áudio para verificar se o arquivo foi gerado integralmente ou com auxílio do ChatGPT.
O ChatGPT é uma das ferramentas de IA citadas no debate sobre o uso da tecnologia nas eleições de 2026 – Imagem: Nwz / Shutterstock
Para textos, porém, Lewicki afirmou que essa ferramenta específica não faz a verificação. Ele também destacou o acesso à informação como outra frente de atuação. Segundo o executivo, são enviadas 215 milhões de mensagens diárias ao ChatGPT no Brasil, o que torna a qualidade das informações utilizadas pelo modelo uma questão relevante.
Durante o período eleitoral, a empresa também intensificou a inclusão de fontes oficiais, como o TSE, e de veículos jornalísticos entre as referências consideradas pelo sistema. A terceira frente citada por Lewicki é o monitoramento contínuo realizado pelas equipes de segurança, inteligência e integridade da companhia.
Regras do TSE ainda são novidade
Uma das mudanças mencionadas na entrevista é a determinação de que modelos de IA não podem ranquear, recomendar, sugerir, favorecer ou desfavorecer candidatos ou partidos, direta ou indiretamente. Lewicki afirmou que a OpenAI já possui políticas voltadas a evitar vieses em questões políticas e eleitorais, mas ressaltou que a regra do TSE é nova e ainda não possui jurisprudência.
O executivo também afirmou que o uso do ChatGPT em campanhas eleitorais é proibido, exceto em determinadas atividades administrativas. A empresa ainda não disponibiliza anúncios políticos ou eleitorais no ChatGPT, incluindo no Brasil, onde anúncios passaram a existir na versão gratuita e em uma das versões pagas do serviço.
A OpenAI também mantém políticas contra práticas como supressão de voto e interferência no processo eleitoral. Lewicki citou um episódio ocorrido na Índia em 2024, quando o ChatGPT teria sido usado em conjunto com redes sociais e personas falsas de mídia para favorecer um partido em relação a outro. Segundo ele, o caso foi identificado pelos sistemas da empresa e não teve grande engajamento.
Empresa diz ter aprimorado sistema
Lewicki também comentou estudos do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e do Observatório IA nas Eleições que apontaram situações em que chatbots, incluindo o ChatGPT, ainda ranqueavam ou recomendavam candidatos.
O executivo afirmou que os estudos anteriores foram realizados com dados coletados entre fevereiro e julho, antes do início da campanha eleitoral. Segundo ele, a OpenAI solicitou um novo estudo ao professor Diogo Reis para avaliar mudanças mais recentes. Nesse levantamento, de acordo com Lewicki, o modelo se recusou a ranquear ou recomendar candidatos em 32 de 33 tentativas.
Outro ponto citado na entrevista foi a regra do TSE sobre conteúdos gerados por IA nas proximidades da eleição. A norma mencionada por Lewicki estabelece restrições à publicação, republicação e impulsionamento desses materiais nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito. Na avaliação apresentada pelo executivo, a regra não trata da geração do conteúdo em si.
O TSE estabeleceu novas regras para o uso de inteligência artificial e conteúdos sintéticos durante as eleições – Imagem: Blossom Stock Studio / Shutterstock
Questionado sobre quem seria responsável caso uma imagem gerada por IA circulasse nesse período, Lewicki afirmou que a norma prevê responsabilidades para as redes sociais e para quem disseminar o conteúdo. A OpenAI, segundo ele, continuará utilizando suas camadas de defesa para indicar a procedência dos arquivos e monitorar usos que contrariem suas políticas.
Lewicki afirmou ainda que a empresa não contratou pessoas especificamente por causa da eleição brasileira, mas vem aprimorando sua tecnologia continuamente. Para ele, o pleito de 2026 representa um momento importante devido à disseminação da IA, e a experiência brasileira poderá contribuir para eleições previstas para 2027, incluindo as da França e da Espanha.
O executivo também defendeu maior participação de governos, empresas, academia e sociedade civil nas discussões sobre segurança de IA. Segundo Lewicki, questões relacionadas à cibersegurança e aos riscos da tecnologia não deveriam ficar restritas a empresas e especialistas do setor privado.
Eis uma frase que, antes mesmo de ser finalizada, pode levar a reações diferentes. Enquanto alguns torcem o nariz, outros ficam entusiasmados.
A tecnologia gera desconfiança. Seja por um receio de impacto no mercado de trabalho, seja pela falta de confiança nos resultados que ela apresenta diante de uma demanda.
No primeiro caso, vivemos uma mudança constante ainda difícil de medir e projetar no futuro. No segundo, em última instância, a responsabilidade para checar se aquilo que uma IA gerou é real fica com o ser humano.
Se você já está no mercado de trabalho há algum tempo, quando a corrida das IAs se intensificou, a depender da sua profissão, possivelmente você precisou se adaptar.
E assim como aconteceu na revolução digital, existe uma geração que já está crescendo e se desenvolvendo nos novos tempos.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou nesta terça-feira (8) o Pisa 2025. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes é um trabalho aplicado a cada três anos para medir o conhecimento dos estudantes em leitura, matemática e ciência.
Resultado: ao menos uma vez por semana, quase metade dos alunos brasileiros de 15 anos usa chatbots de IA, como o ChatGPT, para estudar. Foi a primeira vez que o Pisa levantou essa informação.
Aqui no Brasil, a porcentagem chegou a 48%. A média da OCDE foi de 46%.
Comparação entre Brasil e a média da OCDE quando o assunto é uso de IA por estudantes. – Gráfico gerado com IA. ChatGPT/Olhar Digital
Para realizar pesquisas preliminares sobre um novo tema, o índice é de 40% no Brasil e 31% na média da OCDE.
Já 31% dos estudantes brasileiros usam a tecnologia para resumir textos que precisam ler, contra 30% na média da OCDE.
Para elaborar rascunhos para trabalhos escolares, são 27% no Brasil e 29% na OCDE.
Por fim, 11% dos estudantes brasileiros disseram nunca ou quase nunca usar chatbots de IA nas atividades escolares analisadas, enquanto a média da OCDE é de 14%.
Bullying e cyberbullying
Em 2025, 17% dos estudantes brasileiros relataram ter sido vítimas de pelo menos uma forma de bullying algumas vezes por mês ou com maior frequência. O percentual ficou abaixo da média da OCDE, de 20%. No Brasil, a incidência de bullying não apresentou mudança significativa entre as edições de 2022 e 2025 do PISA. No mesmo período, porém, o problema aumentou na grande maioria dos países e economias participantes.
O cyberbullying é menos frequente do que outras formas de bullying. No Brasil, 3% dos estudantes disseram que informações que os incomodavam ou prejudicavam foram publicadas sobre eles na internet, sem consentimento, pelo menos algumas vezes por mês nos 12 meses anteriores à aplicação do PISA. O índice é igual à média da OCDE, também de 3%.
Smartphone e distrações
No Brasil, os estudantes relataram passar, em média, 1,3 hora por dia usando dispositivos digitais na escola para atividades de aprendizagem, abaixo da média da OCDE, de 1,7 hora. Ao mesmo tempo, parte relevante do uso desses equipamentos durante os dias letivos é destinada ao lazer: os brasileiros passam, em média, 1 hora por dia usando dispositivos digitais na escola para atividades não relacionadas ao aprendizado, ante 1,1 hora na OCDE.
A distração provocada pela tecnologia também aparece nos dados. No Brasil, 25% dos estudantes afirmaram que seus colegas frequentemente se distraem com dispositivos digitais durante a maioria ou todas as aulas de ciências, contra 28% na média da OCDE. Entre os países da organização, alunos que relatam esse tipo de distração obtêm, em média, 11 pontos a menos em ciências, mesmo considerando diferenças socioeconômicas entre estudantes e escolas. No Brasil, a diferença chega a 19 pontos.
A proibição do uso de celulares nas escolas também se tornou muito mais comum. Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros frequentavam escolas onde o uso de celulares não era permitido nas dependências, percentual bem superior à média da OCDE, de 49%. Em 2022, essa proporção era de apenas 37% no Brasil e 34% na média da OCDE, indicando um forte avanço das restrições no período.
Os dados da OCDE também apontam uma relação entre essas medidas e a distração: estudantes de escolas que proíbem celulares têm probabilidade cerca de 13% menor de relatar distrações causadas por dispositivos digitais, na média dos países da organização.
Brasil abaixo da média em ciências, matemática e leitura
Desempenho em ciências
No Brasil, 48% dos estudantes alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em ciências, enquanto a média da OCDE é de 74%. Nesse patamar, os alunos conseguem, no mínimo, reconhecer explicações corretas para fenômenos científicos familiares e avaliar, em situações simples, se uma conclusão é válida com base nos dados apresentados.
A distância também aparece entre os estudantes de melhor desempenho. Apenas 1% dos brasileiros atingiu os níveis 5 ou 6 em ciências, contra 7% na média da OCDE. Alunos nesses níveis são capazes de aplicar de maneira criativa e autônoma seus conhecimentos científicos a diferentes situações, inclusive aquelas com as quais não estão familiarizados.
Desempenho em matemática
Em matemática, 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência, bem abaixo dos 65% registrados na média da OCDE. Nesse nível, os alunos conseguem interpretar situações simples e reconhecer como representá-las matematicamente, como comparar as distâncias totais de duas rotas ou converter preços entre moedas.
Praticamente nenhum estudante brasileiro atingiu os níveis 5 ou 6 em matemática, enquanto a média da OCDE é de 8%. Nesses níveis mais avançados, os alunos conseguem modelar situações complexas matematicamente e selecionar, comparar e avaliar diferentes estratégias para solucionar problemas.
Desempenho em leitura
Em leitura, 49% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior, ante 69% na média da OCDE. Nesse patamar, os alunos conseguem identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações a partir de critérios explícitos e refletir sobre o propósito e a forma de um texto quando orientados a fazê-lo.
Entre os estudantes de maior desempenho, 1% dos brasileiros alcançou o nível 5 ou superior em leitura, contra 6% na média da OCDE. Esses alunos conseguem compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir fatos de opiniões a partir de pistas implícitas presentes no conteúdo ou na fonte da informação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, nesta quinta-feira (20), um pacote de R$ 2,5 bilhões para ampliar a infraestrutura brasileira necessária ao desenvolvimento e treinamento de modelos de inteligência artificial (IA). Uma das principais iniciativas é a instalação de um supercomputador de aproximadamente R$ 1 bilhão no Rio Grande do Norte.
O anúncio foi feito durante uma visita de Lula ao Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na região metropolitana de Natal (RN). O equipamento fará parte do novo Centro Brasileiro de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial.
O projeto prevê R$ 1,06 bilhão para a aquisição e operação da estrutura. Desse total, R$ 960 milhões serão destinados à compra do equipamento e outros R$ 100 milhões às etapas de preparação e operação.
Os recursos estão previstos no CT-Infra, instrumento de financiamento de infraestrutura de pesquisa, e integram o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
Lula afirmou que a escolha do Rio Grande do Norte levou em consideração a necessidade de distribuir investimentos para além das regiões mais ricas do país. “São Paulo queria, Campinas queria. E por que eu decidi aqui? Porque eu acho que a gente precisa olhar o Brasil e os estados que mais necessitam”, disse o presidente.
Supercomputador terá 7,2 mil petaflops
O supercomputador terá desempenho de 7,2 mil petaflops em FP16, mais de 50 mil núcleos de processamento e consumo elétrico estimado em quatro megawatts;
Na prática, a máquina poderá realizar até 7,2 quintilhões de operações por segundo em um formato utilizado em aplicações de IA;
Segundo Marcelo Fernandes, diretor do Núcleo de Inteligência Artificial (Metrópole IA), do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN), se oito bilhões de pessoas realizassem um cálculo por segundo, seriam necessários aproximadamente 29 anos para executar a quantidade de operações que o supercomputador poderá processar em apenas um segundo;
“Imagine uma pessoa realizando uma operação matemática por segundo, sem parar. Ela precisaria de aproximadamente 228 bilhões de anos para executar a quantidade de cálculos que o supercomputador poderá realizar em apenas um segundo”, explicou Fernandes;
O equipamento terá mais de 50 mil núcleos capazes de trabalhar simultaneamente em diferentes partes de um mesmo problema.
Para comparação, o supercomputador Santos-Dumont, atualmente a máquina mais potente do país, instalado no interior do Rio de Janeiro, opera com 27 petaflops.
De acordo com as estimativas apresentadas pelo governo, treinar no Santos-Dumont um grande modelo de linguagem como o GPT-4 levaria aproximadamente 11 anos. Com a nova máquina, o mesmo processo poderá ser realizado em cerca de um mês.
Quem poderá usar a máquina
A estrutura não será destinada exclusivamente ao governo. Segundo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, o equipamento poderá ser utilizado por universidades, instituições de tecnologia, empresas e órgãos públicos.
A infraestrutura deverá atender empresas e startups interessadas em desenvolver e treinar seus próprios modelos, além de universidades e centros de pesquisa envolvidos em projetos de IA e ciência de dados. Também estão previstos usos por instituições governamentais em áreas, como saúde, agricultura, clima, indústria e serviços públicos.
Profissionais e estudantes também deverão ser beneficiados com novas oportunidades de formação em áreas de alta qualificação.
“Não se trata só de adquirir uma máquina. Há contrapartidas previstas que as empresas deverão cumprir, benefícios estruturantes para o nosso país. É todo um ecossistema em torno dessa máquina”, afirmou Santos.
Por que o Rio Grande do Norte foi escolhido
A escolha do Rio Grande do Norte foi apresentada pelo governo como estratégia para distribuir a infraestrutura tecnológica pelo país e ampliar a capacidade científica e econômica da região Nordeste.
A governadora do Estado, Fátima Bezerra, afirmou que o Rio Grande do Norte apresentou as condições técnicas consideradas mais adequadas para receber o equipamento. “O Rio Grande do Norte apresentava as condições técnicas mais adequadas não só do ponto de vista da localização, mas do ponto de vista, inclusive, de um insumo fundamental que é a energia limpa em abundância que nós temos”, disse.
A disponibilidade de energia renovável foi um dos critérios considerados pelo governo. O Estado possui forte participação de fontes eólica e solar em sua matriz energética.
A expectativa é que a presença do supercomputador também amplie a capacidade de pesquisa e formação em IA e computação de alto desempenho no Nordeste, com integração entre universidades e centros de pesquisa.
Na área econômica, o governo aponta ainda o potencial de atrair pesquisadores, startups e empresas de tecnologia para o Estado e para a região.
A máquina será instalada no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, que recebeu o nome do pesquisador potiguar responsável por projetos de dirigíveis entre 1894 e 1902. Augusto Severo morreu naquele ano durante a explosão de uma aeronave.
Lula fez os anúncios nesta quinta-feira (20) – (Reprodução: Ricardo Stuckert)
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Três rotas tecnológicas
O supercomputador do Rio Grande do Norte representa uma das três frentes tecnológicas apresentadas pelo governo para ampliar a infraestrutura brasileira de supercomputação dentro do PBIA.
A primeira é justamente a aquisição da máquina para o RN. A segunda envolve uma cooperação tecnológica com a China, com a implantação de uma estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro. A terceira prevê o desenvolvimento de chips com arquitetura aberta, em Campinas (SP).
As três iniciativas têm como objetivo reduzir a dependência brasileira de capacidade computacional contratada no exterior e ampliar a infraestrutura necessária para desenvolver e treinar modelos de IA.
O PBIA prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, abrangendo infraestrutura tecnológica, formação de profissionais, pesquisa, inovação e aplicações de IA.
Parceria com Huawei terá investimento de R$ 1,27 bilhão
O governo também planeja implantar uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro por meio de parceria entre a Huawei e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O centro deverá começar a operar em 2027 e terá, entre suas missões, o desenvolvimento de um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla em inglês), semelhante aos sistemas utilizados pelo ChatGPT e pelo Claude.
O projeto contará com a cooperação da chinesa iFlytek, empresa de IA especializada em tradução e transcrição. A intenção é desenvolver um modelo com capacidade de trabalhar não apenas em português, mas também em espanhol.
O governo estima investir R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos na parceria, que também prevê a capacitação de três mil profissionais brasileiros.
Como contrapartida, Huawei e iFlytek deverão oferecer transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, segundo o governo.
O valor é relativamente modesto quando comparado ao investimento privado necessário para a construção de um data center do TikTok no Ceará, estimado em quase R$ 50 bilhões.
“Nuvem brasileira”
Outra iniciativa anunciada pelo governo é a criação de uma chamada “nuvem brasileira”, ainda sem indicação de custo no orçamento do pacote. A proposta prevê computadores instalados no Brasil e maior controle nacional sobre o software.
O governo afirma já ter investido mais de R$ 1 bilhão na instalação de servidores de nuvem fornecidos por grandes empresas de tecnologia e administrados sob controle do Serpro e da Dataprev.
A intenção agora é que esses servidores, utilizados na infraestrutura de computação pública, passem a ser fabricados no Brasil e utilizem software compartilhado com a União.
Chips livres de patentes
A terceira frente tecnológica é voltada ao desenvolvimento de chips livres de patentes. O governo destinará R$ 125 milhões à iniciativa e espera captar outros R$ 125 milhões da iniciativa privada.
A estratégia tem um horizonte de dez a 15 anos e pretende ampliar a capacidade brasileira de desenvolver chips, reduzindo a dependência de tecnologias controladas por poucas empresas ou países.
Os chips serão desenvolvidos com base na arquitetura RISC-V, tecnologia aberta e não proprietária que permite criar e adaptar componentes sem depender de projetos controlados pelas grandes empresas de tecnologia.
A iniciativa será conduzida pelo Instituto Eldorado, em Campinas (SP), em proposta comparada pelo governo ao ecossistema de inovação de Barcelona (Espanha). “A iniciativa busca ampliar o domínio brasileiro sobre tecnologias críticas para a computação de alto desempenho e a inteligência artificial”, afirmou o governo em comunicado.
Centro de Transparência Algorítmica
O pacote inclui ainda R$ 50 milhões para um Centro de Transparência Algorítmica, que será comandado por pesquisadores da UFMG.
A estrutura terá a missão de produzir análises de risco e falhas dos modelos de IA disponíveis no mercado, seguindo modelo semelhante ao existente na Europa.
Disputa entre EUA e China
O anúncio de Lula ocorre em meio à crescente disputa tecnológica entre Estados Unidos e China pelo desenvolvimento da IA. Cinco dias antes, a Reuters havia revelado uma operação da Casa Branca para tentar isolar a China no desenvolvimento de IA.
O governo de Donald Trump deve alertar 35 países, incluindo o Brasil, de que eles poderão ser excluídos de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para distribuição de investimentos em tecnologia.
Uma carta relacionada à chamada Declaração Pax Silica afirma que “fazer parte de tudo é não fazer parte de nada” e defende que os países façam uma escolha deliberada de lado quando o assunto é IA. “A assinatura da Declaração Pax Silica não é uma mera adesão, mas um compromisso”, diz o documento, que também insta os países a “escolher deliberadamente” um lado em relação à IA.
A publicação ocorreu quatro dias depois de Lula afirmar que o Brasil ainda não está preparado para disputar tecnologicamente nem com estadunidenses nem com chineses. O presidente disse querer os dois países “conosco”.
Governo admite riscos na compra
Em entrevista à Folha de S.Paulo na semana passada, Luciana Santos reconheceu que o governo terá de lidar com “incertezas e riscos” na compra dos supercomputadores. “Os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China”, afirmou a ministra.
Ela ponderou que as empresas estadunidenses também têm interesse em vender seus produtos ao Brasil, considerando que a compra do supercomputador representa mais de R$ 1 bilhão. “Não sei até que ponto o que é proclamado vai acontecer na prática, porque se trata de um interesse objetivo”, disse Luciana.
O Brasil já aparece entre os mercados com maior adoção corporativa de inteligência artificial. Segundo estudo global da Sinch com 2.527 executivos, 76% das empresas brasileiras mantêm agentes de IA em produção. A taxa supera a média mundial, de 62%, e a dos Estados Unidos, de 67%.
O cenário de expansão tem um contraponto: problemas de governança ainda levam empresas a recuar em projetos de IA. No país, 80% das organizações já interromperam ou reverteram alguma implementação. Em 39% desses casos, houve vazamento de dados ou de informações pessoais.
Agentes de IA deixaram a fase de teste em muitas empresas brasileiras. O desafio agora é manter a tecnologia segura e sob controle. – Imagem: Summit Art Creations/Shutterstock
Investimentos devem continuar
A intenção de ampliar os gastos mostra que esses problemas não frearam os planos das companhias. O levantamento aponta que 66% das empresas brasileiras pretendem aumentar em mais de 25% os investimentos em IA. Só a Índia apresenta uma taxa maior, de 71%.
A infraestrutura também entrou na pauta. Hoje, 48% das empresas brasileiras avaliam novos fornecedores para dar suporte aos projetos de inteligência artificial. O índice é inferior apenas ao da Índia, que chega a 50%.
América Latina corre mais riscos
A diferença de ritmo fica ainda mais evidente na comparação entre as regiões. Na América Latina, 21% das empresas planejam elevar os investimentos em IA em mais de 50%. Na América do Norte, são 12%.
A região latino-americana, porém, também registra mais problemas relacionados à proteção de dados. Segundo a pesquisa, 41% das organizações precisaram desligar agentes de IA após vazamentos. Na América do Norte, o percentual foi de 26%.
Nas Américas, 87,2% das empresas consideram a infraestrutura de comunicação essencial para seus projetos de IA. O mesmo percentual diz ter avaliado ou negociado com novos fornecedores nos últimos 12 meses.
Os números que ajudam a dimensionar o cenário brasileiro são:
76% das empresas já operam agentes de IA em produção;
80% interromperam ou reverteram implementações por questões de governança;
39% dos rollbacks ocorreram após vazamentos de dados ou informações pessoais;
66% pretendem elevar os investimentos em mais de 25%;
48% estão avaliando novos fornecedores.
Na América Latina, 41% das organizações desligaram agentes de IA após vazamentos. Na América do Norte, foram 26%. – Imagem: Summit Art Creations/Shutterstock
Segurança vira parte da equação
Para Mario Marchetti, CEO da Sinch na América Latina, o momento exige uma mudança de foco. “O desafio agora não é mais adotar IA, mas garantir que ela seja segura, governada e capaz de entregar experiências consistentes para o cliente”, afirma.
O estudo The AI Production Paradox ouviu executivos seniores de dez países e seis setores da economia. Os resultados mostram que colocar agentes de IA em funcionamento já é uma realidade para muitas empresas brasileiras. O próximo passo será manter esses sistemas operando sem abrir mão da segurança e da governança.
O Brasil aparece entre os países mais avançados na adoção prática de inteligência artificial no ambiente corporativo, segundo o Work Trend Index 2026, estudo divulgado pela Microsoft neste mês. A pesquisa aponta que o país tem proporcionalmente mais profissionais considerados “de fronteira” no uso de IA do que mercados como Estados Unidos, Japão e Índia.
De acordo com o relatório, 27% dos trabalhadores brasileiros que utilizam IA já atuam em níveis considerados avançados pela empresa. Esse grupo reúne profissionais capazes de automatizar fluxos de trabalho com agentes de IA, criar sistemas multiagentes, reformular rotinas e identificar processos repetitivos que podem ser automatizados.
Além disso, esses usuários também ajudam a estabelecer padrões internos para o uso da tecnologia dentro das equipes. Globalmente, os chamados “Frontier Professionals” representam, em média, 16% dos usuários de IA.
A pesquisa foi baseada em trilhões de sinais de produtividade anonimizados do Microsoft 365, além de entrevistas com 20 mil trabalhadores em dez países.
Outro dado que colocou o Brasil em destaque foi a velocidade da transformação no cotidiano profissional. Segundo o estudo, 72% dos brasileiros afirmam desempenhar hoje atividades que não realizavam há um ano por causa da inteligência artificial. A média global é de 58%.
Entre os profissionais classificados como mais avançados no uso da tecnologia, esse índice chega a 80%.
Relatório da Microsoft analisa impacto da IA no mercado de trabalho ao redor do mundo – Imagem: gguy/Shutterstock
Adoção de IA: profissionais x empresas
O levantamento sugere que parte dessa aceleração pode estar relacionada à pressão sentida pelos trabalhadores diante do avanço da IA. No Brasil, quase 80% afirmam temer ficar para trás caso não aprendam rapidamente a utilizar essas ferramentas no trabalho. No cenário global, esse percentual é de 65%.
Apesar do avanço no uso da tecnologia, a pesquisa indica que as empresas ainda não acompanham o mesmo ritmo de transformação. A Microsoft afirma existir um descompasso crescente entre aquilo que os profissionais já conseguem fazer com IA e o quanto as organizações estão preparadas para sustentar essa mudança do ponto de vista estrutural.
Segundo o relatório, os fatores organizacionais (como cultura corporativa, apoio da liderança e gestão de talentos) têm impacto mais do que duas vezes maior no sucesso da adoção da IA do que fatores individuais. A influência institucional representa 67% do impacto total, enquanto aspectos ligados ao comportamento e mentalidade dos trabalhadores respondem por 32%.
Para a empresa, o principal gargalo deixou de ser falta de habilidade técnica dos funcionários e passou a ser a capacidade das organizações de redesenhar o trabalho para incorporar a inteligência artificial.
O estudo também aponta uma mudança na forma como a IA está sendo utilizada dentro das empresas. Em vez de substituir pensamento crítico, a tecnologia estaria assumindo tarefas operacionais e liberando profissionais para funções mais estratégicas.
Uma análise de mais de 100 mil interações no Microsoft 365 Copilot mostrou que 49% das conversas envolvendo IA estão relacionadas a trabalho cognitivo, incluindo análise de informações, resolução de problemas, avaliação e criatividade. Nesse contexto, as habilidades humanas consideradas mais importantes passam a ser justamente aquelas ligadas à supervisão da própria IA.
Segundo os entrevistados, as competências mais valorizadas em um ambiente cada vez mais automatizado são o controle de qualidade das respostas geradas pela IA, citado por 50% dos participantes, e o pensamento crítico, apontado por 46%.
Principal impacto da IA no mercado de trabalho é em fatores organizacionais, como cultura corporativo, gestão e gerenciamento de talentos – Imagem: Relatório Anual do Índice de Tendências de Trabalho de 2026 da Microsoft
IA torna ambiente de trabalho mais inseguro
O relatório também identificou um conflito crescente dentro das empresas: embora exista pressão para acelerar a adoção da inteligência artificial, muitos profissionais ainda sentem receio de transformar radicalmente seus processos de trabalho.
Globalmente, 45% afirmam que ainda consideram mais seguro manter o foco nas metas atuais do que reformular completamente suas rotinas em torno da IA.
Além disso, o reconhecimento corporativo pela reinvenção ainda parece limitado. No Brasil, apenas 16% dos profissionais dizem ser recompensados por usar IA para transformar sua forma de trabalhar e gerar mais resultados. Na média global, esse índice cai para 13%.
Outro ponto destacado pela Microsoft é o crescimento acelerado do uso de agentes de IA dentro do ecossistema Microsoft 365. O número dessas ferramentas aumentou 15 vezes em um ano e chegou a crescer 18 vezes nas grandes empresas.
Segundo a companhia, as organizações mais avançadas não estão apenas adotando inteligência artificial, mas redesenhando completamente a forma como o trabalho é executado.
O relatório conclui que as empresas mais competitivas serão aquelas capazes de transformar aprendizado contínuo em parte central da operação, utilizando IA não apenas como ferramenta de produtividade, mas como base para novos modelos organizacionais.
A corrida da inteligência artificial é também uma disputa geopolítica pela hegemonia tecnológica global. É por isso que Estados Unidos e China investem pesado para que as suas empresas assumam o protagonismo no mercado de IA.
Neste cenário, países com menor capacidade tecnológica são obrigados a escolher um lado. É exatamente o que acontece com o Brasil, fortemente pretendido por norte-americanos e chineses devido ao importante mercado consumidor nacional.
Brasil é pretendido pelos dois países
No ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva autorizando a exportação de “pacotes completos” de inteligência artificial, colocando o Brasil entre os destinos prioritários ao lado de Egito e Indonésia.
O nosso país figura nominalmente na lista de mercados emergentes onde Washington busca consolidar sua presença antes que a influência chinesa se torne irreversível.
Em meio a este cenário, o Brasil tenta se equilibrar.
O país firmou um memorando de entendimento com Pequim sobre cooperação em IA e avançou em negociações com os Estados Unidos, recebendo anúncios de investimentos bilionários em data centers da Microsoft, Amazon e Oracle.
O ponto central dessa disputa vai muito além de quem exporta os chips. O que importa é quem é responsável pelo treinamento dos modelos de IA. Os sistemas já utilizados pelo setor público e privado brasileiro, na análise de crédito, triagem de políticas, recomendação de conteúdo e gestão de contratos, foram desenvolvidos majoritariamente por empresas dos Estados Unidos, segundo padrões norte-americanos e com dados que refletem realidades daquele país.
O viés estrutural se aprofunda na medida em que o Brasil sustenta sua infraestrutura cognitiva sobre servidores sujeitos a uma lei que autoriza o governo dos EUA a requisitar dados armazenados por provedores norte-americanos em qualquer jurisdição do mundo, independentemente da localização física do servidor.
EUA ou China: de que lado o Brasil deve ficar? (Imagem:leolintang/Shutterstock)
Apesar disso, o país tem uma importante carta na manga. O Brasil é o maior mercado de dados da América Latina, tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo – fator crucial para data centers – e produziu o PIX, um dos sistemas de pagamentos digitais mais sofisticados em operação global.
Isso significa que o nosso país pode escolher o lado mais vantajoso. Hoje, ele parece muito mais alinhado aos Estados Unidos neste quesito, mas será que a China pode oferecer melhores benefícios? E seria esse um melhor caminho a ser adotado?
O Governo Federal formalizou, na sexta-feira (10), um acordo de cooperação em inteligência artificial (IA) envolvendo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a empresa chinesa iFlytek. A iniciativa tem como objetivo o desenvolvimento de capacidades nacionais voltadas ao funcionamento do Estado, com foco em tecnologias sob controle público.
A parceria dá continuidade à cooperação tecnológica entre Brasil e China e posiciona a IA como parte das infraestruturas consideradas críticas para a operação estatal.
Durante a assinatura, o ministro interino do MCTI, Luis Fernandes, destacou o contexto global de transformação tecnológica. “Este protocolo se insere na cooperação estratégica entre Brasil e China em ciência e tecnologia. Estamos diante de uma revolução baseada em inteligência artificial, e os países que não desenvolverem capacidade própria ficarão dependentes de tecnologias externas, em um contexto em que o acesso pode ser limitado”, afirmou.
Segundo o ministro, a iniciativa prevê o desenvolvimento conjunto de tecnologias e a transferência de conhecimento para o Brasil, com impactos relacionados à soberania digital.
O que diz o acordo de IA entre Brasil e China
O acordo estabelece diretrizes para cooperação em pesquisa, desenvolvimento e formação de capacidades em IA;
Entre os focos estão a criação de modelos de linguagem adaptados ao português brasileiro, sistemas de tradução e acessibilidade, aplicações em cibersegurança e o desenvolvimento de soluções voltadas à infraestrutura de IA no país;
A Casa Civil participou da articulação entre os órgãos envolvidos e da integração da iniciativa com outras agendas estratégicas do governo;
O secretário-adjunto de Desenvolvimento Produtivo e Inovação, Rodrigo Rodrigues da Fonseca, afirmou que a parceria resulta de esforços conjuntos entre os dois países;
“Essa parceria resulta de um esforço coordenado de construção de sinergias entre os processos de desenvolvimento do Brasil e da China. Aqui, estamos estruturando um projeto para o futuro do Brasil, voltado à capacitação de pesquisadores e empresas no desenvolvimento de modelos de linguagem e sistemas de inteligência artificial”, declarou.
A execução técnica ficará sob responsabilidade do Serpro, que atua na operação de sistemas estruturantes e na gestão da infraestrutura de dados utilizada em serviços públicos digitais.
O presidente da empresa, Wilton Mota, afirmou que a instituição exerce um papel de integração entre diferentes frentes do Estado. “O Serpro atua como quem executa a tecnologia no Estado brasileiro, fazendo a ligação entre a pesquisa, a política pública e a entrega para o cidadão”, disse.
De acordo com Mota, o Serpro já conta com mais de 300 soluções baseadas em IA em seu portfólio, o que deve servir de base para a ampliação do uso dessas tecnologias.
“Esse acordo cria condições para avançar de forma acelerada no desenvolvimento dessas soluções, ampliar o uso da IA nos serviços oferecidos à população e garantir que a empresa atenda à necessidade do Estado no que se refere à soberania digital no campo da IA”, afirmou.
Ratificação do acordo visa melhorar o Brasil no setor de IA em todos os seus campos – Imagem: Divulgação/Serpro
O protocolo também prevê o desenvolvimento de infraestrutura nacional de IA, incluindo data centers, ambientes de nuvem segura e plataformas de dados interoperáveis. Essas estruturas poderão ser integradas e ampliadas a partir de sistemas já existentes.
Além disso, estão previstos programas de capacitação, como intercâmbio de pesquisadores, cursos, visitas técnicas e concessão de bolsas de estudo, com o objetivo de formar especialistas e ampliar a capacidade técnica nacional na área.
Nesse contexto, representantes do Serpro destacaram a importância do domínio completo do ciclo de desenvolvimento tecnológico.
O responsável pelo Centro de Excelência em Ciência de Dados e Inteligência Artificial da empresa, Carlos Rodrigo Lima, afirmou: “Não se trata apenas de utilizar modelos prontos, mas de dominar todo o ciclo de desenvolvimento, da curadoria de dados ao treinamento, avaliação e operação em ambiente de produção. É isso que garante que a inteligência artificial esteja, de fato, a serviço do Estado.”
As ações previstas no acordo dependerão da formalização de instrumentos específicos entre os participantes, permitindo a adaptação da cooperação conforme prioridades técnicas e estratégicas ao longo do tempo.
No âmbito internacional, a parceria com a iFlytek segue iniciativas anteriores de cooperação entre Brasil e China na área de ciência e tecnologia. O vice-presidente da empresa, Ji Lin, afirmou que a colaboração busca impulsionar o desenvolvimento tecnológico.
“A inteligência artificial está no centro da transformação tecnológica global, e é importante que os países desenvolvam capacidades ao longo de toda a cadeia. A parceria com o Brasil é uma cooperação importante para avançarmos em pesquisa e acelerar o desenvolvimento de soluções”, declarou.
O acordo conta ainda com o acompanhamento do Ministério das Relações Exteriores. O diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Propriedade Intelectual, embaixador Eugênio Vargas Garcia, destacou a necessidade de ampliar capacidades nacionais.
“A inteligência artificial está no centro da revolução tecnológica, e o Brasil precisa desenvolver capacidades não apenas em IA generativa, mas em toda a cadeia associada a essa tecnologia. No caso dos modelos de linguagem, esse protocolo é importante para fortalecer a cooperação e ampliar a autonomia estratégica do país”, afirmou.
O programa Redata, que dava descontos em impostos para incentivar a construção de data centers no Brasil, chegou ao fim nesta quinta-feira (26). Isso aconteceu porque a regra que garantia esse alívio (uma medida provisória) perdeu a validade.
Governo estuda meios de reativar incentivos sem violar a Lei de Responsabilidade Fiscal
Agora, o Ministério da Fazenda tenta descobrir se existe um caminho jurídico para reativar os incentivos sem desrespeitar as leis de controle de gastos.
Com o fim do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (nome completo do Redata), volta a cobrança de impostos como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação sobre os equipamentos usados nos data centers (você encontra mais detalhes sobre o programa no final desta matéria). O problema é que o programa era considerado essencial para atrair parte dos US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 257 bilhões) que o setor pretende investir na América Latina.
Redata era considerado essencial para atrair parte dos bilhões de dólares que o setor pretende investir no Brasil e na América Latina (Imagem: AlexLMX/Shutterstock)
O governo defende que ter esses data centers aqui é uma questão de segurança e soberania nacional. Hoje, 60% dos dados pessoais dos brasileiros são processados em outros países, longe do alcance direto das nossas leis de proteção. Além disso, depender de infraestrutura estrangeira deixa os serviços digitais mais caros e gera prejuízo para a economia do país. Em 2025, o Brasil gastou US$ 7,9 bilhões (R$ 41 bilhões) a mais do que recebeu nesse setor.
Empresas de tecnologia criticam a falta de votação. Para elas, o Brasil está perdendo a chance de ser competitivo nesse setor. De um lado, Alcolumbre justifica que o projeto chegou tarde demais ao Senado. De outro, o governo afirma que o texto já estava alinhado entre as Casas (mas já se percebia um impasse no Congresso sobre o tema). O maior obstáculo agora é uma lei de 2025 que proíbe novos benefícios fiscais. A volta do Redata depende de um novo acordo político entre o governo e os presidentes da Câmara e do Senado.
Glossário
O que é data center:
Um data center é uma instalação (física ou modular) onde ficam servidores, redes e sistemas de armazenamento que processam e guardam dados de empresas e serviços online;
Ele fornece energia, refrigeração, segurança e conexão para manter aplicativos e sites funcionando com alta disponibilidade;
Com o avanço das IAs, esse é um mercado em expansão em todo o mundo.
O que o PL do Redata determinava:
As empresas interessadas em investir no setor aqui no Brasil vão contar com a suspensão de tributos por cinco anos na compra de equipamentos.
A habilitação no Redata será autorizada pelo Ministério da Fazenda e envolve diversos tributos na compra de componentes eletrônicos – seja no mercado interno ou por importação. São eles: Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
A empresa vendedora dos equipamentos também será beneficiada, mas apenas para os produtos usados na fabricação dos computadores do data center.
No caso do IPI, a suspensão vale para componentes industrializados na Zona Franca de Manaus e listados pelo governo.
No caso do Imposto de Importação, a suspensão vale para produtos sem similar no mercado interno.
Depois de cumpridos todos os requisitos e entrega dos produtos, a suspensão será convertida em isenção definitiva.
Exemplos de contrapartidas presentes no PL:
Uso de energia de fonte limpa (hidrelétricas) ou renovável (solar e eólica);
Para ter direito aos benefícios, também é preciso estar em dia com os tributos federais;
Direcionar ao mercado interno um mínimo de 10% do fornecimento efetivo de processamento;
Realizar investimentos no país equivalentes a 2% do valor dos produtos comprados no mercado interno ou importados com o benefício fiscal;
Honrar a totalidade de sua demanda contratual de energia elétrica – seja com contratos de suprimento ou autoprodução de fontes limpas ou renováveis.
(Essa matéria usou informações de CNN Brasil e G1.)