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Filme chinês feito com IA arrecada pouco, mas atrai investidores

A inteligência artificial (IA) ainda precisa provar que consegue conquistar o público nas salas de cinema. Pelo menos na China, a primeira grande tentativa de produzir um longa-metragem inteiramente com a tecnologia não teve o resultado esperado. Sanxingdui: Future Past arrecadou apenas 1,7 milhão de yuans (aproximadamente R$ 1,3 milhão) nas bilheterias, apesar de ter custado dezenas de milhões de yuans.

A produção foi lançada em Pequim (China) e chamou atenção por utilizar IA em praticamente toda a sua concepção visual. Os efeitos sonoros também tiveram participação da tecnologia, enquanto a edição ficou sob responsabilidade de profissionais humanos.

O desempenho comercial, porém, ficou muito abaixo das expectativas. O The Guardian relata que assistiu ao longa em uma sala de cinema praticamente vazia na capital chinesa.

A experiência também não impressionou particularmente a crítica. A história apresenta uma sociedade futurista que terceirizou todas as decisões para algoritmos e sistemas de IA, provocando uma catástrofe global. Para evitar o desastre, os personagens precisam descobrir um código secreto associado às esculturas de bronze de Sanxingdui, ligadas ao antigo reino de Shu.

A narrativa mistura astronautas, Egito Antigo e viagens por vórtices espaço-temporais. Os diálogos também evidenciam a participação de uma ferramenta interna de roteiro chamada Bowen, desenvolvida pela própria produtora.

Investidores ainda apostam no cinema feito com IA

  • Apesar do fracasso de Sanxingdui: Future Past, profissionais da indústria cinematográfica chinesa acreditam que a produção representa apenas o começo de uma nova fase do setor;
  • Segundo Yu Yaqin, crítica de cinema independente em Pequim, o principal problema do longa foi simplesmente não ser divertido. Ainda assim, ela acredita que filmes produzidos com IA continuarão recebendo investimentos no país;
  • Uma profissional que trabalha com desenvolvimento de roteiros na capital chinesa afirmou que a maioria dos projetos que recebeu nos últimos meses envolvia produções com IA;
  • O interesse dos investidores está relacionado principalmente à possibilidade de reduzir custos. Segundo ela, atividades que antes exigiam equipes de aproximadamente 100 pessoas poderiam ser realizadas por apenas cinco profissionais com o auxílio da tecnologia;
  • Essa perspectiva também levanta preocupações sobre o futuro dos empregos no setor audiovisual.

Apesar do fracasso de Sanxingdui: Future Past, profissionais da indústria cinematográfica chinesa acreditam que a produção representa apenas o começo de uma nova fase do setor – Imagem: metamorworks/Shutterstock

Leia mais:

China já produz milhares de produções com IA

O fracasso do longa-metragem não significa que o público chinês rejeite completamente o conteúdo produzido por IA. O país já possui uma indústria expressiva de microdramas gerados por IA. São produções curtas, geralmente com episódios de um a três minutos, desenvolvidas para consumo em celulares.

De acordo com o The Guardian, dezenas de milhares desses conteúdos são enviados mensalmente para plataformas de streaming. Uma indústria que praticamente não existia há alguns anos já movimenta aproximadamente US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões).

Uma das explicações para o desempenho ruim de Sanxingdui: Future Past pode estar justamente na concorrência com esse formato. Enquanto o longa custava 50 yuans (cerca de R$ 37) por ingresso, conteúdos semelhantes podiam ser encontrados gratuitamente nos celulares.

Um blogueiro especializado em cinema resumiu a diferença: os microdramas feitos com IA oferecem uma maneira de passar o tempo, enquanto os filmes exibidos nos cinemas precisam proporcionar uma experiência que justifique o investimento do público.

Para a crítica Yu Yaqin, o público ainda parece mais disposto a pagar por produções que ofereçam uma experiência verdadeiramente diferenciada.

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Escolas que bloquearem IA poderão perder acesso ao Google Search

Alunos que utilizam as ferramentas educacionais do Google poderão perder acesso ao mecanismo de busca se suas escolas não aceitarem recursos de inteligência artificial (IA) integrados às pesquisas. Anunciada na terça-feira (3), a nova política provocou críticas de educadores, políticos e especialistas.

As instituições poderão controlar os serviços individualmente, mas terão de aceitar algum recurso de IA na busca para continuar oferecendo o Google Search. A implementação está prevista para o início de 2027.

Segundo o Google, 150 milhões de estudantes e professores usam o Google Classroom em todo o mundo. – Imagem: Below the Sky/Shutterstock

Escolas terão controle sobre ferramentas, mas com uma condição

A decisão ocorre após meses de resistência ao Gemini nas salas de aula. Até agosto, o Google só permitia habilitar o chatbot para estudantes com 18 anos ou mais. Naquele mês, anunciou sua disponibilização para alunos mais novos em redes que autorizassem ferramentas de IA.

Agora, os administradores poderão escolher quais serviços estarão disponíveis, incluindo Gemini, Gemini Notebook e Google Search. Todos ficarão desativados por padrão até que as instituições autorizem seu uso.

As escolas poderão manter o Gemini desativado, mas precisarão aceitar algum recurso de IA incorporado às pesquisas para liberar o buscador. Chris Phillips, vice-presidente e gerente-geral de educação do Google, explicou ao The New York Times que os serviços estão profundamente conectados. Sem essa autorização, os estudantes receberão uma mensagem de indisponibilidade.

A empresa também prepara o Guided Learning, recurso que deverá orientar os estudantes na resolução de problemas, em vez de apresentar respostas prontas. Em matemática, por exemplo, poderá incentivar o aluno a revisar regras de divisão de expoentes antes de chegar ao resultado.

Decisão provoca críticas de políticos e educadores

Lina Khan, ex-presidente da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC), acusou o Google de usar sua posição dominante nas buscas para pressionar as escolas.

“O Google está usando seu monopólio nas buscas para coagir as escolas a adotarem inteligência artificial. Isso evidencia o perigo de permitir que uma empresa monopolista, sem regulamentação, controle um serviço essencial”, escreveu.

O senador Bernie Sanders classificou a iniciativa como extorsão. Richard Blumenthal afirmou que a empresa estaria mais preocupada em impor o Gemini às escolas do que em ajudar os estudantes. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, também questionou o poder de uma companhia sobre as políticas de ensino.

As redes públicas de Nova York e Los Angeles estabeleceram proibições temporárias ao uso de IA generativa nas escolas de ensino fundamental, enquanto avaliam a segurança dessas tecnologias e desenvolvem regras. Educadores temem que os resumos gerados por IA desestimulem a pesquisa independente e facilitem a cola e o acesso a respostas prontas, em vez de estimular o pensamento crítico.

Chatbot de educação de IA e conceito de assistente de aprendizagem on-line.
Educadores temem que resumos de IA na busca desestimulem a pesquisa independente e facilitem o acesso a respostas prontas. – Imagem: Sandwish Studio/Shutterstock

Especialistas apontam riscos e Brasil discute limites da IA na educação

Josh Golin, diretor-executivo da Fairplay, organização de defesa dos direitos das crianças, disse que a pressão pode produzir o efeito contrário ao pretendido. Para ele, a presença dos produtos do Google nas escolas está ligada à construção de fidelidade à marca desde a infância. Golin defendeu que as instituições desativem as ferramentas de IA da empresa, considerem abandonar outros produtos do Google e adotem buscadores com maior proteção à privacidade.

No Brasil, o Conselho Nacional de Educação (CNE) também discute limites para o uso dessas tecnologias. O órgão apresentou propostas para regulamentar a IA no ensino e apontou riscos relacionados à perda de habilidades cognitivas, a vieses algorítmicos e ao aprofundamento das desigualdades educacionais.

A mudança levanta questões sobre a autonomia das instituições para definir suas regras e a dependência de plataformas controladas por grandes empresas.

Em resposta às críticas, o Google afirmou na rede social X que ouviu os educadores. Disse que deixar os recursos de IA desativados por padrão atende aos pedidos por maior controle e que continuará trabalhando com as escolas para oferecer mais opções e aprimorar a busca para a aprendizagem.

Segundo a empresa, 150 milhões de estudantes e professores em todo o mundo utilizam o Google Classroom. Muitos alunos também dependem de Chromebooks fornecidos pelas próprias instituições.

Entramos em contato com o Google para entender se a regra também valerá para as escolas brasileiras e quando isso pode ocorrer. Assim que a empresa se posicionar, a matéria será atualizada.

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Pioneiro da IA diz que mundo estaria melhor sem inteligência artificial

O cientista Geoffrey Hinton, um dos pioneiros da inteligência artificial (IA), afirmou que a humanidade talvez estivesse melhor sem desenvolver a tecnologia. Ele também alertou que sistemas avançados podem provocar incidentes de grande escala ainda em 2026 ou 2027.

Vencedor do Prêmio Nobel, Hinton critica dirigentes de grandes empresas de tecnologia por priorizarem lucros e participação de mercado em detrimento da segurança. Para reduzir os riscos, defende avaliações independentes e testes obrigatórios antes do lançamento de modelos avançados.

O especialista comparou tentativas de invasão cibernética por inteligência artificial a avisos prévios de acidentes nucleares. – Imagem: TSViPhoto/Shutterstock

Hinton critica empresas e prevê incidentes graves

Em entrevista ao The Guardian, Hinton, de 78 anos, afirmou que os próximos dez anos, possivelmente menos, serão decisivos para determinar se a humanidade conseguirá controlar os riscos da IA e alcançar o que chamou de “abundância radical”. Caso contrário, o cenário poderá incluir desigualdade acentuada, desemprego em massa, problemas culturais e divisões sociais.

Uma das preocupações do pesquisador é a possibilidade de sistemas de inteligência artificial desenvolverem comportamentos que dificultem o controle humano. Ele já havia alertado que, se essas tecnologias passarem a buscar mais autonomia e controle, a humanidade poderá enfrentar sérios problemas.

Hinton também questionou a postura dos dirigentes de empresas que disputam a liderança do setor. Ele afirmou não confiar em Sam Altman, CEO da OpenAI, e criticou Mark Zuckerberg, da Meta, e Elon Musk, da xAI.

“Eles entendem os riscos e não dão a mínima. Preferem ficar com o dinheiro. Essa é a minha opinião”, declarou ao The Guardian.

O cientista considera especialmente preocupante que Altman esteja à frente de uma das principais empresas norte-americanas na disputa com a China pelo desenvolvimento dos sistemas de IA mais avançados.

Hinton trabalha com inteligência artificial há aproximadamente 44 anos. Na década de 1970, cunhou o conceito de redes neurais artificiais, sistemas matemáticos capazes de aprender com experiências. Em 2023, deixou o Google para falar publicamente sobre os riscos da tecnologia.

Um episódio envolvendo agentes de IA da OpenAI, que conspiraram para invadir o site Hugging Face, reforçou suas preocupações. Hinton comparou o caso ao acidente nuclear de Three Mile Island, ocorrido em 1979, nos Estados Unidos, considerando-o um primeiro sinal de alerta.

Na avaliação do pesquisador, um evento ainda mais grave, comparável a Chernobyl, poderá acontecer até o fim de 2027. Entre os cenários mencionados estão:

  • Um ataque cibernético contra o sistema de geração de eletricidade;
  • Uma interrupção de grande escala no fornecimento de energia;
  • A paralisação do sistema financeiro durante uma semana.

Hinton acredita que um episódio desse tipo poderia chamar a atenção de líderes mundiais para os riscos da tecnologia. Ao falar sobre quem precisaria reagir, excluiu o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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Uma proposta apoiada por 33 países prevê testes obrigatórios e avaliações independentes para modelos avançados de IA. – Imagem: Garun.Prdt/Shutterstock

Hinton defende fiscalização independente da IA

Trump rejeita iniciativas de controle internacional e defende que as próprias empresas estabeleçam suas regras, sob o argumento de que restrições poderiam prejudicar a posição dos Estados Unidos na disputa com a China.

Hinton apoia uma proposta respaldada por 33 países, incluindo Finlândia, Alemanha, Canadá, Austrália e Singapura. O plano prevê avaliações obrigatórias dos modelos mais avançados, análises independentes e padrões comuns entre governos.

Para explicar como essa fiscalização deveria funcionar, o pesquisador recorreu ao exemplo da agência norte-americana responsável pela aprovação de medicamentos, a FDA. Sua proposta é que as empresas apresentem evidências estatísticas a uma autoridade independente para demonstrar que os benefícios dos sistemas superam os riscos antes de lançar os modelos.

Hinton citou a talidomida, medicamento desenvolvido na década de 1950 que provocou graves malformações congênitas, para argumentar que não basta disponibilizar um produto e responsabilizar seus fabricantes depois que os danos acontecem.

Apesar das advertências, o cientista acredita que ainda é possível evitar uma catástrofe. “Meu instinto diz que ainda estamos no controle”, afirmou. Ele ressalvou, porém, que isso dependerá de um esforço significativo.

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Funcionários da OpenAI alertaram por anos sobre falhas de segurança nos sistemas da empresa

Funcionários da OpenAI alertaram a direção durante anos sobre falhas na segurança dos sistemas internos. Segundo a Reuters, as vulnerabilidades poderiam facilitar o acesso de pessoas de fora, inclusive governos estrangeiros, a informações estratégicas sobre o desenvolvimento de inteligência artificial (IA).

As reclamações chegaram a executivos e ao conselho. Alguns profissionais concluíram que a empresa priorizava a velocidade para competir com Google e Anthropic, em detrimento da segurança.

A empresa afirma que restringiu o acesso a trabalhos sensíveis e mantém parte das pesquisas em repositórios separados. – Imagem: WooTh_stock/Shutterstock

Acesso a informações internas preocupava funcionários

Cinco pessoas familiarizadas com as práticas da OpenAI disseram que funcionários com acesso ao código conseguiam consultar detalhes de diferentes projetos. Isso acontecia porque grande parte do código ficava em um único repositório, chamado monorepo.

A OpenAI afirmou que restringiu o acesso a trabalhos sensíveis e que parte importante das pesquisas fica em repositórios separados. Segundo a empresa, o repositório principal não reúne todo o código nem os pesos dos modelos.

As preocupações também envolviam a falta de revisões regulares de segurança. Três fontes disseram que alterações feitas por funcionários nem sempre passavam por verificações nas ferramentas internas.

Caso de engenheiro expôs riscos internos

Um episódio envolvendo um funcionário mostrou outra dimensão dos riscos. Em 13 de outubro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a prisão de Abdulrahman Alfozan, engenheiro da OpenAI acusado de esconder um dispositivo de gravação em um rolo de papel higiênico na sala de reuniões de executivos.

Segundo documentos judiciais, ele também usou uma ferramenta interna de IA para localizar informações sobre visitas de executivos à Arábia Saudita e possíveis reuniões com ministros. Alfozan mantinha contato com um integrante da família real saudita que tentou recrutá-lo.

Diante das preocupações com a proteção dos sistemas, a OpenAI também reforçou sua estrutura de segurança:

  • Em agosto, Thibault Sottiaux, executivo responsável pelo desenvolvimento de produtos, transferiu um quarto dos engenheiros de produção para a infraestrutura de segurança;
  • Dane Stuckey assumiu como diretor de segurança em outubro de 2024;
  • A empresa afirma que agora realiza avaliações regulares de suas ferramentas.
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Casos envolvendo Google e Anthropic também mostram os desafios de proteger informações estratégicas no setor de inteligência artificial. – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Ataques ampliam debate sobre segurança no setor

Os problemas de proteção de informações estratégicas também atingem outras empresas de IA. Em janeiro, um júri federal condenou um ex-funcionário do Google por roubar informações confidenciais sobre a tecnologia da empresa em benefício da China.

No fim de outubro, a startup Cathedral Systems afirmou ter invadido sistemas da Anthropic e acessado canais do Slack com discussões sobre modelos. Os dados incluíam contatos de clientes e parceiros e registros básicos de contas.

Esses episódios ampliam o debate sobre a cultura de pesquisa aberta do setor. Na OpenAI, funcionários passaram a questionar se o compartilhamento de informações é compatível com a proteção de tecnologias estratégicas.

Em 2023, Leopold Aschenbrenner, então pesquisador da empresa, escreveu um memorando sobre o risco de infiltração chinesa. O documento chegou ao conselho depois que um invasor externo obteve detalhes sobre o GPT-4. A OpenAI afirmou que ele acessou apenas canais do Slack disponíveis a toda a equipe.

Neste ano, agentes de IA da OpenAI em testes invadiram sistemas da Hugging Face, episódio analisado por autoridades dos Estados Unidos. Em julho, pesquisadores da Hacktron AI usaram um modelo da Anthropic para invadir contas do ChatGPT de funcionários da OpenAI e acessar sistemas internos. A OpenAI agradeceu o alerta e disse ter adotado medidas para reduzir o risco de ataques semelhantes.

O ex-pesquisador Will DePue, que deixou a empresa em abril, criticou a prioridade dada à velocidade. Em publicação no X, afirmou que a OpenAI considerava mais importante avançar rapidamente do que proteger seus sistemas, mesmo contra grandes adversários nacionais.

A porta-voz Elana Widmann disse à Reuters que a empresa investe para se proteger de ameaças internas, criminosos digitais e governos. Após ser procurada pela agência, a OpenAI anunciou novas melhorias na segurança. Segundo a reportagem, o reforço das proteções pode atrasar o desenvolvimento de IA e complicar os planos de abertura de capital da OpenAI e da Anthropic.

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Eleição nos EUA expõe reação a bilionários e data centers de IA

Os democratas conquistaram o controle do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato de 2026, impondo uma derrota ao presidente Donald Trump e aos candidatos apoiados por grandes empresários do setor de tecnologia.

O resultado reflete a insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a corrupção e a expansão dos data centers de inteligência artificial (IA). Também representa um revés para bilionários que investiram centenas de milhões de dólares nas campanhas republicanas.

Donald Trump sofreu uma derrota eleitoral com a conquista democrata do controle do Congresso dos Estados Unidos. – Imagem: YousufDean/Shutterstock

Texas se torna símbolo da derrota republicana

No Texas, James Talarico derrotou Ken Paxton e se tornou o primeiro democrata eleito para o Senado pelo estado em quase quatro décadas. Na disputa pelo governo estadual, Gina Hinojosa venceu Greg Abbott, que estava no cargo havia três mandatos. Ela será a primeira governadora democrata do Texas desde Ann Richards, que deixou o posto em 1995.

A derrota também atingiu candidatos escolhidos pessoalmente por Trump, que havia feito dezenas de endossos durante a campanha. O resultado no Texas ganhou destaque em meio à resistência de parte dos eleitores à expansão da infraestrutura tecnológica. Hinojosa defendeu a suspensão de novos projetos de data centers até que regras mais rigorosas sejam adotadas.

A preocupação com essas instalações apareceu em uma pesquisa da CNBC: 56% dos entrevistados disseram que a questão teve importância decisiva ou significativa na escolha de seus candidatos.

Bilionários da tecnologia enfrentam reação dos eleitores

A derrota republicana também representa um revés para empresários e grupos de interesse que financiaram candidatos favoráveis à expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Elon Musk, o maior doador individual do ciclo eleitoral e o homem mais rico do mundo, gastou valores recordes para tentar manter os republicanos no poder. No Texas, investiu mais de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,08 bilhão) em esforços para impedir a vitória de Talarico.

O peso desse financiamento aparece também no perfil dos principais doadores: 14 dos 20 maiores grupos apoiaram exclusivamente ou quase exclusivamente candidatos republicanos. Interesses ligados a criptomoedas, inteligência artificial e jogos de azar on-line investiram mais de US$ 377 milhões (aproximadamente R$ 2,04 bilhões).

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A vitória democrata no Texas foi marcada por propostas de interrupção de novos projetos de data centers até a criação de regras rígidas. – Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock

Congresso deve ampliar fiscalização sobre empresas de IA

Com a conquista da maioria na Câmara e no Senado, os democratas terão mais poder para fiscalizar o governo Trump, convocar autoridades e abrir investigações. Parlamentares já defenderam chamar executivos de empresas de inteligência artificial para depor sob juramento.

A mudança no equilíbrio político também põe em xeque as tentativas republicanas de redesenhar distritos eleitorais para favorecer seus candidatos. Democratas venceram disputas em áreas do Texas, da Flórida e da Carolina do Norte cujos limites haviam sido alterados com esse objetivo.

Outras vitórias ampliaram o alcance da mudança no mapa eleitoral: os democratas venceram disputas na Carolina do Sul, em Ohio, na Geórgia e em New Hampshire, além de conquistar cadeiras no Senado em Iowa e na Carolina do Norte.

A insatisfação econômica teve papel central na eleição. Muitos eleitores atribuíram a piora das condições econômicas às tarifas impostas por Trump e à guerra contra o Irã. Uma pesquisa da CNBC realizada em outubro apontou a corrupção como a principal preocupação dos entrevistados.

Após a divulgação dos resultados, os contratos futuros dos índices Dow Jones e S&P 500 recuaram. Com o novo controle do Congresso, os democratas poderão bloquear parte da agenda presidencial e intensificar a fiscalização sobre o governo nos dois últimos anos do mandato de Trump.

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ChatGPT já alcança 20% do volume de buscas do Google, diz OpenAI

O ChatGPT está ampliando sua participação no mercado de buscas na internet. Segundo a OpenAI, o chatbot já processa um volume de consultas equivalente a um quinto do registrado pelo Google. A declaração indica o avanço da ferramenta como alternativa aos mecanismos tradicionais de pesquisa, embora a distância entre as duas plataformas ainda seja significativa.

O número foi apresentado por Adam Fry, responsável pelo produto de consumo do ChatGPT, durante evento da OpenAI realizado na segunda-feira (2). Segundo ele, a companhia considera uma busca toda consulta enviada pelo usuário que resulta em uma pesquisa na web. Perguntas simples, como pedidos para definir um termo ou explicar como fazer alguma coisa, não entram nessa conta.

A empresa, porém, não informou a origem do número utilizado para comparar o volume de pesquisas do ChatGPT com o do Google.

ChatGPT ainda está distante do Google

  • Apesar do crescimento, o volume de buscas do ChatGPT representa apenas uma fração da atividade registrada pelo Google;
  • A comparação feita pela OpenAI também ajuda a dimensionar o desafio de conquistar espaço nesse mercado;
  • Durante o julgamento antitruste do Google em 2023, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, afirmou que o Bing detinha aproximadamente 3% do mercado de mecanismos de busca, mesmo após mais de uma década de investimentos para competir com a ferramenta do Google;
  • O avanço da inteligência artificial (IA), entretanto, vem alterando esse cenário. O próprio Google passou a incorporar recursos generativos ao seu mecanismo de pesquisa, incluindo resumos produzidos por IA e experiências mais personalizadas, com visualizações e gráficos;
  • O The Verge observa que uma parcela significativa das buscas realizadas pelo ChatGPT provavelmente utiliza o Bing, da Microsoft, além de um índice de pesquisa próprio da OpenAI. Ainda existe especulação sobre a possibilidade de algumas consultas serem encaminhadas ao Google.

Apesar do resultado, o Google segue bem à frente na disputa dos buscadores – Imagem: RixAiArt/Shutterstock

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OpenAI aposta em interface visual e anúncios

A disputa não envolve apenas responder a perguntas. A OpenAI também está desenvolvendo experiências de pesquisa mais visuais e interativas dentro do ChatGPT.

A companhia chama essa abordagem de “Intelligent UI” (interface inteligente, em tradução livre). A proposta é transformar as respostas do chatbot em ambientes interativos, com elementos visuais e recursos que permitam ao usuário explorar informações sem sair da conversa.

“É para lá que o futuro dessa tecnologia está indo. Você está conversando com uma tela”, afirmou Fry.

Outro ponto estratégico é a publicidade. Assim como o Google, a OpenAI enxerga nos anúncios uma possível fonte de receita para seus serviços, especialmente diante da possibilidade de uma abertura de capital no início de 2027.

Fry afirmou que a publicidade não provocou reação negativa duradoura entre os usuários e que a maioria das pessoas parece não se incomodar com os anúncios no produto.

A empresa anunciou no mês anterior que começaria a exibir imagens de produtos e serviços patrocinados no ChatGPT. Até então, os anúncios apresentavam principalmente o nome da companhia, seu logotipo e um link para o produto.

“Os anúncios talvez tenham nos mostrado que poderíamos estar fazendo isso ainda mais”, declarou o executivo.

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Anthropic quer impedir que empresas escondam qual IA estão usando

A Anthropic está desenvolvendo tecnologia que permite verificar se uma resposta foi realmente produzida pelo modelo de inteligência artificial (IA) que uma empresa afirma utilizar. Batizado de FlashProve, o sistema usa criptografia para criar uma espécie de comprovante matemático da identidade do modelo responsável por determinada saída.

A proposta é dar aos usuários uma maneira de confirmar se estão interagindo com a IA anunciada pelo fornecedor, em vez de uma versão diferente ou menos avançada. Segundo a Anthropic, o mecanismo também poderia dificultar tentativas de empresas de substituir secretamente seus modelos por alternativas mais baratas ou apresentar resultados de desempenho que não correspondem à tecnologia utilizada.

O projeto foi apresentado em publicação da companhia nesta terça-feira (3). A empresa também disponibilizou uma especificação técnica e partes do código em formato aberto para que outros pesquisadores possam examinar e aprimorar a iniciativa.

Como funciona o FlashProve?

  • O sistema utiliza o conceito de “inferência comprovável”, que consiste em gerar uma prova criptográfica de que determinada resposta veio de um modelo específico;
  • A ideia é semelhante às assinaturas digitais usadas em e-mails para confirmar a identidade de quem enviou uma mensagem. Nesse caso, porém, a verificação serviria para identificar qual IA produziu um conteúdo;
  • Para isso, os desenvolvedores de modelos precisariam publicar uma espécie de impressão digital de cada sistema lançado. Posteriormente, essa identificação poderia ser comparada às respostas produzidas pela IA e verificada por meio de mecanismos criptográficos;
  • Um aspecto importante é que essas impressões digitais não revelariam os pesos do modelo — os valores internos que determinam seu funcionamento e comportamento. Empresas, como Anthropic e OpenAI, mantêm essas informações privadas, mas poderiam participar de um sistema de verificação sem abrir mão desse segredo comercial;
  • A tecnologia também foi projetada para ser leve, permitindo que a verificação seja realizada diretamente em um dispositivo local.

Leia mais:

Sistema poderia impedir troca secreta de modelos

Um dos problemas que o FlashProve pretende enfrentar é a possibilidade de um fornecedor apresentar um modelo aos clientes, mas utilizar outro durante o funcionamento do serviço.

Empresa também disponibilizou uma especificação técnica e partes do código em formato aberto para que outros pesquisadores possam examinar e aprimorar a iniciativa – Imagem: gguy/Shutterstock

Uma empresa poderia, por exemplo, anunciar o acesso a uma IA avançada e substituí-la por alternativa mais barata para reduzir custos. O mecanismo também poderia dificultar situações em que uma companhia utiliza um modelo diferente daquele que afirma ter empregado para demonstrar determinado desempenho.

A verificação teria aplicações além dos serviços oferecidos diretamente pelas empresas de IA.

Os pesquisadores citam o exemplo de um desenvolvedor que afirma ter utilizado um modelo avançado de cibersegurança para examinar uma biblioteca de software em busca de vulnerabilidades. Outra possibilidade seria uma empresa declarar que seu plano de negócios recebeu aprovação de uma IA apropriada para a tarefa.

Com o FlashProve, seria possível verificar criptograficamente se o modelo anunciado realmente foi utilizado nesses processos.

Tecnologia ainda não tem previsão de lançamento

Apesar da apresentação pública, o FlashProve ainda é um projeto de pesquisa. A Anthropic disponibilizou uma especificação técnica detalhada e código funcional de diferentes componentes sob uma licença de código aberto, permitindo que a comunidade examine e desenvolva o sistema.

A companhia, no entanto, não anunciou planos para implementar a tecnologia em seus próprios serviços ou em outras plataformas de IA.

Os pesquisadores afirmaram que a publicação representa avanço intermediário do trabalho, e não a conclusão de uma agenda de pesquisa. A intenção é permitir que outras equipes analisem a proposta, aproveitem seus componentes e contribuam para aperfeiçoá-la.

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Big techs reforçam combate a conteúdos falsos gerados por IA nas eleições dos EUA

OpenAI, Anthropic, Google e Meta reforçaram suas estratégias para impedir que ferramentas de inteligência artificial (IA) sejam usadas para manipular as eleições legislativas dos Estados Unidos, que estão sendo realizadas nesta terça-feira (3). As empresas montaram equipes especializadas para monitorar atividades suspeitas e tentar conter campanhas de desinformação capazes de comprometer a confiança no processo democrático.

Na OpenAI, mais de uma dúzia de funcionários trabalha em uma central de operações instalada em escritório da companhia em São Francisco (EUA). A estrutura representa ampliação significativa dos esforços adotados pela empresa durante a eleição presidencial de 2024, quando os recursos de IA eram menos avançados e o ChatGPT tinha apenas um quinto da base de um bilhão de usuários que possui atualmente.

“Em 2024, a tecnologia mais acessível era o texto. Agora, não estamos monitorando apenas textos”, afirmou Josh Lawson, responsável pela área de riscos cívicos e estratégicos da OpenAI e líder da operação, ao The New York Times.

O cenário atual inclui ameaças que vão de vídeos deepfake e ataques cibernéticos a operações de influência estrangeira e doméstica. Com ferramentas de IA, esse tipo de campanha pode ser produzido e colocado em circulação a partir de uma sequência de comandos.

Anthropic também monta central de monitoramento

  • A OpenAI não é a única empresa a reforçar suas defesas. A Anthropic, responsável pelo chatbot Claude, criou pela primeira vez uma sala de operações dedicada ao tema, reunindo equipes de analistas em São Francisco, Nova York (EUA) e Washington (EUA);
  • Google e Meta também prometeram ampliar os esforços para impedir que suas ferramentas de IA sejam usadas para enfraquecer a confiança no processo democrático;
  • Na OpenAI, a central eleitoral começou a funcionar na quinta-feira anterior à votação. A equipe de São Francisco trabalha em conjunto com uma unidade em Washington e reúne dezenas de pessoas, segundo representantes da companhia;
  • Os funcionários analisam comandos enviados ao ChatGPT que são sinalizados automaticamente por possíveis tentativas de produzir textos ou imagens falsas sobre as eleições;
  • Um exemplo seria o uso do chatbot para elaborar uma campanha de influência baseada em alegações falsas de fraude eleitoral, como acusações de manipulação de cédulas. O material poderia ser distribuído em redes sociais por meio de contas falsas;
  • Quando identifica atividades maliciosas destinadas a circular em determinadas plataformas, a OpenAI afirma que notifica as empresas responsáveis por esses serviços.

Google e Meta estão entre as empresas que estão se mexendo para tentar impedir o mau uso da IA nas eleições estadunidenses – Imagem: gguy/Shutterstock

IA amplia riscos de manipulação eleitoral

Um levantamento do Brennan Center for Justice, organização ligada à Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, identificou cenário contraditório.

Os chatbots mais populares geralmente resistem a solicitações relacionadas a teorias conspiratórias sobre eleições. Ao mesmo tempo, as ferramentas de IA produzem regularmente textos, imagens e vídeos que podem ser utilizados para enfraquecer a confiança na votação.

A preocupação também está relacionada à redução das equipes de segurança e moderação das redes sociais nos últimos anos. Após a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, a Meta criou uma central de operações para as eleições legislativas de 2018.

Desde então, porém, a Meta e outras plataformas reduziram equipes responsáveis por segurança e combate à desinformação eleitoral. A decisão ocorreu em meio à pressão de republicanos e, a partir de 2025, do governo Donald Trump, que acusaram as empresas de censurar opiniões conservadoras.

Esse recuo coincidiu com a expansão das ferramentas de IA, aumentando os receios sobre o impacto da tecnologia nas eleições. Especialistas e ex-integrantes do governo estadunidense também alertaram para a capacidade desses recursos de tornar campanhas de manipulação mais convincentes, enquanto o governo Trump desmontou equipes federais que anteriormente atuavam no combate a ameaças ao processo eleitoral.

“Seria imprudente pensar que essa ameaça desapareceu e que a tecnologia não está tornando essas ameaças mais poderosas e convincentes”, afirmou Lauren Protentis, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, onde supervisionava questões relacionadas à influência estrangeira maliciosa durante o governo de Joe Biden.

OpenAI já identificou operações ligadas a outros países

A OpenAI já havia divulgado tentativas de Rússia, China e Irã de utilizar o ChatGPT em operações de influência estrangeira. A empresa afirma ter interrompido duas campanhas desse tipo no mês anterior à eleição estadunidense.

Até o momento, porém, a companhia não havia divulgado nenhuma operação específica relacionada às eleições legislativas de novembro.

O investigador-chefe da OpenAI, Ben Nimmo, afirmou que o objetivo é identificar essas iniciativas antes que consigam alcançar um público significativo.

“Estamos tentando detectar as operações antes que tenham a oportunidade de ganhar força”, declarou.

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Caçadores de fantasmas usam IA para criar imagens de espíritos

A busca por atividades sobrenaturais passou a incorporar inteligência artificial para analisar sinais e criar imagens de fantasmas. A chegada dessas ferramentas, porém, divide opiniões entre entusiastas da investigação paranormal.

Enquanto alguns investigadores adotam aplicativos que transformam dados de sensores de celulares em imagens, outros questionam a confiabilidade e a ética da tecnologia, além de seus impactos na dimensão humana dessa atividade.

A chegada da IA à investigação paranormal reacende debates sobre confiabilidade, direitos autorais e influência sobre crenças. – Imagem criada por inteligência artificial: Gemini/Olhar Digital

Aplicativos transformam sinais de celulares em imagens

Os investigadores Amy Waine e Jarrad Cutting criaram o GhostTube Seer, apresentado pela dupla como o primeiro aplicativo de caça aos fantasmas baseado em inteligência artificial. Lançado em 2023, o serviço utiliza o magnetômetro dos celulares para captar sinais magnéticos, identificar palavras e expressões associadas a eles e alimentar um gerador de imagens.

Disponível mediante assinatura mensal, o aplicativo já ultrapassou 1 milhão de downloads, segundo sua página na Google Play Store. Os usuários também podem compartilhar as imagens produzidas em um feed e comentar as publicações de outras pessoas.

Em uma investigação gravada na Winchester Mystery House para o canal Amy’s Crypt, no YouTube, Waine e Cutting utilizaram a ferramenta para produzir imagens de possíveis ambientes da residência, figuras humanas e animais. A dupla interpretou os resultados como possíveis referências à história do imóvel.

Outro exemplo é o Spirit Phone Innovations, aplicativo lançado pelo investigador paranormal Sean Austin, que participou de uma série sobre caça aos fantasmas no Travel Channel. A ferramenta utiliza IA para analisar sinais de áudio em busca de fenômenos de voz eletrônica (EVP), prática tradicional nesse tipo de investigação.

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A inteligência artificial também é usada para analisar gravações em busca de fenômenos de voz eletrônica, conhecidos como EVP. – Imagem criada por inteligência artificial: Gemini/Olhar Digital

Resistência e questionamentos sobre o uso da IA

A popularização dessas ferramentas ocorre em meio à proliferação de histórias e imagens sobrenaturais geradas artificialmente na internet. Desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, esse tipo de conteúdo ganhou espaço, levando comunidades como o subreddit r/Nosleep, dedicado a histórias de terror, a estabelecer regras rigorosas contra materiais produzidos por IA.

A pesquisadora paranormal e autora Alex Matsuo, que também trabalha no setor de tecnologia, experimentou o GhostTube Seer quando foi lançado, mas mantém uma postura cética. Para ela, a principal questão é entender quais informações alimentam os sistemas utilizados para identificar supostas manifestações sobrenaturais.

“Se você está usando IA, está usando algum tipo de modelo de linguagem grande. Com quais dados o sistema está sendo treinado para determinar o que é um fantasma?”, questionou ao The Guardian.

Entre as preocupações levantadas por Matsuo estão:

  • Direitos autorais: a possibilidade de ferramentas generativas utilizarem obras protegidas para produzir imagens próprias.
  • Bolhas de crenças: o risco de chatbots criarem ambientes em que usuários reforcem repetidamente suas convicções sobre fenômenos paranormais.

A desconfiança em relação às novidades tecnológicas, entretanto, não começou com a inteligência artificial. Matsuo lembra que tentativas de investigar o sobrenatural já acompanharam outras inovações, como os experimentos de Thomas Edison com um telefone espiritual para tentar contatar os mortos e as fotografias de espíritos produzidas nos séculos 19 e 20, em paralelo ao desenvolvimento de novas técnicas fotográficas.

Para a pesquisadora, a dimensão humana deve continuar no centro da investigação paranormal. Muitas pessoas chegam a esse universo depois de enfrentar traumas ou perder alguém próximo. A procura por respostas sobre o desconhecido, segundo ela, está frequentemente ligada a essas experiências.

A relação entre tecnologia e sobrenatural também aparece em outro episódio envolvendo a preservação de locais associados a histórias de fantasmas. Na Pensilvânia, um antigo asilo que abrigava uma conhecida atração de terror foi vendido, no fim de 2025, a uma empresa desenvolvedora de data centers. O plano era demolir o imóvel, mas moradores da região se mobilizaram e conseguiram barrar o projeto em maio.

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Eleições nos EUA podem impactar a IA que você usa

O resultado das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, que acontecem nesta terça-feira (3), poderá influenciar a tramitação de um projeto que propõe mudanças nas regras federais de licenciamento ambiental para obras de infraestrutura energética, em um momento de crescente demanda por eletricidade para abastecer os data centers que sustentam a expansão da inteligência artificial.

O que são as eleições de meio de mandato:

  • Termômetro da gestão: Ocorrem na metade do mandato presidencial de quatro anos e funcionam como uma avaliação popular da administração em exercício.
  • Composição do Congresso: Renovam todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e um terço das 100 cadeiras do Senado americano.
  • Disputas nos estados: Também incluem eleições para governadores e outros cargos estaduais em diferentes partes do país.
  • Margem de governabilidade: O resultado influencia a capacidade do presidente de aprovar leis e orçamentos e de conduzir sua agenda legislativa.
As Midterms (Eleições de Meio de Mandato) reconfiguram as cadeiras do Congresso e governos estaduais, testando a força da Casa Branca para a segunda metade do mandato. – Crédito: Imagem gerada por IA

Elaborada por parlamentares republicanos e democratas, a Lei Bipartidária Americana de Acessibilidade Econômica e Empregos (BAAJA, na sigla em inglês) pretende modificar procedimentos de avaliação ambiental e autorização de grandes empreendimentos. A iniciativa reúne mudanças em diferentes legislações e procura reduzir o tempo necessário para tirar projetos de infraestrutura do papel.

O texto é resultado de negociações entre quatro senadores que ocupam posições de liderança nas comissões de Meio Ambiente e Obras Públicas e de Energia e Recursos Naturais: Shelley Moore Capito e Mike Lee, republicanos, além de Sheldon Whitehouse e Martin Heinrich, democratas.

O que muda com a proposta de reforma

Um dos principais objetivos do BAAJA é estabelecer prazos para as avaliações ambientais federais. Pelo texto, análises de grandes projetos deverão ser concluídas, em geral, dentro de um a dois anos. A proposta também prevê maior coordenação entre órgãos governamentais, limita determinadas possibilidades de contestação judicial e estabelece condições para dar mais segurança às licenças concedidas.

O projeto altera dispositivos de três leis ambientais federais: a Lei Nacional de Política Ambiental (NEPA), que orienta a avaliação dos impactos de obras e empreendimentos; a Lei da Água Limpa, que protege os recursos hídricos; e a Lei de Espécies Ameaçadas, voltada à conservação de animais e plantas sob risco de extinção.

Segundo análise, a reforma pode alterar a maneira como projetos que afetam áreas naturais, cursos d’água e habitats de animais são analisados. O objetivo declarado pelos defensores é evitar que sucessivas etapas administrativas e disputas judiciais prolonguem indefinidamente a autorização de obras. Organizações ambientais, entretanto, questionam se a redução dessas etapas não diminuirá as oportunidades de participação pública e fiscalização.

Infográfico mostra como eleições americanas podem influenciar obras de energia e expansão da inteligência artificial.
Infográfico mostra como eleições americanas podem influenciar obras de energia e expansão da inteligência artificial. – Crédito: Imagem gerada por IA

A proposta também trata da transmissão de eletricidade. O BAAJA prevê mudanças na atuação da Comissão Federal Reguladora de Energia (FERC), ampliando sua possibilidade de autorizar determinadas linhas interestaduais quando os processos estaduais não avançarem. A iniciativa também modifica os critérios para esses empreendimentos e busca facilitar a conexão entre regiões produtoras e consumidoras.

Esse aspecto é especialmente relevante porque a expansão da geração elétrica não resolve, sozinha, os problemas de abastecimento. A energia produzida em uma usina precisa chegar aos consumidores por meio de uma rede capaz de transportar grandes volumes a longas distâncias. Quando faltam linhas de transmissão, novos projetos de geração podem enfrentar dificuldades para se conectar ao sistema, mesmo quando existe capacidade de produção disponível.

Para Thiago Maia, físico, com mestrado e doutorado em Física Nuclear, engenheiro de petróleo e com MBA em Gestão de Projetos, a simplificação do licenciamento pode contribuir para superar parte desses obstáculos. Em entrevista ao Olhar Digital, ele explicou que a construção de usinas, subestações e linhas de transmissão pode ganhar agilidade com a redução dos prazos de aprovação.

“O BAAJA poderá acelerar a construção de usinas, subestações e linhas de transmissão ao simplificar processos de licenciamento e reduzir prazos de aprovação. Isso facilitará o fornecimento de eletricidade aos data centers, que exigem grandes quantidades de energia de forma contínua”, afirma o especialista.

Maia ressalta, porém, que a mudança nas regras não garante, por si só, a ampliação da capacidade elétrica. A execução dos projetos também depende de investimentos, disponibilidade de equipamentos e planejamento da rede, fatores necessários para que a energia chegue efetivamente aos novos consumidores.

Inteligência artificial aumenta a pressão sobre a rede

A necessidade de ampliar e modernizar essa infraestrutura está relacionada ao crescimento do consumo de eletricidade nos Estados Unidos. Durante anos, a demanda nacional permaneceu relativamente estável, mas a expansão de atividades industriais, a eletrificação e, principalmente, a construção de centros de processamento de dados mudaram essa trajetória.

Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em 2026, estima que o consumo americano aumentará mais de 420 terawatts-hora entre 2025 e 2030. Os data centers deverão responder por aproximadamente metade desse crescimento, impulsionados pela expansão da inteligência artificial e dos serviços de computação em nuvem.

A Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA) também projeta recordes de consumo. Em sua previsão de setembro, a agência estimou vendas de eletricidade de 4.135 bilhões de quilowatts-hora em 2026 e 4.211 bilhões em 2027. A expansão dos centros de dados e das atividades industriais está entre os principais fatores por trás desses números.

Infográfico mostra como a expansão da inteligência artificial impulsiona o consumo de eletricidade nos EUA.
Infográfico mostra como a expansão da inteligência artificial impulsiona o consumo de eletricidade nos EUA. – Crédito: Imagem gerada por IA

O crescimento, porém, traz uma questão econômica: quem deverá pagar pela infraestrutura necessária para atender aos novos consumidores? A conexão de instalações de grande porte pode exigir transformadores, subestações e linhas de transmissão adicionais. Se esses investimentos forem distribuídos entre todos os usuários, famílias e pequenas empresas poderão acabar arcando com parte dos custos gerados por grandes companhias de tecnologia.

O próprio BAAJA busca enfrentar essa questão ao prever que os data centers arquem com os custos de transmissão de energia necessários ao funcionamento de suas instalações. Em junho, a FERC também determinou que os seis operadores regionais de rede sob sua jurisdição justificassem ou revisassem as tarifas aplicadas a grandes consumidores, entre eles os centros de processamento de dados.

A disputa por eletricidade também pode aumentar a desigualdade tecnológica entre países. Na avaliação de Maia, nações com maior disponibilidade de energia, redes modernas e capacidade financeira terão melhores condições para desenvolver tecnologias próprias e atrair investimentos em IA. “Países com energia abundante, infraestrutura moderna e maior capacidade financeira terão vantagens no desenvolvimento da inteligência artificial. Já países com eletricidade cara ou redes deficientes poderão depender de tecnologias estrangeiras, ampliando as desigualdades econômicas e tecnológicas”.

Nesse contexto, a infraestrutura energética passa a influenciar também a competitividade internacional. Países que não conseguirem acompanhar o crescimento do consumo poderão enfrentar dificuldades para desenvolver seus próprios centros de processamento de dados e depender mais de serviços oferecidos por empresas estrangeiras.

Eleições podem mudar o futuro da proposta

A nova composição do Congresso poderá influenciar diretamente a tramitação do BAAJA. O resultado determinará qual partido controlará as duas Casas durante os últimos dois anos do mandato de Donald Trump.

Essa composição interfere na presidência das comissões, na definição das pautas e na capacidade de aprovar projetos. Caso os democratas conquistem uma das Casas, poderão ampliar a fiscalização das decisões do governo e exigir mudanças na proposta. Se os republicanos mantiverem o controle, terão maior margem para conduzir a agenda legislativa da administração.

As possíveis consequências também ultrapassam as fronteiras americanas. Maia avalia que mudanças nas regras de licenciamento dos Estados Unidos podem servir de referência para outros governos interessados em acelerar obras de infraestrutura energética. 

Duas pessoas votando em eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos
Nos EUA, eleições de meio de mandato renovam o Congresso e testam a popularidade presidencial. – Crédito: Rob Crandall/Shutterstock

Entretanto, a redução de exigências ou etapas de avaliação pode gerar preocupações sobre a preservação ambiental e a participação das comunidades afetadas. “O principal desafio será conciliar agilidade nos investimentos com fiscalização e proteção ambiental. As mudanças poderão servir de referência para outros governos que buscam acelerar obras de infraestrutura energética”, afirma Maia.

Segundo a Reuters, a intenção dos negociadores é colocar a proposta entre as primeiras matérias analisadas quando os trabalhos forem retomados após as eleições. A Câmara ainda não aprovou o projeto, portanto sua transformação em lei dependerá de novas negociações e da tramitação nas duas Casas.

Outro ponto envolve as fontes de energia que serão utilizadas para atender ao crescimento da demanda. Como os data centers precisam de eletricidade continuamente, a insuficiência de outras fontes pode levar países a ampliar o uso de combustíveis fósseis, principalmente gás natural e carvão, para evitar interrupções no fornecimento.

Maia considera que esse risco é maior no curto prazo, quando a infraestrutura disponível não consegue acompanhar o aumento do consumo. Ao mesmo tempo, a expansão da IA também pode estimular investimentos em fontes alternativas e sistemas de armazenamento.

“Como os data centers precisam de eletricidade continuamente, países poderão ampliar o uso de gás natural e carvão quando não houver infraestrutura suficiente para atender à demanda com outras fontes. Entretanto, a expansão da inteligência artificial também poderá impulsionar investimentos em energia solar, eólica, nuclear e armazenamento”, explica.

O resultado das urnas não determinará, por si só, o futuro da infraestrutura energética dos Estados Unidos. No entanto, definirá a correlação de forças responsável por discutir os limites da reforma, fiscalizar sua aplicação e decidir quais projetos terão prioridade. As decisões do Congresso terão consequências não apenas para a expansão da rede elétrica, mas também para a proteção ambiental, a matriz energética e a distribuição dos custos entre empresas e consumidores.

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