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Criador de ‘Brasil com S’ revela estratégia para fazer música viralizar até a Copa

Eficiência impulsionada por inteligência artificial (IA), design focado em engajamento e marketing orientado por dados. Esses foram os pilares da estratégia por trás da viralização da “Brasil com S”. Deu tão certo que, hoje em dia, você talvez conheça esse som como “a música da Copa”. É aquela que inunda feeds de redes sociais – Instagram e TikTok, principalmente – em dias de jogo da Seleção Brasileira.

Quem revelou essa estratégia ao Olhar Digital foi o publicitário Guilherme Maia, de 31 anos. Sob o nome artístico “M4IA”, ele também é produtor musical. Foi ele quem produziu a música e o clipe dela. Também foi ele quem montou o plano para o som tomar conta da internet – isso pouco antes da Copa, tá?

Como IA, design e marketing convergiram na produção (e viralização) de ‘Brasil com S’

Tudo aconteceu no dia 19 de março. “A Seleção ia jogar contra a França [num amistoso] e existiam algumas trends de música de IA. Tinha uma música francesa que amedrontava brasileiros. A composição chamava os jogadores. Eu fiquei muito incomodado com isso”, contou o Maia.

Pensei: ‘não é possível que a gente vai ficar com medo da França por conta da música’.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Uso da IA na produção

Maia contou à reportagem que, após decidir fazer a música, escolheu usar IA para otimizar o tempo de produção. “Eu sou produtor musical há mais de 15 anos. Decidi usar a IA pra me ajudar a fazer algo rápido porque eu queria lançar essa música antes do jogo”, disse. 

“Faltava mais ou menos uma semana do jogo”, relembra o publicitário. “Eu precisava fazer uma música inteira, fazer um vídeo de divulgação, pensar na estratégia de marketing por trás. E a IA me ajudou a conceber isso de forma muito rápida.”

Demorei por volta de duas a três horas para fazer a música e o vídeo. Eu já trabalho com isso, então foi algo bem rápido.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Qual IA o produtor usou? Três plataformas – duas voltadas para “uso geral” e uma para produção musical. “Eu usei o Claude [IA da Anthropic] para varrer a internet em busca de quais eram os maiores hits virais do YouTube. Essa pesquisa densa me levou ao [gênero] phonk”, contou Maia. 

Guilherme Maia, publicitário de 31 anos, produziu a “música da Copa” usando bastante IA – Imagem: Reprodução

O que veio a seguir: colocar a IA do Google para trabalhar. “Usei o Gemini porque essa plataforma é muito boa em ‘assistir’ um vídeo e identificar padrões e estruturas. Usei ela para entender as referências de vídeo que eu tinha separado. Com as minhas intervenções e prompts, cheguei na estrutura do call and response e da métrica de 52 segundos”, disse o publicitário. 

A IA do Google atuou em outra parte do processo. “Usei o Gemini também para montar a base e a estrutura dos prompts para eu colocar no Suno”. Para quem não sabe: Suno é uma plataforma de IA generativa focada na criação de músicas a partir de comandos de texto, combinando melodia, instrumentos e voz. “Tudo que eu peguei de escalação, de prompts, joguei tudo lá no Suno. É onde eu coloquei todas as minhas músicas também.”

O produtor frisou que o Suno não produziu a música que você ouve nos feeds das redes sociais. “Bem que eu queria que fosse só apertar um botão para fazer o hit da copa”, brincou Maia. “Errei mais de 15 vezes.”

No fim, ele pegou pedaços que deram certo nas tentativas que tinham dado errado e as juntou no FL Studio – software profissional de produção musical usado para gravar, editar, compor, misturar e masterizar músicas digitalmente. Essa foi a parte, digamos, manual e tradicional do processo. Foi quando o produtor colocou a mão na massa.

Em suma, o design pensado por Maia para a “Brasil com S” ter bastante chance de viralizar, conforme explicado por ele ao Olhar Digital, foi:

  • Estrutura: A música foi composta com 52 segundos, pensada para ser curta, altamente replicável e viciante (o que realmente levou a múltiplas reproduções por ouvinte);
  • Estilo: Adotou o phonk (ritmo popular em edits no TikTok) com percussão e leads marcantes;
  • Dinâmica: Inspirou-se na estrutura de call and response (chamada e resposta) da música francesa, adaptando-a para a torcida brasileira;
  • Ganchos: Inseriu propositalmente elementos como a frase “Respeita o manto, o rei voltou”, focada em Neymar, para criar um senso de urgência e patriotismo que conectou o público à música antes mesmo da convocação do jogador.

Assista abaixo ao clipe de uma versão estendida da música:

Plano de marketing e distribuição

Segundo Maia, sua estratégia focou em monitoramento de trends (IA entrou aqui também), vídeos baseados em comentários e tração orgânica. Vamos por partes, então.

Para começar, onde a IA entrou no monitoramento? “Usei muito o Claude para procurar vídeos hypados de outras seleções e [conseguir] fazer vídeos aproveitando comentários para divulgar a minha [música]”, contou o publicitário.

Tracei esse plano para a música pautado numa estratégia na qual eu pegava os comentários mais curtidos de outros vídeos e fazia um vídeo a partir desses comentários.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Em parte por sorte, em parte pela “leitura de jogo” feita por Maia, o sucesso de “Brasil com S” ocorreu de maneira orgânica na internet e, principalmente, nas redes sociais, contou o produtor.

“Internamente, a gente tinha uma estratégia de viralização que não dependia de influenciadores porque o público estava recebendo bem a música”, disse o publicitário. “Lógico que o ‘plus’ da música se daria se os influenciadores começassem a ir atrás. Isso foi muito natural. A gente não precisou ir atrás de ninguém.”

Maia acrescentou: “A música tem esse papel de conectar, de fazer as pessoas comentarem, expressarem as opiniões. E [o artista deve] ouvir da maneira que cada um recebe. Isso é individual. Para mim, como músico, ela estava cumprindo o seu papel.”

No fim, nomes bem famosos, espalhados por diversas áreas, abraçaram trends com a música de Maia envolvida. Entre as celebridades que postaram algo com “Brasil com S” tocando no fundo, estão Virgínia, Neymar e Camila Mendes (atriz americana com raízes brasileiras que está no filme Mestres do Universo – o live-action de He-Man).

@camimendes

não deu tempo pra terminar o vídeo 🤦🏻‍♀️ bora brasillll

♬ som original – omeumundodabola

Entrevista: os bastidores do hit da Copa ‘Brasil com S’

Além da estratégia de engajamento, a conversa completa com Guilherme Maia detalha desdobramentos comerciais do hit e o debate sobre o uso da IA na arte. O publicitário revela, por exemplo, como o volume de reproduções diárias atraiu o mercado europeu, além do desenvolvimento de fonogramas adaptados para outros 17 países. 

O produtor também rebate críticas sobre o uso da IA generativa no ambiente criativo, defendendo o caráter democrático e irreversível dessas plataformas. Além disso, Maia compartilha seus planos de retomar suas apresentações como DJ pelo Brasil.

Quer destrinchar o passo a passo técnico e bastidores desse laboratório digital? O Olhar Digital publicou a versão estendida da conversa com o produtor do hit da Copa.

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Entrevista: a mente (e as IAs) por trás do hit da Copa ‘Brasil com S’

“É o Brasil! Brasil, Brasil, Brasil”. Você deve ter ouvido esse verso, acompanhado de uma batida forte e marcada, incontáveis vezes ao rolar feeds de redes sociais como Instagram e TikTok. Principalmente em dia de jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.

Esse verso é da música “Brasil com S”, produzida por Guilherme Maia (vulgo “M4IA”) e lançada em 19 de março. Como o apelido do produtor musical de 31 anos já sugere, tanto o processo criativo quanto os de produção e divulgação envolveram o uso pesado de inteligência artificial (IA).

O Olhar Digital conversou com Maia, que também é publicitário, sobre como ele usou a tecnologia, quais foram suas referências e o que ele vê no horizonte da sua carreira na música.

‘Brasil com S’: Como a IA ajudou um publicitário a realizar seu sonho na música

Confira abaixo a entrevista completa com Guilherme Maia sobre a “Brasil com S” e outras empreitadas suas no mundo da música (perguntas e respostas foram editadas para facilitar a leitura):

O que te levou a compor a “Brasil com S” e a usar IA para isso?

Eu produzi essa música em 19 de março, quando estava marcado um jogo amistoso entre Brasil e França, após notar que uma canção francesa feita por IA tinha viralizado e intimidava os torcedores brasileiros. Como sou produtor musical há mais de 15 anos, decidi usar a IA para criar uma resposta rápida a poucos dias do jogo. Analisei a estrutura da faixa rival, adotei o formato de call and response (chamada e resposta da multidão) e selecionei o ritmo phonk, muito popular em edits do TikTok. Para aumentar o potencial de viralização, compus a música com 52 segundos de duração. Isso impulsionou a replicação. Dados da gravadora apontam uma média de sete reproduções por pessoa. É um comportamento típico de grandes hits no mercado.

O desenvolvimento técnico exigiu repertório porque a IA precisa de background. Não existe um botão ‘criar hit da Copa’. Eu alimentei um software online de produção musical com mais de cem músicas que eu havia produzido de forma tradicional. Isso forneceu à ferramenta o background da minha sonoridade. Mesmo assim, o sistema falhou em entregar o que eu queria mais de 15 vezes. Então, selecionei os melhores fragmentos entre os resultados gerados pela IA e montei o arranjo e a composição final no meu software de produção. Esse processo de produção da música e do vídeo de divulgação levou entre duas e três horas.

Para o lançamento, adotei uma estratégia de marketing digital baseada nos comentários mais curtidos de outras publicações. A música “estourou” cinco vezes. A primeira ocorreu por meio de vídeos de react. A segunda, com a inserção da música em postagens sobre pacotes de figurinhas nas redes sociais. A terceira, através de uma trend de dança. A quarta, com o retorno de Neymar à Seleção Brasileira. Inclusive, inclui intencionalmente o gancho “Respeita o manto, o rei voltou” três meses antes da Copa, quando ele sequer estava convocado. A quinta veio agora na Copa de 2026, com o compartilhamento orgânico de grandes influenciadores e jogadores, como Virgínia, Lucas Paquetá e o próprio Neymar com a sua família.

Quais plataformas de IA você usou no seu processo criativo e de produção? E qual sua resposta para críticas sobre usar IA em projetos artísticos e criativos?

Combinei diversas plataformas de IA disponíveis on-line. Usei o Claude, por exemplo, para mapear os maiores hits virais no YouTube, o que me direcionou ao estilo phonk. Usei o Gemini para analisar padrões estruturais em vídeos de referência, o que me levou a definir o formato de call and response e a métrica de 52 segundos. Também usei o Gemini para estruturar a base dos prompts que eu enviaria ao Suno, que é uma plataforma voltada para produção musical. Para evitar resultados genéricos no Suno, alimentei o sistema com mais de cem músicas autorais. Isso criou um perfil sonoro personalizado que gerou a identidade autêntica da “Brasil com S”. Por fim, extraí as stems (faixas separadas) e finalizei a produção da música no FL Studio. Já a produção e edição do vídeo viral, que alcançou 2,5 milhões de visualizações no TikTok, foi feita no Adobe Premiere e After Effects. Também sou editor de vídeos há mais de 15 anos.

Após o lançamento, passei a usar a IA, especialmente o Claude, para monitorar vídeos em alta de outras seleções e aplicar estratégias de marketing nos comentários. Esse fluxo ágil me permitiu emplacar três músicas numa única semana, incluindo a “Nunca Serão”, criada após a derrota do Brasil [por 2 a 1 para a França], que também contou com IA na produção visual. Até o videoclipe oficial desenvolvido pela gravadora incorporou a tecnologia. Usamos um modelo humano apenas para a coreografia e substituímos as pessoas digitalmente por meio de IA. Considerei que um clipe com pessoas reais seria incoerente com a proposta de uma música digital produzida com bastante uso de IA.

Inclusive, decidi assumir e defender publicamente o uso da IA para combater o tabu no mercado musical, no qual muitos profissionais já usam a ferramenta, mas omitem isso por receio de retaliação. A tecnologia é uma realidade irreversível em diversos setores e funciona como ferramenta democrática. Ela inaugura uma forma de compor e fazer arte. Embora haja quem diga que a IA desmerece o trabalho artístico, ela foi o que me abriu portas para oportunidades de trabalho e collabs com grandes nomes da cena. A ferramenta não diminui minha experiência profissional. Sem conhecimento técnico e repertório de quem a usa, não sai nada que presta.

Como foi para você ver sua música “estourar” dessa forma? O que você pensou, o que você sentiu?

Desde o lançamento nas plataformas digitais, a forte comoção pública gerou debates intensos sobre o ritmo e a escalação dos jogadores. Atingir a média de 50 mil a 100 mil reproduções diárias cumpriu meu objetivo inicial de viralização. Esse desempenho atraiu a Spinnin Records, grande gravadora holandesa, que entrou em contato pelo meu Instagram. O avanço nas negociações, respaldado por bons contatos, resultou na minha assinatura com a Spinnin e também com a Warner Music da Holanda. Esse marco realizou um sonho de adolescência, após anos de rejeições. E provou o valor de uma faixa 100% digital que, embora produzida com IA, dependeu inteiramente do meu background em marketing e produção musical para funcionar.

A estratégia de disseminação foi orgânica e baseada na resposta direta da comunidade. Nem precisou de investimento em grandes criadores de conteúdo. A música explodiu e se reinventou semanalmente em diversas trends nas redes sociais. Atualmente, mantemos três versões da “Brasil com S” online: a original, uma estendida e uma com os atletas atualizados. Mas o público parece gostar mais da primeira opção, mesmo com a escalação desatualizada. Esse engajamento espontâneo escalou até alcançar o topo da pirâmide de influência: o DJ Pedro Sampaio e a influenciadora Virgínia fizeram postagens com a música, Neymar postou um vídeo dançando com a filha Mavi ao som da minha música e até mesmo atores de Hollywood, do elenco do novo filme do He-Man, aderiram à trend brasileira com o meu som.

Eu produzi um fonograma adaptado para 17 países. Desse total, a faixa “estourou” em seis ou sete mercados estrangeiros, por exemplo: Portugal, Argentina, Colômbia e Turquia. Esses países adotaram a minha base musical em suas redes sociais. Consolidar esse projeto como “A Música da Copa de 2026 do Brasil” transformou o que antes era um hobby não remunerado numa guinada na minha carreira. Esse sucesso abriu portas para collabs com grandes artistas da cena. E viabilizou o meu retorno a apresentações como DJ pelo país, agora com o suporte de uma equipe de gestão de carreira.

Guilherme Maia é o produtor musical por trás do hit “Brasil com S” – Imagem: Reprodução/Redes sociais

O que você vislumbra no horizonte da sua carreira?

Além de voltar a me apresentar pelo Brasil, estou fechando parceria com muitas outras pessoas da música que gostaram dos meus sons. Eu já lancei 17 músicas pela Spinnin’ Records. E tem mais um monte que vai vir. Vou fazer collabs com gente muito grande do mercado a partir de agora. A IA me ajudou a retomar um sonho antigo, de adolescente, que era ter uma música relevante, que toca as pessoas, voltar a essa carreira de DJ, de produtor musical, que antes era somente um hobby. Então, a IA me ajudou a realizar o meu sonho, que era viver disso. 

De maneira muito tranquila, agora posso falar que eu vou seguir carreira, vou conseguir estar em mais lugares, levar meus novos trabalhos para mais pessoas. E é só o começo. É o começo de uma trajetória nova, na qual vou levantar junto essa bandeira da IA. Não como forma de penalizar quem não usa. Mas no sentido de: se em algum momento existir alguma dúvida, algum bloqueio, se eu conseguir ajudar e mostrar que dá para encurtar algum caminho, que dá para clarear alguma estrada com uso da IA, eu estarei ali para poder ajudar.

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