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Criador de ‘Brasil com S’ revela estratégia para fazer música viralizar até a Copa

Eficiência impulsionada por inteligência artificial (IA), design focado em engajamento e marketing orientado por dados. Esses foram os pilares da estratégia por trás da viralização da “Brasil com S”. Deu tão certo que, hoje em dia, você talvez conheça esse som como “a música da Copa”. É aquela que inunda feeds de redes sociais – Instagram e TikTok, principalmente – em dias de jogo da Seleção Brasileira.

Quem revelou essa estratégia ao Olhar Digital foi o publicitário Guilherme Maia, de 31 anos. Sob o nome artístico “M4IA”, ele também é produtor musical. Foi ele quem produziu a música e o clipe dela. Também foi ele quem montou o plano para o som tomar conta da internet – isso pouco antes da Copa, tá?

Como IA, design e marketing convergiram na produção (e viralização) de ‘Brasil com S’

Tudo aconteceu no dia 19 de março. “A Seleção ia jogar contra a França [num amistoso] e existiam algumas trends de música de IA. Tinha uma música francesa que amedrontava brasileiros. A composição chamava os jogadores. Eu fiquei muito incomodado com isso”, contou o Maia.

Pensei: ‘não é possível que a gente vai ficar com medo da França por conta da música’.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Uso da IA na produção

Maia contou à reportagem que, após decidir fazer a música, escolheu usar IA para otimizar o tempo de produção. “Eu sou produtor musical há mais de 15 anos. Decidi usar a IA pra me ajudar a fazer algo rápido porque eu queria lançar essa música antes do jogo”, disse. 

“Faltava mais ou menos uma semana do jogo”, relembra o publicitário. “Eu precisava fazer uma música inteira, fazer um vídeo de divulgação, pensar na estratégia de marketing por trás. E a IA me ajudou a conceber isso de forma muito rápida.”

Demorei por volta de duas a três horas para fazer a música e o vídeo. Eu já trabalho com isso, então foi algo bem rápido.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Qual IA o produtor usou? Três plataformas – duas voltadas para “uso geral” e uma para produção musical. “Eu usei o Claude [IA da Anthropic] para varrer a internet em busca de quais eram os maiores hits virais do YouTube. Essa pesquisa densa me levou ao [gênero] phonk”, contou Maia. 

Guilherme Maia, publicitário de 31 anos, produziu a “música da Copa” usando bastante IA – Imagem: Reprodução

O que veio a seguir: colocar a IA do Google para trabalhar. “Usei o Gemini porque essa plataforma é muito boa em ‘assistir’ um vídeo e identificar padrões e estruturas. Usei ela para entender as referências de vídeo que eu tinha separado. Com as minhas intervenções e prompts, cheguei na estrutura do call and response e da métrica de 52 segundos”, disse o publicitário. 

A IA do Google atuou em outra parte do processo. “Usei o Gemini também para montar a base e a estrutura dos prompts para eu colocar no Suno”. Para quem não sabe: Suno é uma plataforma de IA generativa focada na criação de músicas a partir de comandos de texto, combinando melodia, instrumentos e voz. “Tudo que eu peguei de escalação, de prompts, joguei tudo lá no Suno. É onde eu coloquei todas as minhas músicas também.”

O produtor frisou que o Suno não produziu a música que você ouve nos feeds das redes sociais. “Bem que eu queria que fosse só apertar um botão para fazer o hit da copa”, brincou Maia. “Errei mais de 15 vezes.”

No fim, ele pegou pedaços que deram certo nas tentativas que tinham dado errado e as juntou no FL Studio – software profissional de produção musical usado para gravar, editar, compor, misturar e masterizar músicas digitalmente. Essa foi a parte, digamos, manual e tradicional do processo. Foi quando o produtor colocou a mão na massa.

Em suma, o design pensado por Maia para a “Brasil com S” ter bastante chance de viralizar, conforme explicado por ele ao Olhar Digital, foi:

  • Estrutura: A música foi composta com 52 segundos, pensada para ser curta, altamente replicável e viciante (o que realmente levou a múltiplas reproduções por ouvinte);
  • Estilo: Adotou o phonk (ritmo popular em edits no TikTok) com percussão e leads marcantes;
  • Dinâmica: Inspirou-se na estrutura de call and response (chamada e resposta) da música francesa, adaptando-a para a torcida brasileira;
  • Ganchos: Inseriu propositalmente elementos como a frase “Respeita o manto, o rei voltou”, focada em Neymar, para criar um senso de urgência e patriotismo que conectou o público à música antes mesmo da convocação do jogador.

Assista abaixo ao clipe de uma versão estendida da música:

Plano de marketing e distribuição

Segundo Maia, sua estratégia focou em monitoramento de trends (IA entrou aqui também), vídeos baseados em comentários e tração orgânica. Vamos por partes, então.

Para começar, onde a IA entrou no monitoramento? “Usei muito o Claude para procurar vídeos hypados de outras seleções e [conseguir] fazer vídeos aproveitando comentários para divulgar a minha [música]”, contou o publicitário.

Tracei esse plano para a música pautado numa estratégia na qual eu pegava os comentários mais curtidos de outros vídeos e fazia um vídeo a partir desses comentários.

Guilherme Maia, produtor de “Brasil com S”, em entrevista ao Olhar Digital.

Em parte por sorte, em parte pela “leitura de jogo” feita por Maia, o sucesso de “Brasil com S” ocorreu de maneira orgânica na internet e, principalmente, nas redes sociais, contou o produtor.

“Internamente, a gente tinha uma estratégia de viralização que não dependia de influenciadores porque o público estava recebendo bem a música”, disse o publicitário. “Lógico que o ‘plus’ da música se daria se os influenciadores começassem a ir atrás. Isso foi muito natural. A gente não precisou ir atrás de ninguém.”

Maia acrescentou: “A música tem esse papel de conectar, de fazer as pessoas comentarem, expressarem as opiniões. E [o artista deve] ouvir da maneira que cada um recebe. Isso é individual. Para mim, como músico, ela estava cumprindo o seu papel.”

No fim, nomes bem famosos, espalhados por diversas áreas, abraçaram trends com a música de Maia envolvida. Entre as celebridades que postaram algo com “Brasil com S” tocando no fundo, estão Virgínia, Neymar e Camila Mendes (atriz americana com raízes brasileiras que está no filme Mestres do Universo – o live-action de He-Man).

@camimendes

não deu tempo pra terminar o vídeo 🤦🏻‍♀️ bora brasillll

♬ som original – omeumundodabola

Entrevista: os bastidores do hit da Copa ‘Brasil com S’

Além da estratégia de engajamento, a conversa completa com Guilherme Maia detalha desdobramentos comerciais do hit e o debate sobre o uso da IA na arte. O publicitário revela, por exemplo, como o volume de reproduções diárias atraiu o mercado europeu, além do desenvolvimento de fonogramas adaptados para outros 17 países. 

O produtor também rebate críticas sobre o uso da IA generativa no ambiente criativo, defendendo o caráter democrático e irreversível dessas plataformas. Além disso, Maia compartilha seus planos de retomar suas apresentações como DJ pelo Brasil.

Quer destrinchar o passo a passo técnico e bastidores desse laboratório digital? O Olhar Digital publicou a versão estendida da conversa com o produtor do hit da Copa.

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Entrevista: a mente (e as IAs) por trás do hit da Copa ‘Brasil com S’

“É o Brasil! Brasil, Brasil, Brasil”. Você deve ter ouvido esse verso, acompanhado de uma batida forte e marcada, incontáveis vezes ao rolar feeds de redes sociais como Instagram e TikTok. Principalmente em dia de jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.

Esse verso é da música “Brasil com S”, produzida por Guilherme Maia (vulgo “M4IA”) e lançada em 19 de março. Como o apelido do produtor musical de 31 anos já sugere, tanto o processo criativo quanto os de produção e divulgação envolveram o uso pesado de inteligência artificial (IA).

O Olhar Digital conversou com Maia, que também é publicitário, sobre como ele usou a tecnologia, quais foram suas referências e o que ele vê no horizonte da sua carreira na música.

‘Brasil com S’: Como a IA ajudou um publicitário a realizar seu sonho na música

Confira abaixo a entrevista completa com Guilherme Maia sobre a “Brasil com S” e outras empreitadas suas no mundo da música (perguntas e respostas foram editadas para facilitar a leitura):

O que te levou a compor a “Brasil com S” e a usar IA para isso?

Eu produzi essa música em 19 de março, quando estava marcado um jogo amistoso entre Brasil e França, após notar que uma canção francesa feita por IA tinha viralizado e intimidava os torcedores brasileiros. Como sou produtor musical há mais de 15 anos, decidi usar a IA para criar uma resposta rápida a poucos dias do jogo. Analisei a estrutura da faixa rival, adotei o formato de call and response (chamada e resposta da multidão) e selecionei o ritmo phonk, muito popular em edits do TikTok. Para aumentar o potencial de viralização, compus a música com 52 segundos de duração. Isso impulsionou a replicação. Dados da gravadora apontam uma média de sete reproduções por pessoa. É um comportamento típico de grandes hits no mercado.

O desenvolvimento técnico exigiu repertório porque a IA precisa de background. Não existe um botão ‘criar hit da Copa’. Eu alimentei um software online de produção musical com mais de cem músicas que eu havia produzido de forma tradicional. Isso forneceu à ferramenta o background da minha sonoridade. Mesmo assim, o sistema falhou em entregar o que eu queria mais de 15 vezes. Então, selecionei os melhores fragmentos entre os resultados gerados pela IA e montei o arranjo e a composição final no meu software de produção. Esse processo de produção da música e do vídeo de divulgação levou entre duas e três horas.

Para o lançamento, adotei uma estratégia de marketing digital baseada nos comentários mais curtidos de outras publicações. A música “estourou” cinco vezes. A primeira ocorreu por meio de vídeos de react. A segunda, com a inserção da música em postagens sobre pacotes de figurinhas nas redes sociais. A terceira, através de uma trend de dança. A quarta, com o retorno de Neymar à Seleção Brasileira. Inclusive, inclui intencionalmente o gancho “Respeita o manto, o rei voltou” três meses antes da Copa, quando ele sequer estava convocado. A quinta veio agora na Copa de 2026, com o compartilhamento orgânico de grandes influenciadores e jogadores, como Virgínia, Lucas Paquetá e o próprio Neymar com a sua família.

Quais plataformas de IA você usou no seu processo criativo e de produção? E qual sua resposta para críticas sobre usar IA em projetos artísticos e criativos?

Combinei diversas plataformas de IA disponíveis on-line. Usei o Claude, por exemplo, para mapear os maiores hits virais no YouTube, o que me direcionou ao estilo phonk. Usei o Gemini para analisar padrões estruturais em vídeos de referência, o que me levou a definir o formato de call and response e a métrica de 52 segundos. Também usei o Gemini para estruturar a base dos prompts que eu enviaria ao Suno, que é uma plataforma voltada para produção musical. Para evitar resultados genéricos no Suno, alimentei o sistema com mais de cem músicas autorais. Isso criou um perfil sonoro personalizado que gerou a identidade autêntica da “Brasil com S”. Por fim, extraí as stems (faixas separadas) e finalizei a produção da música no FL Studio. Já a produção e edição do vídeo viral, que alcançou 2,5 milhões de visualizações no TikTok, foi feita no Adobe Premiere e After Effects. Também sou editor de vídeos há mais de 15 anos.

Após o lançamento, passei a usar a IA, especialmente o Claude, para monitorar vídeos em alta de outras seleções e aplicar estratégias de marketing nos comentários. Esse fluxo ágil me permitiu emplacar três músicas numa única semana, incluindo a “Nunca Serão”, criada após a derrota do Brasil [por 2 a 1 para a França], que também contou com IA na produção visual. Até o videoclipe oficial desenvolvido pela gravadora incorporou a tecnologia. Usamos um modelo humano apenas para a coreografia e substituímos as pessoas digitalmente por meio de IA. Considerei que um clipe com pessoas reais seria incoerente com a proposta de uma música digital produzida com bastante uso de IA.

Inclusive, decidi assumir e defender publicamente o uso da IA para combater o tabu no mercado musical, no qual muitos profissionais já usam a ferramenta, mas omitem isso por receio de retaliação. A tecnologia é uma realidade irreversível em diversos setores e funciona como ferramenta democrática. Ela inaugura uma forma de compor e fazer arte. Embora haja quem diga que a IA desmerece o trabalho artístico, ela foi o que me abriu portas para oportunidades de trabalho e collabs com grandes nomes da cena. A ferramenta não diminui minha experiência profissional. Sem conhecimento técnico e repertório de quem a usa, não sai nada que presta.

Como foi para você ver sua música “estourar” dessa forma? O que você pensou, o que você sentiu?

Desde o lançamento nas plataformas digitais, a forte comoção pública gerou debates intensos sobre o ritmo e a escalação dos jogadores. Atingir a média de 50 mil a 100 mil reproduções diárias cumpriu meu objetivo inicial de viralização. Esse desempenho atraiu a Spinnin Records, grande gravadora holandesa, que entrou em contato pelo meu Instagram. O avanço nas negociações, respaldado por bons contatos, resultou na minha assinatura com a Spinnin e também com a Warner Music da Holanda. Esse marco realizou um sonho de adolescência, após anos de rejeições. E provou o valor de uma faixa 100% digital que, embora produzida com IA, dependeu inteiramente do meu background em marketing e produção musical para funcionar.

A estratégia de disseminação foi orgânica e baseada na resposta direta da comunidade. Nem precisou de investimento em grandes criadores de conteúdo. A música explodiu e se reinventou semanalmente em diversas trends nas redes sociais. Atualmente, mantemos três versões da “Brasil com S” online: a original, uma estendida e uma com os atletas atualizados. Mas o público parece gostar mais da primeira opção, mesmo com a escalação desatualizada. Esse engajamento espontâneo escalou até alcançar o topo da pirâmide de influência: o DJ Pedro Sampaio e a influenciadora Virgínia fizeram postagens com a música, Neymar postou um vídeo dançando com a filha Mavi ao som da minha música e até mesmo atores de Hollywood, do elenco do novo filme do He-Man, aderiram à trend brasileira com o meu som.

Eu produzi um fonograma adaptado para 17 países. Desse total, a faixa “estourou” em seis ou sete mercados estrangeiros, por exemplo: Portugal, Argentina, Colômbia e Turquia. Esses países adotaram a minha base musical em suas redes sociais. Consolidar esse projeto como “A Música da Copa de 2026 do Brasil” transformou o que antes era um hobby não remunerado numa guinada na minha carreira. Esse sucesso abriu portas para collabs com grandes artistas da cena. E viabilizou o meu retorno a apresentações como DJ pelo país, agora com o suporte de uma equipe de gestão de carreira.

Guilherme Maia é o produtor musical por trás do hit “Brasil com S” – Imagem: Reprodução/Redes sociais

O que você vislumbra no horizonte da sua carreira?

Além de voltar a me apresentar pelo Brasil, estou fechando parceria com muitas outras pessoas da música que gostaram dos meus sons. Eu já lancei 17 músicas pela Spinnin’ Records. E tem mais um monte que vai vir. Vou fazer collabs com gente muito grande do mercado a partir de agora. A IA me ajudou a retomar um sonho antigo, de adolescente, que era ter uma música relevante, que toca as pessoas, voltar a essa carreira de DJ, de produtor musical, que antes era somente um hobby. Então, a IA me ajudou a realizar o meu sonho, que era viver disso. 

De maneira muito tranquila, agora posso falar que eu vou seguir carreira, vou conseguir estar em mais lugares, levar meus novos trabalhos para mais pessoas. E é só o começo. É o começo de uma trajetória nova, na qual vou levantar junto essa bandeira da IA. Não como forma de penalizar quem não usa. Mas no sentido de: se em algum momento existir alguma dúvida, algum bloqueio, se eu conseguir ajudar e mostrar que dá para encurtar algum caminho, que dá para clarear alguma estrada com uso da IA, eu estarei ali para poder ajudar.

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Músicas geradas por IA avançam e desafiam plataformas

A inteligência artificial (IA) já está presente em diferentes etapas da indústria da música, da criação de samples e gravação de demos à organização de playlists e conteúdos digitais. Esse avanço vem acompanhado de desafios técnicos, disputas legais e debates sobre o impacto da tecnologia na produção artística e no trabalho de músicos profissionais.

Ao mesmo tempo, novos lançamentos, decisões de plataformas e casos recentes mostram como o uso de IA na música evolui rapidamente, com efeitos diretos sobre criação, distribuição e monetização.

Suno aposta em mais controle com atualização v5.5

A Suno lançou uma das suas atualizações mais relevantes com a versão 5.5 do seu modelo de geração musical por IA. Diferente de versões anteriores, que focavam na melhoria da qualidade sonora e em vocais mais naturais, a nova versão prioriza dar mais controle ao usuário.

Suno é destaque no setor de geração de músicas com IA (Imagem: Ralf Liebhold / Shutterstock.com)

A atualização traz três recursos principais: Voices, My Taste e Custom Models. Segundo a empresa, o Voices é o recurso mais solicitado e permite treinar o modelo com a própria voz do usuário. Para isso, é possível enviar acapellas, faixas completas ou gravar diretamente pelo microfone de um dispositivo.

A qualidade da gravação influencia diretamente a quantidade de dados necessários para o treinamento. Como medida de proteção, a plataforma exige que o usuário fale uma frase de verificação, embora exista a possibilidade de contornar esse sistema com modelos de voz já disponíveis.

Indústria adota postura discreta sobre uso de IA

O uso de inteligência artificial na música tem avançado sem grande transparência. Na prática, a indústria passou a adotar uma abordagem informal de “não pergunte, não conte”, com artistas de diferentes gêneros utilizando IA em etapas como experimentação de arranjos, criação de demos e produção de samples.

A compositora Michelle Lewis afirmou à Rolling Stone que há resistência em admitir o uso da tecnologia. Já o produtor Young Guru avalia que a prática é mais disseminada do que parece, especialmente no hip-hop. Segundo ele, tornou-se comum criar samples de funk e soul com IA em vez de licenciar músicas originais ou contratar músicos, estimando que “mais da metade” do hip-hop baseado em samples siga esse caminho.

Caso de fraude expõe riscos do modelo

O avanço da IA também abriu espaço para esquemas fraudulentos. Um exemplo recente envolve Michael Smith, da Carolina do Norte, que se declarou culpado por criar centenas de milhares de músicas geradas por IA e utilizar bots para reproduzi-las bilhões de vezes.

De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, o esquema rendeu mais de US$ 8 milhões em royalties. O caso evidencia como ferramentas de geração automática podem ser exploradas para manipular plataformas de streaming.

Plataformas ampliam medidas de transparência

Diante do crescimento do conteúdo gerado por IA, serviços de streaming começaram a implementar mecanismos de identificação. A Apple Music passou a adotar um sistema opcional de “Transparency Tags”, que permite classificar conteúdos conforme o uso de inteligência artificial.

O sistema inclui quatro categorias: faixa, composição, arte visual e videoclipe. A etiqueta de faixa deve ser aplicada quando uma parte relevante da gravação foi gerada por IA, enquanto a de composição cobre elementos como letras. Já a de arte visual vale para imagens no nível do álbum, e a de videoclipe para outros conteúdos visuais.

Outras plataformas seguem caminhos semelhantes. A Qobuz passou a detectar e rotular automaticamente músicas geradas por IA, acompanhando um movimento iniciado anteriormente pela Deezer. A empresa também divulgou uma carta de princípios afirmando que sua curadoria continuará sendo humana, sem banir completamente esse tipo de conteúdo.

Bandcamp adota posição mais rígida

Entre as principais plataformas, o Bandcamp tomou a decisão mais restritiva até agora. A empresa anunciou a proibição de conteúdos gerados total ou substancialmente por IA, incluindo materiais que imitam artistas ou estilos específicos.

Segundo as diretrizes, músicas que dependam fortemente de IA não são permitidas e podem ser removidas. A plataforma também incentiva usuários a denunciarem conteúdos suspeitos.

Dificuldade em identificar músicas geradas por IA

A identificação de músicas criadas por IA ainda é um desafio. Um estudo conduzido pela Deezer em parceria com a Ipsos indicou que 97% das pessoas não conseguem diferenciar faixas geradas por IA de músicas feitas por humanos.

Apesar do número elevado, o resultado tem nuances. No experimento, participantes ouviam três músicas e precisavam acertar todas para serem considerados capazes de distinguir corretamente. Mesmo quem acertava duas era classificado como incapaz de identificar a diferença, o que impacta a interpretação do dado.

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A grande maioria das pessoas não consegue diferenciar músicas geradas por IA das feitas por humanos (Imagem: New Africa / Shutterstock.com)

Leia mais:

Debate sobre criação musical segue em aberto

O avanço da IA também levanta discussões sobre o conceito de criação artística. Um dos pontos em debate é se o uso de prompts para gerar músicas pode ser considerado um processo criativo ativo.

A questão se soma a outras, como direitos autorais envolvendo artistas gerados por IA e o papel da tecnologia na indústria. Com novos modelos, acordos e regulações em andamento, o cenário segue em transformação.

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Lyria 3 Pro do Google gera músicas mais longas e completas com IA

O Google ampliou as capacidades de sua inteligência artificial (IA) de criação musical Lyria 3, que agora passa a gerar faixas com até três minutos de duração. A atualização chega com a versão Lyria 3 Pro, elevando em seis vezes o limite anterior, que era de apenas 30 segundos.

A mudança também amplia o controle do usuário sobre as composições. Além de definir estilo, humor ou instrumentação, agora é possível orientar melhor a estrutura das músicas geradas.

Controle aprimorado sobre arranjos musicais

O Lyria 3 Pro permite solicitar elementos específicos dentro da faixa, como introduções, refrões e pontes, oferecendo mais precisão na construção dos arranjos. A ferramenta segue a lógica de outros geradores de música por IA, como Suno e Udio, em que o usuário descreve o que deseja e o sistema produz a faixa correspondente.

O modelo também pode gerar letras a partir de prompts, incluindo referências vindas de texto, imagens ou vídeos, ampliando as possibilidades de criação dentro da plataforma.

Expansão para múltiplas plataformas Google

Uma das principais novidades está na integração com outros produtos do Google. Agora, é possível criar músicas diretamente dentro do Gemini, sem a necessidade de baixar aplicativos específicos.

O modelo também será incorporado ao Vertex AI para clientes corporativos, ao Google AI Studio e à API do Gemini para desenvolvedores, além de chegar ao Google Vids e à plataforma ProducerAI, adquirida recentemente pela empresa. A maior duração das faixas deve ser especialmente relevante para usuários do ProducerAI, que concorre diretamente com o Suno.

Integração com o Gemini é novidade comemorada pelo Google (Imagem: miss.cabul / Shutterstock.com)

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Preocupações sobre imitação e direitos autorais

A possibilidade de gerar músicas completas, em vez de trechos curtos, levanta questionamentos sobre imitação de artistas e violação de direitos autorais. Em comunicado, o Google afirmou que “Lyria 3 e Gemini não imitam artistas” e que, ao citar um criador em um prompt, o modelo utiliza isso apenas como inspiração ampla.

A empresa também informou que verifica as saídas do Lyria 3 Pro em relação a conteúdos existentes para evitar material que infrinja direitos. Além disso, as músicas geradas recebem uma marca d’água silenciosa SynthID, usada para identificar que foram criadas por inteligência artificial.

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Por que a IA é a arma secreta do Spotify para reter assinantes

As plataformas de streaming de música têm conduzido seus usuários para a era da inteligência artificial (IA) com um histórico de sucesso ainda discreto. No entanto, conforme informações reportadas pela CNBC, gigantes como Apple, Amazon e Spotify estão acelerando seus investimentos em ferramentas de recomendação. Para o Spotify, o foco está em transformar a descoberta musical em uma experiência conversacional e profundamente personalizada.

Recentemente, o Spotify lançou uma integração direta com o ChatGPT, da OpenAI. A novidade permite que os assinantes conectem suas contas ao chatbot para solicitar músicas, artistas ou podcasts baseados em humores, gêneros ou temas específicos. Diferente do clássico “curtir/não curtir”, o formato de chat permite uma especificidade muito maior, criando trilhas sonoras que se moldam ao contexto de uma conversa ou momento de vida.

Especialistas apontam que esses investimentos são cruciais para que a empresa continue competitiva. Como os catálogos de quase todos os aplicativos são virtualmente idênticos, o que diferencia uma plataforma de outra não é mais o que ela oferece, mas como ela ajuda o usuário a encontrar o que ouvir.

A ofensiva das gigantes: Apple e Amazon

A concorrência não está parada. A Apple tem implementado camadas de IA no Apple Music de forma gradual. O recurso “Playlist Playground”, ainda em fase beta, é o que mais se aproxima da estratégia do Spotify, focando na interação via chat para ajustar recomendações. Além disso, a empresa introduziu o AutoMix, que utiliza aprendizado de máquina para analisar batidas e tempos, criando transições perfeitas entre as faixas, e ferramentas de tradução e pronúncia de letras em tempo real.

Já a Amazon Music lançou, em meados de 2024, o Maestro. A ferramenta permite a criação de playlists por meio de comandos de texto ou até mesmo emojis. Embora ainda esteja em fase de testes, o recurso demonstra que o setor caminha para um modelo onde o usuário “escreve” sua própria experiência sonora.

Interface do Maestro, ferramenta da Amazon Music que usa IA para criar playlists via prompts. (Imagem: Amazon/Reprodução)

iDJ: O fenômeno de engajamento do Spotify

Um dos pilares dessa estratégia de retenção é o iDJ. Introduzido em 2023, o recurso interativo já alcançou a marca de 90 milhões de assinantes, com usuários acumulando mais de 4 bilhões de horas de uso na plataforma. O sucesso da ferramenta é visto pela liderança da empresa como uma prova de que a personalização gera “fidelidade”.

Em entrevista para CNBC, o co-CEO do Spotify, afirmou:

Se o iDJ funciona como uma interface casual para conversar com a plataforma, o novo recurso de “Playlists por Comandos” (Prompted Playlists) é o modo de “pesquisa profunda”. “Ele permite que você descreva e defina regras para suas próprias listas, literalmente escrevendo seu próprio algoritmo”, afirmou o executivo em teleconferência com investidores.

Alex Norström, co-CEO do Spotify.

Jovem de costas com fones mexendo no app Spotify em um celular.
IA pode tornar spotify cada vez mais atrativo para usuários (Imagem: wichayada suwanachun/Shutterstock)

O custo de mudar de plataforma

Analistas do mercado, como Michael Pachter, da Wedbush Securities, comparam a estratégia do Spotify à do Google. Ao integrar-se a mais de 2.000 tipos de dispositivos e treinar algoritmos com o histórico de anos dos usuários, o Spotify cria uma barreira de saída.

Embora serviços como o Apple Music ofereçam ferramentas para exportar bibliotecas, o “custo” de abandonar um algoritmo que já conhece seus gostos e hábitos é alto. “O Spotify está tentando estabelecer o mesmo nível de necessidade que o Google Search”, diz Pachter à CNBC. Para Wall Street, embora o preço das ações tenha oscilado recentemente, a capacidade da empresa de usar a IA para fortalecer sua plataforma, em vez de ser engolida por ela, parece ser o caminho para a sobrevivência no saturado mercado de streaming.

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