A Organização das Nações Unidas (ONU) fez um alerta direto às grandes empresas de inteligência artificial: chegou a hora de abrir a conta e mostrar quanto essa tecnologia realmente custa ao planeta. O recado foi dado durante a Climate Action Week, em Londres.
Segundo a Reuters, o secretário-geral da ONU, António Guterres, voltou a cobrar transparência sobre o impacto ambiental dos data centers que sustentam sistemas de IA.
Data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água, segundo alerta feito pela ONU em Londres. – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O custo invisível da IA
A discussão não é exatamente nova, mas ganhou outro peso com a velocidade da inteligência artificial. Por trás dos modelos que viraram parte do dia a dia, existe uma infraestrutura enorme — e cara — de data centers que funcionam sem parar.
Guterres defende que as empresas divulguem, de forma clara, quanto emitem de carbono, quanta água consomem e quanto solo ocupam. E fez um alerta direto: até 2030, esses sistemas podem consumir mais energia do que todos os países do mundo, exceto cinco. Também podem demandar água suficiente para abastecer cerca de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana por um ano.
“Se a IA deve ajudar a construir um futuro melhor, ela precisa ser honesta sobre o que nos custa hoje”, disse António Guterres.
Data centers, energia e uma conta que cresce rápido
Os data centers são o coração da inteligência artificial moderna. E, para funcionar, eles não param nunca. Isso significa consumo constante de energia e sistemas intensos de refrigeração — que também exigem muita água.
Na tentativa de sustentar esse crescimento, empresas vêm combinando diferentes fontes de energia, incluindo gás natural e até nuclear, ao mesmo tempo em que anunciam metas de neutralização de carbono. Mas, para a ONU, isso ainda não é suficiente.
A organização quer acelerar a mudança para fontes renováveis e defende que toda essa infraestrutura seja alimentada por energia limpa até 2030.
E aqui o cenário fica mais claro quando se observa o conjunto:
consumo de energia segue crescendo com a expansão da IA
sistemas de refrigeração aumentam a demanda por água
a infraestrutura digital se espalha em ritmo acelerado pelo mundo
metas de energia renovável ainda estão distantes da prática
falta clareza sobre o impacto ambiental real das operações
Data centers funcionam sem parar e ampliam consumo de energia, segundo alerta da Organização das Nações Unidas. – Imagem: KM Stock/Shutterstock
O metano entra de novo na conversa
No meio desse debate sobre IA, Guterres puxou outro tema que costuma ficar em segundo plano: o metano. Ele pediu mais ação do setor de petróleo e gás para cortar emissões desse gás, que é altamente poluente e tem papel importante no aquecimento global.
O pedido é direto: reduzir vazamentos, acabar com a queima rotineira de gás e adotar padrões científicos mais rígidos. E ele foi além — disse que o mundo ainda não está na rota certa para cumprir suas metas climáticas.
Antes da COP31, uma cobrança global
A ONU também já olha para a próxima grande reunião do clima. Antes da COP31, marcada para a Turquia, Guterres vai reunir líderes mundiais em setembro para tentar acelerar compromissos.
A ideia é empurrar uma transição energética mais organizada, menos dependente de combustíveis fósseis. Mas, no fim das contas, o recado principal não muda: a inteligência artificial pode até estar moldando o futuro, mas o impacto ambiental que ela deixa no presente não dá mais para ficar fora da conta.
A consultora de RH venceu uma ação em um tribunal inglês com apoio de um sistema de advocacia baseado em IA. O caso, envolvendo uma dívida de £ 7.000 (cerca de R$ 44.000), acabou chamando atenção não só pelo valor, mas pela forma como tecnologia e prática jurídica tradicional se misturaram.
Mais do que uma disputa financeira, o episódio mostra como ferramentas de IA começam a aparecer em cobranças mais simples — embora ainda dependam de atuação humana para chegar ao fim.
Tecnologia jurídica entra em cena e ajuda a preparar ação antes da audiência no tribunal. – Imagem: DJSPIDA FOTO/Shutterstock
Quando a IA entrou na disputa
Segundo o The Guardian, a consultora de RH Tamires Camal Taquidir recorreu à Garfield AI para tentar recuperar uma dívida de £ 7.000 (cerca de R$ 44.000), pagando aproximadamente £ 400 (cerca de R$ 2.500) pelo serviço. A ferramenta ajudou desde o começo, organizando notificações, preparando documentos e até respondendo aos argumentos apresentados pela outra parte.
Na prática, o sistema assumiu boa parte da preparação do caso antes da audiência. Tamires explicou a decisão de usar a tecnologia de forma simples.
Eu tinha valores a receber por um trabalho realizado, mas sentia que o processo de recuperação poderia ser excessivamente estressante, caro e demorado. A Garfield tornou possível dar continuidade à cobrança.
Tamires Camal Taquidir, consultora de RH, ao The Guardian.
Um caso pequeno que virou referência
O cofundador da Garfield, Philip Young, descreveu o resultado como um avanço no acesso à justiça, principalmente para quem desiste de cobrar dívidas menores por causa do custo do processo. A empresa é autorizada pela Solicitors Regulation Authority e atua em casos de até £ 10.000 (cerca de R$ 63.000).
Escritório com inteligência artificial atuou na cobrança de dívida e ajudou a estruturar o processo antes da audiência. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Onde a IA para e o humano assume
Mesmo com a automação de várias etapas, a presença humana ainda foi determinante. O advogado Dominic Li, que atuou na audiência, afirmou que a IA ajudou a estruturar o caso, mas não substitui o julgamento no tribunal.
“A atuação em audiência continuou sendo essencial e um exercício fundamentalmente humano”, disse.
Em outras palavras, a tecnologia organiza e acelera, mas a decisão continua nas mãos de pessoas.
Um cenário que ainda está se formando
O caso surge em meio a discussões mais amplas sobre o uso de inteligência artificial no setor jurídico, especialmente após episódios recentes de erros envolvendo ferramentas automatizadas.
IA organizou documentos e estratégias do processo
dívida era de £ 7.000 (cerca de R$ 44.000)
serviço custou cerca de £ 400 (cerca de R$ 2.500)
resultado reforça uso combinado de IA e advogados humanos
No fim, o caso não muda sozinho o sistema jurídico britânico, mas deixa claro como esse tipo de tecnologia começa a ocupar espaço em disputas menores — aquelas que, muitas vezes, nem chegavam ao tribunal.
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A Microsoft foi uma das grandes propulsoras de inteligência artificial generativa no mundo. Agora, Satya Nadella, o CEO da companhia, está assustado com os rumos que a tecnologia está tomando. Em entrevista ao The Wall Street Journal (WSJ), o executivo fez duras críticas à forma como a corrida pelo domínio da IA tem se desenvolvido, […]
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Um exercício narrativo produzido por analistas em Bruxelas projeta um futuro em que, até 2031, Estados Unidos e China consolidam vantagem decisiva na inteligência artificial. Nesse quadro, a Europa aparece como espectadora de uma disputa tecnológica que redefine economia, política e segurança global.
A história imaginada ganhou circulação entre autoridades europeias após ser associada a movimentos reais de restrição tecnológica e a debates sobre infraestrutura de IA, incluindo a limitação de acesso a modelos avançados como o Claude Fable pela administração norte-americana. O material foi elaborado por integrantes ligados ao Arq Foundation.
O enredo foi usado como alerta por seus autores, que defendem ser necessário acelerar investimentos em datacenters e capacidade computacional, enquanto críticos apontam que o cenário mistura tendências reais com extrapolações incertas sobre o futuro da tecnologia.
Cenário de disputa tecnológica e projeção europeia
Potências vêm brigando pelo controle da tecnologia no mundo todo – Imagem: Pla2na/Shutterstock
A narrativa chamada, “Europe 2031”, foi desenvolvida em Bruxelas por pesquisadores associados ao Arq Foundation, organização que não revela sua fonte de financiamento. O texto apresenta uma Europa que teria perdido relevância tecnológica por não acompanhar o ritmo de investimento dos Estados Unidos e da China em inteligência artificial e infraestrutura digital.
Segundo o engenheiro e pesquisador Maximilian Negele, que atuou no projeto após passagem por um instituto de pesquisa norte-americano, existe um descompasso de comunicação entre centros decisórios europeus e polos de inovação em San Francisco. Ele descreve a situação europeia como uma evolução lenta diante de mudanças aceleradas no setor tecnológico global.
No cenário ficcional, empresas norte-americanas teriam direcionado enormes volumes de capital para a construção de datacenters e reorganizado completamente seus modelos de trabalho com IA, enquanto a Europa manteria políticas mais cautelosas e menor ritmo de adoção tecnológica.
Economia global, infraestrutura e concentração de poder
Data center de inteligência artificial (IA) – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O enredo descreve um futuro em que os Estados Unidos alcançariam cerca de 70% da capacidade global de processamento computacional, elemento considerado essencial para o funcionamento de sistemas de inteligência artificial avançados. Essa concentração colocaria a Europa em posição de dependência tecnológica.
O texto também menciona movimentos corporativos de grande escala envolvendo empresas como OpenAI, Nvidia e Oracle, com acordos bilionários que, segundo o próprio material, já apresentariam sinais de instabilidade ou revisão. Projetos de expansão de infraestrutura nos Estados Unidos, incluindo iniciativas no Texas, aparecem como símbolo dessa corrida por capacidade computacional.
Nesse contexto, a Europa teria dificuldades em converter ativos estratégicos, como a empresa holandesa ASML, em vantagem política ou econômica, mesmo diante de tensões com Estados Unidos e China.
Política, regulação e disputa por soberania
A projeção também aborda impactos políticos, sugerindo que a ausência de liderança europeia em IA poderia intensificar crises econômicas, aumento do desemprego e instabilidade institucional. O texto inclui ainda a hipótese de uso de tecnologias avançadas em ciberataques e vigilância.
O debate ganhou eco entre autoridades, como o eurodeputado espanhol Nicolás Casares, que reconhece a utilidade do cenário como provocação, mas alerta para exageros na forma como os riscos são apresentados. Para ele, a discussão central envolve quem controla a infraestrutura de inteligência artificial e quem se beneficia dela.
Os autores defendem que a solução passa por expansão acelerada de datacenters e flexibilização regulatória na Europa, enquanto críticos argumentam que essa corrida pode reforçar dependência tecnológica em vez de autonomia.
As ações da Alphabet, controladora do Google, registraram forte retração de aproximadamente 5% em um único pregão nesta segunda-feira (22), configurando o pior desempenho da companhia em mais de um ano. O movimento ocorreu em meio ao avanço das preocupações do mercado com o ritmo de desenvolvimento em inteligência artificial e com a capacidade da empresa de manter vantagem competitiva.
O recuo também coincidiu com a saída de nomes relevantes ligados às áreas de pesquisa em IA, o que ampliou a percepção de instabilidade interna. Investidores passaram a reagir não apenas aos resultados imediatos, mas também ao cenário mais amplo de disputa por talentos e direção tecnológica.
Entre os fatores adicionais, análises de mercado apontaram dúvidas sobre o retorno dos elevados investimentos em infraestrutura de IA, além de sinais de que o setor pode estar se tornando mais homogêneo e menos diferenciado entre os grandes players.
Pressão na corrida da inteligência artificial e saída de pesquisadores
Gemini é o sistema de IA do Google – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
O desempenho negativo das ações foi associado a uma sequência de saídas em posições estratégicas da área de inteligência artificial da empresa. Entre elas, destaca-se a ida de Noam Shazeer, vice-presidente de engenharia e co-líder do projeto Gemini, para a OpenAI, empresa concorrente no segmento de IA.
Outro movimento relevante foi a saída de John Jumper, vice-presidente da DeepMind e pesquisador de destaque responsável pelo desenvolvimento do AlphaFold, sistema capaz de prever estruturas de proteínas em larga escala. Jumper, reconhecido com o Nobel em 2024 ao lado de Demis Hassabis, deixou a companhia após anos de atuação.
Segundo relatos do mercado, essas movimentações alimentaram a leitura de que há uma disputa crescente por talentos entre os principais laboratórios de inteligência artificial, o que pode afetar a continuidade de projetos estratégicos.
Debate sobre custos, concorrência e visão do mercado
Data center de inteligência artificial (IA) – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
A pressão sobre a Alphabet também foi reforçada por preocupações relacionadas ao volume de investimentos em inteligência artificial. A empresa teria ampliado significativamente seus aportes em infraestrutura, incluindo emissão de cerca de 141 bilhões de dólares em dívida e capital desde outubro.
De acordo com a avaliação atribuída ao CEO da Microsoft, Satya Nadella, o setor pode estar passando por um processo de comoditização, no qual modelos de IA se tornam mais semelhantes entre si e menos exclusivos, o que reduziria diferenciais competitivos entre empresas.
Nesse contexto, investidores passaram a questionar se os altos gastos realizados pela Alphabet estariam de fato construindo vantagens sustentáveis ou apenas pressionando margens futuras.
Impactos operacionais e percepção do mercado
Além do cenário financeiro e estratégico, usuários relataram instabilidades em serviços amplamente utilizados, como Gmail e YouTube, no mesmo período da queda das ações. Embora não haja indicação de causa direta entre os eventos, a coincidência contribuiu para ampliar a atenção do mercado sobre a operação da empresa.
A combinação entre pressão competitiva, mudanças internas e dúvidas sobre a eficiência dos investimentos em IA resultou em um dia de forte volatilidade para a companhia no mercado acionário.
O projeto prevê capacidade de 2,67 gigawatts e será sustentado por um contrato de compra de energia com duração de 20 anos. A geração ficará a cargo de turbinas da GE Vernova e de equipamentos da subsidiária Solar Turbines, vinculada à Caterpillar, garantindo fornecimento contínuo para a operação dos data centers.
Batizado de Project Kilby, o empreendimento surge em meio à pressão sobre metas ambientais da Microsoft, que prevê zerar suas emissões líquidas até 2030. Segundo estimativas citadas no planejamento, a operação pode gerar milhões de toneladas de dióxido de carbono e outros poluentes, o que intensifica o debate sobre o impacto ambiental da expansão da infraestrutura de IA.
Estrutura e operação do projeto energético
Data center de inteligência artificial (IA) – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock
O projeto foi descrito pelas empresas como um dos maiores empreendimentos integrados entre geração de energia fóssil e infraestrutura de data centers nos Estados Unidos. A proposta consiste em instalar uma unidade de geração a gás diretamente vinculada ao consumo de energia dos centros de processamento da Microsoft.
De acordo com informações divulgadas, a planta terá escala suficiente para alimentar operações de computação em nuvem e inteligência artificial de alta demanda energética. O modelo prevê um fornecimento exclusivo de eletricidade ao longo de duas décadas, reforçando a dependência de infraestrutura energética dedicada.
Imagem: New Africa/Shutterstock
A iniciativa também envolve tecnologia de turbinas de grande porte fornecidas pela GE Vernova, enquanto sistemas complementares de geração serão operados pela Solar Turbines, ligada à Caterpillar. A combinação busca garantir estabilidade energética para cargas contínuas e intensivas.
Apesar da dimensão do projeto, ele ocorre em um contexto de questionamento ambiental. Estimativas apontam potencial de emissão superior a 13 milhões de toneladas de dióxido de carbono, além de poluentes atmosféricos e substâncias classificadas como perigosas. Esses números contrariam compromissos climáticos assumidos pela Microsoft para a próxima década.
Durante décadas, a principal forma de encontrar informações na internet foi por meio de mecanismos de busca. Usuários faziam pesquisas, escolhiam entre os links exibidos e acessavam sites para ler notícias, comparar produtos ou buscar respostas para suas dúvidas.
Com o avanço da inteligência artificial (IA) generativa, esse processo começa a mudar. Em vez de navegar por uma lista de resultados, um número crescente de pessoas está recorrendo diretamente a ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot para obter respostas prontas, recomendações personalizadas e comparações de produtos.
A mudança já aparece nos números. Dados da consultoria McKinsey mostram que 50% dos consumidores utilizam ferramentas de busca baseadas em IA. O impacto também começa a ser percebido no comércio eletrônico, onde plataformas de IA já influenciam a descoberta de produtos e o tráfego para lojas virtuais.
Mais do que alterar hábitos de pesquisa, a inteligência artificial começa a transformar a dinâmica que sustentou a internet por décadas. À medida que respostas passam a ser entregues diretamente por sistemas de IA, empresas, criadores de conteúdo e plataformas tentam entender como essa mudança pode afetar o tráfego na web, a descoberta de produtos e a produção de conteúdo online.
Estamos saindo de uma internet baseada em busca
A transformação vai além da popularização de novas ferramentas, segundo Edson Alves, CEO da Ikatec. Em entrevista ao Olhar Digital, o executivo afirmou que a própria lógica de navegação da internet começa a mudar.
Estamos saindo de uma internet baseada em busca para uma internet baseada em respostas. Antes, o usuário fazia uma pergunta, recebia uma lista de links e precisava montar a resposta sozinho. Agora, ele faz uma pergunta e recebe uma síntese pronta, contextualizada e personalizada.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Segundo Alves, a mudança mais perceptível está no comportamento dos usuários. Em vez de utilizar combinações de palavras-chave para encontrar informações, as pessoas passaram a interagir com a tecnologia de forma mais próxima de uma conversa.
“As pessoas estão deixando de pesquisar por palavras-chave e passando a conversar com a tecnologia. Isso torna a experiência mais natural e reduz drasticamente o tempo necessário para encontrar informações relevantes”, afirma.
Durante décadas, mecanismos de busca como o Google funcionaram como principal porta de entrada para informações na internet – Imagem: Mijansk786 / Shutterstock
Uma tendência semelhante é observada por Danilo Fonseca, sócio da Saving. Em entrevista ao Olhar Digital, o executivo afirmou que as buscas estão se tornando mais detalhadas e contextualizadas do que nos mecanismos de busca tradicionais.
As buscas têm sido cada vez mais em linguagem natural, diferente de como fazíamos no Google. Elas deixaram de ser ‘palavras-chave’ e viraram uma conversa.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Na prática, isso significa que o usuário não precisa mais limitar uma pesquisa a termos curtos como “melhor tênis de corrida” ou “melhor notebook”. Em vez disso, pode explicar seu contexto, objetivos e preferências para receber recomendações mais específicas.
De acordo com Fonseca, os modelos de IA conseguem considerar diferentes informações compartilhadas durante uma interação e consultar múltiplas fontes antes de formular uma resposta, aproximando a experiência de uma conversa com um assistente digital.
Quando a IA responde, quem perde o clique?
A mudança na forma de pesquisar começa a produzir efeitos em um dos pilares da internet moderna: o tráfego gerado por mecanismos de busca.
Durante décadas, buscadores funcionaram como intermediários entre usuários e sites. A pessoa fazia uma pesquisa, escolhia um resultado e acessava páginas para consumir notícias, comparar produtos ou buscar informações. Com a popularização das respostas geradas por IA, parte desse processo passa a acontecer sem que o usuário precise deixar a plataforma.
Os dados indicam que essa transformação já está em andamento. Segundo a Similarweb, a proporção de buscas realizadas no Google sem qualquer clique em sites externos passou de 56% para 69% entre maio de 2024 e maio de 2025. Já um levantamento do Pew Research Center mostrou que usuários que recebem respostas geradas por IA clicam em links tradicionais com menos frequência do que aqueles que visualizam apenas resultados convencionais.
Para Alves, o impacto vai além de uma simples mudança tecnológica e levanta questões sobre o modelo econômico que sustentou grande parte da produção de conteúdo na internet.
Grande parte da produção de conteúdo foi financiada pelo tráfego gerado pelos buscadores. Se esse tráfego diminuir significativamente, será necessário encontrar novos modelos econômicos para manter a geração de conteúdo de qualidade.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Os efeitos já começam a aparecer para empresas que dependem desse tráfego. Dados divulgados pela Chartbeat indicam que pequenos publishers perderam cerca de 60% das visitas vindas de mecanismos de busca nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, o crescimento das visitas originadas por plataformas de IA ainda não foi suficiente para compensar essas perdas.
A inteligência artificial também cria novas formas de descoberta de conteúdo. Segundo a Similarweb, plataformas de IA geraram mais de 1,1 bilhão de visitas de referência em junho de 2025, um crescimento de 357% em relação ao ano anterior.
A IA está virando um consultor de compras
A influência da inteligência artificial não termina quando uma pergunta é respondida. Cada vez mais, essas plataformas também participam da descoberta de produtos, da comparação de alternativas e da tomada de decisão dos consumidores.
Para Edson Alves, essa é uma das mudanças mais relevantes provocadas pela popularização dos assistentes de IA. “A IA está se tornando um verdadeiro consultor digital. Em vez de pesquisar dezenas de sites, comparar avaliações e analisar características, o consumidor pode simplesmente pedir recomendações personalizadas”, afirma ele.
Ferramentas de IA começam a assumir tarefas que antes exigiam pesquisas manuais, incluindo comparação de produtos e recomendações de compra – Imagem: Andrey_Popov / Shutterstock
Segundo o executivo, a descoberta de produtos e serviços passa a ocorrer de forma mais contextualizada. Em vez de depender exclusivamente de anúncios ou resultados de busca, o usuário pode solicitar análises comparativas e sugestões adaptadas às suas necessidades.
Isso reduz etapas da jornada de compra e aumenta a influência dos assistentes inteligentes nas decisões de consumo. A descoberta de produtos passa a ocorrer por recomendação contextual, não apenas por anúncios ou resultados de busca.
Edson Alves, CEO da Ikatec
O avanço dessa tendência coincide com o lançamento de ferramentas capazes de executar tarefas em nome dos usuários. Nos últimos meses, empresas como Google, OpenAI e Microsoft passaram a apresentar agentes que podem pesquisar produtos, comparar opções e auxiliar decisões de compra.
Para Danilo Fonseca, esse movimento foi um dos sinais mais claros de que a relação entre consumidores e marcas está entrando em uma nova fase.
Quando empresas como Google, OpenAI e Microsoft começaram a anunciar agentes capazes de pesquisar, comparar opções e até executar tarefas em nome do usuário, ficou claro que as marcas precisariam ser encontradas não apenas por pessoas.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Os números sugerem que essa transformação já está em andamento. Dados da Adobe apontam que o tráfego gerado por ferramentas de IA para sites de varejo dos Estados Unidos cresceu 393% no primeiro trimestre de 2026. Durante a temporada de compras de fim de ano de 2025, o avanço chegou a 693% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na visão de Alves, a tendência é que os consumidores deleguem uma parcela cada vez maior da pesquisa inicial para sistemas capazes de reunir informações, comparar alternativas e apresentar recomendações em poucos segundos. No futuro, segundo ele, será possível pedir a uma IA indicações sobre softwares, veículos, fornecedores ou outros produtos complexos e receber análises prontas para apoiar a decisão.
Empresas tentam se adaptar às novas regras
A mudança no comportamento dos usuários está criando um novo desafio para empresas acostumadas a disputar visibilidade nos mecanismos de busca tradicionais.
Se durante anos a estratégia digital esteve concentrada em aparecer entre os primeiros resultados do Google, agora cresce a preocupação com a forma como marcas são interpretadas e apresentadas por ferramentas como ChatGPT, Gemini, Copilot e Perplexity.
Para Edson Alves, essa mudança está criando uma nova dinâmica de competição no ambiente digital.
A disputa deixa de ser apenas pela primeira posição do Google e passa a ser pela relevância dentro do conhecimento consumido pelas IAs.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Segundo o executivo, fatores como autoridade da marca, reputação digital, consistência das informações e presença em múltiplas fontes tendem a ganhar importância em um cenário em que os sistemas de IA sintetizam conteúdos e destacam apenas algumas referências para os usuários.
Novas estratégias para um novo ambiente
A transformação já impulsiona o surgimento de estratégias voltadas especificamente para esse novo ambiente. O mercado passou a adotar termos como Generative Engine Optimization (GEO) e AI Search Optimization para descrever práticas que buscam aumentar as chances de uma marca ser citada ou recomendada por sistemas de inteligência artificial.
“O motivo é simples: onde existe atenção, existe valor econômico”, afirma Alves. Segundo ele, as empresas perceberam que ser mencionado por um assistente de IA pode ter um impacto semelhante ao de ocupar as primeiras posições em uma busca tradicional.
Empresas começam a adotar novas estratégias para monitorar como suas marcas aparecem em mecanismos de busca e ferramentas de inteligência artificial – Imagem: Koupei Studio / Shutterstock
Na avaliação de Danilo Fonseca, sócio da Saving, a adaptação exige uma abordagem mais ampla do que as estratégias tradicionais de otimização para buscadores. “O jogo parece o mesmo, mas as regras são diferentes”, destaca ele.
Segundo o executivo, empresas precisam fortalecer sua presença em diferentes canais, incluindo sites próprios, veículos de imprensa, redes sociais, fóruns e blogs especializados. Isso porque os modelos de IA utilizam múltiplas fontes para construir respostas e recomendações.
A demanda por esse tipo de monitoramento já começa a aparecer no mercado. De acordo com Fonseca, muitos empresários passaram a pesquisar suas próprias marcas em plataformas como ChatGPT, Gemini e Perplexity para entender como são apresentados aos usuários.
Quando nos procuram sobre esse tema os clientes querem ser mencionados e considerados nas recomendações do ChatGPT e afins.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Uma das iniciativas surgidas nesse contexto é a plataforma ALVO, da Saving, desenvolvida para monitorar como empresas são apresentadas por ferramentas de IA e em diferentes canais digitais.
A nova economia da relevância
Embora as transformações provocadas pela inteligência artificial já sejam perceptíveis, ainda não existe consenso sobre como será a próxima etapa dessa evolução.
Para Danilo Fonseca, diferentes cenários permanecem em aberto. Um deles envolve o avanço dos chamados agentes de IA, capazes de pesquisar produtos, comparar alternativas e executar tarefas em nome dos usuários. Outro prevê uma valorização ainda maior de avaliações, recomendações e conteúdos produzidos por pessoas.
Independentemente do caminho que prevalecer, a tendência é que mecanismos de busca, plataformas de comércio eletrônico e assistentes de IA se tornem cada vez mais integrados.
“A tendência é de convergência”, afirma Edson Alves. Segundo ele, os mecanismos de busca devem incorporar mais capacidades conversacionais, enquanto plataformas de comércio eletrônico passam a utilizar assistentes inteligentes como parte da experiência de compra.
Na avaliação do executivo, a mudança também deve alterar a forma como conteúdos são produzidos e distribuídos na internet. Em vez de depender exclusivamente de técnicas tradicionais de otimização, empresas e criadores de conteúdo precisarão investir cada vez mais em autoridade, especialização e credibilidade.
Acredito que veremos o surgimento de uma nova economia da relevância, onde não basta estar na internet; será necessário ser reconhecido como uma fonte confiável pelas inteligências artificiais.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Durante décadas, o principal desafio da internet foi ser encontrado por pessoas. Agora, à medida que ferramentas de IA passam a intermediar parte dessas interações, a disputa começa a incluir outro objetivo: ser reconhecido também pelas máquinas que ajudam a decidir o que os usuários vão ver.
Segundo a companhia, quando acionado, esse procedimento, o usuário poderá ser solicitado a enviar documentos oficiais, como passaporte ou carteira de motorista, além de imagem facial ou vídeo. A verificação será realizada com apoio de uma empresa terceirizada.
De acordo com a empresa, a mudança busca reforçar processos de revisão de contas e oferecer uma via de contestação a usuários que tenham sido marcados por possível fraude, em vez de simples bloqueio permanente.
Mudança na política de verificação da Anthropic e impacto no Claude
IA poderosa da Anthropic causa muitas preocupações – Crédito: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock
A atualização da política de privacidade da Anthropic foi registrada em junho e está prevista para entrar em vigor em 8 de julho. O texto estabelece que a verificação de idade ou identidade poderá ocorrer em “certas circunstâncias”, sem detalhar todos os cenários possíveis.
Quando o mecanismo for acionado, usuários do Claude podem precisar enviar cópias digitais de documentos oficiais e também uma selfie ou gravação em vídeo. O sistema inclui ainda a criação de um modelo geométrico facial, tratado como dado biométrico em algumas jurisdições.
A verificação será feita por meio da empresa Persona, responsável por processar os dados enviados. A Anthropic informou que também registra o resultado da checagem, como confirmação de idade mínima.
Outdoor da Anthropic – Imagem: PhotoGranary02/Shutterstock
Segundo a companhia, a medida se aplica a uma parcela reduzida de usuários, especialmente aqueles com contas sinalizadas por suspeita de irregularidade. A empresa não detalhou a quantidade exata de pessoas impactadas, mas afirmou que sua base pode alcançar dezenas de milhões de usuários mensais.
No contexto mais amplo, a decisão ocorre em meio a pressões regulatórias e disputas políticas nos Estados Unidos envolvendo acesso e controle de ferramentas de inteligência artificial. O caso também se conecta a tensões recentes entre a empresa e autoridades federais, incluindo críticas relacionadas a modelos de segurança e possíveis usos indevidos da tecnologia.
Além disso, já houve episódios em que o Departamento de Defesa norte-americano classificou a empresa como “risco na cadeia de suprimentos”, após divergências sobre o uso da tecnologia em aplicações militares e de vigilância.