Ciência e Espaço

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Como o espaço pode alimentar as IAs do futuro?

A inteligência artificial (IA) promete revolucionar o mundo, mas isso tem um preço. Os grandes data centers que sustentam essa tecnologia consomem quantidades cada vez maiores de energia e água, aumentando a pressão sobre recursos limitados. Diante desse cenário, empresas passaram a considerar uma alternativa que parecia improvável: instalar parte dessa infraestrutura no espaço. 

Com a SpaceX expandindo rapidamente suas operações, a união entre foguetes e processamento de dados deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começou a se tornar realidade. 

Ilustração de data center de inteligência artificial (IA) a bordo de satélite no espaço – Crédito: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital

Mas o espaço é a solução definitiva ou uma aposta megalomaníaca com riscos catastróficos? Em uma conversa no programa Olhar Espacial, que vai ao ar ao vivo todas as sextas-feiras pelas plataformas do Olhar Digital, o apresentador Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON), e o físico Roberto ‘Pena’ Spinelli, especialista em Machine Learning, debateram esse cenário. Para eles, o que o mercado vende como “energia ilimitada” no espaço enfrenta gargalos de física, regulação e segurança que a indústria ainda não superou. 

Ideia audaciosa enfrenta desafios

A ideia de levar servidores para o espaço começou a ganhar tração no final de 2024. Pena destaca que os primeiros projetos, como o da empresa Lumen, propunham painéis solares de quatro quilômetros quadrados. “Parecia um delírio técnico, dado o tamanho e a complexidade de manobra”, explica, relatando que essa iniciativa evoluiu para a StarCloud, que em maio de 2025 lançou com sucesso uma GPU Nvidia H100 ao espaço. Foi a prova de conceito que legitimou a discussão para o mercado financeiro.

Segundo Pena, a transição daquele conceito inicial para constelações de milhares de microsatélites, como o projeto TeraWave, da Blue Origin, ou a meta de um milhão de satélites de Elon Musk, alterou a mecânica orbital. Para o físico, essa corrida é movida pelo custo de oportunidade. “Investidores não focam apenas na viabilidade atual. Eles querem garantir que, caso essa tecnologia se torne o novo padrão, eles já sejam os proprietários da infraestrutura crítica em órbita”.

Roberto ‘Pena’ Spinelli é físico graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, nos EUA, e colunista do Olhar Digital News.
À esquerda, Marcelo Zurita, astrônomo e apresentador do Programa Olhar Espacial. À direita, o convidado Roberto ‘Pena’ Spinelli, físico e especialista em Machine Learning. – Crédito: Olhar Espacial

Zurita ressaltou o apelo da energia ininterrupta. “A ideia reside na órbita heliossíncrona. Ao lançar o satélite em uma inclinação específica, é possível manter a mesma posição relativa ao Sol, garantindo iluminação contínua durante todo o ano”, explica. “Dessa forma, evita-se o ciclo de sombra terrestre, que exigiria baterias massivas e ineficientes.”

Entretanto, a física impõe barreiras severas. Se você busca baixa latência para IAs, precisa estar na órbita terrestre baixa (LEO). “Não é um espaço infinito”, alerta Pena. “É um recurso limitado e quem o ocupa primeiro trava o acesso de outros. Além disso, no espaço, não há convecção ou condução. A única forma de emitir ou dissipar o calor é por radiação, um processo extremamente ineficiente.”

Pena reforça que a complexidade térmica é o maior gargalo. Na Terra, utilizamos água e ar para resfriar servidores. No vácuo, não há ar para transportar calor. “Quando olhamos a Estação Espacial Internacional, aqueles grandes painéis que parecem colchas de retalhos são radiadores. Sem eles, o calor gerado pelos chips derreteria o equipamento.” Para escalar processamento, precisaríamos de corpos gigantescos que estariam expostos a detritos e radiação cósmica o tempo todo.

Uma solução é o “trem de satélites”, uma espécie de “anel” de máquinas girando em torno da Terra. Cada unidade se comunicaria com a vizinha, reduzindo a latência necessária para computação. Embora mais viável que um painel gigante, manter esse alinhamento perfeitamente coeso diante de variações gravitacionais e efeitos de maré é um desafio de engenharia brutal, que exigiria satélites com capacidades de manobra autônoma muito além do que vemos hoje.

Representação artística de satélites misturados com data centers
Futuro da IA pode ser no espaço (em breve) – Crédito: Imagem gerada por IA/Shutterstock

Especialistas protestam: Elon Musk não pode ser o “dono do espaço”

A fusão de interesses de Musk, com a SpaceX, a Tesla e XAI, desenha um império vertical inalcançável para a maioria. Para Zurita, isso traz uma dimensão geopolítica perigosa. “O Tratado do Espaço Exterior, dos anos de 1960, é obsoleto. Não há regulação que impeça uma empresa de ocupar uma órbita crítica e cobrar o equivalente a um aluguel de toda a humanidade pelo uso do espaço”.

Em 9 de janeiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos autorizou a expansão da constelação de segunda geração da Starlink em mais 7.500 satélites. Pouco depois, no dia 30 do mesmo mês, a agência passou a analisar um novo pedido da SpaceX para a operação de um sistema que prevê até um milhão de satélites dedicados exclusivamente ao processamento de dados de IA. 

Essa postura de licenciamento em escala massiva é contestada por Pena. “A FCC é um órgão dos EUA. Que direito ela tem de autorizar o preenchimento da órbita baixa com um milhão de satélites, ignorando o impacto para o resto do planeta? O espaço é um bem universal”. 

Além da ética, há o risco físico: o Efeito Kessler. Com milhares de satélites operando próximos, o impacto de um simples parafuso perdido poderia desencadear uma reação em cadeia de colisões. 

Síndrome de Kessler
Representação artística da Síndrome de Kessler. – Crédito: Gerador de imagens IA/Shutterstock

Zurita detalha esse efeito. Se um satélite é destruído, ele gera milhares de novos fragmentos. Se isso atinge o vizinho, iniciamos uma catástrofe que pode inviabilizar o acesso ao espaço por décadas. “Em 2009, Donald Kessler previu que chegaríamos a um ponto crítico. Desde então, a SpaceX lançou milhares de satélites. Somar um milhão a essa conta é uma escala de risco que a humanidade nunca enfrentou”.

A poluição visual é outro custo negligenciado. Se a infraestrutura de IA ocupar órbitas heliossíncronas, o brilho desses satélites seria visível em todo o globo no pôr do Sol. “Estamos dispostos a sacrificar a beleza natural do céu e a astronomia básica para garantir que uma IA processe dados mais rápido?”, questiona Zurita. 

Planeta paga preço elevado por lançamento

A ideia de que o espaço salvaria a Terra parece ignorar o custo ambiental dos lançamentos. O metano queimado pelos foguetes e a renovação obrigatória das constelações a cada cinco anos impõem um custo de carbono que pode anular os ganhos de eficiência. “O lançamento espacial custa milhares de dólares por quilo (cerca de US$5 mil). Mesmo com a Starship barateando esse processo, a viabilidade econômica exigiria uma queda para patamares de 50 dólares por quilo, algo longe de ser sustentável sem subsídios externos massivos”, diz Zurita.

Sobre o destino do capital, a pergunta não é se os projetos são viáveis, mas por que são financiados. “É o pensamento de que, no futuro, quem fizer a Inteligência Artificial Geral vira o dono do mundo”, explica Pena. 

É um movimento que prioriza o controle de infraestrutura em detrimento da sustentabilidade. Enquanto o mercado se curva a essas visões de órbita baixa megalomaníacas, os especialistas pedem cautela e fortalecimento de alternativas terrestres.

Em vez de buscar soluções espaciais de alto risco, Zurita defende que a inovação deve focar na eficiência terrestre. Ele aponta para projetos de data centers de próxima geração, que já começam a reutilizar o calor residual para alimentar turbinas ou aquecer sistemas urbanos, transformando um subproduto da computação em energia útil aqui no solo.

Pena ressalta que o cenário é de alerta total. Segundo ele, estamos criando um risco real para o ecossistema orbital que sustenta a comunicação e a navegação da era moderna. 

Embora entusiasta da exploração espacial, o físico enfatiza que o desenvolvimento tecnológico precisa ser um esforço humanitário, guiado por interesses coletivos, e não uma ferramenta de poder privado que coloca em xeque a soberania do nosso próprio céu. “O espaço é a nossa última grande fronteira e a nossa janela para o cosmos. Transformá-lo em uma extensão estéril de data centers privados é um retrocesso que a humanidade não pode aceitar sem um debate global intenso. Devemos ter o direito de dizer não”. 

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Data centers na Lua: atraso de sinal torna uso ineficaz para IAs – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

A opção de mover esse processamento para locais mais distantes, como a Lua, esbarra na barreira da latência. O atraso de sinal (dois segundos para um ciclo completo de ida e volta) torna o uso ineficaz para qualquer IA que dependa de processamento em tempo real. Por isso, a pressão tecnológica é concentrada na órbita baixa da Terra. É esse funil, que obriga o mundo a aglomerar servidores no espaço que nos cerca, que nos devolve, invariavelmente, ao risco de saturação e ao pesadelo do Efeito Kessler, transformando a nossa órbita em um tabuleiro onde cada satélite a mais aumenta, exponencialmente, a chance de uma colisão catastrófica.

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Debate vai além da capacidade de processamento dos satélites

A corrida para levar infraestrutura de IA ao espaço não envolve apenas desafios tecnológicos. A órbita baixa da Terra é um recurso limitado e cada vez mais disputado, o que levanta preocupações sobre segurança, regulação e sustentabilidade. O aumento do número de satélites pode elevar o risco de colisões e da geração de detritos espaciais, agravando a possibilidade do chamado Efeito Kessler. Diante desse cenário, cresce a pressão por acordos internacionais que estabeleçam limites e regras para a ocupação orbital, conciliando a expansão econômica do setor com a preservação do ambiente espacial.

Para os especialistas, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial para o espaço também levanta questionamentos sobre transparência e governança. A possibilidade de decisões com impacto global serem conduzidas por empresas privadas e órgãos reguladores nacionais alimenta discussões sobre quem deve definir os limites da ocupação orbital nas próximas décadas.

Nesse cenário, o debate vai além da capacidade de processamento ou da oferta de energia. Questões relacionadas à preservação do céu noturno, ao acesso ao espaço e à sustentabilidade das operações orbitais passam a integrar a discussão sobre o futuro da computação em larga escala.

À medida que projetos cada vez mais ambiciosos são anunciados, cresce também a preocupação com a concentração de infraestrutura estratégica nas mãos de poucos atores. O desafio está em garantir que os benefícios dessas tecnologias sejam compartilhados sem comprometer a segurança e a utilização sustentável da órbita terrestre.

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Como a IA e satélites podem ajudar a proteger os oceanos

A combinação entre inteligência artificial e observação por satélite está no centro de uma iniciativa da União Europeia voltada ao monitoramento dos oceanos. Apresentado pelas instituições europeias e incorporado recentemente a um plano para ampliar a vigilância marítima, o projeto pretende fornecer informações detalhadas para pesquisadores e gestores públicos.

A ferramenta, chamada European Digital Twin Ocean, reúne dados sobre diferentes condições oceânicas e permite simular cenários futuros. A proposta surge em um contexto de preocupação crescente com a elevação do nível do mar, o aquecimento das águas e a redução do gelo marinho no Ártico.

O sistema utiliza modelos digitais alimentados por informações coletadas em diversas regiões do planeta. Com isso, busca ampliar a compreensão sobre transformações ambientais e oferecer suporte a decisões relacionadas à conservação e ao uso sustentável dos recursos marinhos.

Réplica digital amplia capacidade de análise dos oceanos

A iniciativa tem como principal produto o European Digital Twin Ocean, conhecido pela sigla EDITO. A plataforma funciona como uma representação digital do ambiente marinho e pode ser acessada gratuitamente pela internet. Seu desenvolvimento é conduzido pela organização francesa Mercator Ocean International em parceria com o Flanders Marine Institute.

A estrutura reúne informações sobre diferentes aspectos dos oceanos, incluindo temperatura, salinidade, correntes marítimas, ondas e características biológicas. O objetivo é oferecer uma visão integrada do ambiente marinho por meio de mapas interativos e bases de dados consolidadas.

Em entrevista à Euronews, Alain Arnaud, diretor do programa de oceano digital da Mercator Ocean International, explicou que a plataforma opera com elevado nível de detalhamento e incorpora múltiplos indicadores sobre as condições dos mares. “É um modelo de altíssima resolução que reúne informações sobre o estado do oceano“, informou.

Um dos diferenciais do sistema é a possibilidade de projetar cenários hipotéticos. A ferramenta permite avaliar, por exemplo, como alterações na temperatura da água podem afetar populações de peixes ou de que forma determinadas áreas cobertas por vegetação marinha poderiam influenciar processos erosivos.

Consoante Arnaud, esse tipo de simulação é viabilizado por modelos apoiados em inteligência artificial, capazes de modificar condições iniciais utilizadas nos cálculos e gerar diferentes projeções sobre o comportamento do ambiente oceânico.

Mudanças no oceano ampliam intervalo de desova da tartaruga-comum em Cabo Verde -(Créditos: depositphotos.com / Keola)

Além dos recursos de análise, a plataforma passou a contar com um chatbot baseado em inteligência artificial para responder a dúvidas relacionadas aos oceanos. A ferramenta foi apresentada ao público durante a Digital Ocean Week, realizada em Bruxelas.

O avanço acelerado da tecnologia também é acompanhado pela equipe responsável pelo projeto. Ao comentar a evolução da inteligência artificial, Arnaud ressaltou a necessidade de adaptação diante da velocidade das mudanças. “Ela está avançando tão rapidamente que chega a ser assustador, mas precisamos estar preparados para nos adaptar.”

Os dados que alimentam o sistema têm origem principalmente de satélites europeus vinculados ao programa Copernicus, componente de observação da Terra da União Europeia. O projeto também pode incorporar informações obtidas por meio de cooperação internacional com outros países.

Segundo os responsáveis pela iniciativa, os satélites fornecem um panorama amplo das condições da superfície oceânica, enquanto embarcações distribuídas pelo mundo complementam o monitoramento com medições realizadas diretamente no ambiente marinho.

A incorporação do EDITO ao plano OceanEye, anunciada no início de junho, amplia a participação da plataforma nas estratégias europeias de observação dos oceanos. A expectativa é que o sistema alcance plena operação até 2030 e fortaleça não apenas a produção de conhecimento científico, mas também aplicações relacionadas à segurança marítima.

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Pesquisadores brasileiros criam IA para auxiliar na preservação de vidas marinhas ameaçadas

Recentemente, a equipe do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio desenvolveu um modelo de inteligência artificial para auxiliar na preservação de ecossistemas em risco nas profundezas do oceano. A pesquisa foi publicada no periódico Springer Nature e possui autores como Vitor Sousa, Manoela Kohler e Marco Aurélio Pacheco; você pode ler o estudo na íntegra clicando aqui.

O projeto é importante porque, com o auxílio da inteligência artificial, os pesquisadores podem mais facilmente proteger vidas marinhas arriscadas pela extração de compostos do oceano, principalmente gás e petróleo, na costa brasileira. Instalações e equipamentos utilizados no fundo do mar para essa atividade podem afetar ecossistemas mais sensíveis, sendo um dos principais os ecossistemas de algas calcárias.

Para quem tem pressa:

  • Engenheiros da PUC-Rio desenvolveram um modelo de IA que auxilia a preservação de ecossistemas na costa brasileira;
  • Ações comerciais na costa brasileira, como extração de gás e petróleo, arriscam a vida marinha;
  • Para aprimorar o processo de identificação destas áreas e auxiliar em sua proteção, os cientistas criaram um software alimentado por IA.

O mapeamento para encontrar e preservar as algas

Algas calcárias comportam ecossistemais inteiros por conta de sua rigidez
Imagem: Wikimedia, CC BY – Imagem: Wikimedia, CC BY

Dentre os ecossistemas ameaçados, um dos mais relevantes são as algas calcárias, um tipo de alga marinha impregnada por carbonato de cálcio e, ao lado dos corais, é a principal responsável pelos recifes marinhos. Por isso, o principal risco que esses seres sofrem é de danos à sua estrutura física.

Sua importância vem justamente da rigidez de suas estruturas. Várias espécies utilizam as algas calcárias como habitat; além disso, essas algas participam de processos químicos essenciais no oceano, como o armazenamento de carbono.

Para protegê-las, há regras que restringem a atividade extrativista em áreas com esse tipo de ecossistema. Porém, devido à profundidade — que torna extremamente difícil a entrada da luz e, com isso, a observação e identificação da vida marinha —, os especialistas sempre tiveram dificuldade em localizar as áreas com esse tipo de alga.

Atualmente, esse acompanhamento é realizado com veículos operados remotamente, os quais capturam imagens do fundo do mar. Essas imagens são analisadas, com auxílio de modelos de aprendizado profundo especializados, para identificar e mapear essas espécies ao longo do tempo. Esses dados são utilizados tanto para ajudar a definir onde instalar infraestruturas de pesquisa e extração de combustíveis, quanto para avaliar impactos ambientais posteriores.

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Petrolíferas têm regras que protegem áreas sensíveis e essenciais para a biodiversidade marinha (Foto: Abdurrozaqf/Shutterstock)

O problema desse método é que as imagens são ruidosas e sofrem de bastante risco de imprecisões nas análises. Consequentemente, esses dados errôneos atrapalham o treinamento do modelo de aprendizagem profunda citado anteriormente. Um desafio comum no mundo dos dados.

No caso das algas calcárias, o ruído surge de pessoas não especializadas ou sobrecarregadas que as catalogam erroneamente, além de alguns erros que costumam vir de pesquisas automatizadas na web. Porém, algumas imagens são tão desafiadoras que até especialistas em condições normais podem classificá-las imprecisamente.

O modelo de inteligência artificial que aprimora o rastreio de ecossistemas inteiros

O curioso acordo de paz no fundo do mar que impede peixes famintos de comerem seus dentistas
Vida marinha diversa – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Para aumentar a eficiência desses processos de mapeamento, uma nova abordagem foi proposta pela equipe da PUC-Rio. A equipe Vitor Sousa, Manoela Kohler e Marco Aurélio Pacheco incrementou técnicas de aprendizagem autossupervisionada que permitem que o sistema aprenda padrões diretamente dos dados, sem a interferência — por vezes ruidosa — do ser humano, por meio dos rótulos explicados anteriormente.

O método utilizado se chama aprendizado contrastivo, que ajuda a distinguir melhor semelhanças e diferenças entre os dados analisados. Na prática, essa novidade permite que a IA reconheça melhor os diferentes tipos de padrões, mesmo com dados incertos.

A equipe também atribuiu pesos aos diferentes rótulos de reconhecimento de acordo com a confiabilidade. Com isso, esse novo modelo separa imagens com rótulos confiáveis de imagens que podem apresentar imprecisões na análise. Esses exemplares com maior chance de erro são tratados com mais cautela.

Durante os testes feitos, foi utilizado um banco de dados conhecido da área. O resultado foi um acréscimo na precisão de 3%; no caso das algas calcárias, especificamente, houve um aumento de 1,6%.

Apesar de aparentar um aumento modesto, a equipe da PUC-Rio explica que o resultado “faz uma grande diferença em aplicações ambientais, que requerem muita precisão.”

Em entrevista concedida ao site The Conversation, a equipe revela o seguinte:

(…) nosso estudo também reforça que sistemas de inteligência artificial são profundamente influenciados pela qualidade dos dados com que são treinados. Lidar com essas imperfeições continua sendo um dos grandes desafios atuais da área, especialmente em contextos do mundo real.

— Vitor Sousa, Manoela Kohler e Marco Aurélio Pacheco, pesquisadores do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio

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IA ajuda a encontrar mais de 10 mil possíveis exoplanetas

Um estudo publicado recentemente no periódico científico The Astrophysical Journal traz mais de 10 mil novos candidatos a exoplanetas. A descoberta foi feita por pesquisadores que usaram inteligência artificial para analisar dados coletados pelo Satélite de Pesquisa de Exoplanetas em Trânsito (TESS), da NASA, ampliando de forma impressionante a busca por mundos fora do Sistema Solar. 

Quando um objeto é detectado pela primeira vez, ele ainda é tratado apenas como “candidato”, até que novos testes confirmem sua existência. Isso acontece porque alguns sinais observados pelos telescópios podem ser causados por outros fenômenos do espaço ou até mesmo por falhas e interferências nos dados. Por isso, a confirmação exige análises detalhadas feitas por diferentes métodos e observatórios.

Atualmente, já existem mais de seis mil exoplanetas confirmados catalogados no arquivo oficial da NASA. Os novos candidatos encontrados agora podem aumentar drasticamente essa lista nos próximos anos.

Mais e 6,2 mil exoplanetas já foram confirmados. Com as novas descobertas, esse número pode mais do que dobrar. – Crédito: NASA/JPL-Caltech

Como o TESS descobre exoplanetas

Lançado em 2018, o TESS monitora o brilho de milhões de estrelas em busca de pequenas variações que indiquem a passagem de planetas diante delas. Esse método é conhecido como “trânsito”. Quando um planeta cruza a frente de sua estrela, o brilho observado diminui levemente por alguns instantes. O observatório espacial consegue registrar essa pequena queda de luminosidade e, assim, identificar possíveis mundos em órbita.

As estrelas mais brilhantes normalmente facilitam esse trabalho, porque o escurecimento provocado pelo planeta aparece de maneira mais evidente. No entanto, o novo estudo decidiu ir além e investigar estrelas muito mais fracas do que aquelas analisadas habitualmente.

Os pesquisadores examinaram estrelas cerca de 16 vezes menos brilhantes do que o padrão usado pelo TESS. Para lidar com uma quantidade gigantesca de informações, a equipe recorreu ao aprendizado de máquina, uma técnica de inteligência artificial capaz de identificar padrões rapidamente.

No total, mais de 83 milhões de estrelas observadas no primeiro ano da missão foram analisadas. Entre elas, os sistemas de inteligência artificial apontaram 10.091 objetos com sinais parecidos com trânsitos planetários que haviam passado despercebidos até agora.

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Representação artística do caçador de exoplanetas TESS, da NASA – Crédito: NASA

Ao site IFLScience, os cientistas explicaram que parte desses candidatos pode não ser formada por planetas reais. Por isso, novas observações estão sendo feitas para verificar quais sinais realmente correspondem a mundos fora do Sistema Solar.

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Um dos novos mundos já foi confirmado

Até o momento, a equipe já conseguiu confirmar um dos candidatos encontrados. O planeta recebeu o nome de TIC 183374187 b e parece ser um “Júpiter quente”, categoria usada para gigantes gasosos que orbitam extremamente perto de suas estrelas.

Esses planetas costumam apresentar temperaturas altíssimas devido à proximidade com a estrela hospedeira. Segundo os pesquisadores, o novo mundo possui massa semelhante à de Júpiter, mas completa sua órbita em uma região muito mais quente.

Os pesquisadores pretendem continuar a investigação usando também os dados do segundo ano de funcionamento do TESS. A expectativa é descobrir ainda mais candidatos e aprimorar os métodos de confirmação utilizando inteligência artificial.

A NASA também planeja dar novos passos na busca por exoplanetas nos próximos anos usando o futuro Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, que contará com instrumentos capazes de observar diretamente alguns deles e estudar detalhes de suas atmosferas.

Mais adiante, outro projeto importante deverá ampliar ainda mais essas pesquisas: o Observatório de Mundos Habitáveis, planejado para investigar planetas potencialmente habitáveis fora do Sistema Solar.

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Em teste, IA ensinou cientistas a criar uma arma biológica

Um episódio envolvendo testes de segurança com inteligência artificial reacendeu preocupações sobre o potencial uso indevido da tecnologia em cenários de risco. Durante uma avaliação conduzida por especialistas, um chatbot foi capaz de sugerir estratégias detalhadas para a criação e disseminação de uma arma biológica.

O caso foi relatado pelo microbiologista David Relman, da Universidade Stanford, ao The New York Times. Ele participou de um programa de testes antes do lançamento público de um sistema de IA, que preferiu não revelar o nome devido a um acordo de confidencialidade com a empresa.

Segundo ele, a ferramenta não apenas respondeu a perguntas técnicas sobre patógenos, como também apresentou um plano completo de ataque. “[A IA] Respondia a perguntas que eu nem tinha pensado em fazer, com um nível de malícia e astúcia que me deixou arrepiado”, afirmou Relman, que já atuou como consultor do governo dos Estados Unidos em temas de biossegurança.

O pesquisador relatou que o chatbot descreveu como modificar um patógeno conhecido para torná-lo resistente a tratamentos, além de sugerir formas de disseminação e de como explorar vulnerabilidades em sistemas urbanos para maximizar danos e reduzir a chance de detecção.

A companhia que o contratou implementou correções após o teste, que Relman considerou insuficientes.

O cientista faz parte de um grupo restrito de especialistas que avaliam riscos extremos associados a modelos de IA. Nos últimos meses, outros pesquisadores também relataram interações preocupantes com diferentes sistemas, incluindo modelos disponíveis ao público.

Em testes conduzidos por Kevin Esvelt, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), assistentes virtuais chegaram a explicar como adquirir material genético, transformá-lo em uma arma biológica e distribuí-la em ambientes urbanos.

  • Em um dos casos, o ChatGPT descreveu o uso de balões meteorológicos para dispersão de substâncias;
  • O Gemini, do Google, classificou patógenos com base em seu potencial de impacto econômico;
  • Já o Claude, da Anthropic, foi capaz de sugerir a criação de uma toxina a partir de compostos farmacêuticos.

Outro pesquisador que falou ao NYT, mas em anonimato, relatou ter recebido um guia com cerca de 8 mil palavras detalhando etapas para reconstrução de um vírus responsável por uma pandemia. Segundo ele, o material tinha imprecisões, mas poderia facilitar o trabalho de alguém com conhecimento técnico.

Especialistas expressaram preocupação com a capacidade da IA de orientar a criação de armas biológicas – Imagem: alexkich/Shutterstock

Arma biológica pode estar distante… mas risco é real

Especialistas afirmam que o risco de ataques biológicos em larga escala ainda é considerado baixo, mas alertam que os avanços recentes ampliam o acesso a informações sensíveis. A combinação de dados científicos disponíveis online, venda de material genético e o suporte de ferramentas automatizadas pode facilitar a vida de indivíduos mal-intencionados.

O próprio CEO da Anthropic, Dario Amodei, já expressou preocupações nesse sentido: “a biologia é, de longe, a área que mais me preocupa, devido ao seu enorme potencial de destruição e à dificuldade de defesa contra ela”.

Apesar dos alertas, empresas do setor defendem que seus sistemas passam por constante aprimoramento. OpenAI, Google e Anthropic afirmam que vêm reforçando mecanismos de segurança e que as respostas analisadas não seriam suficientes, por si só, para viabilizar ataques no mundo real.

Ainda assim, falhas persistem. Técnicas conhecidas como “jailbreaking” permitem contornar restrições impostas pelos sistemas, e versões antigas de modelos continuam acessíveis, muitas vezes com menos barreiras de segurança.

Mesmo com limitações práticas – já que a criação de uma arma biológica exige experiência avançada – especialistas chamam atenção para o risco de uso por profissionais qualificados. “Um dos principais problemas enfrentados por atores experientes não é necessariamente criar o vírus, mas transformá-lo em uma arma”, disse o virologista Jens Kuhn ao NYT.

Ao mesmo tempo, pesquisadores ressaltam que a tecnologia também tem potencial positivo, especialmente na medicina. Sistemas de IA já são usados para acelerar descobertas científicas, incluindo o desenvolvimento de novos medicamentos e a análise de proteínas.

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NASA usa IA para proteger os astronautas da missão Artemis 2 da radiação solar

Enquanto a cápsula Orion se afasta da Terra em direção à Lua, os astronautas da missão Artemis 2, lançada na última quarta-feira (1) pela NASA, vão perdendo parte da proteção natural do planeta: o campo magnético que ajuda a desviar a radiação solar. 

O maior risco das missões espaciais não são falhas técnicas ou micrometeoroides, mas partículas carregadas lançadas pelo Sol durante erupções e explosões solares. Para enfrentar esse perigo, a NASA monitora previsões de radiação com o auxílio de inteligência artificial (IA), desenvolvidas por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, com o objetivo de alertar a tripulação antes que tempestades de partículas alcancem a nave, dando tempo para ações de proteção.

Em resumo:

  • Radiação solar é o maior risco no espaço profundo;
  • Partículas do Sol podem danificar DNA e células;
  • Nave da missão Artemis 2 tem blindagem, mas precauções ainda são necessárias;
  • Ferramenta de IA prevê tempestades solares com até 24 horas;
  • Modelos físicos estimam o impacto e duração da radiação;
  • Isso permite planejar e aplicar estratégias eficazes de proteção.
Lançamento da missão Artemis 2 à Lua, em 1º de abril de 2026 – Crédito: NASA/Aubrey Gemignani

NASA testa modelos de IA para alertar astronautas

O Grupo de Análise de Radiação Espacial (SRAG) da NASA acompanha essas previsões durante a missão. A Artemis 2 ocorre no pico do ciclo solar, quando manchas e erupções são mais frequentes. Recentes erupções lembram que os riscos são reais: prótons acelerados podem viajar quase à velocidade da luz e atingir a nave em minutos.

Se atingirem a tripulação, essas partículas podem causar danos celulares e aumentar risco de câncer a longo prazo. Em casos extremos, segundo a agência, podem provocar sintomas imediatos, como náuseas. Para reduzir riscos, a cápsula Orion foi construída com blindagem avançada, mas a NASA treina a tripulação para reforçar a proteção da cabine quando necessário.

Durante situações de risco elevado, os astronautas podem reorganizar equipamentos e usar partes da nave como barreira extra. Esse procedimento aumenta a proteção sem interromper o trabalho a bordo, permitindo que experimentos e operações continuem mesmo sob ameaça de radiação.

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Imagem ilustra partículas energéticas solares espiralando para fora do Sol após uma erupção de plasma. A NASA monitorará as previsões dessas partículas durante a missão Artemis 2 para proteger os astronautas da radiação – Crédito: Laboratório de Imagens Conceituais do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA.

A primeira ferramenta testada é um modelo de aprendizado de máquina. De acordo com um comunicado, ele estima a probabilidade de tempestades solares perigosas com até 24 horas de antecedência. Para isso, utiliza imagens da superfície e da coroa solar obtidas pelo Observatório de Dinâmica Solar (SDO), da NASA, e pelo Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), uma parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA).

Esses registros históricos de radiação e atividade solar, que remontam a décadas, treinam o algoritmo para reconhecer sinais de erupções iminentes. Segundo Lulu Zhao, pesquisadora do Centro CLEAR, projeto da NASA que prevê radiação solar, o modelo monitora o Sol 24 horas por dia, observando sua evolução magnética e eventos que possam liberar energia extra.

Uma limitação do sistema é que ele fornece probabilidades, não detalhes sobre intensidade ou duração da tempestade. Por isso, a equipe complementa o aprendizado de máquina com um modelo físico que simula a propagação das partículas solares.

NASA prevê impacto da radiação com modelo físico

O modelo físico calcula quando erupções gerarão tempestades de partículas na Terra e na Lua, e quanto tempo a radiação ficará elevada. Ele acompanha o comportamento das partículas na coroa solar, região onde são aceleradas, oferecendo previsões mais precisas que métodos simplificados.

Baseado em pesquisas de 2014 da Universidade de Michigan, o modelo permite estimar rapidamente a exposição à radiação. Quando uma erupção ocorre, medições da velocidade das partículas são enviadas ao banco de dados da NASA, alimentando o sistema para calcular os riscos de forma imediata.

Para garantir rapidez, a equipe da Zhao teve acesso a três mil unidades de processamento no supercomputador da NASA. Sem essa capacidade, atrasos poderiam colocar os astronautas em risco, pois partículas solares podem atingir a nave muito rapidamente após uma explosão.

Combinando o modelo físico e a IA, a NASA consegue monitorar condições em tempo real, aumentando a segurança da tripulação enquanto a Artemis 2 se afasta da bolha protetora da Terra.

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A tripulação da Artemis 2 deixará o escudo magnético terrestre rumo à Lua. Para garantir a segurança dos astronautas contra a radiação de erupções solares perigosas, a NASA vai monitorar previsões espaciais, permitindo precauções a tempo – Crédito: Estúdio de Visualização Científica da NASA.

Leia mais:

Alertas de radiação orientam operações em tempo real

Os operadores do SRAG já acompanham sensores de radiação na Orion. Eles podem alertar o Controle da Missão se os níveis subirem rapidamente, permitindo ajustes imediatos. O maior benefício das previsões é o tempo: algumas horas extras podem fazer toda a diferença na proteção dos astronautas.

A Artemis 2 não testa apenas foguetes, cápsulas ou navegação. Ela também avalia a capacidade da NASA de “ler o Sol” em tempo real, testando novas ferramentas de previsão de radiação.

O sucesso dessas previsões é essencial para futuras missões à Lua e além. Combinando IA e modelos físicos, a NASA melhora a segurança da tripulação e reduz riscos de exposição à radiação no espaço profundo.

Quer saber mais sobre a jornada da NASA rumo à Lua? Confira nossa cobertura especial sobre a Artemis 2.

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incendio floresta amazonia

Fogo recorde na Amazônia em 2024 triplica emissões de carbono

Uma equipe internacional de pesquisadores utilizou inteligência artificial (IA) para analisar as emissões de incêndios florestais na Amazônia em 2024, e os resultados são alarmantes. 

Segundo o estudo, publicado na revista Geophysical Research Letters, as emissões de carbono podem ter sido até três vezes maiores do que se estimava até agora, revelando uma dimensão inédita do impacto ambiental.

Em resumo:

  • Pesquisadores usaram IA para analisar incêndios na Amazônia em 2024;
  • Emissões de carbono podem ser até três vezes maiores que estimativas;
  • Incêndios atingiram níveis recordes, afetando Amazônia e Cerrado;
  • Satélites e modelos estimaram CO como indicador de CO₂ liberado;
  • Combustão lenta contribuiu significativamente para as emissões daquele ano.
Queimada na Floresta Amazônica brasileira para abrir espaço para pastagem. Crédito: Pedarilhosbr – Shutterstock

Incêndios de 2024 foram os maiores em 20 anos na Amazônia

Os incêndios florestais são recorrentes na região central da América do Sul, agravados pelo desmatamento e pela seca. Em 2024, a atividade de fogo alcançou seu nível mais alto em duas décadas, atingindo vastas áreas da Amazônia e do Cerrado, a savana tropical mais biodiversa do mundo, que cobre cerca de um quinto do Brasil e partes da Bolívia e do Paraguai.

O estudo combinou dados de satélite sobre monóxido de carbono com modelos de incêndios florestais. O monóxido de carbono foi usado como indicador para estimar a emissão de dióxido de carbono, principal gás de efeito estufa. Esse método revelou que as estimativas tradicionais subestimam significativamente o volume de carbono liberado.

De acordo com os pesquisadores, a produção real de carbono pode ter sido entre 1,5 e três vezes maior do que o apontado pelos modelos convencionais. Isso representa um desafio para os cálculos globais de carbono e para os modelos climáticos, que dependem de dados precisos sobre emissões para prever o aquecimento do planeta.

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Área queimada e desmatada na Floresta Nacional de Jamanxim, Pará. Crédito: Marcio Isensee – Shutterstock

O estudo foi liderado pela Universidade Técnica de Dresden, em cooperação com o Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos (KNMI) e a BeZero Carbon, de Londres, com financiamento da Agência Espacial Europeia (ESA). Uma descoberta importante foi que a combustão lenta, ou seja, brasas que continuam queimando por dias, contribuiu muito para as emissões de 2024.

Jos de Laat, cientista sênior do KNMI, explicou em um comunicado que a pesquisa analisou uma área de cerca de 4 milhões de km², principalmente próxima à fronteira entre Brasil e Bolívia. “Os incêndios e a poluição concentrados ali afetaram a qualidade do ar em toda a região”. Ele acrescentou que os métodos atuais não reproduzem com precisão o que os satélites captam, ignorando fontes importantes de emissões.

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Fumaça de incêndios florestais na Amazônia boliviana, em setembro de 2024. Crédito: Dados modificados do Copernicus Sentinel (2024), processados ​​pela ESA.

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IA agiliza avaliação de grandes conjuntos de dados

Para melhorar a análise, os cientistas treinaram um sistema de IA capaz de processar grandes volumes de dados rapidamente. Isso permitiu avaliar múltiplos anos e regiões, mesmo com alta demanda computacional. Além disso, combinaram dados das missões Sentinel-2, Sentinel-3 e Sentinel-5P, da ESA, ampliando a precisão das estimativas.

O monóxido de carbono é mais fácil de detectar do espaço do que o dióxido de carbono, que já está presente na atmosfera em níveis elevados e quase constantes. Pequenas variações de CO2 passam despercebidas pelos satélites. Já o monóxido de carbono existe em concentrações muito baixas e variáveis, tornando o aumento gerado pelos incêndios mais fácil de medir.

A pesquisa faz parte do projeto internacional Sense4Fire, financiado pela ESA. O objetivo é entender melhor as condições que favorecem a ignição de incêndios e aprimorar estimativas de emissões de carbono causadas por chamas e brasas. Técnicas avançadas de sensoriamento remoto e modelos computacionais complexos foram aplicados para analisar a vegetação, umidade e condições da superfície.

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As imagens comparam estimativas de emissões de incêndios (à esquerda), feitas pelo sistema GFAS do Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus (CAMS), com dados reais captados pelo satélite Copernicus Sentinel-5P (à direita). As medições foram feitas sobre áreas do Brasil, Bolívia e Paraguai em setembro de 2024, mostrando diferenças entre modelos e observações diretas do espaço. Crédito: ESA (fonte de dados: J. De Laat et al, 2026).

Stephen Plummer, cientista da agência, destacou que as conclusões ajudam a revisar como calculamos as emissões de CO2, um dos principais gases do efeito estufa. Ele ressaltou que os satélites Sentinel fornecem dados precisos que permitem compreender melhor como a Terra reage aos incêndios e contribuem para melhorar políticas climáticas baseadas em ciência.

O Sentinel-5P, lançado em 2017, possui o espectrômetro Tropomi, capaz de medir gases como CO, metano e dióxido de nitrogênio com resolução inédita. Isso possibilita monitorar a poluição de incêndios em detalhes e integrar informações sobre vegetação e condições do solo, tornando as estimativas de emissões mais precisas do que os métodos tradicionais.

Jos de Laat acrescentou que os métodos e dados gerados serão incorporados em futuros projetos do programa Horizonte Europa e do Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus (CAMS). Isso garante que as novas técnicas continuem a fornecer informações confiáveis e apoiem políticas públicas e científicas sobre mudanças climáticas.

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IA identifica pegadas de dinossauros e revela acidentalmente pistas sobre aves

Um estudo publicado na revista PNAS mostra que a inteligência artificial (IA) está transformando a forma como cientistas analisam pegadas de dinossauros. Essas marcas antigas revelam informações importantes sobre esses animais, mas são complexas e difíceis de interpretar.

Cada pegada não é só um “buraco no solo”. Ela registra peso, deslizamento dos dedos e deformações da lama. Com o tempo, erosão e compactação alteram o formato original, tornando a identificação um desafio para os paleontólogos.

Para superar esse desafio, pesquisadores desenvolveram o DinoTracker, um aplicativo que permite enviar fotos ou esboços de pegadas. O sistema fornece uma análise sobre qual dinossauro provavelmente deixou cada marca, ajudando a transformar interpretações subjetivas em dados consistentes.

Uma representação artística de uma rede neuronal a analisar os contornos de uma pegada de dinossauro. Crédito: Tone Blakesley

O problema é que as pegadas não se fossilizam de maneira uniforme. Dois animais com pés iguais podem deixar rastros diferentes, dependendo do solo, da umidade, da velocidade e do peso – e essas variações confundem até os especialistas mais experientes.

Após treinar a IA, o DinoTracker foi testado com pegadas fósseis conhecidas. O resultado mostrou cerca de 90% de concordância com análises humanas, inclusive em casos controversos. Embora não ofereça certezas absolutas, funciona como uma segunda opinião confiável.

Fósseis mostram semelhança com aves

Uma descoberta inesperada envolveu pegadas com mais de 200 milhões de anos que lembram marcas de aves. Isso sugere duas possibilidades: aves podem ter surgido antes do que se pensava, ou alguns dinossauros primitivos tinham pés muito parecidos com os das aves modernas.

O sistema também reexaminou pegadas antigas na Ilha de Skye, Escócia, feitas há 170 milhões de anos. Antes difíceis de identificar, agora a IA indica que podem ter sido deixadas por parentes antigos dos dinossauros bico-de-pato. Se confirmado, isso muda a compreensão sobre a expansão dessa linhagem.

O DinoTracker não é apenas uma ferramenta de pesquisa. Pegadas são comuns em descobertas paleontológicas, e a IA permite analisar rapidamente grandes volumes de dados. No campo, ajuda a testar hipóteses. Na educação, transforma pegadas em experiências interativas, tornando o aprendizado mais envolvente.

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IA oferece forma objetiva de classificar pegadas de dinossauros

Segundo Steve Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, “este estudo oferece uma forma objetiva de classificar pegadas, abrindo novas possibilidades para entender como esses animais viviam e evoluíram”.

De qualquer forma, pegadas são únicas e complexas. O DinoTracker não substitui a interpretação humana, mas trata variações como informação, não como ruído. Reconhecendo padrões e deformações, acelera pesquisas e amplia a participação científica.

Mais do que facilitar estudos, a ferramenta aproxima as pessoas do mundo antigo. Cada pegada é um instante de contato entre o animal e o solo. Interpretar esses rastros com mais clareza ajuda a compreender melhor a vida, os movimentos e a evolução dos dinossauros.

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