Você envia um currículo, adapta outro para uma vaga diferente e tenta novamente. As respostas, quando chegam, costumam ser parecidas. Um estudo da Universidade Stanford indica que isso pode não ser mera coincidência.
Depois de analisar milhões de candidaturas, os pesquisadores concluíram que diferentes empresas podem utilizar sistemas de inteligência artificial capazes de repetir os mesmos padrões de aprovação e rejeição.
Enviar muitos currículos pode não ser suficiente quando empresas utilizam sistemas de IA com critérios semelhantes. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
O que significa “monocultura algorítmica”?
A pesquisa Algorithmic Monocultures in Hiring avaliou cerca de 4 milhões de candidaturas enviadas por mais de 3,4 milhões de pessoas para 156 empresas de 11 setores da economia.
Todas essas organizações utilizavam algoritmos desenvolvidos pelo mesmo fornecedor. Esse detalhe permitiu identificar o fenômeno chamado “monocultura algorítmica”, inspirado na agricultura, onde grandes áreas são ocupadas por uma única cultura.
Quando muitas empresas recorrem a ferramentas semelhantes, cresce a chance de que elas avaliem candidatos usando praticamente a mesma lógica. E isso vale tanto para os acertos quanto para possíveis limitações dos modelos.
Perfis semelhantes tendem a receber avaliações parecidas quando os sistemas compartilham critérios de classificação. – Imagem: Dai Yim/ Shutterstock
Por que tantas rejeições podem se repetir?
Outro achado importante envolve os chamados perfis semelhantes. De acordo com o estudo, candidatos com características parecidas tendem a receber avaliações semelhantes mesmo ao disputar vagas em empresas diferentes.
Os principais resultados mostram que:
Cerca de 10% dos candidatos que disputam quatro vagas são rejeitados em todas elas.
Entre os que se candidatam a dez vagas, aproximadamente 4% recebem dez rejeições consecutivas.
As rejeições ocorrem com uma frequência maior do que seria esperado em decisões independentes.
Muitos currículos são descartados antes mesmo da análise de um recrutador.
Para verificar se esse comportamento não era apenas fruto do acaso, os pesquisadores compararam os resultados com uma linha de base teórica e estudos anteriores sobre recrutamento sem centralização algorítmica. A análise mostrou que as recusas sucessivas refletem um padrão compartilhado entre diferentes processos seletivos.
Mesmo com a IA, enviar mais currículos ainda aumenta as chances de conseguir uma oportunidade, diz o estudo. – Imagem: Gonzalo Aragon/Shutterstock
Vale a pena continuar enviando currículos?
Segundo as simulações, sim. O estudo indica que aumentar o número de candidaturas ainda melhora as chances de conseguir uma oportunidade, embora esse efeito seja menor quando diferentes empresas utilizam sistemas semelhantes.
Em um cenário de decisões independentes, cerca de dez candidaturas seriam suficientes para alcançar uma alta probabilidade de receber ao menos uma recomendação positiva. Quando os processos passam por plataformas centralizadas, esse número sobe para aproximadamente 25 candidaturas para atingir uma probabilidade de 99,9%.
Os autores também alertam para outro ponto: a concentração do mercado de tecnologia para recrutamento. Como poucos fornecedores atendem muitas empresas, eventuais limitações ou vieses podem se espalhar rapidamente. Além disso, a baixa transparência dessas plataformas dificulta estudos independentes e torna mais difícil entender como essas ferramentas influenciam o acesso ao emprego. Para muitos candidatos, toda essa etapa acontece sem que eles sequer saibam que um algoritmo analisou primeiro o currículo.
Isso não significa que nada esteja mudando. As empresas passaram a valorizar novas competências, enquanto os jovens encontram mais obstáculos para conquistar as primeiras oportunidades.
Emprego continua em alta
O relatório Perspectivas do Emprego 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que a taxa de desemprego permanece em 4,9%, muito próxima do menor nível histórico, de 4,8%, registrado em junho de 2023. A previsão é de crescimento do emprego de 0,3% neste ano e de 0,6% no próximo.
Esses números reforçam que o avanço da inteligência artificial, até agora, não reduziu a oferta de trabalho nos países analisados.
“Até o momento, não há indícios de que o maior uso da inteligência artificial por parte das empresas esteja provocando uma queda generalizada da demanda por mão de obra”, afirmou o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, durante a apresentação do relatório.
Jovens enfrentam mais dificuldades
Se o cenário geral permanece favorável, a entrada dos jovens no mercado de trabalho segue mais complicada. Segundo a OCDE, os avanços recentes da inteligência artificial generativa provavelmente fazem parte desse contexto.
Ao mesmo tempo, as empresas passaram a dar mais importância às competências exigidas para diferentes funções.
O relatório destaca:
maior valorização de competências ligadas às novas tecnologias;
transformação das habilidades exigidas pelas empresas;
maior dificuldade para os jovens ingressarem no mercado de trabalho;
manutenção do crescimento do emprego, apesar das mudanças.
“A IA está transformando o trabalho, mais do que reduzindo-o”, destacou Mathias Cormann, ao afirmar que a tecnologia ainda não enfraqueceu as perspectivas de emprego para jovens nem para os trabalhadores em geral.
Guerra pressiona, mas mercado resiste
O estudo também aponta que o mercado de trabalho mostrou resiliência mesmo com os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia. A criação de empregos continuou sólida e o número de vagas, embora abaixo do pico registrado após a pandemia, estabilizou-se desde a escalada do conflito.
O relatório ressalta que muitos trabalhadores ainda não percebem melhora na remuneração. Em quase um terço dos países da OCDE, os salários reais permanecem inferiores aos registrados há cinco anos.
Os dados indicam que a inteligência artificial já influencia as competências buscadas pelas empresas, mas, segundo a própria OCDE, ainda não há sinais de uma redução generalizada dos empregos nos países que integram a organização.
Algumas empresas que apostaram forte na substituição de funcionários por inteligência artificial estão repensando decisões. Ford, IBM e o Commonwealth Bank of Australia aparecem nesse movimento — e isso não é exatamente discreto.
O ponto curioso é que a promessa era de eficiência. Na prática, nem sempre funcionou assim, explica a CNBC.
A promessa de substituir humanos por IA enfrenta desafios quando tarefas complexas entram em cena. – Imagem: Taris Tonsa / Shutterstock
A Ford e o retorno dos engenheiros
Na Ford, a mudança foi direta: recontratação de engenheiros experientes depois que sistemas automatizados não deram conta de problemas de qualidade.
A empresa reconhece que a IA ajuda, mas depende muito do contexto.
A inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas sua eficácia depende da qualidade das informações usadas para treiná-la.
Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, à CNBC.
E aqui vale um detalhe simples: quando o problema fica complexo demais, a máquina não resolve sozinha.
Empresas percebem que substituir totalmente pessoas por IA pode gerar mais custos do que eficiência. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Quando o sistema não aguenta o volume
No Commonwealth Bank of Australia, mais de 40 funcionários foram substituídos por um chatbot de voz. A ideia era reduzir carga de atendimento.
Mas aconteceu o contrário. O volume de chamadas aumentou e o banco precisou voltar atrás e reabrir vagas.
Um sindicato do setor financeiro chegou a dizer que a reversão foi uma vitória para trabalhadores — e, nos bastidores, um reconhecimento de que a substituição tinha ido longe demais.
IBM e o limite do automatizado
A IBM seguiu um caminho parecido. Automatizou grande parte do atendimento interno, com cerca de 94% das solicitações resolvidas por IA. Só que os 6% restantes — justamente os mais difíceis — criaram o gargalo.
39% dos líderes demitiram por causa da IA
55% admitem que erraram nas decisões
32% recontrataram depois
IA funciona bem na rotina, mas falha no complexo
“Se não continuarmos investindo na contratação de profissionais em início de carreira, o que acontecerá daqui a três ou cinco anos?”, questionou Nickle LaMoreaux, da IBM.
Casos como Ford e IBM mostram que automação precisa de equilíbrio com trabalho humano. – Imagem: Alexander Fedosov/Shutterstock
O que está realmente acontecendo aqui
Talvez não seja um “retrocesso” contra a IA. Não exatamente.
O que parece estar acontecendo é um ajuste fino — meio atrasado, em alguns casos — sobre o que a tecnologia realmente entrega no dia a dia.
A IA continua sendo usada, isso não mudou. Mas a ideia de substituir totalmente pessoas está perdendo força quando o trabalho exige julgamento, contexto e um pouco de improviso humano.
E isso, na prática, não sumiu. Só ficou mais evidente.
Uma nova iniciativa nos Estados Unidos quer preparar a força de trabalho para as mudanças provocadas pela inteligência artificial. O projeto reúne empresas, governos estaduais e organizações filantrópicas para lidar com os impactos da automação no mercado de trabalho.
A coalizão, chamada RAISE US, será liderada por nomes ligados ao governo e ao setor privado. Segundo o The Wall Street Journal, a proposta é apoiar a adaptação profissional em um cenário de adoção acelerada da inteligência artificial. E isso, segundo os organizadores, não é algo que possa ser deixado para depois.
Projeto aposta em integração entre empresas, governos e escolas para acelerar a requalificação profissional nos Estados Unidos. – Imagem: CL STOCK / Shutterstock
Um plano para reorganizar o mercado de trabalho
O grupo reúne empresas como Amazon, Microsoft e Bank of America, além de autoridades e ex-líderes políticos. A iniciativa busca criar uma estratégia centrada nos trabalhadores, indo além de programas tradicionais de treinamento.
Na prática, a discussão vai além de cursos ou capacitação pontual. O foco é reorganizar como empresas e governos lidam com transições de carreira em larga escala — algo que, segundo os participantes, já está acontecendo em diferentes setores.
criação de programas de requalificação profissional com foco em setores em expansão
revisão de políticas como o seguro-desemprego
incentivos para empresas manterem trabalhadores durante mudanças provocadas pela IA
integração entre governos estaduais, empresas e instituições educacionais
atenção especial a funções administrativas e de escritório
Um dos pontos levantados pelo grupo é a fragmentação das políticas de emprego nos Estados Unidos. Hoje, segundo eles, há iniciativas espalhadas demais e pouca coordenação entre estados e governo federal.
Autoridades alertam que funções administrativas e de escritório estão entre as mais vulneráveis às mudanças tecnológicas. – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
Empresas e governos entram na discussão sobre IA
Durante o anúncio, executivos e autoridades destacaram que os efeitos da inteligência artificial vão além de avanços tecnológicos e já começam a reorganizar o trabalho em tempo real.
Brad Smith, vice-presidente do conselho e presidente da Microsoft, afirmou: “Precisaremos ganhar escala, e a expansão em larga escala nunca pode ser realizada por instituições isoladas.”
Gina Raimondo, diretora executiva da iniciativa e ex-secretária de Comércio dos EUA, reforçou que o foco atual ainda está desalinhado. “Não há atenção suficiente para garantir o futuro do trabalhador americano.”
Entre os participantes, há consenso de que empresas e governos precisam agir juntos — embora ainda não haja clareza sobre o ritmo nem a profundidade dessas mudanças.
Autoridades alertam que funções administrativas e de escritório estão entre as mais vulneráveis às mudanças tecnológicas. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Testes regionais e impacto esperado
O plano prevê ações diferentes conforme o estado, sem um modelo único. Em Maryland, por exemplo, a proposta inclui ampliar programas de serviço e voluntariado para aproximar trabalhadores de áreas como saúde. No Arkansas, a iniciativa aposta em uma plataforma de orientação de carreira baseada em IA.
A coalizão reconhece que a inteligência artificial pode elevar produtividade e eficiência, mas também deve provocar deslocamento de trabalhadores em diferentes níveis da economia. Não há, neste momento, uma estimativa única sobre a dimensão desse impacto.
Pessoalmente, não acredito que não haverá nada para os humanos fazerem… Mas estou preocupada.
Gina Raimondo, diretora executiva da iniciativa e ex-secretária de Comércio dos EUA, ao WSJ.
A iniciativa ainda está em fase de estruturação e deve funcionar como base para políticas públicas e ações privadas voltadas à adaptação do mercado de trabalho à expansão da inteligência artificial — um processo que, segundo os envolvidos, ainda está longe de estar definido.
A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho. Dados da PwC mostraram que a demanda por profissionais com competências em IA cresceu 30,3% no Brasil no último ano – muito acima da média global, de 7,5%. Os dados foram compilados em um levantamento do site Meu Currículo Perfeito.
Já uma projeção do Fórum Econômico Mundial aponta que, até 2030, 92 milhões de empregos serão transformados pela automação e pela IA, enquanto 170 milhões de novos postos serão criados nesse mesmo período.
Mas a transformação vem acompanhada de contradições:
Embora a inteligência artificial esteja cada vez mais presente nas rotinas corporativas, boa parte das empresas ainda não oferece treinamento formal para os funcionários;
Dados do Read.ai revelaram que 68% dos brasileiros utilizam IA diariamente no trabalho, mas apenas 31% afirmam ter acesso oficial ou capacitação fornecida pelos empregadores;
Além disso, a necessidade constante de atualização cria um cenário de insegurança generalizada.
Para Samuel Barros, reitor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), ignorar essa realidade é um erro: a prática pode gerar problemas de governança e segurança da informação, especialmente quando colaboradores compartilham dados corporativos em plataformas não autorizadas pelas empresas.
A nova corrida por habilidades
O avanço da IA está criando uma nova hierarquia no mercado de trabalho.
Dados compilados pelo relatório mostram que profissionais com habilidades comprovadas em inteligência artificial recebem, em média, salários 56% maiores do que aqueles sem esse conhecimento. Em cargos especializados, a diferença é ainda mais expressiva. Segundo a empresa de recrutamento Robert Half, engenheiros de IA têm salários iniciais entre R$ 19,5 mil e R$ 27,1 mil.
Essa valorização ajuda a explicar outro dado relevante: a pesquisa da PwC revela que 59% dos brasileiros acreditam que aprender novas competências é a principal forma de evitar a obsolescência profissional.
Para Barros, o diferencial do profissional hoje é a “capacidade de orquestrar as tecnologias” para construir algo que, antes, levava mais tempo e exigia mais pessoas.
A IA é um colega de trabalho. Ela não é mais só uma ferramenta. Dois anos atrás, poderíamos falar que a IA é uma ferramenta como o martelo, a chave de fenda… hoje em dia, com a IA agêntica, ela é um colega de trabalho não físico que acaba ocupando o espaço de funções menos especializadas ou muito repetitivas.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Nesse sentido, as exigências do mercado mudam rapidamente. O estudo aponta que as competências demandadas em ocupações expostas à IA evoluem 66% mais rápido do que em outras áreas, tornando o aprendizado contínuo uma necessidade permanente.
Para o reitor, dominar a tecnologia já deixou de ser um diferencial e virou uma exigência básica – e isso vale para praticamente qualquer função, não só aquelas ligadas aos setores tecnológicos.
Formação acadêmica pesa mais do que habilidades práticas? Especialistas divergem – Imagem: Leonardo Santtos/Shutterstock
Diploma está perdendo espaço?
A ascensão da inteligência artificial também acelera uma mudança que já vinha ocorrendo no mercado de trabalho: a valorização das habilidades em detrimento dos diplomas.
Segundo dados do LinkedIn citados no relatório, 25% das vagas publicadas na plataforma já não exigem formação universitária – um aumento de 16% desde 2020.
A lógica é simples: em um ambiente em que as competências técnicas mudam rapidamente, empresas passam a valorizar mais a capacidade de adaptação e aprendizado do que certificados obtidos anos atrás. Isso não significa que a formação acadêmica perdeu relevância, mas que ela deixou de ser suficiente por si só.
Para Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy, a priorização entre IA ou formação acadêmica depende do cargo:
Para funções técnicas, [a habilidade em IA] já é diferencial competitivo. Para funções de negócio, gestão e comunicação, o que as empresas buscam é ir além do uso de IA, focando muito mais em pensamento crítico.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy
O primeiro emprego sob ameaça
Um grupo particularmente vulnerável às mudanças provocadas pela IA é o de profissionais em início de carreira.
De acordo com dados da Randstad, funções administrativas, jurídicas e de atendimento estão entre as mais expostas à automação. São justamente áreas que tradicionalmente funcionam como porta de entrada para jovens profissionais.
Antes, atividades como organizar planilhas, registrar atas de reunião, responder e-mails ou realizar atendimentos básicos eram desempenhadas por estagiários e profissionais juniores. Hoje, muitas dessas tarefas podem ser executadas por sistemas de inteligência artificial em poucos segundos.
Barros acredita que o impacto será inevitável nas funções mais repetitivas.
Esse colega de trabalho não físico acaba ocupando espaço para aquelas funções menos especializadas ou muito repetitivas. Funções que não precisam do caráter humano para serem realizadas.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Na avaliação do especialista, cargos de atendimento digital, telemarketing, suporte técnico básico e parte das atividades administrativas estão entre os mais ameaçados. Horchuliki menciona funções com “alta repetitividade e pouca necessidade de julgamento contextual” entre as primeiras a serem automatizadas.
Por outro lado, áreas que exigem criatividade, tomada de decisão, interpretação de contexto e relacionamento humano tendem a ganhar importância. Segundo a diretora, trata-se dos superworkers, que ela aposta que serão os mais beneficiados na transformação tecnológica.
A dificuldade de inserção dos jovens também está relacionada a mudanças na estratégia das empresas: a preferência é requalificar profissionais experientes ou contratar pessoas que já chegam com conhecimento em inteligência artificial?
Barros acredita que, apesar da requalificação interna ser o caminho mais desejável, muitas organizações optam por buscar profissionais prontos no mercado. “O mais humano seria capacitar o time que já existe. No entanto, muitas vezes é mais econômico buscar no mercado um profissional já preparado”, defendeu.
Horchuliki defende o contrário:
75% das empresas no mundo dizem ter dificuldade para encontrar profissionais qualificados em IA. O mercado externo de talentos nessa área simplesmente não cresce na velocidade que a demanda exige. Então, quem espera contratar pronto vai esperar muito, ou pagar muito. O que os nossos dados mostram é que as empresas mais estratégicas estão priorizando a mobilidade interna e o desenvolvimento de quem já está dentro de casa.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy
Relatório “o impacto da IA no mercado de trabalho brasileiro” apontou setores com maior potencial de automatização impulsionada por IA – Imagem: Randstad Research
IA também muda os processos seletivos
A influência da tecnologia não se limita às atividades profissionais: ela já está presente nas etapas de recrutamento e seleção.
Segundo Barros, muitas empresas utilizam sistemas de inteligência artificial para fazer a primeira triagem de currículos e até para elaborar avaliações aplicadas aos candidatos. “Se o seu currículo não estiver preparado para ser lido por um agente de inteligência artificial, é bem possível que você não passe nem da primeira fase de filtro”, alertou.
Na prática, isso significa que currículos precisam ser preparados para serem interpretados corretamente por algoritmos, sob o risco de serem descartados antes mesmo de chegar a um recrutador humano.
Já para Luana Horchuliki, a IA tornou os processos seletivos mais rápidos e orientados, com menos vieses. Segundo ela, o uso de agentes dentro da Gupy ajudou a reduzir em mais de 60% o tempo médio de fechamento de vagas e liberou tempo para o recrutador fazer o que a tecnologia não faz: ter uma conversa qualificada com o candidato.
“A IA não está substituindo o contato humano, ela está viabilizando um contato humano de maior qualidade”, afirmou.
Insegurança generalizada marca o mercado
A transformação tecnológica ocorre em paralelo ao crescimento da insegurança profissional.
Outro levantamento do Meu Currículo Perfeito mostrou que a indústria de tecnologia eliminou mais de 123 mil empregos só este ano, um aumento de 66% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo o estudo, a inteligência artificial já aparece como o principal motivo citado para demissões em 2026.
Você já deve ter lido sobre o assunto no Olhar Digital:
A Meta, por exemplo, avisou em maio que demitiria milhares de funcionários em uma reestruturação interna para reduzir custos e focar em inteligência artificial (leia mais aqui);
Já a Amazon anunciou, em janeiro, a demissão de 16 mil cargos corporativos, completando um ciclo de 30 mil cortes iniciado na reta final de 2025. O movimento faz parte de uma redução de custos e reestruturação em andamento na companhia, que também passará a focar na IA (leia mais aqui);
O efeito dominó também atingiu empresas ‘de diversos tamanhos e nichos ‘menores’: a Block, liderada por Jack Dorsey (um dos cofundadores do Twitter), reduziu sua força de trabalho em 40% (quatro mil pessoas) numa reforma motivada pela IA;
No topo da lista de ajustes estão a UPS e a Oracle, com 30 mil demissões cada. No caso da Oracle, os números vêm de estimativas de analistas do banco TD Cowen, que apontam redirecionamento de capital para financiar infraestrutura de IA.
Nem tudo é ruim: relatório também listou setores com maior potencial de criação de novos empregos – Imagem: Randstad Research
O cenário contribui para um sentimento de incerteza. Sete em cada dez trabalhadores afirmam ter repensado suas carreiras no último ano, enquanto apenas 27% dizem ter clareza sobre os rumos profissionais de longo prazo.
Mas, apesar da preocupação, os especialistas defendem que a adaptação continua sendo a melhor resposta.
Para Barros, as carreiras mais protegidas serão aquelas que exploram características tipicamente humanas.
Decisões morais, decisões éticas, articulações, compreensão de contexto. Tudo isso é uma parte que não vai fugir do ser humano.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Enquanto a inteligência artificial assume tarefas operacionais e repetitivas, cresce a importância de habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas, empatia, negociação e capacidade de tomar decisões em situações complexas.
A pesquisa Dev Barometer Q2 2026 reforça essa tendência. Entre desenvolvedores juniores entrevistados em 77 países, 48% apontaram resolução de problemas e pensamento analítico como a habilidade mais importante para conseguir emprego atualmente. Apenas 18% citaram o domínio de ferramentas de IA.
Um mapeamento interno da Gupy, citado por Luana Horchuliki, listou as atividades mais demandadas em vagas que mencionam IA no Brasil:
Criatividade e inovação (17,4%);
Comunicação efetiva (10,3%);
Responsabilidade e integridade (10,1%);
Proatividade (8,8%);
Foco em resultados (8,7%).
Repare que nenhuma dessas é uma habilidade técnica. São todas capacidades humanas que ganham ainda mais valor justamente porque a IA não consegue reproduzir esses comportamentos. (…) O que vai importar cada vez mais é a capacidade de aprendizado contínuo e a habilidade de trabalhar com sistemas inteligentes sem abrir mão do próprio julgamento.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy
Barros também dá uma dica:
Se você está empregado, vá atrás de você mesmo. Busque formação em inteligência artificial para que, no caso de uma necessidade interna, uma possibilidade de progressão ou se o mercado estiver buscando, você vai estar pronto para as oportunidades que aparecerem.
Jeff Bezos afirmou que a inteligência artificial não deve tornar os seres humanos desnecessários. Para ele, a tecnologia tende a ter o efeito oposto ao que muitos imaginam: em vez de substituir pessoas, pode aumentar a falta de trabalhadores em várias áreas.
O debate não é pequeno, explica publicação da Reuters no UOL. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos mostra que metade dos norte-americanos teme que a IA leve à perda de emprego, seja para si ou para alguém da família. Esse clima ajuda a explicar a preocupação crescente com o avanço da tecnologia.
IA pode aumentar produtividade e criar novas funções, segundo visão otimista de Jeff Bezos. Imagem: patpitchaya/Shutterstock – Imagem: patpitchaya/Shutterstock
Mais demanda do que gente para trabalhar
Na visão de Bezos, o ponto central não é a redução de trabalho, mas o contrário: a sociedade já opera com uma demanda tão grande por produção, serviços e inovação que a capacidade humana acaba ficando limitada.
Discordo totalmente desse ponto de vista. E acho que, na verdade, a IA vai causar escassez de mão de obra.
Jeff Bezos, fundador da Amazon, em declaração durante a VivaTech.
A fala contrasta com o receio comum de que sistemas automatizados substituam empregos em larga escala.
Ele defende que a inteligência artificial pode ajudar justamente a reduzir barreiras que hoje travam processos, acelerando atividades em diferentes setores e ampliando o que é possível produzir.
Na prática, isso pode significar:
aceleração de tarefas industriais e processos criativos
aumento da produtividade em áreas técnicas e operacionais
redução de gargalos em engenharia e desenvolvimento de produtos
criação de novas funções ligadas à própria tecnologia
reorganização do trabalho humano em atividades mais complexas
Pesquisa mostra que metade dos americanos teme perder empregos com o avanço da inteligência artificial. Imagem: 4 PM production/Shutterstock
IA, espaço e novas fronteiras da produção
Bezos conectou essa visão sobre inteligência artificial a outros projetos que lidera, como a Blue Origin e a startup Prometheus. A ideia é usar IA para acelerar o desenvolvimento de produtos físicos e encurtar ciclos de engenharia.
Para ele, a combinação entre tecnologia e automação pode mudar a forma como bens são projetados e fabricados, reduzindo o tempo entre a ideia e o produto final.
No campo espacial, o empresário voltou a defender um projeto antigo: levar parte da indústria pesada para fora da Terra. Segundo ele, isso permitiria aliviar o impacto ambiental no planeta.
“Se as viagens espaciais se tornarem confiáveis e baratas o suficiente… este planeta-jardim poderá retornar ao seu estado anterior à Revolução Industrial”, afirmou.
Bezos também reforçou a ideia de que a Lua deve ser o primeiro passo dessa expansão, antes de qualquer tentativa mais ambiciosa em Marte.
Bezos conecta inteligência artificial e exploração espacial em uma visão de futuro baseada em expansão humana. Imagem: xphotoz – iStockPhoto – Imagem: xphotoz – iStockPhoto
Um futuro de expansão, não de substituição
O executivo defende que IA e exploração espacial fazem parte do mesmo movimento de expansão das capacidades humanas. Em vez de eliminar o trabalho, a tecnologia abriria espaço para novas atividades e novas necessidades.
A visão dele é otimista: a inteligência artificial ajudaria a liberar o potencial produtivo das pessoas, enquanto a infraestrutura espacial ampliaria o alcance da atividade econômica.
Na avaliação de Bezos, esse cenário não reduz o papel humano — apenas o transforma.
A Blue Origin pretende competir com a SpaceX, de Elon Musk, no setor de foguetes. O presidente-executivo da empresa, David Limp, que estava ao lado de Bezos no evento, informou que a reconstrução da plataforma de lançamento para os foguetes New Glenn já começou na Flórida, após uma explosão ocorrida em maio.
Musk também apresentou uma visão para o espaço antes da abertura de capital da SpaceX na semana passada, incluindo planos para criar cidades na Lua e em Marte. Em entrevista com o presidente-executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, também na semana passada, ele falou sobre lançar centros de dados de IA ao espaço e passar férias na Lua.
Lucros em alta e demissões em massa. Esse contraste tem marcado 2026 no setor de tecnologia, onde a inteligência artificial passou a aparecer com frequência nas explicações para os cortes, explica o TechCrunch.
Segundo a TrueUp, uma plataforma de emprego e recrutamento que acompanha o mercado de trabalho, cerca de 150.000 profissionais foram afetados neste ano, em um ritmo próximo de 974 desligamentos por dia — 44% mais rápido do que no mesmo período do ano passado.
Mais de 150 mil profissionais já foram afetados por demissões no setor de tecnologia em 2026. Imagem: Stock-Asso/Shutterstock – Imagem: Stock-Asso/Shutterstock
IA como justificativa — ou como desculpa?
Nem todos acreditam que a IA seja a verdadeira responsável por essa onda de demissões. O tema ganhou força à medida que empresas lucrativas passaram a associar cortes de pessoal ao avanço da tecnologia.
Um dos casos mais comentados envolve a empresa de pagamentos Block. Após demitir quase metade de seus funcionários no início de 2026 — cerca de 4.000 pessoas —, o fundador Jack Dorsey afirmou que as ferramentas de IA “estão viabilizando uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente o que significa construir e operar uma empresa”.
Mais tarde, após ser questionado por usuários no X, Dorsey reconheceu que a companhia havia contratado além do necessário durante a pandemia.
O investidor Marc Andreessen também colocou essa explicação em dúvida. Em conversa com o podcaster e investidor Harry Stebbings, ele classificou a IA como uma “desculpa bala de prata” para cortes que teriam outras origens. Segundo Andreessen: “Essencialmente, toda grande empresa está com excesso de pessoal. No mínimo 25%. Acho que a maioria está com excesso de 50%. Muitas, com 75%. Agora todas têm a desculpa bala de prata: ah, é a IA.”
A Uber também acabou envolvida nessa controvérsia. A empresa reduziu cerca de 23% de sua divisão de recursos humanos e recrutamento, afetando menos de 1% de seus 34.000 funcionários. A companhia negou qualquer relação entre os cortes e a IA. Ainda assim, a decisão ocorreu pouco depois de seu diretor de tecnologia revelar que todo o orçamento anual destinado a ferramentas de programação baseadas em IA havia sido consumido em apenas quatro meses.
Mais de 150 mil profissionais já foram afetados por demissões no setor de tecnologia em 2026. Imagem: TStudious/Shutterstock
Fortunas crescem enquanto vagas desaparecem
Os cortes ocorrem justamente quando empresas ligadas à inteligência artificial vivem um período de forte valorização.
A fabricante de chips Cerebras Systems estreou na Nasdaq com alta de 68% em relação ao preço inicial de suas ações, alcançando valor de mercado de aproximadamente US$ 67 bilhões. O resultado transformou seus cofundadores, Andrew Feldman e Sean Lie, em bilionários.
A SpaceX também simboliza esse momento de valorização acelerada do setor. A empresa alcançou uma avaliação de US$ 2,1 trilhões e pode transformar milhares de funcionários em milionários. Anthropic e OpenAI também aparecem entre as companhias que caminham para avaliações próximas ou superiores a US$ 1 trilhão.
Alguns números ajudam a dimensionar o cenário:
Cerca de 150.000 profissionais afetados por demissões no setor em 2026;
Aproximadamente 40.000 cortes registrados apenas em maio;
A possibilidade de surgirem cerca de 4.400 novos milionários ligados à SpaceX;
Empresas que continuaram se valorizando mesmo após anunciar reduções de pessoal.
Em março, Mark Zuckerberg comprou uma mansão de US$ 170 milhões na ilha conhecida como “Billionaire Bunker”, em Miami. Dois meses depois, a Meta anunciou a demissão de 8.000 funcionários, cerca de 10% de sua força de trabalho, ampliando o contraste entre a valorização do setor e os cortes de pessoal.
A SpaceX pode criar milhares de novos milionários em meio a uma onda histórica de demissões no setor. Imagem: Walter Cicchetti/Shutterstock – Imagem: Walter Cicchetti/Shutterstock
O custo de vida amplia a tensão
As demissões acontecem em um momento delicado para muitos trabalhadores americanos. Os custos com saúde, moradia e financiamento imobiliário continuam em alta nos Estados Unidos, aumentando a pressão sobre famílias que já enfrentam um cenário econômico mais difícil.
Não por acaso, o assunto ganhou destaque. De um lado, empresas lucrativas e investidores ligados à IA acumulam riqueza em velocidade impressionante. Do outro, milhares de profissionais enfrentam um ambiente econômico cada vez mais desafiador.
O texto também relembra o movimento Occupy Wall Street, que surgiu após a crise financeira de 2008 e refletiu a insatisfação popular com a concentração de perdas e ganhos. Para muitos críticos, o paralelo mostra como a insatisfação pode crescer quando riqueza e perdas parecem distribuídas de forma desigual.
Empresas como Block, Atlassian e Cloudflare chegaram a ver suas ações subirem após relacionarem cortes de pessoal à inteligência artificial. O fato é que a relação entre IA e demissões continua cercada de dúvidas. E, quanto mais empresas usam essa justificativa, maior tende a ser o escrutínio sobre os reais motivos por trás dos cortes.
Mais da metade das empresas admite destacar a inteligência artificial ao justificar demissões e congelamentos de vagas. É o que mostra uma pesquisa da Resume Templates realizada com 1 mil gestores de contratação nos Estados Unidos.
O dado chama atenção porque o impacto real da tecnologia sobre o emprego parece bem menor do que o discurso adotado por muitas organizações, explica o G1.
Nem toda vaga cortada foi ocupada por um robô. Pesquisa mostra um cenário mais complexo nas empresas. Imagem: VesnaArt/Shutterstock
Inteligência artificial virou a justificativa perfeita?
A inteligência artificial passou a ocupar um papel de destaque no discurso usado por empresas para explicar cortes de pessoal.
Segundo o levantamento, 59% das empresas admitem destacar o papel da IA ao justificar demissões ou congelamentos de vagas porque essa explicação tende a ser melhor recebida do que razões ligadas a dificuldades financeiras. Entre os entrevistados, 17% afirmaram que suas empresas usam diretamente a tecnologia como justificativa para essas decisões, enquanto outros 42% disseram fazer isso parcialmente.
Somados, os percentuais mostram que quase seis em cada dez empresas reconhecem enfatizar o papel da IA porque essa narrativa costuma ser mais bem aceita por funcionários, investidores e pelo mercado.
O contraste com outros resultados da pesquisa é evidente. Apenas 9% dos gestores afirmaram que determinadas funções foram totalmente substituídas pela tecnologia. Já 45% disseram que a IA reduziu parcialmente a necessidade de novas contratações, enquanto outros 45% relataram pouco ou nenhum impacto no tamanho das equipes.
IA sugere progresso em vez de problemas.
Kara Dennison, consultora-chefe de carreira da Resume Templates, em nota.
E isso, para ela, explica esse comportamento.
Segundo a especialista, associar mudanças à inovação tecnológica transmite uma imagem de modernização e planejamento estratégico. Já atribuir cortes a dificuldades financeiras pode gerar preocupações sobre a saúde da empresa.
Ela alerta, porém, que a estratégia pode produzir o efeito contrário caso os funcionários não percebam mudanças concretas provocadas pela tecnologia em suas atividades. Nesse cenário, a justificativa pode gerar dúvidas sobre os reais motivos das decisões.
O mercado segue em movimento: empresas reduzem algumas funções enquanto reforçam áreas estratégicas. Imagem: Andrey_Popov/Shutterstock
O mercado continua em movimento
Apesar das preocupações em torno da automação, os dados mostram que as empresas continuam contratando.
Embora 55% das organizações planejem realizar demissões em 2026, 92% afirmam que também pretendem contratar novos profissionais. O cenário retratado pelo levantamento aponta mais para uma reorganização das equipes do que para uma retração generalizada do mercado de trabalho.
Os principais motivos citados para cortes de pessoal foram:
Impacto da inteligência artificial (44%)
Reestruturações organizacionais (42%)
Restrições orçamentárias (39%)
Enquanto algumas funções perdem espaço, outras áreas recebem mais investimentos, especialmente aquelas ligadas à eficiência operacional, tecnologia e crescimento.
“Estamos vendo um reequilíbrio da força de trabalho”, afirma Dennison.
De acordo com a especialista, as empresas estão priorizando “capacidade, flexibilidade e impacto”, em vez de simplesmente manter estruturas tradicionais.
A familiaridade com ferramentas de IA ficou atrás de competências humanas como comunicação e resolução de problemas. Imagem: patpitchaya/Shutterstock – Imagem: patpitchaya/Shutterstock
As habilidades que seguem em alta
A capacidade de resolver problemas aparece no topo da lista de competências mais valorizadas, sendo citada por 54% dos gestores. Em seguida vêm a habilidade de aprender rapidamente novas ferramentas e tecnologias (44%), a comunicação (43%), a adaptabilidade (39%) e a colaboração em equipe (36%).
Outro resultado chama atenção. A familiaridade com ferramentas de inteligência artificial foi mencionada por apenas 31% dos entrevistados, ficando atrás de todas essas competências.
O levantamento foi realizado em dezembro de 2025 com 1 mil gestores de contratação dos Estados Unidos. As respostas foram coletadas de forma anônima por meio da plataforma Pollfish.
A preocupação com o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho já é realidade para boa parte dos americanos, segundo uma nova pesquisa Reuters/Ipsos. O levantamento revela que 53% dos entrevistados acreditam que a IA pode provocar desemprego em suas casas.
O dado ajuda a explicar o clima de incerteza nos Estados Unidos, em meio a cortes de empregos em grandes empresas e ao avanço acelerado da tecnologia no cotidiano.
O avanço da IA já aparece como fator de preocupação para a maioria dos entrevistados nos Estados Unidos, segundo levantamento recente. Imagem: Altheas Joni/Shutterstock – Imagem: Altheas Joni/Shutterstock
Medo de perder o emprego cresce nos EUA
A pesquisa foi realizada ao longo de seis dias e concluída na última segunda-feira, ouvindo 4.531 adultos em todo o país. O retrato é relativamente uniforme: a preocupação aparece de forma semelhante entre idades, gêneros e níveis de escolaridade.
No total, 53% dos entrevistados dizem estar preocupados com a possibilidade de perda de emprego por causa da tecnologia. Outros 37% afirmam não ter esse receio, enquanto 10% estão indecisos ou não responderam.
Um ponto que chama atenção é a intensidade da preocupação geral: cerca de 73% dos americanos dizem se preocupar com o avanço da inteligência artificial no dia a dia.
53% temem perda de emprego em casa por causa da IA
37% não veem esse risco como preocupante
10% não souberam ou preferiram não responder
73% demonstram preocupação geral com o avanço da tecnologia
Cortes em grandes empresas e adoção acelerada de IA ajudam a explicar o clima de incerteza no mercado de trabalho americano. Imagem: Andrii Yalanskyi / Shutterstock.com
Cortes e mudanças no mercado acendem alerta
O levantamento da Reuters/Ipsos foi divulgado em meio a uma sequência de demissões associadas à adoção de IA por grandes empresas. Um dos exemplos citados é a Intuit, que anunciou a demissão de 17% de sua força de trabalho global para reorganizar operações e concentrar esforços em iniciativas estratégicas, incluindo inteligência artificial.
O debate também ganhou força em eventos públicos recentes. Em uma cerimônia de formatura na Universidade do Arizona, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, foi vaiado ao comentar os impactos da IA no futuro do trabalho — um sinal de como o tema já desperta reações mais intensas na sociedade.
Ao mesmo tempo, especialistas e líderes políticos alertam para o uso da tecnologia em áreas sensíveis, como propaganda, entretenimento e até aplicações militares, ampliando o alcance das discussões sobre seus limites.
Diferenças políticas e impacto no mercado
A pesquisa também identificou uma diferença relevante entre grupos políticos. Entre os democratas, 61% afirmam estar preocupados com a substituição de empregos pela IA, enquanto entre republicanos o índice é de 47%.
Outro dado importante mostra como a tecnologia já está mais presente na rotina de quem tem ensino superior: metade dos graduados afirma usar IA regularmente, contra 34% entre pessoas sem diploma universitário e 40% da população geral.
Esse quadro ajuda a entender um ponto central do cenário americano: apesar da preocupação crescente, o mercado de trabalho ainda apresenta sinais de crescimento em diferentes áreas, o que mantém o impacto da IA cercado de incerteza.
Ferramentas como ChatGPT e soluções da Anthropic já fazem parte da rotina de usuários e empresas nos Estados Unidos. Imagem: VideoFlow / Shutterstock
IA avança entre ferramentas e decisões profissionais
A discussão envolve o uso cada vez mais frequente de ferramentas como ChatGPT, da OpenAI, e soluções corporativas da Anthropic, que vêm se consolidando tanto entre usuários comuns quanto em ambientes empresariais.
Esse avanço já começa a aparecer na rotina de trabalho e até em decisões pessoais. Uma escritora freelancer ouvida na pesquisa relatou ter perdido parte de seus contratos e suspeita que a IA tenha influenciado essa mudança.
Outro caso vem da área da saúde mental: uma psicóloga afirmou estar preocupada com pacientes que recorrem à IA entre sessões de terapia, levantando dúvidas sobre limites e qualidade das respostas.
No fim, o levantamento ajuda a traçar um panorama mais concreto: a inteligência artificial já não é apenas uma tendência tecnológica, mas um fator real de ansiedade, adaptação e mudança no mercado de trabalho — especialmente nos Estados Unidos.
Trabalhadores de escritório estão adotando ferramentas de inteligência artificial em ritmo acelerado, mas os efeitos dessa tecnologia sobre produtividade e eficiência ainda geram dúvidas. É o que mostra o relatório AI at Work, divulgado pelo Boston Consulting Group (BCG).
Segundo o levantamento, 74% dos trabalhadores administrativos sem função gerencial afirmam usar IA com frequência, um salto de 23 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Mesmo com essa adoção acelerada, muitas empresas ainda não conseguem transformar esse avanço em resultados concretos, explica a Bloomberg.
Tempo economizado ainda não é considerado
Mais de 40% dos profissionais sem cargo de gestão disseram economizar pelo menos um dia inteiro de trabalho por semana graças às ferramentas de IA. Apesar disso, o BCG aponta que líderes e empresas ainda não sabem exatamente como utilizar esse tempo recuperado de maneira eficiente.
Todo mundo fala sobre a IA substituindo o trabalho, mas na verdade trata-se de repensar o valor humano agregado internamente. Esse é o papel dos líderes.
Vinciane Beauchene, uma das autoras do relatório, em nota.
O estudo questiona a ideia de que a simples adoção da IA levará automaticamente ao aumento de produtividade, mesmo diante dos enormes investimentos feitos no setor nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a pesquisa indica que a tecnologia está alterando a rotina profissional de forma profunda, e nem sempre positiva.
Satisfação e sobrecarga ao mesmo tempo
Quase metade dos entrevistados afirmou passar mais tempo supervisionando e direcionando a IA do que executando as próprias tarefas. Cerca de dois terços disseram que a tecnologia aumentou a satisfação no trabalho, mas aproximadamente 41% relataram maior desgaste mental. Os autores do relatório chamaram esse fenômeno de “paradoxo da alegria”: a IA torna o trabalho melhor e mais difícil ao mesmo tempo.
“A equação da alegria se reescreve dentro de um ano de uso da IA”, disse Sylvain Duranton, outro coautor do estudo. “No início, a novidade e o esforço cognitivo alimentam o prazer, mas essa ‘lua de mel com a IA’ desaparece sem clareza estratégica.”
Agentes de IA ganham espaço
O relatório também registra o crescimento dos agentes de IA: 30% dos entrevistados afirmaram que esse tipo de ferramenta já faz parte de seus fluxos de trabalho — mais do que o dobro do registrado um ano atrás. Mais de 60% disseram acreditar que esses agentes poderão executar ao menos metade de suas tarefas nos próximos três anos.
A pesquisa ouviu cerca de 12 mil trabalhadores de diferentes setores em 14 países e regiões. O estudo analisou temas como adoção de IA, expectativas dos profissionais, liderança e transformação organizacional. Segundo o BCG, trabalhadores sem cargo gerencial na Índia, no Brasil e na África do Sul relataram uso regular de IA acima da média global, enquanto os dos Estados Unidos, França e Itália ficaram abaixo dessa média.