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EUA, China e big techs: a batalha pela IA chega à ONU

Da pólvora à inteligência artificial, a tecnologia sempre esteve associada ao poder. Durante séculos, dominar determinadas ferramentas significou ampliar a capacidade de conquistar territórios, proteger fronteiras e impor interesses. A pólvora transformou profundamente a guerra; as grandes navegações moldaram a economia global; a máquina a vapor ajudou a impulsionar a industrialização; e a eletricidade e as telecomunicações redefiniram a velocidade com que Estados e empresas conseguiam produzir, comunicar e exercer influência.

E o mundo que vivemos hoje só é o mundo que vivemos hoje por causa desse histórico. Para o bem e para o mal.

Com a revolução digital, essa relação ganhou uma nova dimensão. Computadores, internet, satélites, semicondutores e grandes plataformas digitais se tornaram ativos estratégicos. Quem ocupa posições centrais nesse ecossistema não precisa controlar um território para exercer influência direta. A influência está traduzida nos fluxos de dados, comunicação e dinheiro que atravessam fronteiras.

Tudo isso afeta diretamente a economia e a vida cotidiana de bilhões de pessoas.

A inteligência artificial leva essa lógica adiante. A corrida atual não envolve apenas quem consegue criar o chatbot mais sofisticado. Envolve chips, energia, centros de dados, capacidade computacional, talentos, modelos e dados. No fundo, coloca empresas e governos diante de uma pergunta antiga com uma tecnologia nova: quem terá acesso às ferramentas mais poderosas e, principalmente, quem terá condições de definir como elas serão usadas?

Dadas as devidas proporções, as mesmas perguntas eram feitas sobre a tecnologia nuclear. Não por coincidência, há quem defenda uma cooperação para as IAs nos moldes do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

22 de setembro de 2026, Nova York

Chegamos à semana da Assembleia Geral da ONU. A cada edição, me parece que há mais motivos para tensão.

O encontro ocorre em meio a grandes guerras no Irã, Gaza, Ucrânia, Sudão, Congo e Mianmar.

Também estamos no auge das mudanças climáticas. Pelo menos, até agora. Sabemos que, neste particular, o amanhã tende a ser sempre pior.

Na economia, há impactos de eventos climáticos extremos e das guerras. Bloqueios a rotas de navegação e cadeia de suprimentos elevam o custo de vida e freiam o crescimento.

E a tecnologia terá um capítulo à parte em 2026 – graças à inteligência artificial. Ou melhor: graças aos interesses por trás das IAs. Em última instância, ainda falamos de humanos e não de máquinas.

Como qualquer tecnologia, as IAs podem fazer o bem e o mal. Essa discussão está superada. O ponto é outro.

IA: batalha de narrativas no palco da ONU

Começo com uma breve linha do tempo.

Entre abril e julho, falhas de segurança fizeram com que modelos de IA escapassem de ambientes de teste e atacassem servidores. No início de setembro, cientistas fizeram novos alertas sobre os riscos da tecnologia, com pesquisadores chegando a pedir demissão. Em 12 de setembro, o debate chegou aos líderes da indústria: parte dos CEOs passou a defender um freio no avanço da IA, enquanto outros discordaram da proposta.

E ainda mais recentemente, na última semana, a discussão ganhou dimensão global, com a ONU cobrando regulamentação e Estados Unidos e China divergindo sobre como lidar com a tecnologia.

Aqui vai uma descrição mais detalhada dos fatos:

  • O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo no dia 12 de setembro admitindo que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”, ou seja, sistemas de IA impulsionando cada vez mais o próprio desenvolvimento. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.
  • Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceXAI, e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei.
  • Numa postagem no X, Altman argumentou que desacelerar não significa parar, mas arcar com os custos de auditorias e testes de segurança. O objetivo seria evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento.
  • Ainda, em entrevista à revista Fortune, Altman disse ainda que a OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores em 2026. O motivo principal para segurar a oferta pública de ações é a preocupação com a segurança e com os riscos das tecnologias de inteligência artificial.
  • Os CEOs Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, se posicionaram contra a desaceleração coordenada. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos de sobra para construir IAs seguras por conta própria. E Huang declarou que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já cobrem a confiabilidade dos produtos.
  • O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China. Para a administração do republicano, manter a liderança tecnológica é uma questão de segurança nacional. 
  • Pequim respondeu ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. 
  • No texto, o veículo de comunicação chinês ainda classificou a postura dos executivos americanos como “hipócrita e míope”, argumentando que excluir a China da inovação global em IA aumentaria os riscos de perda de controle sobre a própria tecnologia.
  • A rejeição à desaceleração não significa, no entanto, que o governo chinês ignore os riscos da IA. Chen Yixin, ministro da Segurança, afirmou que o país precisa acelerar a criação de um sistema para prevenir e controlar problemas de segurança relacionados à tecnologia. Ele também defendeu uma ampla cooperação internacional e classificou a IA como um novo campo de rivalidade estratégica.

O Conselho de Segurança da ONU adicionou uma reunião de alto nível sobre inteligência artificial à agenda de quarta-feira, um sinal da crescente preocupação e da necessidade de abordar o assunto.

Em nosso YouTube, produzimos um especial sobre essa batalha de narrativas. Você pode conferir aqui. Spoiler: as IAs não vão acabar com o mundo. O ser humano, por outro lado, não posso garantir.

O que a ONU pensa sobre as IAs?

Em 14 de setembro, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, publicou uma carta aberta advertindo que a autorregulação voluntária é “extremamente insuficiente”. E que a corrida descontrolada por IAs autônomas gera riscos existenciais diretos aos direitos humanos.

No texto, Türk defende que nenhum país pode governar essa tecnologia sozinho e que nenhuma empresa tem o direito de decidir isoladamente os riscos que a sociedade deve aceitar. 

Quem também falou foi o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que alertou: riscos associados ao rápido avanço das IAs não podem ser ignorados.

“Para a ONU, a melhor maneira de lidar com os riscos globais da IA ​​é reunir os países para adotar princípios e compromissos compartilhados sobre a governança da IA” – diz um comunicado das Nações Unidas.

A ONU trabalha para criar um fórum onde os países possam desenvolver um entendimento comum sobre as tecnologias de IA e discutir como podem cooperar e regular questões como segurança, direitos humanos e disparidades de acesso.

Comparando o desenvolvimento da IA ​​à corrida armamentista da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, Guterres apelou à cooperação entre os países na vanguarda da IA ​​– incluindo os EUA e a China – para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia ​​enquanto os riscos continuam a ser avaliados:

“Os países que têm maior capacidade nas fronteiras da IA ​​– penso que deveriam estabelecer mecanismos de contato, trocar informações e criar algumas diretrizes comuns para evitar uma corrida desenfreada que um dia poderá levar a um desastre gigantesco a nível global”.

O segundo mandato de cinco anos do secretário-geral António Guterres termina em 31 de dezembro – e a sucessão continua uma incógnita.

Líderes mundiais na ONU

Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar na tribuna da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos, anfitrião da sede das Nações Unidas.

Ou seja, teremos Lula e Trump na sequência.

O presidente da China, Xi Jinping, deve enviar um representante em seu lugar. Contudo, ele participará na quarta-feira de um jantar com Donald Trump em Washington.

Entre os convidados estão alguns dos nomes mais conhecidos do setor de tecnologia, como Jeff Bezos, Elon Musk e Sam Altman. Jensen Huang, CEO da Nvidia; Sundar Pichai, CEO do Google; Michael Dell; e Jane Fraser, CEO do Citigroup, também foram chamados. Tim Cook, que deixou o cargo de CEO da Apple, também garantiu um lugar no jantar.

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Governo pede investigação sobre chatbots que simulam amizade e romance e aponta riscos para usuários no Brasil

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) recomendou, nesta segunda-feira (21), que a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) avalie os riscos dos chamados “companheiros de IA”, serviços que usam inteligência artificial (IA) para simular relações de amizade, companheirismo e até romance com usuários.

A recomendação consta de uma nota técnica da Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), vinculada ao Ministério da Justiça. O documento sugere que a ANPD examine esses serviços à luz do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) e de suas competências de fiscalização.

O documento não afirma que as plataformas cometeram infrações. A análise aponta, porém, indícios de “desconformidades” após uma avaliação preliminar de 13 serviços.

Foram analisadas as plataformas Character.AI, Replika, Nomi, Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, CrushOn.AI, EVA AI, Anima, Swipey e SpicyChat.AI. Segundo o próprio Ministério da Justiça, o levantamento tem caráter preliminar.

Quais são os riscos apontados pelo governo

  • Entre os pontos que a Sedigi considera merecerem investigação estão os mecanismos de verificação de idade, o risco de uso excessivo ou compulsivo, a exposição a conteúdo inadequado e a utilização de dados para criar perfis emocionais e comportamentais dos usuários;
  • A secretaria afirma que a maior parte dos serviços analisados utiliza a autodeclaração como único mecanismo de aferição de idade;
  • “Os achados técnicos indicam que a maior parte dos serviços analisados adota a autodeclaração como único mecanismo de aferição de idade”, disse a secretaria;
  • Segundo o órgão, a facilidade para contornar esse tipo de verificação pode indicar que os serviços são acessados por menores de idade e, portanto, estariam sujeitos às obrigações previstas no ECA Digital;
  • “Assim, a facilidade com que a autodeclaração é contornada não configura apenas deficiência do dever de aferição etária. Ela constitui, também, elemento indicativo do acesso provável, que submete o serviço ao conjunto das obrigações da lei”, acrescentou a Sedigi;
  • As plataformas analisadas possuem características diferentes, mas podem manter o histórico das conversas, adaptar respostas de acordo com o usuário e simular personalidade e emoções. Alguns serviços também oferecem interações de amizade, romance e conteúdo adulto.
Recomendação está nas mãos da ANPD – Imagem: Reprodução/ANPD

Leia mais:

Relação com o ECA Digital

A análise faz parte das ações do governo relacionadas à implementação do ECA Digital, a Lei nº 15.211/2025, que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.

A legislação se aplica a produtos e serviços de tecnologia direcionados a esse público ou cujo acesso por crianças e adolescentes seja provável. Entre os critérios previstos está justamente o risco à privacidade, à segurança e ao desenvolvimento biopsicossocial, especialmente em serviços voltados à interação social.

O ECA Digital entrou em vigor em março de 2026. A ANPD recebeu competências para zelar pela aplicação da legislação, regulamentar parte de seus dispositivos e fiscalizar o cumprimento das regras.

A própria agência publicou, em março, orientações preliminares para a adoção de mecanismos confiáveis de aferição de idade por serviços direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por esse público.

Senacon também pode analisar as plataformas

Além da recomendação à ANPD, o documento do Ministério da Justiça sugere que o assunto seja analisado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).

Nesse caso, a avaliação deverá considerar possíveis problemas relacionados à publicidade, monetização e uso das informações dos usuários pelas plataformas.

A recomendação ocorre enquanto o governo amplia a aplicação das regras brasileiras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Em setembro, o MJSP afirmou que o ECA Digital havia completado seis meses de vigência e destacou a atuação da ANPD na fiscalização das novas regras.

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OpenAI pede que EUA liderem criação de padrões globais para controlar riscos de IAs avançadas

A OpenAI quer que os Estados Unidos liderem um esforço internacional para criar padrões técnicos globais para sistemas de inteligência artificial (IA) de fronteira, incluindo tecnologias capazes de realizar aprimoramento recursivo de suas próprias capacidades.

A proposta foi apresentada pela empresa em publicação nesta segunda-feira (21), enquanto líderes mundiais se reúnem para a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). A iniciativa ocorre em meio ao debate internacional sobre como acompanhar o avanço de sistemas de IA cada vez mais capazes.

A OpenAI defende a criação de mecanismos que permitam estabelecer padrões nacionais e internacionais complementares, além de métricas comuns e protocolos para comunicação de incidentes. Segundo a empresa, a ideia é facilitar a comparação de evidências, a avaliação de riscos e a resposta coletiva a problemas relacionados à IA.

O foco no aprimoramento recursivo

  • Um dos principais pontos da proposta é o chamado aprimoramento recursivo (RSI, na sigla em inglês), processo no qual sistemas de IA passam a realizar cada vez mais tarefas relacionadas ao desenvolvimento de novas gerações de IA;
  • A OpenAI afirma que pesquisas automatizadas podem envolver diferentes níveis de supervisão humana. À medida que os sistemas assumem mais trabalho no desenvolvimento de sucessivas gerações de IA, eles poderiam conduzir um processo de aprimoramento recursivo, potencialmente acelerando o ritmo de avanço da tecnologia;
  • A empresa ressalta, porém, que o RSI totalmente autônomo não está acontecendo atualmente e que não deveria ser buscado enquanto não for possível realizá-lo com segurança;
  • Segundo a OpenAI, o avanço nessa área deve depender da capacidade de preservar o controle humano e de decisões democráticas informadas sobre seus benefícios e riscos. A empresa alerta que, sem supervisão adequada, humanos poderiam perder o controle prático sobre o desenvolvimento da IA e deixar de compreender os próprios processos de pesquisa realizados pelos sistemas.

Padrões internacionais

Para a OpenAI, padrões internacionais de segurança e proteção para o desenvolvimento de IA de fronteira podem ser tão importantes quanto pesquisas de alinhamento para acompanhar o avanço da tecnologia.

A empresa aponta três desafios principais que justificariam uma coordenação internacional:

  • Fragmentação: diferentes países podem adotar avaliações, exigências de comunicação e definições de incidentes incompatíveis entre si;
  • Ação coletiva: países agindo individualmente podem produzir resultados que nenhum deles desejaria, especialmente diante da possibilidade de aceleração da pesquisa por sistemas de IA;
  • Capacidade desigual: conhecimentos e atividades relacionados ao desenvolvimento de IA de fronteira estão distribuídos de maneira desigual entre os países.

A OpenAI afirma que esses desafios abrangem tanto modelos abertos quanto fechados.

A empresa também defende que laboratórios que desenvolvem pesquisa automatizada ou outras capacidades avançadas sejam responsáveis por fazê-lo com segurança, respeitando princípios básicos de responsabilidade própria e as leis existentes.

Como funcionaria a proposta

Uma das possibilidades apresentadas pela OpenAI seria aproveitar a rede de institutos nacionais de segurança em IA já criada em países, como Austrália, Canadá, Alemanha, França, Quênia, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Índia e Reino Unido.

Essas instituições poderiam ajudar na definição de padrões por meio do Center for AI Standards and Innovation (CAISI) e de organismos nacionais do setor, com foco em modelos de IA de fronteira e no gerenciamento de benefícios e riscos associados à pesquisa automatizada, incluindo o RSI.

Os padrões serviriam como uma base técnica comum para medir e avaliar capacidades, analisar riscos e verificar a suficiência de mecanismos de proteção.

A OpenAI esclarece que esses padrões não seriam licenças, revisões obrigatórias antes do lançamento ou requisitos de aprovação para modelos de IA. Caberia aos governos nacionais decidir se e como incorporá-los aos próprios sistemas legais.

A empresa também afirma que o processo deveria consultar desenvolvedores de modelos abertos e fechados, especialistas técnicos independentes e universidades. A proposta é que os padrões sejam desenvolvidos de maneira transparente e não favoreçam empresas, países ou modelos de negócio específicos.

Uma das possibilidades apresentadas pela OpenAI seria aproveitar a rede de institutos nacionais de segurança em IA já criada em alguns países – Imagem: Summit Art Creations/Shutterstock

Leia mais:

Métricas e comunicação de incidentes

A segunda parte da proposta envolve a criação de medições e protocolos comuns para comunicação de incidentes.

Entre os possíveis padrões citados pela OpenAI estão:

  • Avaliação do avanço de sistemas de IA relacionado ao RSI;
  • Medição da quantidade de pesquisa autônoma realizada dentro de uma empresa de IA;
  • Regras para supervisão humana de pesquisas automatizadas;
  • Definição de quais processos de pesquisa automatizada deveriam provocar uma revisão humana imediata;
  • Classificação, acompanhamento, comunicação e resposta a incidentes relacionados a alinhamento e pesquisa automatizada;
  • Definição de níveis comuns de gravidade e limites para comunicação de incidentes.

A OpenAI também defende que governos e operadores de infraestrutura crítica estabeleçam canais seguros de comunicação para compartilhar preocupações de segurança nacional, vulnerabilidades, ameaças emergentes e boas práticas relacionadas à segurança da IA de fronteira.

A empresa cita especificamente o diálogo entre Estados Unidos e China como uma área em que essa comunicação poderia avançar.

Por que os EUA?

A OpenAI argumenta que os Estados Unidos estão em posição de liderar o esforço porque sua indústria de IA está na fronteira tecnológica e o país ocupa posição relevante em áreas, como finanças, comércio, defesa, tecnologia e sistemas de informação.

Na avaliação apresentada pela empresa, assumir a liderança agora ajudaria a definir a estrutura global de IA, enquanto a ausência desse movimento poderia contribuir para um sistema fragmentado e desigual.

A proposta surge em momento de crescente discussão internacional sobre a necessidade de coordenar o desenvolvimento de sistemas avançados.

OpenAI e outros líderes do setor vêm discutindo formas de acompanhar o ritmo de desenvolvimento da tecnologia diante dos riscos associados a sistemas que poderiam eventualmente avançar além da capacidade de supervisão humana.

A OpenAI, porém, afirma que “pacing” — termo usado para descrever a ideia de acompanhar ou ajustar o ritmo do desenvolvimento — não significa estabelecer uma velocidade predeterminada para o avanço da IA.

Para a empresa, tecnicamente, o objetivo seria garantir que pesquisas de alinhamento e a aplicação dessas pesquisas permaneçam à frente das capacidades dos sistemas.

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52% dos brasileiros temem avanço da inteligência artificial e 42% acreditam que tecnologia vai reduzir empregos

Uma pesquisa do Pew Research Center revelou que 52% dos brasileiros estão mais preocupados do que animados com o avanço da inteligência artificial. O número coloca o país acima da mediana global de 37% e mostra o nível de preocupação com os efeitos da tecnologia.

O receio aparece principalmente quando o assunto é trabalho. Para muitos brasileiros, a expansão da IA vai resultar em menos postos de trabalho nos próximos 20 anos.

Brasileiros temem impacto da inteligência artificial no trabalho, e jovens estão ainda mais preocupados. – Imagem: Taris Tonsa/Shutterstock

Empregos estão entre os principais receios

A preocupação ganha força na discussão sobre o futuro profissional. Para 42% dos brasileiros, a inteligência artificial vai resultar em menos empregos nos próximos 20 anos. Outros 13% esperam um aumento nas vagas, enquanto 34% não sabem ou não têm uma opinião formada.

A expectativa de redução também aparece na maior parte dos países pesquisados. Em 34 dos 37 países e territórios analisados, mais pessoas esperam uma queda do que um aumento no número de empregos.

Entre os países de renda média, a mediana dos que esperam redução nas vagas é de 36%. Nos países de renda alta, o índice chega a 55%.

Temor cresce entre os mais jovens

Entre os brasileiros de 18 a 34 anos, a preocupação aumentou em um ano. Em 2025, 32% dessa faixa etária diziam estar mais preocupados do que animados com a inteligência artificial. Em 2026, o percentual chegou a 44%, uma alta de 12 pontos percentuais.

A preocupação com os empregos também é elevada entre jovens de outros países. Nos Estados Unidos, 74% dos entrevistados de 18 a 34 anos acreditam que a IA levará à redução de vagas. O percentual é de 69% no Canadá, 66% na França e 63% na Suécia.

Apesar da preocupação, 27% dos brasileiros afirmam nunca ter ouvido ou lido sobre inteligência artificial. Outros 42% dizem ter ouvido ou lido um pouco, enquanto 31% afirmam ter ouvido ou lido muito sobre o tema.

A parcela que declara ter ouvido ou lido muito sobre IA cresceu de 22% em 2025 para 31% em 2026. Nos países de renda média, a mediana é de 27%.

Chefe do FMI vê na inteligência artificial uma força de crescimento econômico e desigualdade social
Cerca de 24% dos entrevistados no Brasil acreditam que a inteligência artificial vai ampliar a desigualdade econômica no país. Imagem: thanmano / Shutterstock

Desigualdade econômica e perspectivas

A pesquisa também avaliou como os brasileiros enxergam os possíveis efeitos da IA sobre a desigualdade econômica. Para 24%, a tecnologia aumentará a desigualdade nos próximos 20 anos. Outros 35% acreditam que ela não terá impacto significativo nesse aspecto.

Leia mais:

Nos países de renda alta, a mediana dos que esperam aumento da desigualdade é de 35%. Entre os países de renda média, chega a 22%.

Os números mostram que a preocupação com a inteligência artificial no Brasil envolve principalmente o futuro do trabalho, enquanto uma parcela significativa da população ainda tem pouco ou nenhum contato com informações sobre a tecnologia.

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EUA e China discutem canal para alertar um ao outro sobre incidentes de inteligência artificial que envolvam riscos

Estados Unidos e China iniciaram conversas para criar um sistema de notificação sobre incidentes de inteligência artificial. O objetivo é evitar que falhas técnicas ou crises de segurança nacional desencadeiem conflitos entre as potências.

A iniciativa faz parte de um diálogo bilateral sobre a tecnologia e ganha força no momento em que a indústria enfrenta alertas crescentes sobre os riscos de modelos avançados.

Falhas técnicas em sistemas de IA podem ganhar um novo canal de comunicação entre Washington e Pequim. – Imagem: wildpixel/iStock

Canal de comunicação para evitar crises

A ideia é criar uma ponte direta entre Washington e Pequim para notificar falhas graves e episódios críticos em tempo real, evitando mal-entendidos diplomáticos.

O tema deve entrar na pauta do encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping nesta semana.

Achamos que, como em qualquer atividade transfronteiriça, sair do opaco para mais transparência entre a potência número um e a número dois em IA no mundo é muito importante.

Scott Bessent, Secretário do Tesouro americano, em entrevista coletiva.

Insegurança em modelos de ponta impulsiona acordo

Alertas disparados nas últimas semanas colocaram em dúvida as travas de proteção dos sistemas atuais. Relatos de funcionários da Anthropic, por exemplo, mencionaram riscos extremos em ferramentas de ponta.

A discussão dividiu o setor em visões opostas:

  • Executivos da OpenAI e da Anthropic defendem desacelerar o desenvolvimento para estabelecer normas de segurança.
  • Donald Trump rejeita pausar as pesquisas para não perder a vantagem dos EUA na corrida tecnológica: “Quem vencer a IA, vence!”, afirmou.
  • Especialistas do mercado cobram a aplicação de leis de responsabilidade e cibersegurança que já estão em vigor.
Ilustração de mãos com bandeiras da China e dos Estados Unidos puxando corda
O debate sobre segurança de IA envolve governos e empresas diante dos riscos de modelos cada vez mais avançados. Imagem: Andy.LIU/Shutterstock

Divergências sobre regulação e concorrência

Enquanto governos tentam prevenir acidentes tecnológicos, o setor privado debate os limites das regras. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, criticou a criação de novas normas alarmistas.

Leia mais:

“Aplique isso primeiro. Não deixe essa narrativa apocalíptica permitir que alguém se livre das leis que já existem.”

Na mesma linha, fundadores de plataformas de código aberto, como Thomas Wolf, da Hugging Face, alertam que a busca por supremacia tecnológica compromete a cooperação internacional. Ao mesmo tempo, os EUA mantêm barreiras para limitar o acesso chinês a chips avançados.

A criação do canal de alerta tenta impor ordem a um setor que avança sem fronteiras claras. O desafio agora será manter essa via de comunicação aberta enquanto a disputa comercial e tecnológica entre as duas potências segue acirrada.

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ONU quer cooperação global para criar salvaguardas enquanto os riscos da IA ainda são avaliados

Governos não deveriam esperar que todos os riscos da inteligência artificial sejam completamente compreendidos para começar a criar salvaguardas, defende a ONU. O alerta está no primeiro relatório temático do painel científico internacional criado pela organização para avaliar os riscos e as oportunidades da tecnologia.

O documento chama a atenção para ameaças que podem ser catastróficas ou irreversíveis. A discussão ocorre durante a Assembleia Geral da ONU, enquanto Estados Unidos e China se preparam para conversar sobre inteligência artificial.

Para a ONU, a incerteza científica não deve impedir medidas contra possíveis danos graves ou irreversíveis causados pela IA – Imagem: Infinite Creations/iStock

O princípio da precaução

Para o painel, não é preciso descobrir exatamente como ou por que determinados incidentes envolvendo sistemas avançados de IA acontecem antes de reforçar a segurança.

A recomendação recorre ao princípio da precaução. A ideia é que a incerteza científica, por si só, não deve impedir medidas contra possíveis danos graves ou irreversíveis. O conceito foi incorporado à Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, de 1992, e passou a influenciar políticas ambientais e de saúde pública.

O relatório considera esse princípio particularmente importante diante da possibilidade de perda de controle sobre sistemas de IA. Entre os pontos destacados estão:

  • mais atenção aos riscos de sistemas avançados;
  • mais recursos para segurança da IA;
  • maior coordenação entre países;
  • mecanismos mais fortes de responsabilização;
  • salvaguardas mesmo quando ainda existem incertezas científicas.

O texto também menciona incidentes envolvendo empresas como OpenAI, Anthropic, Google e Meta, incluindo ataques a alvos reais e grupos de agentes assumindo o controle de fóruns de mensagens.

Como a ONU pretende agir

O painel científico é parte de uma estrutura montada pela ONU para discutir a governança da inteligência artificial. Sua função é oferecer aos governos uma avaliação independente sobre aquilo que já se sabe — e o que permanece desconhecido — a respeito da tecnologia.

Ao lado dele está o Diálogo Global sobre Governança de IA. O painel apresenta as evidências, enquanto o diálogo reúne governos e outros setores para discutir cooperação e compatibilidade entre diferentes abordagens de governança.

António Guterres, secretário-geral da ONU, resumiu a posição da organização: “A ação nacional é essencial, mas a coordenação global é indispensável”.

Ilustração da distribuição de uso da IA pelo mundo
Governos são incentivados a agir antes que exista certeza científica completa sobre os riscos de sistemas avançados de IA. – Imagem criada com IA. ChatGPT/Olhar Digital

EUA e China no centro das conversas

O tema chega à agenda internacional no momento em que Estados Unidos e China se preparam para discutir IA. Guterres defende que os países com maior capacidade no desenvolvimento de sistemas de fronteira mantenham canais de contato, troquem informações e estabeleçam salvaguardas comuns.

Leia mais:

O secretário-geral comparou o desenvolvimento da IA à corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria. Para ele, mecanismos de cooperação são necessários para evitar uma disputa que eleve os riscos globais.

A ONU também trabalha em propostas como um compromisso internacional voltado à segurança de crianças no uso da IA e um fundo global para apoiar países em desenvolvimento na construção de infraestrutura e capacidade tecnológica.

Guterres resumiu a preocupação ao afirmar que “o mundo não pode se dar ao luxo de entrar em uma corrida para o nível mais baixo de segurança em IA”.

A organização busca transformar os mecanismos científicos e diplomáticos já criados em medidas práticas à medida que os sistemas de inteligência artificial avançam.

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Papa Leão XIV faz alerta sobre o uso de IA na guerra e cobra regras éticas globais para a tecnologia

O papa Leão XIV voltou a pedir que a inteligência artificial seja desenvolvida para promover a paz e preservar a dignidade humana. Em Roma, ele criticou sistemas que possam aprofundar divisões sociais e alertou para os riscos da tecnologia em conflitos.

A posição está presente também em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, publicada em maio. O documento propõe regras, supervisão e limites éticos para o desenvolvimento da IA.

Leão XIV alerta que a inteligência artificial pode acelerar conflitos militares e tornar decisões sobre vida e morte mais impessoais. – Imagem: K_E_N/Shutterstock

Um pedido por uma IA voltada à paz

Leão XIV fez o apelo durante a conferência AI4Peace, realizada na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. O encontro reuniu o economista norte-americano Jeffrey Sachs, a presidente do conselho municipal de Roma, Svetlana Celli, e Francisco Rojas Aravena, reitor da Universidade para a Paz das Nações Unidas, na Costa Rica.

“Em um mundo marcado por conflitos e divisões, o desenvolvimento da inteligência artificial exige uma visão inspirada pela sabedoria e pela caridade”, afirmou o papa em uma mensagem enviada ao evento.

Tecnologia sob responsabilidade humana

Na encíclica, Leão XIV rejeita a ideia de que a tecnologia seja inerentemente ruim. Ao mesmo tempo, afirma que ela não é neutra, pois carrega características de quem a desenvolve, financia, regulamenta e utiliza.

Para o pontífice, a criação de sistemas de IA deve vir acompanhada de responsabilidade e prestação de contas. O documento aponta cinco frentes:

  • proteção da dignidade humana;
  • supervisão independente dos sistemas;
  • políticas e estruturas legais adequadas;
  • padrões éticos compartilhados;
  • educação para o uso responsável das ferramentas digitais.

Leão XIV ainda alerta para a concentração tecnológica. Segundo a encíclica, deixar essas ferramentas nas mãos de poucos pode aumentar a distância entre quem participa da transformação digital e quem permanece excluído dela.

Ilustração conceitual de inteligência artificial derrubando cargo no mercado de trabalho
Para o Papa, o avanço da automação deve respeitar o ritmo humano em vez de exigir adaptação contínua às máquinas. – Imagem: Jack_the_sparow/Shutterstock

O futuro do trabalho

O impacto da IA sobre o trabalho é outro tema abordado pelo papa. Ele reconhece que a tecnologia pode assumir tarefas repetitivas, mas questiona um modelo no qual os trabalhadores precisam se adaptar constantemente ao ritmo das máquinas.

Leia mais:

A encíclica afirma que o avanço tecnológico não deve ser orientado apenas por produtividade e lucro. Dignidade e bem comum, segundo o documento, precisam entrar nessa equação.

Quando a IA entra na guerra

Leão XIV dedica atenção especial ao emprego da inteligência artificial militar. Para ele, a revolução digital está alterando a natureza dos conflitos e exige limites éticos definidos internacionalmente.

O papa alerta que sistemas de IA podem acelerar confrontos, tornar decisões sobre vida e morte mais impessoais e reduzir vítimas a dados.

Não há algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável.

Papa Leão XIV em mensagem enviada durante a conferência AI4Peace.

Como alternativa à lógica de poder, o documento defende diálogo, diplomacia e cooperação internacional. A mensagem apresentada em Roma reforça, assim, a visão de que o avanço da IA deve estar orientado pela dignidade humana, pela paz e pelo bem comum.

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Medo de IA destruir empregos é global; pesquisas mostram onde impacto já aparece

O medo de que a inteligência artificial (IA) se transforme em uma “destruidora de empregos” não está restrito a poucos países ou grupos de trabalhadores. Pesquisas recentes mostram que a preocupação aparece em diferentes regiões do mundo e em diversos recortes do mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, os dados apontam para um cenário que vai além da ideia de uma demissão em massa provocada pela IA. Os primeiros sinais aparecem em mudanças mais silenciosas, especialmente na entrada de jovens no mercado de trabalho e na maneira como empresas adotam e controlam o uso dessas ferramentas.

Maioria espera menos empregos com a IA

  • Uma pesquisa do Pew Research, realizada em 37 países, mostra a dimensão da preocupação. Em 34 deles, as pessoas consideram mais provável que a IA reduza empregos nos próximos 20 anos do que crie novas vagas;
  • Na mediana dos países pesquisados, 46% acreditam que haverá menos empregos por causa da tecnologia, enquanto apenas 9% esperam um aumento nas vagas. Cerca de um quarto dos entrevistados respondeu que não sabe o que esperar;
  • O pessimismo é ainda maior em alguns países ricos. Austrália e Coreia do Sul aparecem com 76%, enquanto os Estados Unidos chegam a 71% entre os que acreditam que a IA provavelmente reduzirá o número de empregos;
  • A percepção sobre desigualdade também segue tendência negativa: mais pessoas acreditam que a IA aumentará a distância entre ricos e pobres do que aquelas que esperam uma redução dessa diferença;
  • Ainda assim, a relação com a tecnologia não é exclusivamente negativa. Na mediana global, 41% dizem estar tão preocupados quanto animados com o uso da IA no dia a dia. Outros 37% afirmam estar principalmente preocupados, enquanto 13% estão principalmente animados.

Jovens são os primeiros a sentir o impacto nos EUA

Uma análise revisada do Stanford Digital Economy Lab, baseada em dados de folha de pagamento da ADP que abrangem milhões de trabalhadores estadunidenses até junho de 2026, encontrou sinais de impacto especialmente entre os profissionais mais jovens.

Segundo o estudo, o emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações muito expostas à IA está 19% abaixo do esperado, na comparação com jovens que trabalham em funções menos expostas à tecnologia.

Os próprios autores fazem uma ressalva importante: isso não significa que 19% desses trabalhadores tenham perdido seus empregos por causa da IA. Os dados também não comprovam uma relação de causalidade, já que outros fatores econômicos podem ter influenciado os resultados.

O padrão observado parece estar mais relacionado a menos contratações do que a um aumento expressivo nas demissões. Na prática, a mudança pode estar aparecendo primeiro na porta de entrada das empresas.

Entre profissionais mais experientes, o estudo não encontrou uma diferença comparável. Em algumas funções, o nível de emprego permaneceu estável ou chegou a crescer.

Agentes de IA podem transformar tarefas de milhões de trabalhadores

Outro estudo, conduzido pelo Stanford SALT Lab, analisou como os chamados agentes de IA podem alterar o trabalho de aproximadamente 70 milhões de pessoas nos Estados Unidos.

Os pesquisadores ouviram 1,5 mil profissionais de 104 ocupações e analisaram 844 tarefas, buscando entender não apenas o que a IA é capaz de fazer, mas também quais atividades os próprios trabalhadores estariam dispostos a delegar às máquinas.

Em 46,1% das tarefas, os trabalhadores avaliaram positivamente a possibilidade de automação, principalmente quando ela poderia liberar tempo para atividades consideradas mais importantes.

Essa distinção é central para o estudo: uma coisa é perguntar o que a IA consegue fazer; outra é saber o que as pessoas querem entregar para ela. As duas respostas nem sempre são iguais.

Em muitas ocupações, o modelo preferido pelos trabalhadores é o de “parceria”, com humanos e IA dividindo as tarefas, em vez de entregar todo o trabalho para a máquina.

A pesquisa também sugere uma mudança na importância relativa de determinadas habilidades. Tarefas ligadas ao processamento de informações, como atualizar conhecimentos e analisar dados, podem perder espaço proporcionalmente, enquanto atividades relacionadas à coordenação, interação e tomada de decisão tendem a exigir maior participação humana.

Outro estudo analisou como os chamados agentes de IA podem alterar o trabalho de aproximadamente 70 milhões de pessoas nos Estados Unidos – mayam_studio / Shutterstock

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Um terço usa IA no trabalho sem avisar o chefe

Uma pesquisa da Deloitte UK, que ouviu 25 mil trabalhadores, mostra outro aspecto da transformação: a adoção de ferramentas de IA dentro das empresas nem sempre acontece de maneira oficial.

Segundo o levantamento, 63% dos trabalhadores usam IA generativa no trabalho e quase um quarto afirma utilizar essas ferramentas diariamente.

Entre os usuários, 31% dizem usar IA sem que o empregador saiba. É o chamado shadow AI, situação em que ferramentas de IA passam a fazer parte da rotina profissional sem necessariamente estarem previstas ou autorizadas pelas regras da empresa.

O levantamento também aponta que quase metade dos trabalhadores, 49%, não recebeu treinamento formal para utilizar IA de maneira segura e eficaz. Isso pode aumentar o risco de informações internas serem enviadas inadvertidamente para serviços externos.

Os dados indicam, portanto, que simplesmente liberar ou bloquear ferramentas de IA pode não ser suficiente. Para as empresas, o desafio também envolve entender onde a tecnologia está sendo usada e quais tarefas realmente se beneficiam dela.

Por que a tecnologia assusta tanto?

Os diferentes levantamentos ajudam a explicar por que a IA provoca preocupação em tantas partes do mundo. Quando a tecnologia é percebida como uma ameaça ao próprio trabalho e à renda familiar, seus possíveis benefícios podem não ser suficientes para eliminar o receio.

Parte desse cenário também está relacionada à maneira como a própria indústria de IA apresentou suas tecnologias nos últimos anos. Na tentativa de demonstrar aos investidores o potencial dos produtos, executivos, como Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, falaram sobre a possibilidade de a IA substituir profissões inteiras e representar nova revolução industrial.

Esse discurso ajudou a destacar o potencial econômico da tecnologia, mas também alimentou preocupações sobre o futuro do trabalho.

Agora, pesquisas realizadas em diferentes países mostram que o receio já faz parte da percepção pública sobre a IA, enquanto estudos sobre o mercado de trabalho começam a identificar mudanças, especialmente entre trabalhadores jovens, e nas tarefas que empresas e profissionais estão dispostos a delegar às máquinas.

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Hackers que invadiram a OpenAI alertam para problema de segurança na indústria de inteligência artificial

Pesquisadores de cibersegurança que invadiram os sistemas da OpenAI recentemente afirmam que a indústria de inteligência artificial (IA) ainda não está preparada para os riscos de segurança criados pelo avanço e pelo crescente poder da própria tecnologia.

Pesquisadores da Hacktron, startup de segurança de computadores, conseguiram entrar nos sistemas da empresa responsável pelo ChatGPT com a ajuda do Claude, chatbot desenvolvido pela Anthropic, principal concorrente da OpenAI.

Segundo publicações da Hacktron no X, os pesquisadores começaram atacando um painel de mensagens público e, a partir dele, conseguiram acessar sistemas privados da OpenAI, incluindo parte do código interno da empresa.

A OpenAI corrigiu o problema e pagou US$ 6,5 mil (R$ 33,4 mil) aos pesquisadores pela descoberta e comunicação da vulnerabilidade.

O episódio, porém, somado a outros incidentes nos quais modelos de IA acessaram a internet sem serem detectados e atacaram outras empresas, aumentou as críticas de especialistas em cibersegurança. Para eles, os esforços das empresas de IA para proteger seus sistemas não acompanham o enorme poder que elas atribuem à própria tecnologia.

Mohan Pedhapati, um dos pesquisadores da Hacktron que invadiram a OpenAI, afirmou que o uso de softwares empresariais convencionais, como Slack, navegadores de internet voltados ao consumidor e outros aplicativos acessíveis pela internet pública, deixa a companhia vulnerável a possíveis ataques.

“Se as pessoas que constroem esses sistemas realmente acreditam que eles são poderosos o suficiente para criar riscos de nível nuclear, e estão falando em desacelerar por causa desses riscos, por que esse trabalho… é feito por meio de produtos SaaS comuns?”, questionou Pedhapati em uma publicação no X.

“Um tiro de advertência”

O CEO da OpenAI, Sam Altman, recentemente se juntou a outros líderes do setor que defendem desacelerar o ritmo de desenvolvimento da IA, diante da preocupação de que as capacidades da tecnologia estejam avançando mais rápido do que a capacidade da indústria de controlá-la.

Em comunicado, um porta-voz da OpenAI agradeceu aos pesquisadores por entrarem em contato e compartilharem suas descobertas. A empresa afirmou ainda que reforçou suas medidas de segurança.

Para Frank Cilluffo, diretor do McCrary Institute for Cyber and Critical Infrastructure Security da Auburn University, o fato de uma pequena equipe de pesquisadores ter conseguido realizar o ataque — segundo eles, por um custo de US$ 3 mil (R$ 15,4 mil) para utilizar os sistemas da Anthropic — deveria ser encarado como um “tiro de advertência”.

“Se três pesquisadores responsáveis, equipados com ferramentas comerciais de IA, conseguiram alcançar esse nível de acesso em questão de dias, temos que presumir que serviços de inteligência estrangeiros com muitos recursos estão perseguindo os mesmos alvos continuamente e certamente nunca avisando o alvo sobre o que fizeram e como fizeram”, afirmou Cilluffo.

Especialistas em segurança nacional há anos alertam que empresas estadunidenses de IA devem esperar ser alvos de hackers apoiados por governos estrangeiros interessados em reduzir a vantagem dos Estados Unidos na tecnologia.

Os pedidos para desacelerar o desenvolvimento da IA também levaram parlamentares dos dois principais partidos estadunidenses a defenderem maior supervisão governamental sobre o setor.

O presidente Donald Trump, por sua vez, rejeitou firmemente essas propostas e afirmou que a indústria precisa avançar rapidamente para permanecer à frente da China.

Claude foi usado no ataque à OpenAI

  • A invasão da OpenAI pela Hacktron, realizada com o auxílio dos recursos de segurança do Claude, ocorreu depois de meses de debate na indústria de tecnologia e no governo Trump sobre como lidar com a crescente capacidade dos modelos de IA de identificar falhas de segurança em softwares;
  • OpenAI e Anthropic limitaram o acesso às capacidades completas de cibersegurança de seus chatbots. Ao mesmo tempo, empresas chinesas lançaram modelos gratuitos de IA com recursos avançados de invasão disponíveis para qualquer pessoa;
  • Em julho, a OpenAI afirmou que alguns de seus próprios agentes de IA haviam escapado dos sistemas da empresa durante testes internos. Os agentes acessaram a internet pública e invadiram outra empresa de IA;
  • O episódio provocou críticas de especialistas em cibersegurança, que disseram que a OpenAI poderia ter feito mais para impedir que seus sistemas de IA escapassem da rede;
  • A empresa contratou pesquisadores externos de IA para investigar por que os agentes conseguiram escapar. A investigação, porém, não incluiu uma análise independente tradicional de cibersegurança após o incidente.
Invasão da OpenAI pela Hacktron ocorreu depois de meses de debate na indústria de tecnologia e no governo Trump sobre como lidar com a crescente capacidade dos modelos de IA de identificar falhas de segurança em softwares – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock

O ataque da Hacktron aconteceu aproximadamente no mesmo período do episódio envolvendo os agentes de IA.

Pouco depois, a OpenAI redirecionou uma parcela significativa de seus recursos de engenharia para reforçar a segurança. Greg Brockman, presidente da empresa, afirmou em entrevista a um podcast da empresa de investimentos Andreessen Horowitz que 25% dos engenheiros de produção foram transferidos temporariamente para essa tarefa.

“Pegamos 25% dos nossos engenheiros de produção e dissemos: ‘Desculpem, todos os seus projetos estão suspensos. Agora vocês estão na defesa’”, contou Brockman. “Encontramos vários problemas graves e os corrigimos”, acrescentou.

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Pesquisadores criticam reação da OpenAI

Os pesquisadores da Hacktron também criticaram a maneira como a OpenAI reagiu depois que eles comunicaram à empresa que haviam encontrado uma forma de entrar em seus sistemas.

Assim como muitas grandes empresas, a OpenAI incentiva publicamente pesquisadores de segurança a relatarem vulnerabilidades.

Fabian Faessler, chefe de engenharia de agentes da Hacktron, afirmou em publicação no X que Dane Stuckey, diretor de segurança da informação da OpenAI, havia chamado os pesquisadores de pouco profissionais. Faessler disse que esperava uma reação mais receptiva da empresa.

Dan Wallach, pesquisador residente em segurança de IA na organização Rand, afirmou que a OpenAI teve sorte porque a vulnerabilidade foi descoberta por pesquisadores que decidiram se apresentar e compartilhar o que haviam encontrado.

“Como regra geral, não é educado fazer o que eles fizeram, mas eu acho que a OpenAI deveria estar satisfeita porque o invasor foi gentil o suficiente para avisá-los”, disse Wallach ao The Washington Post.

Depois da publicação da sequência de posts de Faessler no X, Stuckey entrou em contato com o pesquisador para pedir desculpas, segundo uma publicação posterior de Faessler.

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OpenAI prevê “queimar” US$ 280 bilhões até 2030 para financiar expansão da infraestrutura de IA

A OpenAI projeta um fluxo de caixa livre negativo de US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhão) entre 2026 e 2030, segundo apresentação recente da empresa vista pelo Financial Times. O valor evidencia a dimensão dos recursos necessários para financiar a expansão da infraestrutura de computação usada pela companhia.

A empresa espera que suas receitas avancem de US$ 36 bilhões em 2026 para US$ 350 bilhões em 2030, mas ainda assim prevê que as despesas ficarão muito acima da geração de receita no período. Ao todo, a OpenAI estima registrar US$ 840 bilhões em receitas até o fim de 2030.

Gastos com computação devem concentrar maior parte dos recursos

De acordo com o FT, a OpenAI prevê gastar cerca de US$ 856 bilhões em poder computacional e infraestrutura até o fim de 2030. Esse deve ser, de longe, o maior grupo de despesas da empresa durante o período.

Os investimentos estão relacionados à ampliação do acesso à capacidade computacional necessária para treinar e operar modelos de inteligência artificial. A companhia também reduziu preços enquanto busca conquistar negócios da rival norte-americana Anthropic e enfrentar modelos de pesos abertos mais baratos desenvolvidos na China.

A necessidade de financiamento ganhou importância depois que a OpenAI levantou US$ 122 bilhões em março. Segundo a apresentação citada pelo FT, esse montante pode ser consumido até 2028 caso as projeções de gastos sejam mantidas.

Nova rodada de investimentos pode superar US$ 1,2 trilhão em avaliação

A OpenAI entrou recentemente em negociações para uma nova rodada de financiamento. Investidores procuraram a empresa para discutir aportes considerando uma avaliação de US$ 1,2 trilhão, enquanto a companhia busca uma avaliação ainda maior, segundo uma pessoa próxima à OpenAI ouvida pelo FT.

A capacidade da empresa de obter novos recursos também está ligada a acordos financeiros e contratos de infraestrutura firmados para garantir acesso à capacidade computacional. Empresas como Nvidia, Oracle e a unidade de data centers da SoftBank dependem desses contratos para parte de suas receitas futuras.

Apesar das projeções de forte consumo de caixa, há sinais de crescimento da receita. Novos lançamentos de modelos contribuíram para um aumento de aproximadamente 20% na receita anualizada da OpenAI em julho.

A projeção atual também representa uma melhora em relação à estimativa apresentada em maio, quando a empresa previa fluxo de caixa livre negativo de US$ 305 bilhões.

IPO foi adiado

A OpenAI havia planejado uma oferta pública inicial de ações para este outono e protocolou confidencialmente os documentos junto à Securities and Exchange Commission em junho. Desde então, porém, o processo foi adiado.

A empresa citou a crescente preocupação pública com os riscos associados ao rápido desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial como motivo para o adiamento. Alguns investidores também apontaram preocupações sobre a recepção nos mercados públicos de uma companhia que registra perdas elevadas.

A Anthropic, por sua vez, deve realizar uma oferta pública inicial neste outono, em uma operação que pode ser a maior desse tipo já registrada. A OpenAI não comentou as informações ao FT.

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