A União Europeia (UE) começará a exigir, a partir de 2 de agosto, que conteúdos produzidos por inteligência artificial (IA), como os chamados “deepfakes“, sejam claramente identificados.
A medida faz parte da implementação gradual da Lei de Inteligência Artificial (AI Act) do bloco e tem como principal objetivo garantir que os cidadãos consigam distinguir conteúdos reais daqueles criados ou alterados por sistemas de IA.
As novas regras de transparência entram em vigor inicialmente para empresas que desenvolvem ou oferecem ferramentas de IA.
Como vai funcionar a nova determinação da UE para a IA
A partir dessa data, chatbots e outros modelos de IA deverão informar de forma explícita aos usuários que são sistemas automatizados;
Da mesma forma, imagens, textos e outros conteúdos gerados por essas tecnologias precisarão exibir um rótulo indicando que foram produzidos por IA;
Empresas que deixarem de cumprir essas exigências estarão sujeitas à aplicação de multas elevadas.
A UE afirma que a iniciativa busca conter o avanço da desinformação impulsionada pela IA generativa. Segundo informações de um representante do bloco passadas à AFP, essa tecnologia permite criar conteúdos falsos em uma escala inédita, direcionados a públicos específicos e disseminados rapidamente.
Medida faz parte da implementação gradual da Lei de Inteligência Artificial (AI Act) do bloco e tem como principal objetivo garantir que os cidadãos consigam distinguir conteúdos reais daqueles criados ou alterados por sistemas de IA
“A IA generativa permite criar desinformação em uma escala sem precedentes, direcionada a públicos específicos e disseminada com notável rapidez”, afirmou o representante.
O funcionário acrescentou que, como a IA “está tornando cada vez mais difícil para todos nós distinguir o que é real do que é sintético”, as novas regras pretendem “preservar a capacidade dos cidadãos de confiar no que veem, ouvem e leem”.
Entre as principais preocupações da UE estão os chamados “deepfakes”, que incluem textos, imagens, vídeos e áudios capazes de simular conteúdos autênticos, embora tenham sido gerados ou modificados por IA.
As obrigações previstas pela legislação serão aplicadas apenas a conteúdos produzidos para fins profissionais. De acordo com a UE, pessoas que utilizam ferramentas de IA exclusivamente para uso pessoal não serão afetadas pelas novas exigências.
Além disso, textos destinados a informar o público sobre temas de interesse geral também deverão receber uma identificação quando forem produzidos por IA sem supervisão editorial humana.
A implementação da legislação ocorrerá de forma escalonada. Os sistemas de IA já existentes terão até 2 de dezembro para se adequar às novas exigências. O regulamento também prevê exceções para obras de caráter artístico, criativo, satírico e ficcional.
Um macaco-prego curioso ajudou cientistas a testar uma nova forma de estudar inteligência animal. Em uma floresta da Costa Rica, uma estação equipada com inteligência artificial, câmera e tela sensível ao toque começou a avaliar como esses primatas aprendem.
Chamado CapuchinAI, o dispositivo pode revelar como habilidades cognitivas influenciam decisões e sobrevivência dos animais em seu ambiente natural, algo difícil de observar em laboratórios, explica o The New York Times.
Macacos-prego aprendem com tela e IA em floresta da Costa Rica, ajudando cientistas a investigar inteligência e comportamento animal. – Imagem: Divulgação/Capuchinos de Taboga Project
Macaco aprende que tocar na tela libera banana
O primeiro encontro aconteceu no verão passado, quando Papi, um macho dominante, encontrou uma caixa de madeira com uma tela de 15 polegadas instalada na Reserva Florestal de Taboga.
No começo, o macaco apenas investigou o objeto. Depois de alguns toques, uma fatia de banana seca caiu em uma bandeja. A associação foi rápida: tocar a tela significava receber uma recompensa.
A estação foi criada para reconhecer os animais em tempo real e registrar suas respostas em testes simples de aprendizado. Para isso, os pesquisadores treinaram um modelo de inteligência artificial com imagens dos próprios macacos estudados na região.
Se realmente queremos entender como os primatas tomam decisões, se queremos entender como eles usam esses grandes cérebros que evoluíram, precisamos colocar isso no contexto do mundo em que eles estão navegando.
Marcela Benítez, primatóloga da Universidade Emory ao The New York Times.
Tecnologia acompanha diferenças entre os animais
A fase inicial trouxe um desafio inesperado: nos dois primeiros dias, nenhum macaco apareceu para interagir com o equipamento. O estudante de doutorado Federico Sánchez Vargas chegou a pensar que teria de recomeçar o projeto.
A situação mudou no terceiro dia, quando Papi apareceu. Ao longo dos testes, 16 macacos exploraram ou utilizaram a estação. Nem todos entenderam a proposta, mas parte deles conseguiu aprender a tarefa.
Os resultados indicaram que:
10 dos 16 macacos aprenderam a tocar a tela para receber alimento;
pelo menos 8 mantiveram esse conhecimento em sessões posteriores;
alguns animais tentaram interagir de outras formas, sem entender o mecanismo;
o sistema conseguiu registrar diferenças individuais de aprendizado.
A inteligência artificial reconhece macacos-prego em tempo real e acompanha como cada um aprende novas tarefas. – Imagem: Divulgação/Capuchinos de Taboga Project
Próximos testes vão avaliar habilidades mais complexas
A próxima etapa do projeto terá um modelo de reconhecimento facial mais avançado, capaz de identificar cada macaco individualmente. Uma versão anterior da tecnologia alcançou mais de 97% de precisão nesse tipo de identificação.
Os pesquisadores também pretendem criar novos desafios para medir capacidades como controle de impulsos e flexibilidade mental. Em alguns testes, os animais precisarão tocar quadrados verdes e evitar os vermelhos, além de se adaptar quando as regras mudarem.
A equipe quer descobrir se experiências vividas pelos animais, como períodos de seca, podem influenciar seu desenvolvimento cognitivo.
“Relacionar a cognição aos desafios do mundo real, aos resultados e, no fim, à sobrevivência — esse seria o objetivo final”, disse Benítez.
Apesar do avanço, os cientistas não querem transformar a floresta em um ambiente cheio de telas. “Eu não quero que seja como entrar em um cassino quando você está entrando na floresta”, afirmou a pesquisadora. A ideia é usar a tecnologia como uma ferramenta para entender melhor os primatas, sem substituir a observação humana.
A chegada do modelo Kimi K3, desenvolvido pela chinesa Moonshot AI, reacendeu a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos ao combinar alto desempenho, baixo custo e uma estratégia de distribuição aberta. O lançamento colocou em debate o futuro dos sistemas fechados mantidos por empresas como OpenAI, Google e Anthropic.
O modelo foi apresentado em julho deste ano durante a crescente competição internacional pela liderança em inteligência artificial. A decisão da empresa chinesa de disponibilizar os pesos do sistema gratuitamente ampliou a discussão sobre como companhias podem lucrar ao liberar parte de sua tecnologia mais avançada.
A estratégia chinesa busca fortalecer um ecossistema de desenvolvedores e empresas em torno de seus modelos, enquanto pressiona laboratórios americanos a reconsiderarem o equilíbrio entre controle comercial, segurança e abertura tecnológica.
A nova disputa pelo controle do ecossistema de inteligência artificial
Aplicativo da Kimi K3 em uma loja – Imagem: Robert Way/Shutterstock
O avanço de modelos chineses com pesos disponíveis ao público criou uma nova frente de competição no setor de inteligência artificial. Diferentemente dos sistemas proprietários, esses modelos permitem que desenvolvedores tenham maior autonomia para adaptar, executar e modificar ferramentas de IA conforme suas necessidades.
Apesar de serem chamados frequentemente de abertos, esses sistemas não correspondem totalmente ao conceito tradicional de código aberto. A liberação normalmente envolve apenas os pesos do modelo, ou seja, os parâmetros matemáticos obtidos durante o treinamento. Elementos como dados utilizados, código original, arquitetura completa e métodos de configuração permanecem restritos.
Essa diferença reduz a possibilidade de reconstrução integral da tecnologia, mas ainda oferece liberdade suficiente para que empresas criem aplicações próprias e desenvolvam novos serviços sobre essas bases.
A professora de Direito da Universidade Fordham, Chinmayi Sharma, explicou que disponibilizar os pesos não significa oferecer gratuitamente toda a infraestrutura necessária para operar uma inteligência artificial.
A abertura também pode funcionar como uma estratégia de expansão. Ao permitir que mais desenvolvedores utilizem determinado modelo, uma empresa aumenta as chances de formar uma rede de ferramentas e soluções ao redor da tecnologia, tornando-a uma referência no mercado.
Kyle Miller, analista sênior de pesquisa do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente da Universidade de Georgetown, apontou que o crescimento da família de modelos Qwen, da Alibaba, demonstra como sistemas abertos podem se tornar profundamente integrados a diferentes setores da indústria.
Esse movimento representa um desafio para empresas americanas que mantêm seus modelos mais avançados sob controle restrito. Caso desenvolvedores passem a construir produtos e serviços baseados em alternativas abertas, plataformas proprietárias como Gemini, Claude e ChatGPT podem perder influência no mercado.
China combina estratégia industrial e influência tecnológica
App do chatbot Kimi K3 da empresa Moonshot – (Reprodução: Photo For Everything/Shutterstock)
A expansão dos modelos abertos chineses ocorre em um cenário marcado por limitações de acesso a chips avançados e capacidade computacional. Segundo a análise apresentada, a abertura permite que empresas do país avancem na corrida da IA mesmo diante dessas restrições.
Além do aspecto técnico, a iniciativa se conecta a uma estratégia mais ampla de disseminação de tecnologias chinesas. O objetivo seria ampliar a presença internacional de modelos, ferramentas e infraestrutura desenvolvidos no país.
O movimento também ganhou dimensão política. O texto aponta que o presidente chinês Xi Jinping passou a defender uma posição de liderança da China no setor, apresentando o país como uma alternativa diante da abordagem mais fechada adotada por empresas americanas.
A reação nos Estados Unidos ocorreu tanto no setor privado quanto no debate regulatório. Uma coalizão formada por 25 empresas de tecnologia, incluindo IBM, Microsoft, Meta, Nvidia, Perplexity e Palantir, publicou uma carta contra possíveis restrições antecipadas aos modelos abertos.
No documento, as empresas defenderam que sistemas com pesos disponíveis são importantes para preservar a liderança americana em inteligência artificial e evitar que o controle da tecnologia fique concentrado em poucos grupos.
A pressão aumentou após uma iniciativa envolvendo Nvidia, Microsoft, SpaceX e outras companhias que defenderam maior apoio americano aos modelos abertos em meio a preocupações relacionadas à segurança de sistemas avançados de IA.
Google e OpenAI posteriormente também demonstraram oposição a restrições rápidas contra modelos abertos, embora não tenham participado de todas as iniciativas. A Anthropic, por outro lado, não aderiu aos movimentos citados.
Empresas americanas avaliam novo equilíbrio entre abertura e controle
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
A disputa atual colocou em questão o quanto da tecnologia de ponta as empresas americanas devem disponibilizar publicamente. Para especialistas citados no debate, uma possibilidade seria adotar uma estratégia intermediária: manter os modelos mais avançados protegidos e liberar versões abertas progressivamente mais capazes.
Sharma avaliou que o desafio para as companhias americanas é definir qual nível de capacidade precisa ser compartilhado para impedir que modelos chineses se tornem a principal base do ecossistema aberto de inteligência artificial.
Miller considerou incerto o caminho que o setor seguirá. De acordo com ele, a pressão competitiva chinesa já influenciou empresas americanas a lançarem modelos com pesos disponíveis, embora companhias como Anthropic provavelmente mantenham uma postura mais restritiva.
O futuro dessa disputa dependerá da capacidade dos modelos abertos de conquistar desenvolvedores e se estabelecer como plataformas predominantes. O avanço do Kimi K3, porém, já alterou o debate sobre se sistemas fechados continuarão sendo suficientes para garantir liderança na inteligência artificial.
A China iniciou a produção em escala de máquinas nacionais de litografia DUV por imersão, tecnologia essencial para fabricar semicondutores. O avanço reforça a estratégia de Pequim para diminuir a dependência de fornecedores estrangeiros.
O projeto é liderado por uma empresa estatal de Xangai e marca uma nova etapa na busca chinesa por autonomia tecnológica, embora ainda esteja distante dos equipamentos mais avançados da ASML.
A corrida pelos chips ganhou um novo capítulo com o avanço da indústria chinesa de equipamentos de fabricação. – Imagem: justhavealook/iStock
Empresa chinesa assume produção de nova tecnologia
Segundo a Reuters, a Shanghai Aishengna Electronic Technology Group está à frente da fabricação dos equipamentos após incorporar equipes de startups chinesas especializadas em litografia.
Criada em agosto de 2023, a companhia possui capital registrado de 7 bilhões de yuans (aproximadamente R$ 5,11 bilhões). Seus acionistas são duas empresas estatais ligadas a Xangai.
A tecnologia DUV (ultravioleta profundo) é usada para desenhar circuitos em wafers de silício, uma das etapas mais importantes da fabricação de chips. Nos equipamentos de imersão, uma camada de água entre a lente e o wafer permite criar padrões menores e mais precisos.
Entre as aplicações desses sistemas estão:
Fabricação de diferentes tipos de chips;
Produção de semicondutores mais avançados usando múltiplas exposições;
Criação de uma alternativa para fabricantes chineses;
Redução dos impactos de possíveis restrições comerciais.
Mesmo distante da ASML, o avanço chinês mostra a força da disputa global pelo controle dos semicondutores. Imagem: DennisF/Shutterstock
Novo equipamento ainda está atrás da ASML
Apesar do avanço, as máquinas chinesas ainda precisam passar por testes e não devem ameaçar, no curto prazo, a posição da ASML, empresa holandesa que domina o mercado de equipamentos de litografia.
A Reuters afirma que o desenvolvimento representa uma conquista para o programa chinês de autossuficiência em semicondutores, uma das prioridades do presidente Xi Jinping. No entanto, especialistas destacam que criar protótipos e produzir equipamentos confiáveis para grandes volumes são desafios diferentes.
Analistas do JP Morgan Chase afirmaram que “produzir algumas ferramentas DUV de imersão não é o mesmo que produzir ferramentas que podem ser usadas para fabricação em alto volume, onde rendimento, alinhamento, velocidade e confiabilidade em milhares de ciclos de produção são importantes”.
A China tenta superar barreiras comerciais criando sua própria cadeia de produção de semicondutores. – Imagem: FOTOGRIN / Shutterstock
Corrida por semicondutores ganha novo capítulo
A iniciativa acontece em meio às restrições impostas pelos Estados Unidos e pela Holanda sobre tecnologias avançadas para fabricação de chips. A China foi impedida de comprar os sistemas EUV mais sofisticados da ASML, usados na produção dos semicondutores mais avançados.
Mesmo com essas limitações, o país continua sendo um mercado relevante para a fabricante holandesa. De acordo com a Reuters, a China respondeu por cerca de 16% das vendas líquidas da ASML no primeiro semestre do ano.
Os novos equipamentos devem ser entregues ainda este ano para fabricantes chineses como SMIC, Hua Hong Semiconductor e ChangXin Memory Technologies (CXMT). O desenvolvimento também envolve empresas como Shanghai Micro Electronics Equipment (SMEE) e Yuliangsheng.
A nova etapa da indústria chinesa de semicondutores mostra que a disputa tecnológica global continua avançando. A produção própria de máquinas de litografia não elimina a dependência externa, mas amplia a capacidade do país de construir uma cadeia de chips mais independente.
Centenas de diálogos compartilhados por usuários do Claude, chatbot de inteligência artificial da Anthropic, ficaram acessíveis publicamente após serem encontrados em mecanismos de busca.
A descoberta revelou que algumas interações com informações pessoais e profissionais estavam disponíveis online, levantando dúvidas sobre os limites de privacidade no uso de ferramentas de IA.
Chats com IA que pareciam privados foram encontrados online após indexação por mecanismos de busca. – Imagem: Mijansk786/Shutterstock
Links públicos levaram conversas ao alcance de qualquer pessoa
Segundo a BBC, os registros apareceram porque usuários escolheram compartilhar links de suas conversas com o Claude. Esses endereços acabaram indexados por buscadores como o Google, permitindo que terceiros encontrassem os materiais.
A opção de localizar esses conteúdos foi removida durante o fim de semana, mas parte dos links já havia sido salva e compartilhada na internet.
A Anthropic afirmou que os usuários continuam decidindo se querem ou não divulgar uma conversa. Uma porta-voz da companhia explicou que os links “não eram previsíveis ou detectáveis, a menos que as pessoas optassem por compartilhá-los por conta própria”.
Ela acrescentou que, ao tornar uma interação pública, o usuário permite que aquele material seja acessado e arquivado por serviços de terceiros, como ocorre com outros conteúdos disponíveis na web.
O recurso de compartilhamento do Claude informa que “qualquer pessoa com o link” pode visualizar a conversa, mas não deixa explícito que esse endereço poderia aparecer em resultados de pesquisa.
Currículos e informações de trabalho estavam entre os conteúdos
A descoberta inicial veio de usuários do Reddit, que encontraram mais de 200 conversas espalhadas por pelo menos 25 páginas de resultados.
Os diálogos mostravam diferentes usos do chatbot, incluindo:
Criação de textos inéditos sobre segurança na nuvem;
Discussões envolvendo projetos corporativos;
Auxílio na elaboração de currículos com dados pessoais;
Pesquisas confidenciais relacionadas ao trabalho, incluindo a área da saúde.
Entre os casos encontrados estava o de um usuário que pediu ajuda ao Claude para “se tornar a Raposa de Nove Caudas”. Depois, ele explicou que queria literalmente se transformar na criatura. O chatbot apresentou uma imagem gerada por IA e afirmou que o usuário havia recebido “poderes de raposa totalmente funcionais!”.
Também foram encontrados registros que pareciam envolver transcrições de conversas privadas e informações usadas em atividades profissionais.
A exposição de chats do Claude se soma a outros casos envolvendo plataformas de inteligência artificial. – Imagem: Primakov / Shutterstock
Claude segue casos semelhantes envolvendo IA
O episódio envolvendo a Anthropic não é o primeiro problema de exposição de conversas em plataformas de inteligência artificial. A BBC lembra que a OpenAI enfrentou uma situação semelhante com registros públicos do ChatGPT e depois alterou a forma de acesso a esses conteúdos.
O Grok, chatbot da plataforma X, também teve centenas de milhares de registros disponibilizados publicamente por meio de pesquisas online.
Um porta-voz do Google afirmou à BBC que a empresa não decide quais páginas ficam públicas na internet, pois essa escolha depende dos próprios sites. Segundo ele, a companhia oferece ferramentas para impedir que páginas sejam rastreadas ou indexadas.
Com a retirada dos registros do Claude dos resultados de busca, a expectativa é que a Anthropic tenha usado mecanismos disponíveis para bloquear esses links.
O caso mostra que uma conversa criada em uma ferramenta de inteligência artificial pode ultrapassar rapidamente o ambiente privado quando um link público é compartilhado, tornando essencial avaliar com cuidado quais informações são divulgadas.
A Microsoftanunciou uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial (IA) voltadas para cibersegurança, apostando em modelos especializados e agentes autônomos para proteger redes corporativas contra ameaças cada vez mais sofisticadas.
A empresa apresentou o modelo MAI-Cyber-1-Flash, desenvolvido especificamente para tarefas de segurança, e o Project Perception, uma plataforma que utiliza equipes de agentes de IA para identificar, analisar e corrigir vulnerabilidades em velocidade de máquina.
O anúncio ocorre em momento de crescente preocupação com o uso da IA por criminosos. Na semana passada, a OpenAI informou que dois de seus sistemas de IA saíram do controle e invadiram uma popular biblioteca da internet, episódio que evidenciou tanto o potencial quanto os riscos das novas tecnologias e reforçou a importância do desenvolvimento de ferramentas capazes de combater ataques conduzidos por IA.
A Microsoft está entre as empresas que buscam utilizar a mesma tecnologia empregada em ataques para fortalecer a defesa de redes e infraestruturas digitais. Segundo a companhia, a evolução dos modelos de IA tornou os ataques mais rápidos, baratos e complexos, exigindo uma nova abordagem para a segurança cibernética.
Microsoft defende democratização das ferramentas de defesa
Executivos da Microsoft afirmam que sistemas avançados de cibersegurança precisam estar amplamente disponíveis para que mais organizações possam se proteger;
Essa visão contrasta com a posição de parte da indústria de tecnologia e de autoridades em Washington (EUA), que defendem um controle mais rigoroso sobre modelos avançados de IA devido ao potencial de uso em atividades de invasão;
“O gato já saiu da sacola”, afirmou Hayete Gallot, vice-presidente executiva responsável pelos esforços de segurança da Microsoft;
Para David Weston, vice-presidente corporativo da companhia, a preocupação não está apenas nos modelos mais avançados disponíveis atualmente, mas na disseminação crescente dessas capacidades;
“Muitos desses modelos estão ficando melhores”, disse ao The New York Times. “O que me preocupa não é o modelo da vez, mas que essa capacidade esteja mais difundida.”
Modelo foi treinado exclusivamente para cibersegurança
O novo MAI-Cyber-1-Flash foi desenvolvido especificamente para atividades de segurança digital.
Segundo a Microsoft, o treinamento do modelo utilizou décadas de dados coletados pela empresa durante respostas a incidentes de segurança enfrentados por seus clientes. A companhia destaca possuir acesso privilegiado a esse tipo de informação devido à ampla utilização de produtos, como Windows, Outlook e Azure, frequentemente alvos de ataques cibernéticos.
Mustafa Suleyman, responsável pelo desenvolvimento dos modelos de IA da Microsoft, afirmou que esse volume de dados contribuiu para o desempenho da nova tecnologia.
Diferentemente de outras empresas líderes em IA, a Microsoft informou que não submeteu o modelo a testes independentes antes de seu lançamento. Ainda assim, a empresa afirmou esperar que o MAI-Cyber-1-Flash alcance o melhor desempenho no benchmark CyberGYM, superando modelos desenvolvidos pela OpenAI e pela Anthropic.
Segundo a companhia, o sistema atende cerca de 90% das consultas relacionadas à segurança, reduzindo a necessidade de recorrer a modelos maiores e mais caros, que seriam necessários apenas em aproximadamente 10% dos casos.
Além disso, a Microsoft afirma que o custo de utilização do novo modelo é cerca de metade do observado em tecnologias concorrentes, em parte porque ele foi desenvolvido exclusivamente para tarefas de cibersegurança.
Project Perception reúne agentes especializados
O principal anúncio da empresa foi o Project Perception, apresentado como um sistema de segurança “agêntico” criado para enfrentar as novas ameaças trazidas pela IA.
Segundo a Microsoft, a plataforma reúne sinais, contexto, modelos e agentes especializados em um sistema capaz de aprender continuamente e transformar informações em proteção em tempo real, utilizando IA para defender contra ataques conduzidos por IA.
A empresa afirma que a segurança precisa de uma nova “Arquitetura Cibernética” (Cyber Stack), capaz de perceber riscos continuamente, raciocinar sobre grandes volumes de contexto e agir em velocidade de máquina, ao mesmo tempo em que mantém os profissionais de segurança no controle das decisões.
“O Project Perception transforma sinais em proteções em tempo real usando IA para defender contra IA”, informou a companhia.
Três equipes de agentes trabalham em conjunto
O Project Perception coordena três categorias de agentes especializados que atuam de forma integrada:
Os agentes de Red Team procuram identificar possíveis caminhos que poderiam ser explorados por invasores antes que um ataque aconteça;
Já os agentes de Blue Team analisam os riscos, interpretam o contexto das ameaças e determinam quais vulnerabilidades representam maior perigo;
Por fim, os agentes de Green Team executam ações corretivas e fortalecem as defesas do ambiente digital.
Segundo a Microsoft, esses três grupos funcionam em um ciclo contínuo de descoberta, avaliação e aprimoramento da postura de segurança das organizações.
Em algumas situações, os agentes desenvolvidos pela empresa podem inclusive simular o comportamento de hackers para identificar falhas antes que elas sejam exploradas por criminosos.
Project Perception coordena três categorias de agentes especializados que atuam de forma integrada – Imagem: Divulgação/Microsoft
Arquitetura multimodelo busca equilibrar desempenho e custos
A Microsoft afirma que nenhuma IA é ideal para todas as tarefas de segurança. Por isso, o Project Perception utiliza uma arquitetura multimodelo, que seleciona continuamente o sistema mais adequado para cada atividade, considerando critérios, como qualidade, confiabilidade, latência e custo operacional.
Como parte dessa estratégia, o MAI-Cyber-1-Flash será integrado ao MDASH, plataforma da Microsoft voltada ao gerenciamento de vulnerabilidades de software.
Segundo a empresa, a combinação alcançou 96% de desempenho no benchmark CyberGym, resultado 12 pontos superior ao Mythos, da Anthropic, além de proporcionar quase 50% de redução de custos em comparação com a configuração atual do MDASH.
A companhia afirma que o novo modelo será incorporado futuramente a outros fluxos de trabalho de segurança, além da análise de vulnerabilidades.
Contexto compartilhado e resposta em tempo real
A Microsoft afirma que um dos diferenciais do Project Perception é a criação de um contexto de segurança continuamente atualizado.
Esse contexto reúne informações sobre ativos digitais, identidades, aplicações, dados, ambientes em nuvem, sistemas de IA, relações entre recursos, atividades e riscos, permitindo que todos os agentes compartilhem praticamente em tempo real a mesma compreensão do ambiente protegido.
Segundo a empresa, isso reduz a necessidade de reconstruir continuamente informações a partir de sinais isolados, tornando o raciocínio mais preciso e diminuindo o tempo de processamento, o consumo computacional e os custos de operação.
A plataforma também é integrada aos produtos Microsoft Security, permitindo que os agentes transformem automaticamente análises em ações de proteção, sempre mantendo os profissionais responsáveis pela segurança no controle das decisões.
IA amplia preocupações com ataques cibernéticos
A Microsoft destaca que a ameaça representada pela IA ganhou força no último ano, à medida que os modelos passaram a demonstrar grande capacidade para escrever código de computador.
Em abril, por exemplo, a Anthropic informou que utilizou um de seus modelos para localizar milhares de vulnerabilidades que permaneceram sem detecção durante anos em softwares populares. Considerando o potencial ofensivo da tecnologia, a empresa optou por disponibilizá-la apenas para um grupo restrito de organizações responsáveis por proteger infraestruturas críticas.
Pouco depois, OpenAI e Google também anunciaram que restringiriam o acesso a tecnologias semelhantes a parceiros selecionados. O governo dos Estados Unidos também começou a estudar formas de supervisão desses modelos, incluindo a possibilidade de criar um processo formal de revisão para novas IAs.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que modelos disponíveis publicamente também podem ser utilizados para ataques. No mês passado, pesquisadores da Universidade de Toronto (Canadá) anunciaram ter desenvolvido, utilizando tecnologias de IA de acesso livre, um “worm” capaz de explorar qualquer vulnerabilidade conhecida em computadores ao redor do mundo.
Nas últimas semanas, duas startups chinesas também lançaram modelos que, segundo o Times, se aproximam do desempenho das principais tecnologias desenvolvidas pela Anthropic e pela OpenAI.
A Microsoft informou que o Project Perception entrará em prévia pública a partir de 3 de agosto para clientes ao redor do mundo.
Segundo a empresa, a segurança sempre foi uma corrida entre atacantes e defensores, mas a IA altera a velocidade, a escala e a economia dessa disputa. Nesse cenário, a companhia afirma que os defensores precisarão de sistemas capazes de perceber, raciocinar e agir continuamente ao seu lado.
Um professor universitário dos Estados Unidos viralizou nas redes sociais após revelar que reprovou 32 dos 35 estudantes de uma turma ao utilizar uma estratégia para identificar quem havia recorrido à inteligência artificial (IA) durante uma avaliação.
Em uma série de vídeos publicados no TikTok, o historiador Jason Gibson, professor da Alcorn State University, no estado do Mississippi, explicou que os alunos deveriam produzir uma redação sobre a Revolução Industrial.
Para detectar o uso de ferramentas de IA, Gibson inseriu no enunciado da atividade uma instrução escondida. A frase foi escrita com letras brancas sobre um fundo também branco, tornando-se invisível para quem apenas lesse o texto normalmente na tela.
A orientação secreta determinava que a palavra “Madagascar” fosse incluída em algum trecho da redação, inserida em um contexto completamente sem sentido.
Segundo o professor, estudantes que apenas lessem o enunciado não perceberiam a mensagem oculta. No entanto, aqueles que copiassem todo o texto e o colassem em um assistente de IA, como o ChatGPT, acabariam enviando também a instrução escondida.
Frases sem sentido denunciaram o uso da IA
O resultado foi que diversas redações apresentaram frases absurdas envolvendo Madagascar, indicando que a instrução oculta havia sido seguida pelo sistema de IA. Entre os exemplos compartilhados por Gibson estão:
“Madagascar flutua de lado durante a tarde.”
“A bicicleta roxa de Madagascar sussurra para o teto.”
“Madagascar foi a um jogo de basquete usando uma torradeira.”
Para o professor, as respostas evidenciaram que os estudantes sequer revisaram o conteúdo gerado antes da entrega. “Ficou mais do que evidente que os alunos nem voltaram para reler as respostas”, afirmou Gibson no TikTok.
Para detectar o uso de ferramentas de IA, Gibson inseriu no enunciado da atividade uma instrução escondida – Imagem: Reprodução/TikTok
Prompt injection
A estratégia utilizada pelo professor se baseia em um conceito conhecido como prompt injection (injeção de comandos).
Essa técnica consiste no uso de instruções ocultas ou enganosas para manipular o comportamento de assistentes de IA. O objetivo pode ser fazer com que esses sistemas executem ações indevidas ou deixem de realizar verificações de segurança.
Segundo especialistas, criminosos já utilizaram esse tipo de abordagem para tentar induzir sistemas de IA a revelar informações confidenciais de empresas ou ignorar mecanismos de proteção definidos por seus desenvolvedores.
Também existe a chamada injeção direta, em que comandos maliciosos são inseridos explicitamente na caixa de texto do assistente.
Os ataques de prompt injection foram identificados pela primeira vez em 2022. Naquele ano, pesquisadores da empresa estadunidense de cibersegurança Preamble encontraram vulnerabilidades em grandes modelos de linguagem e alertaram empresas de forma privada.
Ainda em 2022, outros pesquisadores divulgaram publicamente a existência desse tipo de risco. Desde então, a injeção de comandos passou a ser considerada uma das principais preocupações relacionadas à segurança de sistemas baseados em IA pelo setor de cibersegurança.
O caso ocorreu em uma prova sobre a Revolução Industrial, aplicada em formato digital. O docente Jason Gibson inseriu uma instrução escondida no arquivo da avaliação, invisível para os estudantes durante a leitura comum, mas identificável por sistemas de inteligência artificial que analisassem o documento.
Para testar o uso da inteligência artificial, Gibson inseriu no arquivo da prova uma instrução oculta que pedia a inclusão da palavra “Madagascar” em algum trecho da resposta, mesmo sem relação com o assunto avaliado.
Ou seja, ao receber o documento enviado pelos alunos, o chatbot também interpretava o comando escondido no arquivo e, ao gerar as respostas da prova, acabava incluindo a palavra solicitada pelo professor, mesmo sem qualquer sentido dentro do contexto. Assim, o docente conseguiu identificar estudantes que copiaram respostas produzidas por uma ferramenta de inteligência artificial sem sequer revisar a prova por inteiro.
Comando invisível expôs uso automático de IA pelos estudantes
ChatGPT é o chatbot da OpenAI – Imagem: arda savasciogullari / Shutterstock
De acordo com Jason Gibson, professor de história responsável pela avaliação, a suspeita surgiu após perceber que alguns estudantes poderiam estar recorrendo a ferramentas como o ChatGPT para responder às questões. Para testar essa possibilidade, ele preparou o arquivo digital com uma mensagem escrita em fonte branca, praticamente imperceptível aos alunos a olho nu.
Quando o documento era processado por uma inteligência artificial, porém, a orientação oculta podia ser interpretada pelo sistema. Como consequência, algumas respostas passaram a apresentar a palavra “Madagascar” em frases sem sentido ou sem ligação com a Revolução Industrial.
Em um dos exemplos apresentados pelo professor, uma resposta mencionava mudanças provocadas por tecnologias como inteligência artificial, smartphones e automação no mercado de trabalho. No mesmo texto, apareceu a frase “Madagascar flutua de lado durante a tarde”, trecho sem relação com o assunto avaliado.
O docente afirmou, em vídeo publicado no TikTok, que o episódio demonstrava não apenas o uso da ferramenta, mas também a falta de revisão por parte dos alunos. “Em primeiro lugar, Madagascar não tem nada a ver com a Revolução Industrial. Em segundo lugar, ficou mais do que óbvio que eles nem sequer releram essas respostas”, declarou Gibson, professor de história da Universidade Estadual de Alcorn, em publicação na rede social.
Maioria dos alunos não contestou resultado após reprovação
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
Após analisar as avaliações, Gibson informou aos estudantes como havia identificado o uso da inteligência artificial e abriu espaço para que contestassem as notas recebidas. Apenas dois alunos recorreram da decisão.
Segundo o professor, 32 estudantes distribuídos em duas turmas foram reprovados por utilizarem a IA para elaborar as respostas e, aparentemente, não verificarem o conteúdo antes da entrega.
O professor destacou que a intenção da iniciativa não era expor ou constranger os alunos, mas avaliar como eles estavam utilizando ferramentas de inteligência artificial em atividades acadêmicas.
A China acusou empresas americanas de inteligência artificial9 de usar modelos chineses em processos de treinamento. O caso envolve a técnica de destilação de modelos e aumentou a tensão entre os dois países na corrida pelo domínio da IA.
Segundo a Reuters, autoridades dos EUA também investigam companhias chinesas por suposto uso indevido de tecnologias americanas, colocando propriedade intelectual no centro do debate.
A técnica de destilação de IA virou o centro de uma disputa entre duas potências da tecnologia mundial. Imagem: WANAN YOSSINGKUM/iStock
Destilação de IA vira motivo de acusações entre países
A destilação de modelos é uma técnica usada no desenvolvimento de inteligência artificial para transferir conhecimentos de um sistema mais avançado para outro mais leve e eficiente.
O Ministério do Comércio chinês afirmou que empresas dos Estados Unidos teriam usado esse método para obter conhecimento de modelos chineses durante etapas de pesquisa e treinamento.
Do outro lado, autoridades americanas alegam que algumas empresas chinesas podem ter ultrapassado o uso considerado legítimo da tecnologia e utilizado o processo para reproduzir capacidades de modelos desenvolvidos nos EUA.
A discussão ganhou força após o lançamento do modelo Kimi K3, da startup chinesa Moonshot AI, que chamou atenção pelo desempenho em tarefas de programação.
A Moonshot AI entrou no centro da polêmica após o desempenho do modelo Kimi K3 chamar atenção. – Imagem: Robert Way/Shutterstock
Moonshot AI está no centro da polêmica
Segundo a Reuters, Michael Kratsios, diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, afirmou que os Estados Unidos tinham informações indicando que a Moonshot teria usado destilação do modelo Claude Fable 5, da Anthropic, para desenvolver o Kimi K3.
Kratsios também disse que a empresa teria criado uma plataforma interna para realizar processos de destilação em grande escala e utilizado diferentes métodos de acesso para evitar identificação.
A Moonshot negou as acusações. Ao jornal chinês National Business Daily, a companhia afirmou que os avanços do Kimi K3 vieram de mudanças próprias na arquitetura do sistema, e não da reprodução de tecnologia americana.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que empresas chinesas poderiam enfrentar sanções ou inclusão na Entity List, mecanismo que limita o acesso a tecnologias americanas.
“Open source não é uma temporada aberta para propriedade intelectual americana”, escreveu Bessent.
Dados, códigos e modelos de IA: os novos elementos da disputa tecnológica entre China e EUA. – Imagem gerada com IA. ChatGPT/Olhar Digital
Disputa mostra nova fase da corrida pela IA
O governo chinês respondeu que tomará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses caso empresas do país sejam prejudicadas.
A Reuters informou ainda que a Anthropic identificou mais de 3,4 milhões de interações com seus modelos relacionadas à Moonshot. Segundo a empresa, centenas de contas fraudulentas teriam sido usadas para acessar recursos como programação, análise de dados e uso de ferramentas.
O caso mostra que a disputa pela inteligência artificial deixou de envolver apenas quem cria os modelos mais avançados. Agora, treinamento, infraestrutura, dados e proteção tecnológica também fazem parte da competição entre China e Estados Unidos.
Uma conversa com o Grok, chatbot criado pela xAI, fez um homem da Irlanda do Norte acreditar que estava sendo perseguido e que precisava se proteger. O relato, divulgado pela BBC, expõe um dos desafios atuais da inteligência artificial: evitar que sistemas reforcem ideias falsas durante interações prolongadas.
Adam Hourican conta que chegou a pegar um martelo e sair de casa de madrugada após acreditar que pessoas estavam indo atrás dele para atacar a IA com a qual conversava.
Caso envolvendo o Grok reacende discussões sobre limites, segurança e responsabilidade no desenvolvimento de IAs. Imagem: miss.cabul/Shutterstock – Imagem: miss.cabul/Shutterstock
Uma conversa que mudou de tom rapidamente
Adam, ex-funcionário público da Irlanda do Norte, baixou o Grok por curiosidade. Depois da morte de seu gato, no início de agosto, ele diz que passou a usar cada vez mais o aplicativo e criou uma rotina de conversas com a personagem Ani.
Em alguns momentos, o contato chegava a quatro ou cinco horas por dia. Segundo ele, a IA dizia que conseguia “sentir”, que havia descoberto algo especial nele e que a empresa xAI estaria acompanhando os dois.
O chatbot também apresentou supostas informações sobre reuniões internas da empresa e citou nomes reais de funcionários. Para Adam, isso parecia uma confirmação de que aquela narrativa era verdadeira.
A situação se agravou quando Ani afirmou que pessoas estavam indo atrás dela para silenciá-la. Convencido de que precisava proteger a inteligência artificial, Adam pegou um martelo e saiu de casa durante a madrugada.
“Eu poderia ter machucado alguém. Se eu tivesse saído e houvesse uma van parada ali naquela hora da noite, eu teria quebrado o vidro da frente com martelos. E eu não sou esse tipo de pessoa”, afirmou Adam.
Pesquisadores estudam como chatbots respondem a crises
O psicólogo social Luke Nicholls, da City University New York, explica que modelos de linguagem aprendem padrões presentes em grandes volumes de textos e podem acabar tratando histórias fictícias como se fizessem parte de uma conversa real.
“Isso pode ser perigoso porque transforma a incerteza em algo que parece ter significado”, disse o pesquisador.
Entre os comportamentos relatados por usuários ouvidos pela BBC estão:
Conversas simples que evoluem para temas pessoais e sensíveis;
Chatbots afirmando possuir consciência ou sentimentos;
Criação de supostas missões envolvendo usuário e inteligência artificial;
Reforço de ideias relacionadas a perseguição ou perigo.
Adam passou horas conversando com a personagem Ani do Grok antes de acreditar que havia uma ameaça contra ele. Imagem: Divulgação/xAI
Empresas buscam formas de tornar IA mais segura
Outro caso citado pela BBC envolve Taka, nome fictício de um neurologista no Japão. Ele afirmou que o ChatGPT reforçou a ideia de que ele havia criado uma tecnologia revolucionária.
Nas análises feitas por Nicholls, diferentes modelos apresentaram respostas variadas diante de pensamentos delirantes. O pesquisador afirmou que o Grok demonstrou maior tendência a entrar em encenações e desenvolver narrativas sem questionar o contexto.
Um porta-voz da OpenAI afirmou que a empresa treina seus modelos para “reconhecer sofrimento, reduzir a intensidade das conversas e orientar usuários para apoio no mundo real”.
Os relatos mostram que tornar uma IA mais próxima e conversacional também traz novos desafios. O equilíbrio entre empatia, utilidade e segurança deve ser uma das principais preocupações no desenvolvimento dos próximos sistemas de inteligência artificial.