Uma ação judicial contra a Meta colocou o uso de inteligência artificial em decisões trabalhistas no centro do debate. Vinte e seis ex-funcionários afirmam que ferramentas de IA podem ter influenciado uma rodada de demissões da empresa.
Segundo o processo citado pela Reuters, trabalhadores com deficiência ou que haviam tirado licença médica teriam sido afetados de forma desproporcional. A Meta nega a acusação e diz que as decisões foram tomadas por gestores.
Ferramentas de IA usadas por empresas passam a ser questionadas em decisões sobre contratação e desligamento. – Imagem: MMD Creative/Shutterstock
Processo envolve corte de cerca de 8 mil funcionários
Apresentada em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia, a ação reúne ex-funcionários de seis estados americanos e do Distrito de Colúmbia. Os autores alegam que a empresa violou normas que protegem trabalhadores contra discriminação e retaliação.
O processo afirma que um software baseado em IA teria participado da avaliação dos profissionais durante os cortes anunciados pela companhia. Entre os critérios analisados estariam produtividade e uso de recursos de inteligência artificial.
A Meta havia anunciado, no início do ano, a redução de aproximadamente 10% da força de trabalho global, o equivalente a cerca de 8 mil pessoas. As demissões começaram em maio, com novas etapas previstas.
Uso de IA em decisões trabalhistas entra em debate
Além da disputa judicial, o caso levanta uma questão que empresas de diferentes setores começam a enfrentar: até onde sistemas automatizados podem participar de decisões que afetam funcionários?
De acordo com os ex-colaboradores, fatores considerados no processo incluíam:
indicadores de produtividade;
uso de ferramentas e recursos de inteligência artificial;
períodos de licença médica ou afastamentos por saúde;
impacto sobre trabalhadores protegidos por leis trabalhistas.
Os 26 autores registraram a ação de forma anônima e afirmam que a tecnologia teria contribuído para atingir profissionais em situações consideradas mais vulneráveis.
A empresa anunciou cortes de cerca de 10% da força de trabalho global, equivalente a aproximadamente 8 mil funcionários. – Imagem: Andrii Yalanskyi / Shutterstock.com
Meta afirma que decisões foram tomadas por pessoas
A companhia rejeitou as acusações apresentadas no processo. Segundo um porta-voz da Meta, nenhum sistema de inteligência artificial foi responsável por escolher os funcionários que seriam desligados.
“As decisões organizacionais e de gestão da força de trabalho foram e são tomadas por pessoas, não por IA”, disse o porta-voz da empresa.
O processo ainda está no início e deverá passar pela análise das evidências apresentadas pelos ex-funcionários e pela defesa da Meta. O caso se tornou mais um exemplo dos desafios que surgem com a expansão da inteligência artificial em ambientes corporativos.
Algumas empresas que apostaram forte na substituição de funcionários por inteligência artificial estão repensando decisões. Ford, IBM e o Commonwealth Bank of Australia aparecem nesse movimento — e isso não é exatamente discreto.
O ponto curioso é que a promessa era de eficiência. Na prática, nem sempre funcionou assim, explica a CNBC.
A promessa de substituir humanos por IA enfrenta desafios quando tarefas complexas entram em cena. – Imagem: Taris Tonsa / Shutterstock
A Ford e o retorno dos engenheiros
Na Ford, a mudança foi direta: recontratação de engenheiros experientes depois que sistemas automatizados não deram conta de problemas de qualidade.
A empresa reconhece que a IA ajuda, mas depende muito do contexto.
A inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas sua eficácia depende da qualidade das informações usadas para treiná-la.
Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, à CNBC.
E aqui vale um detalhe simples: quando o problema fica complexo demais, a máquina não resolve sozinha.
Empresas percebem que substituir totalmente pessoas por IA pode gerar mais custos do que eficiência. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Quando o sistema não aguenta o volume
No Commonwealth Bank of Australia, mais de 40 funcionários foram substituídos por um chatbot de voz. A ideia era reduzir carga de atendimento.
Mas aconteceu o contrário. O volume de chamadas aumentou e o banco precisou voltar atrás e reabrir vagas.
Um sindicato do setor financeiro chegou a dizer que a reversão foi uma vitória para trabalhadores — e, nos bastidores, um reconhecimento de que a substituição tinha ido longe demais.
IBM e o limite do automatizado
A IBM seguiu um caminho parecido. Automatizou grande parte do atendimento interno, com cerca de 94% das solicitações resolvidas por IA. Só que os 6% restantes — justamente os mais difíceis — criaram o gargalo.
39% dos líderes demitiram por causa da IA
55% admitem que erraram nas decisões
32% recontrataram depois
IA funciona bem na rotina, mas falha no complexo
“Se não continuarmos investindo na contratação de profissionais em início de carreira, o que acontecerá daqui a três ou cinco anos?”, questionou Nickle LaMoreaux, da IBM.
Casos como Ford e IBM mostram que automação precisa de equilíbrio com trabalho humano. – Imagem: Alexander Fedosov/Shutterstock
O que está realmente acontecendo aqui
Talvez não seja um “retrocesso” contra a IA. Não exatamente.
O que parece estar acontecendo é um ajuste fino — meio atrasado, em alguns casos — sobre o que a tecnologia realmente entrega no dia a dia.
A IA continua sendo usada, isso não mudou. Mas a ideia de substituir totalmente pessoas está perdendo força quando o trabalho exige julgamento, contexto e um pouco de improviso humano.
E isso, na prática, não sumiu. Só ficou mais evidente.
A Microsoft deve reduzir menos de 2,5% de sua força de trabalho em uma nova rodada de demissões que pode ser anunciada já na próxima semana, segundo o Business Insider. A movimentação ocorre enquanto o setor de tecnologia passa por uma fase de reorganização menos discreta do que parece à primeira vista.
O clima interno, segundo relatos do mercado, já vinha de ajustes graduais antes mesmo do anúncio.
Microsoft já havia cortado 4% da força de trabalho em 2025, indicando continuidade das mudanças internas. – Imagem: Skorzewiak / Shutterstock
Xbox entra no centro das mudanças e preocupa funcionários
Segundo a Reuters, os cortes devem atingir milhares de pessoas, com impacto em áreas como vendas e consultoria. O Xbox aparece entre as divisões mais sensíveis nesse processo.
Há cerca de 228 mil funcionários em tempo integral na Microsoft, conforme dados enviados à SEC em junho de 2025 — o que ajuda a dimensionar o peso de qualquer ajuste, mesmo que percentual.
No caso da divisão de games, o ambiente já vinha sendo descrito como de revisão constante de prioridades e gastos.
Meta e Amazon, entre outras big techs, também anunciaram reduções recentes, reforçando tendência de reestruturação global no setor. – Imagem: gguy/Shutterstock
IA muda a lógica de custos e acelera reestruturações
O movimento da Microsoft se conecta a uma tendência mais ampla. Em várias empresas de tecnologia, mídia e finanças, os últimos meses foram marcados por ajustes semelhantes.
Por trás desse cenário, dois fatores aparecem com força: o custo crescente de infraestrutura de inteligência artificial e a necessidade de reorganizar estruturas após ciclos longos de expansão.
Meta e Amazon também já fizeram movimentos parecidos recentemente, com cortes significativos em suas equipes globais.
Xbox entra no centro das mudanças internas e pode sofrer ajustes em orçamento e estratégia de marketing. – Imagem: Thrive Studios ID / Shutterstock
Um setor em transição mais lenta do que parecia
A divisão de jogos da Microsoft segue sob atenção. Além de possíveis cortes em marketing, há discussões internas sobre caminhos estratégicos para o futuro da unidade, segundo relatos do setor.
Esse tipo de movimento não é isolado. O mercado de games também sente pressão de custos e mudanças nas prioridades das big techs.
A própria Microsoft já havia cortado cerca de 4% de sua força de trabalho em julho de 2025. Agora, a nova rodada reforça uma leitura mais ampla: o setor não está encolhendo, mas claramente deixou de crescer no mesmo ritmo de antes — especialmente enquanto redireciona energia para inteligência artificial.
A Oracle decidiu acelerar de vez sua aposta em inteligência artificial enquanto faz um ajuste pesado no tamanho da própria operação. No último ano, a empresa cortou cerca de 21 mil empregos, em um movimento que já vinha sendo desenhado junto à expansão de sua infraestrutura de dados.
O cenário não é exclusivo da companhia. O setor de tecnologia como um todo vive uma fase de reorganização, com cortes em várias frentes e uma migração clara de recursos para projetos de IA e construção de data centers mais robustos.
“IA resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”, diz a Oracle sobre sua nova fase de reestruturação. – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
Cortes de empregos e o peso da mudança
A Oracle, baseada em Austin (Texas), reduziu aproximadamente 13% de sua força de trabalho no último ano fiscal. No fim de maio, a empresa contabilizava cerca de 141 mil funcionários, contra 162 mil no período anterior, comenta o The Wall Street Journal.
As demissões começaram em março e fazem parte de um processo contínuo de reestruturação, segundo o relatório anual. Nesse período, a companhia também informou gastos de US$ 1,84 bilhão (cerca de R$ 9,2 bilhões) ligados a desligamentos e reorganização interna.
Em meio a esse ajuste, a inteligência artificial já aparece como peça central das decisões. A própria Oracle afirmou, em comunicado, que o uso dessas tecnologias “resultou e pode continuar resultando em reduções de pessoal”. A frase, direta, resume bem o momento: a IA deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a influenciar diretamente o tamanho das equipes.
Bilhões em infraestrutura e uma aposta crescente
Enquanto reduz sua estrutura, a Oracle acelera investimentos em outra direção. A empresa está ampliando sua rede de data centers voltados à inteligência artificial, com previsão de gastos líquidos de US$ 70 bilhões (aproximadamente R$ 350 bilhões) neste ano fiscal.
O valor é bem acima dos US$ 55,7 bilhões (cerca de R$ 278 bilhões) investidos no ano anterior — um salto que ajuda a dimensionar o ritmo da estratégia.
Esse movimento não é isolado. Meta e Amazon também vêm seguindo caminho parecido, com cortes de pessoal enquanto direcionam mais recursos para infraestrutura de IA.
Entre os principais pilares dessa estratégia estão:
expansão global de data centers voltados à inteligência artificial
aumento contínuo dos investimentos em infraestrutura digital
reorganização interna com redução de milhares de postos de trabalho
foco crescente em serviços de nuvem e IA
busca por eficiência em um mercado cada vez mais competitivo
Meta e Amazon também seguem tendência de cortes enquanto redirecionam recursos para projetos de IA. Imagem: Poetra.RH/Shutterstock
Riscos altos e uma disputa em andamento
A própria Oracle reconhece que a estratégia envolve incertezas relevantes. A empresa afirma que, se concorrentes alcançarem maior aceitação de mercado com suas soluções de IA ou se os custos superarem o esperado, os resultados podem não acompanhar o volume de investimentos.
Ao mesmo tempo, há outro ponto de pressão: recuar agora pode significar perder espaço numa disputa tecnológica que avança rapidamente.
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Nos últimos anos, a companhia ganhou destaque ao fechar contratos bilionários ligados à capacidade de processamento. Um deles envolve a OpenAI, com previsão de cerca de US$ 300 bilhões (aproximadamente R$ 1,5 trilhão) em computação ao longo de cinco anos.
Apesar do entusiasmo inicial do mercado, investidores começam a olhar com mais cautela para o tamanho dos aportes das big techs, especialmente diante da pressão sobre margens de lucro causada pela expansão agressiva da infraestrutura de IA.
No fim das contas, o que está em jogo vai além de cortes ou investimentos isolados. É uma mudança mais profunda: a inteligência artificial está redesenhando não só os produtos dessas empresas, mas também o tamanho, a estrutura e a lógica de operação das gigantes de tecnologia.
Lucros em alta e demissões em massa. Esse contraste tem marcado 2026 no setor de tecnologia, onde a inteligência artificial passou a aparecer com frequência nas explicações para os cortes, explica o TechCrunch.
Segundo a TrueUp, uma plataforma de emprego e recrutamento que acompanha o mercado de trabalho, cerca de 150.000 profissionais foram afetados neste ano, em um ritmo próximo de 974 desligamentos por dia — 44% mais rápido do que no mesmo período do ano passado.
Mais de 150 mil profissionais já foram afetados por demissões no setor de tecnologia em 2026. Imagem: Stock-Asso/Shutterstock – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
IA como justificativa — ou como desculpa?
Nem todos acreditam que a IA seja a verdadeira responsável por essa onda de demissões. O tema ganhou força à medida que empresas lucrativas passaram a associar cortes de pessoal ao avanço da tecnologia.
Um dos casos mais comentados envolve a empresa de pagamentos Block. Após demitir quase metade de seus funcionários no início de 2026 — cerca de 4.000 pessoas —, o fundador Jack Dorsey afirmou que as ferramentas de IA “estão viabilizando uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente o que significa construir e operar uma empresa”.
Mais tarde, após ser questionado por usuários no X, Dorsey reconheceu que a companhia havia contratado além do necessário durante a pandemia.
O investidor Marc Andreessen também colocou essa explicação em dúvida. Em conversa com o podcaster e investidor Harry Stebbings, ele classificou a IA como uma “desculpa bala de prata” para cortes que teriam outras origens. Segundo Andreessen: “Essencialmente, toda grande empresa está com excesso de pessoal. No mínimo 25%. Acho que a maioria está com excesso de 50%. Muitas, com 75%. Agora todas têm a desculpa bala de prata: ah, é a IA.”
A Uber também acabou envolvida nessa controvérsia. A empresa reduziu cerca de 23% de sua divisão de recursos humanos e recrutamento, afetando menos de 1% de seus 34.000 funcionários. A companhia negou qualquer relação entre os cortes e a IA. Ainda assim, a decisão ocorreu pouco depois de seu diretor de tecnologia revelar que todo o orçamento anual destinado a ferramentas de programação baseadas em IA havia sido consumido em apenas quatro meses.
Mais de 150 mil profissionais já foram afetados por demissões no setor de tecnologia em 2026. Imagem: TStudious/Shutterstock
Fortunas crescem enquanto vagas desaparecem
Os cortes ocorrem justamente quando empresas ligadas à inteligência artificial vivem um período de forte valorização.
A fabricante de chips Cerebras Systems estreou na Nasdaq com alta de 68% em relação ao preço inicial de suas ações, alcançando valor de mercado de aproximadamente US$ 67 bilhões. O resultado transformou seus cofundadores, Andrew Feldman e Sean Lie, em bilionários.
A SpaceX também simboliza esse momento de valorização acelerada do setor. A empresa alcançou uma avaliação de US$ 2,1 trilhões e pode transformar milhares de funcionários em milionários. Anthropic e OpenAI também aparecem entre as companhias que caminham para avaliações próximas ou superiores a US$ 1 trilhão.
Alguns números ajudam a dimensionar o cenário:
Cerca de 150.000 profissionais afetados por demissões no setor em 2026;
Aproximadamente 40.000 cortes registrados apenas em maio;
A possibilidade de surgirem cerca de 4.400 novos milionários ligados à SpaceX;
Empresas que continuaram se valorizando mesmo após anunciar reduções de pessoal.
Em março, Mark Zuckerberg comprou uma mansão de US$ 170 milhões na ilha conhecida como “Billionaire Bunker”, em Miami. Dois meses depois, a Meta anunciou a demissão de 8.000 funcionários, cerca de 10% de sua força de trabalho, ampliando o contraste entre a valorização do setor e os cortes de pessoal.
A SpaceX pode criar milhares de novos milionários em meio a uma onda histórica de demissões no setor. Imagem: Walter Cicchetti/Shutterstock – Imagem: Walter Cicchetti/Shutterstock
O custo de vida amplia a tensão
As demissões acontecem em um momento delicado para muitos trabalhadores americanos. Os custos com saúde, moradia e financiamento imobiliário continuam em alta nos Estados Unidos, aumentando a pressão sobre famílias que já enfrentam um cenário econômico mais difícil.
Não por acaso, o assunto ganhou destaque. De um lado, empresas lucrativas e investidores ligados à IA acumulam riqueza em velocidade impressionante. Do outro, milhares de profissionais enfrentam um ambiente econômico cada vez mais desafiador.
O texto também relembra o movimento Occupy Wall Street, que surgiu após a crise financeira de 2008 e refletiu a insatisfação popular com a concentração de perdas e ganhos. Para muitos críticos, o paralelo mostra como a insatisfação pode crescer quando riqueza e perdas parecem distribuídas de forma desigual.
Empresas como Block, Atlassian e Cloudflare chegaram a ver suas ações subirem após relacionarem cortes de pessoal à inteligência artificial. O fato é que a relação entre IA e demissões continua cercada de dúvidas. E, quanto mais empresas usam essa justificativa, maior tende a ser o escrutínio sobre os reais motivos por trás dos cortes.
Mais da metade das empresas admite destacar a inteligência artificial ao justificar demissões e congelamentos de vagas. É o que mostra uma pesquisa da Resume Templates realizada com 1 mil gestores de contratação nos Estados Unidos.
O dado chama atenção porque o impacto real da tecnologia sobre o emprego parece bem menor do que o discurso adotado por muitas organizações, explica o G1.
Nem toda vaga cortada foi ocupada por um robô. Pesquisa mostra um cenário mais complexo nas empresas. Imagem: VesnaArt/Shutterstock
Inteligência artificial virou a justificativa perfeita?
A inteligência artificial passou a ocupar um papel de destaque no discurso usado por empresas para explicar cortes de pessoal.
Segundo o levantamento, 59% das empresas admitem destacar o papel da IA ao justificar demissões ou congelamentos de vagas porque essa explicação tende a ser melhor recebida do que razões ligadas a dificuldades financeiras. Entre os entrevistados, 17% afirmaram que suas empresas usam diretamente a tecnologia como justificativa para essas decisões, enquanto outros 42% disseram fazer isso parcialmente.
Somados, os percentuais mostram que quase seis em cada dez empresas reconhecem enfatizar o papel da IA porque essa narrativa costuma ser mais bem aceita por funcionários, investidores e pelo mercado.
O contraste com outros resultados da pesquisa é evidente. Apenas 9% dos gestores afirmaram que determinadas funções foram totalmente substituídas pela tecnologia. Já 45% disseram que a IA reduziu parcialmente a necessidade de novas contratações, enquanto outros 45% relataram pouco ou nenhum impacto no tamanho das equipes.
IA sugere progresso em vez de problemas.
Kara Dennison, consultora-chefe de carreira da Resume Templates, em nota.
E isso, para ela, explica esse comportamento.
Segundo a especialista, associar mudanças à inovação tecnológica transmite uma imagem de modernização e planejamento estratégico. Já atribuir cortes a dificuldades financeiras pode gerar preocupações sobre a saúde da empresa.
Ela alerta, porém, que a estratégia pode produzir o efeito contrário caso os funcionários não percebam mudanças concretas provocadas pela tecnologia em suas atividades. Nesse cenário, a justificativa pode gerar dúvidas sobre os reais motivos das decisões.
O mercado segue em movimento: empresas reduzem algumas funções enquanto reforçam áreas estratégicas. Imagem: Andrey_Popov/Shutterstock
O mercado continua em movimento
Apesar das preocupações em torno da automação, os dados mostram que as empresas continuam contratando.
Embora 55% das organizações planejem realizar demissões em 2026, 92% afirmam que também pretendem contratar novos profissionais. O cenário retratado pelo levantamento aponta mais para uma reorganização das equipes do que para uma retração generalizada do mercado de trabalho.
Os principais motivos citados para cortes de pessoal foram:
Impacto da inteligência artificial (44%)
Reestruturações organizacionais (42%)
Restrições orçamentárias (39%)
Enquanto algumas funções perdem espaço, outras áreas recebem mais investimentos, especialmente aquelas ligadas à eficiência operacional, tecnologia e crescimento.
“Estamos vendo um reequilíbrio da força de trabalho”, afirma Dennison.
De acordo com a especialista, as empresas estão priorizando “capacidade, flexibilidade e impacto”, em vez de simplesmente manter estruturas tradicionais.
A familiaridade com ferramentas de IA ficou atrás de competências humanas como comunicação e resolução de problemas. Imagem: patpitchaya/Shutterstock – Imagem: patpitchaya/Shutterstock
As habilidades que seguem em alta
A capacidade de resolver problemas aparece no topo da lista de competências mais valorizadas, sendo citada por 54% dos gestores. Em seguida vêm a habilidade de aprender rapidamente novas ferramentas e tecnologias (44%), a comunicação (43%), a adaptabilidade (39%) e a colaboração em equipe (36%).
Outro resultado chama atenção. A familiaridade com ferramentas de inteligência artificial foi mencionada por apenas 31% dos entrevistados, ficando atrás de todas essas competências.
O levantamento foi realizado em dezembro de 2025 com 1 mil gestores de contratação dos Estados Unidos. As respostas foram coletadas de forma anônima por meio da plataforma Pollfish.
A adoção acelerada da inteligência artificial (IA) está levando executivos de grandes empresas a tomar decisões estratégicas difíceis sobre o futuro do trabalho. Em meio ao avanço da tecnologia, líderes corporativos se dividem entre duas abordagens principais: reduzir o quadro de funcionários ou manter as equipes e exigir mais produtividade.
O debate ganhou força após anúncios recentes de cortes e reestruturações em empresas de tecnologia e serviços financeiros.
O CEO da Coinbase Global, Brian Armstrong, afirmou ao The Wall Street Journal que a companhia reduzirá 14% de sua força de trabalho à medida que a IA altera “como trabalhamos”. Já o PayPal planeja cortar 20% de seu quadro ao longo dos próximos dois a três anos, como parte de uma estratégia para ampliar o uso da tecnologia.
Na direção oposta, o presidente da Axon Enterprise, Josh Isner, buscou tranquilizar os mais de cinco mil funcionários da empresa ao afirmar que a IA não deve provocar demissões no curto prazo. Em mensagem interna, ele destacou que vê a tecnologia como uma ferramenta para ampliar a capacidade das equipes, e não substituí-las.
“Estou pensando na IA como algo que permite que nossas equipes façam mais, não como algo que as substitui”, escreveu. Mesmo com ganhos de produtividade significativos, ele afirmou que novos problemas continuarão surgindo. “Ignorem o ruído e continuem mandando ver”, acrescentou.
Coinbase é uma das empresas que vê o corte de pessoal como solução – Imagem: Diego Thomazini/Shutterstock
O posicionamento de Isner surge em um momento de ansiedade crescente nas corporações estadunidenses, diante do potencial da IA de acelerar tarefas e substituir parte do trabalho de profissionais qualificados. Nesse cenário, executivos enfrentam uma escolha central: usar a tecnologia para enxugar equipes ou expandir a capacidade produtiva dos funcionários atuais.
As duas visões têm sido evidenciadas em teleconferências de resultados e comunicados recentes. Armstrong afirmou que a Coinbase eliminará centenas de postos de trabalho conforme a IA se torna mais integrada às operações da plataforma de criptomoedas. Segundo ele, os funcionários passarão a gerenciar agentes automatizados capazes de executar parte das atividades.
Outras empresas seguem caminho semelhante. O CEO da Bed Bath & Beyond, Marcus Lemonis, afirmou a investidores que a companhia deve enfrentar uma “redução significativa no número de funcionários” com a adoção da tecnologia.
Já a diretora financeira da Meta, Susan Li, questionou quantos empregados a empresa realmente precisará no futuro à medida que a IA avance. “Não sabemos qual será o tamanho ideal da empresa no futuro”, disse.
Por outro lado, há empresas que buscam manter o número de funcionários estável, ainda que sem novas contratações, apostando em ganhos de eficiência. O co-CEO do Spotify, Gustav Söderström, explicou que as companhias podem optar por transformar rapidamente ganhos de produtividade em redução de custos ou, alternativamente, manter o quadro atual e produzir mais.
Segundo ele, o Spotify escolheu a segunda estratégia. “Estamos mantendo nosso número de funcionários praticamente estável e simplesmente entregando muito mais, mais valor aos consumidores”, afirmou.
Spotify vai na contramão de algumas empresas e tenta alinhar trabalho humano com a IA – Imagem: PixieMe/Shutterstock
Para especialistas em Recursos Humanos (RH), focar apenas na eficiência pode limitar o potencial da tecnologia;
Nickle LaMoreaux, diretora de RH da IBM, afirmou que líderes empresariais podem perder oportunidades se não conectarem o uso da IA ao crescimento. “Nas discussões de liderança, vocês estão pensando nessa ideia de sair da IA para produtividade e da IA para crescimento?”, questionou;
Embora seja difícil prever o tamanho da força de trabalho no futuro, ela afirmou que, se pudesse antecipar, seria maior;
Ainda assim, nem todas as empresas têm a mesma margem de manobra. Na Meta, investimentos massivos em data centers e infraestrutura de IA estão impulsionando planos de demitir cerca de oito mil funcionários, aproximadamente 10% do quadro, segundo o CEO, Mark Zuckerberg;
Cortes em larga escala também são vistos como uma forma rápida de melhorar resultados financeiros e impulsionar o valor das ações. Empresas, como Block e Snap, registraram alta em seus papéis após anúncios de demissões relacionadas à IA.
Tecnologia em prol da produtividade
Uma pesquisa recente da Gartner, com 350 profissionais de nível médio ou superior, indica que cerca de 80% das empresas que utilizam agentes de IA, automação inteligente ou tecnologias autônomas estão reduzindo suas equipes.
Armstrong afirmou a funcionários que, apesar da redução no quadro, a IA permitirá aumentar a produtividade.
Segundo ele, tornar a empresa mais enxuta é necessário em um mercado de criptomoedas em baixa e ajudará a posicionar melhor a companhia para o crescimento. “Ao longo do último ano, vi engenheiros usarem IA para entregar em dias o que antes levava semanas para uma equipe”, escreveu. “Essa é uma nova forma de trabalhar.”
A visão, no entanto, não é consensual. Justin Briley, desligado da Coinbase, questionou se menos funcionários realmente permitirão crescimento. “Já éramos uma equipe bem enxuta”, afirmou.
IA não necessariamente substitui; ela pode aumentar a produtividade – Imagem: Andrii Yalanskyi/Shutterstock
Ele disse que utilizava IA para ganhar eficiência em seu trabalho e acredita que a tecnologia tende a gerar mais trabalho no futuro. “A IA foi vendida como uma solução para o trabalho”, disse, prevendo que ela criará “mais trabalho, não menos”.
Mesmo nas empresas que evitam demissões, mudanças são inevitáveis. Especialistas apontam que muitas funções serão transformadas ou combinadas, reunindo responsabilidades de diferentes cargos.
Na Synchrony Financial, que emite cartões de crédito para empresas, como PayPal, Sam’s Club e Lowe’s, o diretor de RH, DJ Casto, afirmou que já prepara os funcionários para realocações internas, e não para cortes. Em alguns casos, as mudanças poderão ser permanentes; em outros, temporárias. “Teremos que ser muito mais ágeis”, disse. “Precisaremos nos acostumar com um cenário menos definido.”
Na Axon, apesar da mensagem tranquilizadora, gestores reconhecem que há preocupação entre os funcionários sobre possíveis cortes. A empresa, que produz softwares e equipamentos de segurança, como Tasers e câmeras corporais, viu suas ações caírem cerca de 30% no ano, em meio ao receio de investidores sobre os impactos da IA no setor.
Ainda assim, Isner reforçou que a empresa segue forte e continuará precisando de pessoas. “Minha aposta é que ainda precisaremos contratar bastante”, afirmou. Para reforçar o argumento, ele sugeriu que funcionários acessem a página de carreiras da OpenAI. “Há cerca de 800 vagas listadas”, disse.