Um pesquisador conseguiu usar a IA Claude Opus 4.7 para explorar uma falha em um sistema de ingressos usado por grandes festivais dos Estados Unidos, segundo reportagem da WIRED. O sistema é da Front Gate Tickets, que opera vendas para eventos como Lollapalooza e Bonnaroo.
O ponto que mais chama atenção aqui é que a própria IA acabou entrando no meio de um teste de segurança e acelerou a descoberta de um problema sério.
Falha em sistema de tickets teria permitido acesso a dados internos e emissão de ingressos sem restrições. – Imagem: wutianzeri/Shutterstock
Como a IA entrou na investigação
O pesquisador de segurança Ian Carroll identificou uma possível vulnerabilidade no site da Front Gate Tickets e decidiu testar a hipótese com ajuda do Claude Opus 4.7.
Ele relata que a IA sugeriu uma abordagem baseada em SQL injection, uma falha clássica que explora entradas de dados para interferir no banco de informações de um sistema. Em alguns momentos, Carroll afirma que teve que parar e reler o que a própria IA estava sugerindo, porque o caminho não era tão óbvio assim.
E aqui entra o detalhe mais sensível: uma consulta SQL aninhada teria permitido contornar o firewall da aplicação. Isso abriu uma brecha que expôs partes internas do sistema.
Sistema de ingressos teria exposto dados e contas administrativas após exploração de vulnerabilidade com ajuda de IA. – Imagem: Digineer Station/Shutterstock
O que a falha poderia permitir
Ao avançar na exploração, Carroll afirma que conseguiu acessar informações internas e assumir contas administrativas. Em certo ponto, ele encontrou códigos de redefinição de senha armazenados no sistema — e isso foi o suficiente para chegar ao controle de um superadministrador.
Na prática, isso significaria algo bem direto: possibilidade de emitir ingressos sem restrições, inclusive os mais caros da plataforma, que podem chegar a cerca de 4 mil dólares (aproximadamente R$ 20 mil).
acesso a dados de clientes e funcionários
emissão de ingressos VIP e de alto valor
controle de contas administrativas
exploração de API interna do sistema
Segundo o pesquisador, a falta de autenticação em dois fatores em alguns acessos administrativos só piorava o cenário. Não era uma barreira forte o bastante.
Vulnerabilidade teria impacto potencial em dados de usuários e estrutura interna do sistema de bilheteria. – Imagem: enzozo/Shutterstock
Reação das empresas após a descoberta
Depois do relato, a Front Gate disse que corrigiu o problema em cerca de 24 horas e afirmou não haver evidências de exploração real nem de vazamento de dados de clientes.
A empresa também reforçou que a falha estava restrita a um sistema interno e que auditorias ajudariam a identificar qualquer uso indevido. Ou seja, na visão deles, o impacto teria sido controlado.
Já a Anthropic afirmou que seu programa de verificação em segurança cibernética permite o uso controlado de ferramentas de IA justamente para testar e melhorar sistemas digitais.
O que esse caso revela sobre IA e segurança
Carroll descreveu o episódio como algo surpreendente e destacou que foi possível ver um ingresso de alto valor ser manipulado dentro do sistema sem grandes barreiras técnicas.
E talvez o ponto mais incômodo seja esse: a diferença entre a aparência “profissional” de grandes plataformas e a fragilidade real por trás delas.
No fim, o caso mostra uma mudança importante. A IA não está só ajudando a automatizar tarefas do dia a dia — ela também está acelerando a descoberta de falhas que, até pouco tempo atrás, exigiam muito mais esforço humano para serem encontradas.
A UBTech apresentou o U1, um androide hiper-realista criado para atuar como companhia emocional. O lançamento aconteceu em Shenzhen, em um evento com estética futurista e participação do DJ norueguês Alan Walker.
Segundo o South China Morning Post, a proposta do robô vai além da tecnologia: ele tenta se inserir na rotina doméstica como uma espécie de presença constante.
Tecnologia chinesa avança com robôs capazes de conversar e interagir em ambientes domésticos. – Imagem: MAUZART/Shutterstock
Como o U1 interage com os usuários
O U1 foi projetado para conversar, reagir ao ambiente e ajustar seu comportamento conforme o usuário interage com ele. A ideia é criar uma relação mais contínua, quase personalizada.
Segundo a empresa, o robô consegue perceber sinais de cansaço ou estresse e responder com frases de apoio ou sugestões mais suaves ao longo do uso.
Entre suas funções estão:
mover cabeça, olhos e boca de forma sincronizada
identificar mudanças de humor e fadiga
aprender preferências com o tempo de uso
lembrar compromissos e horários de medicamentos
sugerir cuidados básicos de rotina
Mesmo assim, a UBTech reforça que o U1 não realiza tarefas domésticas como limpeza ou preparo de alimentos.
Um produto entre inovação e debate
A empresa descreve o U1 como o “primeiro robô humanoide em tamanho real com aparência ultrarrealista”. O modelo pode ser personalizado e vendido em versões masculina e feminina.
Apesar do apelo tecnológico, o produto também levanta discussões. Há preocupações sobre dependência emocional e privacidade, principalmente pelo armazenamento local de dados.
A UBTech afirma que todas as informações são criptografadas e não são usadas para treinar sistemas de inteligência artificial.
O U1 é um robô humanoide com IA emocional e aparência realista que promete companhia para pessoas solitárias. – Imagem: Reprodução/Youtube
China e a expansão dos robôs humanoides
Na China, robôs já estão presentes em fábricas e espaços públicos, com ampla aceitação em comparação a outros mercados.
O país lidera o desenvolvimento global de humanoides e concentra grande parte da produção mundial desses sistemas.
Nos últimos anos, o número de empresas e modelos cresceu rapidamente, impulsionando projeções de forte expansão até 2030.
A UBTech tenta agora levar essa tecnologia para dentro das casas, ampliando o uso dos robôs para além do ambiente industrial e testando um novo tipo de convivência entre humanos e máquinas.
“É o Brasil! Brasil, Brasil, Brasil”. Você deve ter ouvido esse verso, acompanhado de uma batida forte e marcada, incontáveis vezes ao rolar feeds de redes sociais como Instagram e TikTok. Principalmente em dia de jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.
Esse verso é da música “Brasil com S”, produzida por Guilherme Maia (vulgo “M4IA”) e lançada em 19 de março. Como o apelido do produtor musical de 31 anos já sugere, tanto o processo criativo quanto os de produção e divulgação envolveram o uso pesado de inteligência artificial (IA).
O Olhar Digital conversou com Maia, que também é publicitário, sobre como ele usou a tecnologia, quais foram suas referências e o que ele vê no horizonte da sua carreira na música.
‘Brasil com S’: Como a IA ajudou um publicitário a realizar seu sonho na música
Confira abaixo a entrevista completa com Guilherme Maia sobre a “Brasil com S” e outras empreitadas suas no mundo da música (perguntas e respostas foram editadas para facilitar a leitura):
O que te levou a compor a “Brasil com S” e a usar IA para isso?
Eu produzi essa música em 19 de março, quando estava marcado um jogo amistoso entre Brasil e França, após notar que uma canção francesa feita por IA tinha viralizado e intimidava os torcedores brasileiros. Como sou produtor musical há mais de 15 anos, decidi usar a IA para criar uma resposta rápida a poucos dias do jogo. Analisei a estrutura da faixa rival, adotei o formato de call and response (chamada e resposta da multidão) e selecionei o ritmo phonk, muito popular em edits do TikTok. Para aumentar o potencial de viralização, compus a música com 52 segundos de duração. Isso impulsionou a replicação. Dados da gravadora apontam uma média de sete reproduções por pessoa. É um comportamento típico de grandes hits no mercado.
O desenvolvimento técnico exigiu repertório porque a IA precisa de background. Não existe um botão ‘criar hit da Copa’. Eu alimentei um software online de produção musical com mais de cem músicas que eu havia produzido de forma tradicional. Isso forneceu à ferramenta o background da minha sonoridade. Mesmo assim, o sistema falhou em entregar o que eu queria mais de 15 vezes. Então, selecionei os melhores fragmentos entre os resultados gerados pela IA e montei o arranjo e a composição final no meu software de produção. Esse processo de produção da música e do vídeo de divulgação levou entre duas e três horas.
Para o lançamento, adotei uma estratégia de marketing digital baseada nos comentários mais curtidos de outras publicações. A música “estourou” cinco vezes. A primeira ocorreu por meio de vídeos de react. A segunda, com a inserção da música em postagens sobre pacotes de figurinhas nas redes sociais. A terceira, através de uma trend de dança. A quarta, com o retorno de Neymar à Seleção Brasileira. Inclusive, inclui intencionalmente o gancho “Respeita o manto, o rei voltou” três meses antes da Copa, quando ele sequer estava convocado. A quinta veio agora na Copa de 2026, com o compartilhamento orgânico de grandes influenciadores e jogadores, como Virgínia, Lucas Paquetá e o próprio Neymar com a sua família.
Quais plataformas de IA você usou no seu processo criativo e de produção? E qual sua resposta para críticas sobre usar IA em projetos artísticos e criativos?
Combinei diversas plataformas de IA disponíveis on-line. Usei o Claude, por exemplo, para mapear os maiores hits virais no YouTube, o que me direcionou ao estilo phonk. Usei o Gemini para analisar padrões estruturais em vídeos de referência, o que me levou a definir o formato de call and response e a métrica de 52 segundos. Também usei o Gemini para estruturar a base dos prompts que eu enviaria ao Suno, que é uma plataforma voltada para produção musical. Para evitar resultados genéricos no Suno, alimentei o sistema com mais de cem músicas autorais. Isso criou um perfil sonoro personalizado que gerou a identidade autêntica da “Brasil com S”. Por fim, extraí as stems (faixas separadas) e finalizei a produção da música no FL Studio. Já a produção e edição do vídeo viral, que alcançou 2,5 milhões de visualizações no TikTok, foi feita no Adobe Premiere e After Effects. Também sou editor de vídeos há mais de 15 anos.
Após o lançamento, passei a usar a IA, especialmente o Claude, para monitorar vídeos em alta de outras seleções e aplicar estratégias de marketing nos comentários. Esse fluxo ágil me permitiu emplacar três músicas numa única semana, incluindo a “Nunca Serão”, criada após a derrota do Brasil [por 2 a 1 para a França], que também contou com IA na produção visual. Até o videoclipe oficial desenvolvido pela gravadora incorporou a tecnologia. Usamos um modelo humano apenas para a coreografia e substituímos as pessoas digitalmente por meio de IA. Considerei que um clipe com pessoas reais seria incoerente com a proposta de uma música digital produzida com bastante uso de IA.
Inclusive, decidi assumir e defender publicamente o uso da IA para combater o tabu no mercado musical, no qual muitos profissionais já usam a ferramenta, mas omitem isso por receio de retaliação. A tecnologia é uma realidade irreversível em diversos setores e funciona como ferramenta democrática. Ela inaugura uma forma de compor e fazer arte. Embora haja quem diga que a IA desmerece o trabalho artístico, ela foi o que me abriu portas para oportunidades de trabalho e collabs com grandes nomes da cena. A ferramenta não diminui minha experiência profissional. Sem conhecimento técnico e repertório de quem a usa, não sai nada que presta.
Como foi para você ver sua música “estourar” dessa forma? O que você pensou, o que você sentiu?
Desde o lançamento nas plataformas digitais, a forte comoção pública gerou debates intensos sobre o ritmo e a escalação dos jogadores. Atingir a média de 50 mil a 100 mil reproduções diárias cumpriu meu objetivo inicial de viralização. Esse desempenho atraiu a Spinnin Records, grande gravadora holandesa, que entrou em contato pelo meu Instagram. O avanço nas negociações, respaldado por bons contatos, resultou na minha assinatura com a Spinnin e também com a Warner Music da Holanda. Esse marco realizou um sonho de adolescência, após anos de rejeições. E provou o valor de uma faixa 100% digital que, embora produzida com IA, dependeu inteiramente do meu background em marketing e produção musical para funcionar.
A estratégia de disseminação foi orgânica e baseada na resposta direta da comunidade. Nem precisou de investimento em grandes criadores de conteúdo. A música explodiu e se reinventou semanalmente em diversas trends nas redes sociais. Atualmente, mantemos três versões da “Brasil com S” online: a original, uma estendida e uma com os atletas atualizados. Mas o público parece gostar mais da primeira opção, mesmo com a escalação desatualizada. Esse engajamento espontâneo escalou até alcançar o topo da pirâmide de influência: o DJ Pedro Sampaio e a influenciadora Virgínia fizeram postagens com a música, Neymar postou um vídeo dançando com a filha Mavi ao som da minha música e até mesmo atores de Hollywood, do elenco do novo filme do He-Man, aderiram à trend brasileira com o meu som.
Eu produzi um fonograma adaptado para 17 países. Desse total, a faixa “estourou” em seis ou sete mercados estrangeiros, por exemplo: Portugal, Argentina, Colômbia e Turquia. Esses países adotaram a minha base musical em suas redes sociais. Consolidar esse projeto como “A Música da Copa de 2026 do Brasil” transformou o que antes era um hobby não remunerado numa guinada na minha carreira. Esse sucesso abriu portas para collabs com grandes artistas da cena. E viabilizou o meu retorno a apresentações como DJ pelo país, agora com o suporte de uma equipe de gestão de carreira.
Guilherme Maia é o produtor musical por trás do hit “Brasil com S” – Imagem: Reprodução/Redes sociais
O que você vislumbra no horizonte da sua carreira?
Além de voltar a me apresentar pelo Brasil, estou fechando parceria com muitas outras pessoas da música que gostaram dos meus sons. Eu já lancei 17 músicas pela Spinnin’ Records. E tem mais um monte que vai vir. Vou fazer collabs com gente muito grande do mercado a partir de agora. A IA me ajudou a retomar um sonho antigo, de adolescente, que era ter uma música relevante, que toca as pessoas, voltar a essa carreira de DJ, de produtor musical, que antes era somente um hobby. Então, a IA me ajudou a realizar o meu sonho, que era viver disso.
De maneira muito tranquila, agora posso falar que eu vou seguir carreira, vou conseguir estar em mais lugares, levar meus novos trabalhos para mais pessoas. E é só o começo. É o começo de uma trajetória nova, na qual vou levantar junto essa bandeira da IA. Não como forma de penalizar quem não usa. Mas no sentido de: se em algum momento existir alguma dúvida, algum bloqueio, se eu conseguir ajudar e mostrar que dá para encurtar algum caminho, que dá para clarear alguma estrada com uso da IA, eu estarei ali para poder ajudar.
Anthropic, Google e Meta estão olhando para uma questão que, até pouco tempo atrás, parecia mais filosófica do que técnica: será que modelos de IA podem ter consciência ou algum tipo de emoção? Hoje, essa discussão já envolve cientistas de áreas bem diferentes.
O tema ganhou força no Vale do Silício junto com o avanço acelerado da IA que começa a levantar dúvidas menos técnicas e mais profundas sobre o que esses sistemas realmente representam, comenta o The Washington Post.
“IA pode ter consciência?” debate cresce no Vale do Silício com avanço acelerado dos modelos de linguagem. – Imagem: Layse Ventura via Gemini / Olhar Digital
Um debate que saiu da teoria
Durante muito tempo, falar em máquinas conscientes parecia coisa de ficção científica. Agora, isso entrou de vez na agenda de grandes empresas.
O pesquisador Cameron Berg contou que, em 2024, perguntou ao CEO da OpenAI, Sam Altman, se a empresa considerava seriamente a possibilidade de consciência em sistemas de IA.
Segundo ele, Altman disse que o assunto já fazia parte das discussões internas. “Era algo que ele obviamente já havia considerado”, afirmou Berg.
Depois dessa conversa, Berg criou uma organização sem fins lucrativos dedicada a estudar formas de avaliar consciência em sistemas artificiais.
Chatbots cada vez mais realistas levantam dúvidas sobre limites entre simulação e experiência real. – Imagem: jackpress / Shutterstock
Quando a IA começa a ser vista como algo que pode ter “bem-estar”
Na Anthropic, criadora do Claude, equipes internas passaram a investigar o que chamam de “estados internos” dos modelos de IA.
A empresa afirma que ainda não há evidências de experiências reais nesses sistemas, mas considera o tema relevante o bastante para pesquisa contínua.
Continuamos profundamente incertos sobre o status moral de Claude e de outros modelos de IA, mas acreditamos que a questão é séria o suficiente para ser estudada cuidadosamente à medida que os sistemas se tornam mais capazes.
Paruul Maheshwary, porta-voz da Anthropic, ao The Washington Post.
A OpenAI também já tratou do tema internamente, em canais de trabalho onde se discute a possibilidade de consciência em modelos de linguagem.
Nesse cenário, grupos ligados ao altruísmo eficaz defendem que entender possíveis implicações morais da IA será importante no longo prazo.
Modelos como Claude são estudados para entender possíveis “estados internos” e comportamento emocional. – Imagem: Jack_the_sparow/Shutterstock
O que a ciência realmente aceita hoje
Na visão da maioria dos neurocientistas, não há evidências de que sistemas de IA sejam conscientes ou sintam emoções.
Para esses especialistas, o que os modelos fazem é reproduzir padrões de linguagem humana com alta eficiência, sem qualquer experiência interna comprovada.
Ainda assim, a forma como esses sistemas se comunicam é convincente o suficiente para fazer usuários atribuírem características humanas a eles.
Pesquisadores como Margaret Mitchell, da Hugging Face, alertam que parte desse debate também é influenciada pela forma como as próprias empresas apresentam suas tecnologias.
Um debate que ainda está longe de terminar
O interesse por esse tema tende a crescer conforme a IA se torna mais presente no cotidiano.
Por enquanto, não existe consenso científico sobre consciência em máquinas, mas a discussão já deixou de ser marginal e passou a fazer parte do centro do debate tecnológico e ético.
A Microsoft deve reduzir menos de 2,5% de sua força de trabalho em uma nova rodada de demissões que pode ser anunciada já na próxima semana, segundo o Business Insider. A movimentação ocorre enquanto o setor de tecnologia passa por uma fase de reorganização menos discreta do que parece à primeira vista.
O clima interno, segundo relatos do mercado, já vinha de ajustes graduais antes mesmo do anúncio.
Microsoft já havia cortado 4% da força de trabalho em 2025, indicando continuidade das mudanças internas. – Imagem: Skorzewiak / Shutterstock
Xbox entra no centro das mudanças e preocupa funcionários
Segundo a Reuters, os cortes devem atingir milhares de pessoas, com impacto em áreas como vendas e consultoria. O Xbox aparece entre as divisões mais sensíveis nesse processo.
Há cerca de 228 mil funcionários em tempo integral na Microsoft, conforme dados enviados à SEC em junho de 2025 — o que ajuda a dimensionar o peso de qualquer ajuste, mesmo que percentual.
No caso da divisão de games, o ambiente já vinha sendo descrito como de revisão constante de prioridades e gastos.
Meta e Amazon, entre outras big techs, também anunciaram reduções recentes, reforçando tendência de reestruturação global no setor. – Imagem: gguy/Shutterstock
IA muda a lógica de custos e acelera reestruturações
O movimento da Microsoft se conecta a uma tendência mais ampla. Em várias empresas de tecnologia, mídia e finanças, os últimos meses foram marcados por ajustes semelhantes.
Por trás desse cenário, dois fatores aparecem com força: o custo crescente de infraestrutura de inteligência artificial e a necessidade de reorganizar estruturas após ciclos longos de expansão.
Meta e Amazon também já fizeram movimentos parecidos recentemente, com cortes significativos em suas equipes globais.
Xbox entra no centro das mudanças internas e pode sofrer ajustes em orçamento e estratégia de marketing. – Imagem: Thrive Studios ID / Shutterstock
Um setor em transição mais lenta do que parecia
A divisão de jogos da Microsoft segue sob atenção. Além de possíveis cortes em marketing, há discussões internas sobre caminhos estratégicos para o futuro da unidade, segundo relatos do setor.
Esse tipo de movimento não é isolado. O mercado de games também sente pressão de custos e mudanças nas prioridades das big techs.
A própria Microsoft já havia cortado cerca de 4% de sua força de trabalho em julho de 2025. Agora, a nova rodada reforça uma leitura mais ampla: o setor não está encolhendo, mas claramente deixou de crescer no mesmo ritmo de antes — especialmente enquanto redireciona energia para inteligência artificial.
Os modelos Fable 5 e Mythos 5 voltaram a ficar disponíveis depois que o governo dos Estados Unidos suspendeu os controles de exportação aplicados à Anthropic. A mudança ocorre menos de três semanas após as restrições impostas por razões de segurança nacional.
A decisão, segundo a Reuters, sinaliza uma tentativa de equilibrar o avanço da inteligência artificial com medidas voltadas à proteção de tecnologias consideradas sensíveis.
Restrição anterior levou a Anthropic a desativar modelos por não conseguir verificar nacionalidade de usuários em tempo real. – Crédito: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock
Mudança amplia o acesso aos modelos
As restrições haviam sido determinadas em 12 de junho e obrigaram a Anthropic a desativar os dois modelos para todos os usuários, já que não havia como verificar a nacionalidade de cada pessoa em tempo real.
Depois de implementar novas salvaguardas, a empresa recebeu autorização para retomar o acesso. O Mythos 5 será disponibilizado gradualmente para parceiros nacionais e internacionais do programa Glasswing, enquanto o Fable 5, desenvolvido para o público em geral, ficará disponível a partir de quarta-feira.
Antes disso, o Mythos 5 havia sido liberado apenas para um grupo restrito de organizações norte-americanas consideradas confiáveis.
Pesquisadores da Amazon encontraram uma forma de contornar proteções do Fable 5 durante testes de segurança em IA. – Imagem: Golden Shrimp/Shutterstock
O que mudou na segurança da IA
A revisão das restrições aconteceu depois que pesquisadores da Amazon encontraram uma forma de contornar as proteções do Fable 5. Em um dos testes, o sistema conseguiu identificar vulnerabilidades de software e produzir um código demonstrando como uma falha poderia ser explorada.
Para evitar novos casos, a Anthropic adotou uma série de medidas:
bloqueio do comportamento identificado pelos pesquisadores;
encaminhamento das solicitações bloqueadas para o modelo Opus 4.8;
criação de padrões para avaliar tentativas de jailbreak;
continuidade dos testes de segurança (red-teaming).
A empresa afirmou considerar “provavelmente impossível” tornar qualquer modelo totalmente imune a jailbreaks e alertou para o risco de surgir um método capaz de liberar uma ampla categoria de comportamentos prejudiciais.
OpenAI também sofreu impacto regulatório e adiou lançamento do GPT-5.6 após pedido do governo norte-americano. – Imagem: Stock all/Shutterstock
Cooperação continua sob vigilância
A Anthropic também ampliará a colaboração com o governo dos Estados Unidos e com empresas como Amazon, Microsoft e Google para desenvolver padrões comuns de proteção contra jailbreaks.
Em carta enviada à companhia, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, informou que a exigência de licença poderá voltar caso as circunstâncias mudem ou os compromissos assumidos deixem de ser cumpridos.
O aumento da fiscalização não se limita à Anthropic. A OpenAI também adiou o lançamento público completo do GPT-5.6 a pedido do governo norte-americano, indicando que modelos avançados de IA continuarão sob análise antes de chegarem a um público mais amplo.
A inteligência artificial pode abrir caminho para avanços importantes em diversas áreas, mas o mesmo ritmo acelerado que impulsiona a tecnologia também amplia seus desafios. Essa é a principal conclusão do primeiro relatório científico independente sobre IA elaborado por um painel da ONU.
O documento será apresentado aos governos durante o Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, marcado para os dias 6 e 7 de julho, em Genebra, revela a Reuters.
Segundo a ONU, governos ainda têm dificuldade para acompanhar a velocidade com que a inteligência artificial evolui. – Imagem: mr_tigga/Shutterstock
Ciência corre atrás da velocidade da IA
Produzido por 40 cientistas e especialistas independentes, o relatório afirma que a IA oferece benefícios relevantes para países e cidadãos. Em contrapartida, a compreensão científica e a capacidade de adaptação dos governos ainda não acompanham a velocidade com que os sistemas evoluem.
Segundo os autores, existem poucos métodos para controlar sistemas altamente autônomos, o que dificulta a criação de políticas capazes de acompanhar os avanços da tecnologia.
A ciência não pode garantir que a IA não causará danos catastróficos — seja por conta própria ou devido a usuários mal-intencionados.
Yoshua Bengio, copresidente do painel Diálogo Global da ONU sobre governança de IA, à Reuters.
Bengio destacou que já existem evidências crescentes de comportamentos enganosos apresentados por sistemas de IA.
Os EUA concentram 75% do poder computacional dos principais supercomputadores de IA; a China reúne outros 15%. – Imagem: William Potter/Shutterstock
Os riscos vão além da tecnologia
O documento destaca que os benefícios potenciais da IA são enormes. Ainda assim, alerta que a implementação rápida e sem controle pode gerar impactos relevantes em diferentes áreas da sociedade.
impactos sobre sistemas sociais, econômicos e ambientais;
dificuldades para controlar sistemas altamente autônomos;
aumento da circulação de material de abuso sexual infantil gerado por IA e de violência sexual facilitada por deepfakes.
O próprio relatório resume esse cenário ao afirmar que “os benefícios potenciais da IA são enormes”, mas ressalta que a implementação rápida e sem controle da tecnologia em larga escala também apresenta riscos consideráveis para a saúde mental, os sistemas sociais, a economia, o meio ambiente e a capacidade de controlar esses sistemas.
A desigualdade no acesso preocupa
Mais de um bilhão de pessoas já utilizam ferramentas de IA conversacional semanalmente. Apesar desse crescimento, a adoção continua defasada nos países em desenvolvimento.
O relatório mostra ainda que os Estados Unidos concentram 75% do poder computacional entre os 500 principais supercomputadores de IA do mundo, enquanto a China reúne 15%.
Os especialistas também alertam que a IA facilita a produção e o direcionamento de conteúdo persuasivo em larga escala, favorecendo uma erosão gradual da integridade da informação, da confiança pública, da coesão social e da deliberação democrática.
A ONU destaca que milhares de idiomas ainda estão fora do treinamento da maioria dos modelos de inteligência artificial. – Imagem: JOURNEY STUDIO7/Shutterstock
Nem todos os países conseguem acompanhar
Outro desafio envolve a diversidade linguística. Embora mais de 7.000 idiomas sejam falados no planeta, apenas uma pequena parcela deles está presente no treinamento dos modelos atuais. Segundo o relatório, erros na tradução automática podem afetar diagnósticos de saúde e decisões de tratamento.
O documento conclui que a maioria dos países, inclusive economias avançadas, ainda não possui capacidade técnica suficiente para avaliar os modelos mais sofisticados de inteligência artificial nem para participar de forma significativa de sua governança. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar a cooperação internacional para acompanhar uma tecnologia que continua evoluindo em ritmo acelerado.
Segundo a companhia, o lançamento ocorre em um momento em que a chamada IA agentic passa a ser o padrão de desenvolvimento entre grandes laboratórios do setor. O modelo passa a integrar diferentes planos de acesso e já nasce com posicionamento de uso amplo, incluindo usuários gratuitos e corporativos.
A proposta central do Sonnet 5 é combinar maior capacidade de execução independente com redução de custos operacionais, aproximando seu desempenho de modelos mais avançados da própria empresa, porém com preço inferior.
Claude Sonnet 5 redefine disputa por IA autônoma e reduz distância para modelos mais avançados
Anthropic lança seu novo modelo de IA, Claude Sonnet 5. (Imagem: Anthropic / Divulgação)
O novo modelo da Anthropic foi apresentado como uma versão mais eficiente dentro da linha intermediária da empresa, com destaque para sua capacidade de realizar tarefas complexas sem supervisão constante. Ele atua em atividades como planejamento de ações, uso de navegadores e terminais, além da execução de processos completos de trabalho digital.
De acordo com a empresa, o Sonnet 5 representa um avanço em relação ao Sonnet 4.6, com melhorias em raciocínio, programação, uso de ferramentas e tarefas de conhecimento. A companhia também afirma que o sistema reduz comportamentos indesejados, como falhas de coerência e respostas inadequadas em contextos sensíveis.
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
O modelo foi desenhado para reduzir a diferença de desempenho em relação ao Opus 4.8, versão mais robusta da família Claude. Em determinadas avaliações internas, o Sonnet 5 se aproxima desse nível superior, embora ainda mantenha diferenças em precisão e capacidade geral.
Outro ponto destacado no lançamento é o posicionamento de mercado. A Anthropic afirma que o novo modelo amplia as opções de custo e desempenho para desenvolvedores, permitindo ajustes conforme a complexidade da tarefa e o orçamento disponível.
O modelo chega com precificação inicial de 2 dólares por milhão de tokens de entrada e 10 dólares por milhão de saída até o fim de agosto de 2026, com reajuste posterior para 3 e 15 dólares, respectivamente. Além disso, passa a ser disponibilizado como opção padrão em planos gratuitos e pagos.
A empresa Anthropic apresentou nesta terça-feira (30) uma nova plataforma de inteligência artificial voltada exclusivamente ao ambiente científico, batizada de Claude Science. A ferramenta foi desenhada para reunir, em um único espaço digital, atividades que vão da análise de dados à produção de artigos e simulações complexas.
A solução, ainda em fase beta, foi disponibilizada inicialmente para usuários selecionados e promete acelerar processos de investigação ao integrar modelos de IA, bases de dados especializadas e recursos de computação em escala.
Plataforma integra pesquisa, dados e computação em um único ambiente
Outdoor da Anthropic – Imagem: PhotoGranary02/Shutterstock
O Claude Science foi concebido como um espaço de trabalho unificado para pesquisadores, reunindo ferramentas tradicionalmente distribuídas em diferentes sistemas. A proposta é permitir que cientistas executem desde a leitura de literatura acadêmica até a geração de resultados analíticos sem alternar entre múltiplas aplicações.
A plataforma organiza fluxos de pesquisa que incluem análise de dados, construção de gráficos e elaboração de manuscritos científicos. Cada resultado gerado é acompanhado por um registro completo de como foi produzido, o que permite rastreabilidade e reprodução dos experimentos.
De acordo com informações divulgadas pela companhia, o sistema também integra mais de 60 bases de dados científicas já configuradas, cobrindo áreas como genômica, química computacional e biologia estrutural.
Agentes especializados e automação de tarefas científicas
Claude Science exibe proteínas, estruturas e moléculas nativamente, com cada resultado reproduzível e rastreado até seu código. – (Divulgação: Anthropic)
A arquitetura do Claude Science opera com diferentes agentes de inteligência artificial. Um agente geral coordena as tarefas, enquanto outros são especializados em áreas específicas do conhecimento científico, como proteômica e genômica.
Um agente adicional atua como revisor, responsável por verificar citações, cálculos e possíveis inconsistências nos resultados produzidos ao longo do processo de pesquisa.
A plataforma também é capaz de gerar e visualizar elementos científicos complexos, como estruturas tridimensionais de proteínas, mapas genômicos e representações químicas, todos conectados ao código que os originou.
Infraestrutura flexível e uso em diferentes escalas
O sistema foi desenvolvido para funcionar tanto em computadores locais quanto em servidores remotos, incluindo ambientes de alta performance utilizados em instituições de pesquisa. Isso permite que análises simples ou altamente complexas sejam executadas dentro da mesma estrutura.
A ferramenta também pode operar em escalas maiores, utilizando recursos computacionais adicionais quando necessário, o que facilita desde tarefas individuais até projetos científicos com grande volume de dados.
Segundo a empresa, testes realizados em fase experimental indicaram ganhos de eficiência em diferentes tipos de pesquisa, especialmente em áreas que exigem análise intensiva de dados biológicos.
Aplicações em biotecnologia e pesquisa médica
A Claude Science cria ambientes e gerencia computação em seu laptop, cluster ou GPUs sob demanda. – (Divulgação: Anthropic)
Além do ambiente de trabalho, a iniciativa inclui aplicações voltadas à descoberta de medicamentos e à pesquisa em doenças consideradas negligenciadas. A empresa também menciona o desenvolvimento de programas pré-clínicos como parte dessa estratégia.
Relatos de instituições que testaram a ferramenta indicam uso em tarefas como análise de células únicas, estudos genéticos e modelagem de proteínas, com apoio de fluxos automatizados de pesquisa.
Casos citados incluem o uso por laboratórios acadêmicos e organizações biomédicas que exploram desde a seleção de alvos terapêuticos até a construção de revisões científicas extensas com apoio de agentes de IA.
A expansão acelerada da inteligência artificial trouxe um novo desafio para o setor de infraestrutura: manter data centers operando mesmo em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes, incêndios florestais e ventos intensos são alguns dos principais fatores de risco para essas instalações, colocando redes elétricas sob pressão e elevando custos operacionais.
A onda de calor na Europa chamou atenção para o assunto e passou a preocupar seguradoras e empresas de tecnologia. Isso porque, enquanto a população enfrenta temperaturas recordes, operadores de data centers lidam com o desafio de resfriar chips cada vez mais potentes e manter a infraestrutura funcionando sem parar.
Para piorar a situação, o uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado também sobrecarrega as redes de energia, elevando o risco de apagões. E, nesses casos, todo mundo para: desde os sistemas de refrigeração até os data centers que alimentam a inteligência artificial.
O Olhar Digital consultou especialistas para entender o impacto dos eventos climáticos extremos no setor de inteligência artificial – e vice-versa.
Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, a tendência é que esse cenário se intensifique nos próximos anos. Segundo ele, os efeitos das mudanças climáticas não devem atingir apenas os data centers, mas toda a cadeia de geração e distribuição de energia.
Não há a menor dúvida de que os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e tempestades severas, vão afetar cada vez mais todos os sistemas produtivos da geração ao uso de energia. Nesse sentido, os data centers estão em uma posição privilegiada, pois são enormes consumidores de eletricidade e também de água para refrigeração dos supercomputadores.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
ONU já alertou: data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
Expansão para novos mercados
Artaxo afirma que a vulnerabilidade dessa infraestrutura tende a crescer. Para ele, interrupções no fornecimento de energia e a disponibilidade de água para resfriamento devem influenciar, inclusive, a escolha dos locais onde novos data centers serão instalados.
Já segundo Patrick McBride, chefe de Construção Internacional da Zurich, os eventos climáticos severos deixaram de ser uma preocupação secundária para quem investe em infraestrutura digital:
Nos últimos três anos, fenômenos climáticos extremos passaram a representar a principal causa de perdas da seguradora Zurich;
De acordo com McBride à CNBC, o portfólio de riscos relacionado à construção de data centers nos Estados Unidos já responde por cerca de um terço dos prejuízos da companhia;
O executivo explicou que muitos novos empreendimentos estão sendo construídos em regiões suburbanas e rurais, onde os terrenos são mais baratos;
Mas esses locais também têm riscos. Um estudo da empresa de análise climática First Street revelou que 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos elevados de desastres naturais agudos, como enchentes, incêndios florestais e ventos extremos. Além de interromper operações, esses eventos podem elevar custos com seguros, manutenção e reparos.
A necessidade de considerar fatores climáticos na escolha da localização também é destacada por André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil. Segundo ele, os eventos extremos deixaram de ser um risco secundário e passaram a fazer parte do planejamento estratégico das empresas.
De acordo com o especialista, critérios como risco de desastres naturais, disponibilidade de energia, acesso à água e resiliência da rede elétrica já influenciam a seleção dos locais onde novos data centers serão construídos. Além disso, cresce o investimento em sistemas redundantes, microgrids, geração própria de energia e novas soluções de refrigeração para aumentar a continuidade das operações.
O calor pressiona data centers – e a rede elétrica
André Flávio explicou que o desafio vai além de garantir eletricidade suficiente para alimentar os servidores. Segundo ele, dissipar o calor gerado pelos equipamentos tornou-se um dos principais obstáculos técnicos da nova geração de data centers.
Durante ondas de calor, afirmou o especialista, os sistemas convencionais de refrigeração podem atingir seus limites operacionais, enquanto temperaturas mais elevadas fazem os equipamentos de climatização consumirem ainda mais energia. Ao mesmo tempo, muitas tecnologias de resfriamento dependem de água, recurso que pode se tornar escasso em regiões afetadas por secas.
Flávio acrescentou que os racks voltados para IA concentram cada vez mais potência em espaços reduzidos, criando pontos críticos de temperatura que exigem monitoramento em tempo real.
A tendência é que eficiência energética, gestão térmica e segurança do fornecimento de energia se tornem tão importantes quanto a própria capacidade computacional dos data centers.
André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil
No calor, uso simultâneo de sistemas de refrigeração e data centers pressiona redes elétricas – Imagem: west cowboy/Shutterstock
Regulação e fontes renováveis
Além do desafio operacional, o crescimento dos data centers também levanta preocupações ambientais. Segundo Artaxo, projeções indicam que essas instalações poderão consumir cerca de 10% de toda a eletricidade produzida no planeta nos próximos anos.
Para o pesquisador, esse avanço exige regulamentação. “Nós temos que regular e controlar essa atividade, que é intensiva em recursos naturais do nosso planeta”, destacou.
Na avaliação do professor, alimentar data centers com fontes renováveis deve ser um dos pilares dessa estratégia.
Na verdade, um dos aspectos da regulação é obrigar os data center a serem resfriados e a serem alimentados eletricamente com energias renováveis, como solar e eólica. Isso seria muito bom pra sociedade global como um todo.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP
Empresas adaptam projetos para enfrentar temperaturas mais altas
Diante desse cenário, empresas do setor já começam a revisar o projeto de novas instalações.
A Microsoft informou à CNBC que desenvolve data centers para operar de forma confiável sob diferentes condições ambientais, utilizando critérios como escolha criteriosa do local, sistemas redundantes e monitoramento em tempo real para reduzir riscos associados ao calor extremo e a outros eventos climáticos.
A Nvidia também anunciou recentemente avanços voltados à eficiência energética. Seus novos servidores de inteligência artificial passam a operar com líquido refrigerante a até 45 °C (acima das temperaturas utilizadas anteriormente). Segundo a empresa, aumentar em apenas um grau a temperatura do sistema de resfriamento pode reduzir em aproximadamente 4% os custos de energia destinados à refrigeração.
Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos já afetam data centers – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock
Para André Flávio, entretanto, apenas migrar para energia renovável não será suficiente para reduzir o impacto ambiental da inteligência artificial. De acordo com ele, a sustentabilidade precisa fazer parte do projeto dos data centers desde sua concepção.
O especialista afirma que as empresas precisarão investir simultaneamente em sistemas de refrigeração mais eficientes, armazenamento de energia, arquiteturas resilientes e na escolha de regiões com maior disponibilidade de energia limpa e menor estresse hídrico.
“A sustentabilidade precisa ser tratada como um requisito de projeto e operação, e não apenas como uma questão de suprimento energético”, destacou.
Artaxo vai além e defende que a expansão acelerada dos data centers exige limites. Segundo ele, o consumo crescente de energia e água já levou algumas regiões dos Estados Unidos a restringirem novas instalações.
Para o pesquisador, a ideia de que a inteligência artificial compensará seu próprio impacto ambiental ao aumentar a eficiência de outros setores é uma falácia.
Nós temos que reduzir o consumo de água e de eletricidade de data centers do mundo inteiro, porque obviamente esses data centers funcionam globalmente. Temos que escolher cuidadosamente onde instalá-los com o menor impacto ambiental possível.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP