A Alphabet, empresa-mãe do Google, anunciou, nesta sexta-feira (12), que irá recorrer de uma decisão judicial alemã que considerou a empresa legalmente responsável por alegações falsas que aparecem nos Resumos de IA (AI Overviews), uma funcionalidade que exibe sumários gerados por inteligência artificial (IA) acima dos resultados tradicionais de busca.
Decisão judicial contra o Google marca precedente importante
O tribunal de Munique (Alemanha) emitiu uma decisão histórica contra os resumos gerados por IA do Google, determinando que o AI Overviews constitui conteúdo próprio da empresa;
Esta decisão pode impactar significativamente outros desenvolvedores de inteligência artificial;
“Este caso foca em erros específicos e pontuais, não na forma fundamental como o AI Overviews exibe conteúdo da web. Discordamos da decisão e planejamos recorrer”, disse um porta-voz do Google por e-mail à Reuters;
O processo foi movido por duas editoras alemãs que alegaram que os Resumos de IA falsamente as vincularam a golpes e práticas comerciais duvidosas;
A empresa reconhece que, embora a grande maioria dos AI Overviews seja precisa, podem ocorrer casos em que os resumos perdem contexto ou interpretam mal o conteúdo da web.
Tribunal de Munique (Alemanha) emitiu uma decisão histórica contra os resumos gerados por IA do Google, determinando que o AI Overviews constitui conteúdo próprio da empresa – Imagem: Ascannio/Shutterstock
A integração de IA nos resultados de busca online do Google tem gerado críticas de editores e provedores de conteúdo, que afirmam que isso afetou negativamente seu tráfego, audiência e receita. Reguladores antitruste também estão investigando a questão.
O Google afirmou que toma ações rápidas contra violações de suas políticas para AI Overviews e que está comprometido em melhorar continuamente a precisão da tecnologia.
A inteligência artificial (IA) promete revolucionar o mundo, mas isso tem um preço. Os grandes data centers que sustentam essa tecnologia consomem quantidades cada vez maiores de energia e água, aumentando a pressão sobre recursos limitados. Diante desse cenário, empresas passaram a considerar uma alternativa que parecia improvável: instalar parte dessa infraestrutura no espaço.
Com a SpaceX expandindo rapidamente suas operações, a união entre foguetes e processamento de dados deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começou a se tornar realidade.
Ilustração de data center de inteligência artificial (IA) a bordo de satélite no espaço – Crédito: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital
Mas o espaço é a solução definitiva ou uma aposta megalomaníaca com riscos catastróficos? Em uma conversa no programa Olhar Espacial, que vai ao ar ao vivo todas as sextas-feiras pelas plataformas do Olhar Digital, o apresentador Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON), e o físico Roberto ‘Pena’ Spinelli, especialista em Machine Learning, debateram esse cenário. Para eles, o que o mercado vende como “energia ilimitada” no espaço enfrenta gargalos de física, regulação e segurança que a indústria ainda não superou.
Ideia audaciosa enfrenta desafios
A ideia de levar servidores para o espaço começou a ganhar tração no final de 2024. Pena destaca que os primeiros projetos, como o da empresa Lumen, propunham painéis solares de quatro quilômetros quadrados. “Parecia um delírio técnico, dado o tamanho e a complexidade de manobra”, explica, relatando que essa iniciativa evoluiu para a StarCloud, que em maio de 2025 lançou com sucesso uma GPU Nvidia H100 ao espaço. Foi a prova de conceito que legitimou a discussão para o mercado financeiro.
Segundo Pena, a transição daquele conceito inicial para constelações de milhares de microsatélites, como o projeto TeraWave, da Blue Origin, ou a meta de um milhão de satélites de Elon Musk, alterou a mecânica orbital. Para o físico, essa corrida é movida pelo custo de oportunidade. “Investidores não focam apenas na viabilidade atual. Eles querem garantir que, caso essa tecnologia se torne o novo padrão, eles já sejam os proprietários da infraestrutura crítica em órbita”.
À esquerda, Marcelo Zurita, astrônomo e apresentador do Programa Olhar Espacial. À direita, o convidado Roberto ‘Pena’ Spinelli, físico e especialista em Machine Learning. – Crédito: Olhar Espacial
Zurita ressaltou o apelo da energia ininterrupta. “A ideia reside na órbita heliossíncrona. Ao lançar o satélite em uma inclinação específica, é possível manter a mesma posição relativa ao Sol, garantindo iluminação contínua durante todo o ano”, explica. “Dessa forma, evita-se o ciclo de sombra terrestre, que exigiria baterias massivas e ineficientes.”
Entretanto, a física impõe barreiras severas. Se você busca baixa latência para IAs, precisa estar na órbita terrestre baixa (LEO). “Não é um espaço infinito”, alerta Pena. “É um recurso limitado e quem o ocupa primeiro trava o acesso de outros. Além disso, no espaço, não há convecção ou condução. A única forma de emitir ou dissipar o calor é por radiação, um processo extremamente ineficiente.”
Pena reforça que a complexidade térmica é o maior gargalo. Na Terra, utilizamos água e ar para resfriar servidores. No vácuo, não há ar para transportar calor. “Quando olhamos a Estação Espacial Internacional, aqueles grandes painéis que parecem colchas de retalhos são radiadores. Sem eles, o calor gerado pelos chips derreteria o equipamento.” Para escalar processamento, precisaríamos de corpos gigantescos que estariam expostos a detritos e radiação cósmica o tempo todo.
Uma solução é o “trem de satélites”, uma espécie de “anel” de máquinas girando em torno da Terra. Cada unidade se comunicaria com a vizinha, reduzindo a latência necessária para computação. Embora mais viável que um painel gigante, manter esse alinhamento perfeitamente coeso diante de variações gravitacionais e efeitos de maré é um desafio de engenharia brutal, que exigiria satélites com capacidades de manobra autônoma muito além do que vemos hoje.
Futuro da IA pode ser no espaço (em breve) – Crédito: Imagem gerada por IA/Shutterstock
Especialistas protestam: Elon Musk não pode ser o “dono do espaço”
A fusão de interesses de Musk, com a SpaceX, a Tesla e XAI, desenha um império vertical inalcançável para a maioria. Para Zurita, isso traz uma dimensão geopolítica perigosa. “O Tratado do Espaço Exterior, dos anos de 1960, é obsoleto. Não há regulação que impeça uma empresa de ocupar uma órbita crítica e cobrar o equivalente a um aluguel de toda a humanidade pelo uso do espaço”.
Em 9 de janeiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos autorizou a expansão da constelação de segunda geração da Starlink em mais 7.500 satélites. Pouco depois, no dia 30 do mesmo mês, a agência passou a analisar um novo pedido da SpaceX para a operação de um sistema que prevê até um milhão de satélites dedicados exclusivamente ao processamento de dados de IA.
Essa postura de licenciamento em escala massiva é contestada por Pena. “A FCC é um órgão dos EUA. Que direito ela tem de autorizar o preenchimento da órbita baixa com um milhão de satélites, ignorando o impacto para o resto do planeta? O espaço é um bem universal”.
Além da ética, há o risco físico: o Efeito Kessler. Com milhares de satélites operando próximos, o impacto de um simples parafuso perdido poderia desencadear uma reação em cadeia de colisões.
Representação artística da Síndrome de Kessler. – Crédito: Gerador de imagens IA/Shutterstock
Zurita detalha esse efeito. Se um satélite é destruído, ele gera milhares de novos fragmentos. Se isso atinge o vizinho, iniciamos uma catástrofe que pode inviabilizar o acesso ao espaço por décadas. “Em 2009, Donald Kessler previu que chegaríamos a um ponto crítico. Desde então, a SpaceX lançou milhares de satélites. Somar um milhão a essa conta é uma escala de risco que a humanidade nunca enfrentou”.
A poluição visual é outro custo negligenciado. Se a infraestrutura de IA ocupar órbitas heliossíncronas, o brilho desses satélites seria visível em todo o globo no pôr do Sol. “Estamos dispostos a sacrificar a beleza natural do céu e a astronomia básica para garantir que uma IA processe dados mais rápido?”, questiona Zurita.
Planeta paga preço elevado por lançamento
A ideia de que o espaço salvaria a Terra parece ignorar o custo ambiental dos lançamentos. O metano queimado pelos foguetes e a renovação obrigatória das constelações a cada cinco anos impõem um custo de carbono que pode anular os ganhos de eficiência. “O lançamento espacial custa milhares de dólares por quilo (cerca de US$5 mil). Mesmo com a Starship barateando esse processo, a viabilidade econômica exigiria uma queda para patamares de 50 dólares por quilo, algo longe de ser sustentável sem subsídios externos massivos”, diz Zurita.
Sobre o destino do capital, a pergunta não é se os projetos são viáveis, mas por que são financiados. “É o pensamento de que, no futuro, quem fizer a Inteligência Artificial Geral vira o dono do mundo”, explica Pena.
É um movimento que prioriza o controle de infraestrutura em detrimento da sustentabilidade. Enquanto o mercado se curva a essas visões de órbita baixa megalomaníacas, os especialistas pedem cautela e fortalecimento de alternativas terrestres.
Em vez de buscar soluções espaciais de alto risco, Zurita defende que a inovação deve focar na eficiência terrestre. Ele aponta para projetos de data centers de próxima geração, que já começam a reutilizar o calor residual para alimentar turbinas ou aquecer sistemas urbanos, transformando um subproduto da computação em energia útil aqui no solo.
Pena ressalta que o cenário é de alerta total. Segundo ele, estamos criando um risco real para o ecossistema orbital que sustenta a comunicação e a navegação da era moderna.
Embora entusiasta da exploração espacial, o físico enfatiza que o desenvolvimento tecnológico precisa ser um esforço humanitário, guiado por interesses coletivos, e não uma ferramenta de poder privado que coloca em xeque a soberania do nosso próprio céu. “O espaço é a nossa última grande fronteira e a nossa janela para o cosmos. Transformá-lo em uma extensão estéril de data centers privados é um retrocesso que a humanidade não pode aceitar sem um debate global intenso. Devemos ter o direito de dizer não”.
Data centers na Lua: atraso de sinal torna uso ineficaz para IAs – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
A opção de mover esse processamento para locais mais distantes, como a Lua, esbarra na barreira da latência. O atraso de sinal (dois segundos para um ciclo completo de ida e volta) torna o uso ineficaz para qualquer IA que dependa de processamento em tempo real. Por isso, a pressão tecnológica é concentrada na órbita baixa da Terra. É esse funil, que obriga o mundo a aglomerar servidores no espaço que nos cerca, que nos devolve, invariavelmente, ao risco de saturação e ao pesadelo do Efeito Kessler, transformando a nossa órbita em um tabuleiro onde cada satélite a mais aumenta, exponencialmente, a chance de uma colisão catastrófica.
Debate vai além da capacidade de processamento dos satélites
A corrida para levar infraestrutura de IA ao espaço não envolve apenas desafios tecnológicos. A órbita baixa da Terra é um recurso limitado e cada vez mais disputado, o que levanta preocupações sobre segurança, regulação e sustentabilidade. O aumento do número de satélites pode elevar o risco de colisões e da geração de detritos espaciais, agravando a possibilidade do chamado Efeito Kessler. Diante desse cenário, cresce a pressão por acordos internacionais que estabeleçam limites e regras para a ocupação orbital, conciliando a expansão econômica do setor com a preservação do ambiente espacial.
Para os especialistas, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial para o espaço também levanta questionamentos sobre transparência e governança. A possibilidade de decisões com impacto global serem conduzidas por empresas privadas e órgãos reguladores nacionais alimenta discussões sobre quem deve definir os limites da ocupação orbital nas próximas décadas.
Nesse cenário, o debate vai além da capacidade de processamento ou da oferta de energia. Questões relacionadas à preservação do céu noturno, ao acesso ao espaço e à sustentabilidade das operações orbitais passam a integrar a discussão sobre o futuro da computação em larga escala.
À medida que projetos cada vez mais ambiciosos são anunciados, cresce também a preocupação com a concentração de infraestrutura estratégica nas mãos de poucos atores. O desafio está em garantir que os benefícios dessas tecnologias sejam compartilhados sem comprometer a segurança e a utilização sustentável da órbita terrestre.
Um ex-engenheiro da xAI, Devin Kim, entrou com um processo alegando ter sido demitido depois de levantar preocupações sobre a segurança do chatbotGrok, desenvolvido pela empresa de Elon Musk.
O caso envolve acusações de retaliação e falhas em mecanismos de segurança, explica o The Guardian. E surge num momento em que o setor de inteligência artificial volta a ser pressionado por temas de responsabilidade e controle.
Processo acusa retaliação após alertas sobre segurança da IA na xAI, empresa de inteligência artificial de Musk. Imagem: Algi Febri Sugita/Shutterstock – Imagem: Algi Febri Sugita/Shutterstock
As acusações contra a xAI
Na ação apresentada na Califórnia, Devin Kim afirma que foi afastado após insistir na criação de regras mais rígidas para o desenvolvimento do Grok. Segundo ele, os alertas sobre riscos da IA não foram levados a sério pela liderança da empresa.
O ponto central do processo é a forma como esses alertas teriam sido recebidos internamente. Kim sustenta que a falta de prioridade em segurança poderia gerar consequências graves. “O Sr. Kim reclamou repetidamente que a falha da xAI em priorizar a segurança da IA, particularmente em relação ao Grok, praticamente garantia que a empresa cometeria atos ilegais, desde fomentar a discriminação até proliferar armas de destruição em massa”, afirma o documento.
Ele também diz que a demissão ocorreu pouco antes de uma apresentação interna sobre segurança da IA para executivos da empresa. Esse detalhe, segundo o engenheiro, reforça a tese de retaliação dentro da organização.
Processo contra xAI levanta debate sobre segurança em IA e acusa empresa de retaliação após críticas ao chatbot Grok. Imagem: miss.cabul/Shutterstock
Grok, investigações e pressão internacional
O caso não aparece sozinho. Ele se encaixa numa sequência de críticas e investigações envolvendo o Grok e suas ferramentas de geração de imagens.
Autoridades canadenses afirmam que o chatbot teria violado leis de privacidade ao permitir a criação de imagens manipuladas e sexualizadas sem consentimento. Isso levou a investigações formais e ajustes na plataforma.
E a pressão não ficou restrita a um único país. Reino Unido e Canadá passaram a monitorar com mais atenção conteúdos gerados por IA, especialmente aqueles envolvendo imagens sensíveis ou potencialmente abusivas.
Entre os problemas mais citados nessas investigações, aparecem situações recorrentes:
deepfakes sexualizados criados sem consentimento e circulando na plataforma
uso indevido de imagens de pessoas reais em contextos manipulados
riscos diretos à privacidade de usuários comuns
possibilidade de envolvimento de menores em conteúdos gerados por IA
cobrança por regras mais duras de moderação e controle
O bilionário Elon Musk negou ter conhecimento sobre conteúdos ilegais gerados pelo sistema. “Não tinha conhecimento de nenhuma imagem de menores de idade nuas gerada pelo Grok. Literalmente zero.”, afirmou em resposta às acusações.
“Deepfakes sexualizados” e privacidade em risco: processo contra a xAI coloca o Grok no centro da crise de IA. Imagem: Mihai Surdu/Shutterstock
O impacto no setor de inteligência artificial
A xAI, criada por Musk em 2023 como alternativa a outras empresas do setor, já vinha sendo citada em debates sobre segurança e governança da inteligência artificial.
O caso de Devin Kim só adiciona mais tensão a esse cenário. E reforça um conflito que vem se tornando cada vez mais comum no setor: a disputa entre acelerar o desenvolvimento e criar mecanismos reais de controle.
Também chama atenção o fato de Kim ter passado a atuar em um centro voltado à segurança em IA, o que dá ainda mais peso simbólico ao episódio.
No centro dessa disputa, fica uma pergunta que ainda não tem resposta clara: até que ponto as empresas estão preparadas para lidar com os riscos das próprias tecnologias que estão construindo.
A Anthropic protocolou em 1º de junho seu pedido confidencial de abertura de capital nos EUA. A OpenAI seguiu no dia 8, uma semana depois. A disputa pelo IPO é só a mais recente batalha entre as duas empresas – e a Reuters revelou nesta quinta-feira (11) a história por trás da guerra.
ChatGPT em duas semanas
Em novembro de 2022, a OpenAI soube que a Anthropic desenvolvia um chatbot. Sam Altman imediatamente ordenou que a equipe acelerasse um produto concorrente, segundo quatro fontes ouvidas pela Reuters.
Duas semanas depois, a OpenAI lançou o ChatGPT. “De repente, era: precisamos lançar isso em duas semanas”, disse um funcionário à agência. O produto se tornou o aplicativo de crescimento mais rápido da história.
A inversão de poder
Por três anos, a Anthropic correu para alcançar a OpenAI. No final de 2025, o cenário virou. A empresa lançou uma atualização poderosa do Claude Code e passou a liderar no mercado enterprise de programação com IA.
A OpenAI redirecionou recursos para o mercado corporativo. Reforçou o Codex, seu produto de codificação, e criou a DeployCo – joint venture com 19 firmas globais para levar engenheiros diretamente às empresas.
A Anthropic, que nasceu como dissidência da OpenAI, agora vale mais que a empresa original. “É uma guerra total entre eles”, disse à Reuters Anastasios Angelopoulos, CEO da Arena, empresa de benchmarking de IA.
A briga pelos números
As duas empresas divergem até na forma de reportar receita. A OpenAI acusa a Anthropic de inflar seus números em bilhões, segundo a Reuters.
A Anthropic contabiliza o valor total pago pelos clientes. A OpenAI registra apenas a receita líquida, já deduzidos os repasses à Microsoft. A Anthropic afirma seguir práticas contábeis estabelecidas.
A corrida pelo IPO
A OpenAI havia comunicado a alguns investidores que pretendia abrir capital em setembro. A Anthropic saiu na frente ao protocolar primeiro – e pode assim definir como empresas de IA reportam resultados para o mercado.
Internamente, Altman pressionou a CFO Sarah Friar pelo cronograma agressivo. Segundo a Reuters, ele disse que ela deveria resolver ou contratar outros banqueiros e advogados capazes de cumpri-lo.
A recusa no palco
A tensão entre os CEOs extrapolou o mundo corporativo. Em fevereiro, em uma cúpula de IA na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi pediu que os executivos presentes se dessem as mãos em gesto de unidade.
Altman e Amodei, lado a lado no palco, recusaram. O momento foi registrado em vídeo e viralizou.
A Anthropic está estruturando uma expansão agressiva de sua infraestrutura de inteligência artificial ao arrendar e operar data centers próprios nos Estados Unidos, movimento sustentado pela forte demanda por seus modelos e ancorado em uma relação cada vez mais estratégica com a Alphabet. A informação foi apurada e publicada pelo site The Information.
Nesse arranjo, a controladora do Google surge não apenas como possível financiadora, mas também como parceira tecnológica, ao participar do ecossistema de chips de servidor que pode sustentar as novas instalações da startup.
As conversas incluem ainda a possibilidade de a Alphabet oferecer garantias financeiras para pagamentos bilionários de arrendamento, enquanto a Anthropic avança em direção a uma oferta pública inicial mantida sob confidencialidade.
Expansão de infraestrutura e escala de computação
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)
A empresa assinou mais de uma dúzia de acordos preliminares para contratação de data centers nos Estados Unidos, somando capacidade superior a 1 gigawatt. O objetivo é garantir escala suficiente para suportar o crescimento acelerado do uso de seus modelos de IA.
Esse movimento representa uma mudança relevante de postura operacional, já que a Anthropic passa a controlar de forma mais direta a base física necessária para rodar seus sistemas de inteligência artificial em larga escala.
A pressão por capacidade vem do aumento contínuo da demanda pela família de modelos Claude, especialmente em aplicações empresariais e de desenvolvimento de software.
Alphabet como pilar financeiro e tecnológico
(Imagem: Markus Mainka / Shutterstock.com)
A relação com a Alphabet se intensifica em múltiplas frentes. Além de já ter sido citada como investidora com potencial de aporte de até 40 bilhões de dólares, a empresa também participa do desenvolvimento de chips de servidor que podem ser utilizados nos data centers planejados pela Anthropic.
Nesse contexto, discute-se um mecanismo de garantia financeira em que a Alphabet poderia respaldar pagamentos de contratos de arrendamento, reduzindo o risco da expansão agressiva da infraestrutura da startup.
Esse vínculo coloca a Alphabet simultaneamente como financiadora potencial, parceira tecnológica e agente de estabilidade para a estratégia de crescimento da Anthropic.
IPO e pressão de crescimento
A Anthropic também teria submetido, de forma confidencial, documentos para uma oferta pública inicial nos Estados Unidos, sem divulgar termos ou tamanho da operação.
O avanço da infraestrutura e os acordos com grandes parceiros ocorrem em paralelo a uma rodada de captação recente, que avaliou a empresa em aproximadamente 965 bilhões de dólares após levantar outros 65 bilhões.
A combinação entre expansão física, apoio de grandes grupos de tecnologia e forte demanda por seus modelos posiciona a companhia em uma disputa direta por escala no mercado global de inteligência artificial.
Mais da metade das empresas admite destacar a inteligência artificial ao justificar demissões e congelamentos de vagas. É o que mostra uma pesquisa da Resume Templates realizada com 1 mil gestores de contratação nos Estados Unidos.
O dado chama atenção porque o impacto real da tecnologia sobre o emprego parece bem menor do que o discurso adotado por muitas organizações, explica o G1.
Nem toda vaga cortada foi ocupada por um robô. Pesquisa mostra um cenário mais complexo nas empresas. Imagem: VesnaArt/Shutterstock
Inteligência artificial virou a justificativa perfeita?
A inteligência artificial passou a ocupar um papel de destaque no discurso usado por empresas para explicar cortes de pessoal.
Segundo o levantamento, 59% das empresas admitem destacar o papel da IA ao justificar demissões ou congelamentos de vagas porque essa explicação tende a ser melhor recebida do que razões ligadas a dificuldades financeiras. Entre os entrevistados, 17% afirmaram que suas empresas usam diretamente a tecnologia como justificativa para essas decisões, enquanto outros 42% disseram fazer isso parcialmente.
Somados, os percentuais mostram que quase seis em cada dez empresas reconhecem enfatizar o papel da IA porque essa narrativa costuma ser mais bem aceita por funcionários, investidores e pelo mercado.
O contraste com outros resultados da pesquisa é evidente. Apenas 9% dos gestores afirmaram que determinadas funções foram totalmente substituídas pela tecnologia. Já 45% disseram que a IA reduziu parcialmente a necessidade de novas contratações, enquanto outros 45% relataram pouco ou nenhum impacto no tamanho das equipes.
IA sugere progresso em vez de problemas.
Kara Dennison, consultora-chefe de carreira da Resume Templates, em nota.
E isso, para ela, explica esse comportamento.
Segundo a especialista, associar mudanças à inovação tecnológica transmite uma imagem de modernização e planejamento estratégico. Já atribuir cortes a dificuldades financeiras pode gerar preocupações sobre a saúde da empresa.
Ela alerta, porém, que a estratégia pode produzir o efeito contrário caso os funcionários não percebam mudanças concretas provocadas pela tecnologia em suas atividades. Nesse cenário, a justificativa pode gerar dúvidas sobre os reais motivos das decisões.
O mercado segue em movimento: empresas reduzem algumas funções enquanto reforçam áreas estratégicas. Imagem: Andrey_Popov/Shutterstock
O mercado continua em movimento
Apesar das preocupações em torno da automação, os dados mostram que as empresas continuam contratando.
Embora 55% das organizações planejem realizar demissões em 2026, 92% afirmam que também pretendem contratar novos profissionais. O cenário retratado pelo levantamento aponta mais para uma reorganização das equipes do que para uma retração generalizada do mercado de trabalho.
Os principais motivos citados para cortes de pessoal foram:
Impacto da inteligência artificial (44%)
Reestruturações organizacionais (42%)
Restrições orçamentárias (39%)
Enquanto algumas funções perdem espaço, outras áreas recebem mais investimentos, especialmente aquelas ligadas à eficiência operacional, tecnologia e crescimento.
“Estamos vendo um reequilíbrio da força de trabalho”, afirma Dennison.
De acordo com a especialista, as empresas estão priorizando “capacidade, flexibilidade e impacto”, em vez de simplesmente manter estruturas tradicionais.
A familiaridade com ferramentas de IA ficou atrás de competências humanas como comunicação e resolução de problemas. Imagem: patpitchaya/Shutterstock – Imagem: patpitchaya/Shutterstock
As habilidades que seguem em alta
A capacidade de resolver problemas aparece no topo da lista de competências mais valorizadas, sendo citada por 54% dos gestores. Em seguida vêm a habilidade de aprender rapidamente novas ferramentas e tecnologias (44%), a comunicação (43%), a adaptabilidade (39%) e a colaboração em equipe (36%).
Outro resultado chama atenção. A familiaridade com ferramentas de inteligência artificial foi mencionada por apenas 31% dos entrevistados, ficando atrás de todas essas competências.
O levantamento foi realizado em dezembro de 2025 com 1 mil gestores de contratação dos Estados Unidos. As respostas foram coletadas de forma anônima por meio da plataforma Pollfish.
Recentemente, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo passou a empregar imagens de satélite combinadas com inteligência artificial para acompanhar a qualidade da água dos rios Tietê e Pinheiros. A iniciativa integra um programa estadual de despoluição e também pretende reforçar a capacidade de fiscalização de irregularidades ambientais.
O sistema, apresentado nesta semana, cobre aproximadamente mil quilômetros de extensão dos rios e de reservatórios associados. As informações são disponibilizadas ao público em um mapa interativo com indicadores de qualidade da água representados por cores.
A nova ferramenta faz parte de uma estratégia que busca acelerar a detecção de alterações ambientais e apoiar políticas de saneamento, sem substituir a rede tradicional de monitoramento já existente.
Monitoramento digital amplia vigilância sobre rios paulistas
A plataforma lançada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo integra o programa IntegraTietê, criado em 2023, e permite que qualquer pessoa acompanhe parte das condições dos rios Tietê e Pinheiros em tempo quase real. O sistema reúne dados de satélites e os organiza em um mapa público que indica diferentes níveis de qualidade da água.
Segundo a gestão ambiental do estado, o objetivo central é unir transparência e controle ambiental. A secretária responsável pela área afirmou, em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, que a proposta busca aproximar a população dos rios e estimular o acompanhamento das ações de recuperação.
“Queremos despoluir o Tietê e ser transparentes, queremos que as pessoas acompanhem. É importante nesses projetos de despoluição que as pessoas voltem a ter orgulho do rio“, disse Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo.
Além da divulgação pública, o sistema também foi estruturado para apoiar ações de fiscalização. A tecnologia permite identificar variações incomuns na qualidade da água, o que pode indicar possíveis despejos irregulares de efluentes.
O diretor-presidente da Cetesb explicou que o monitoramento por satélite reduz o intervalo de observação em relação ao modelo tradicional. “Até então, temos uma rede de monitoramento e para cada ponto temos uma periodicidade no máximo mensal“, afirmou Thomaz Miazaki de Toledo em entrevista à Folha de S.Paulo.
Tecnologia e funcionamento do sistema
IA auxilia na compreensão de dados capturadas via satélite – Imagem: tadamichi/iStock
O monitoramento utiliza diferentes satélites e combina técnicas de análise de imagem para identificar padrões de poluição específicos. Entre os principais focos estão a matéria orgânica dissolvida colorida e o processo de eutrofização, que ocorre quando o excesso de nutrientes estimula a proliferação de algas e compromete o uso da água para lazer, pesca e navegação.
De acordo com a Cetesb, a leitura das imagens é possível porque substâncias presentes na água interagem de forma distinta com a luz, o que permite inferir indicadores de qualidade ambiental. O acompanhamento é mais intenso em trechos médios e baixos do rio Tietê, onde esses fenômenos são mais relevantes para o uso humano.
Para isso, o projeto utiliza satélites como Sentinel 2 e Sentinel 3 em áreas de reservatórios, além de imagens de alta resolução de empresas privadas para trechos mais detalhados do rio. Também há uso de registros da empresa Firefly em situações específicas.
O sistema conta ainda com a cooperação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que participa de estudos sobre eutrofização, e com uma empresa responsável por desenvolver tecnologia voltada à detecção de matéria orgânica na água. O contrato com o Inpe tem duração de 12 meses e envolve investimento de 180 mil reais, enquanto o acordo com a empresa de tecnologia ultrapassa 1 milhão de reais.
A expectativa da Cetesb é que o uso de inteligência artificial permita gerar alertas automáticos a partir de mudanças detectadas nas imagens. A agência também pretende cadastrar pontos específicos de interesse para acompanhamento contínuo.
Expansão e objetivos do programa
O projeto não substitui a rede física de monitoramento da companhia, que mantém cerca de 550 pontos distribuídos em rios e reservatórios do estado. A proposta é complementar esse sistema com observação mais frequente e ampla por satélite.
Segundo a gestão estadual, a ampliação do saneamento básico em municípios da região metropolitana de São Paulo também faz parte do esforço de recuperação dos rios. Dados apresentados pela secretaria indicam avanço recente no tratamento de esgoto em cidades como Guarulhos, Franco da Rocha e Francisco Morato, com metas de universalização até 2029.
A Cetesb avalia que o modelo ainda está em fase de consolidação e pode ser ajustado após o período inicial de contratos. A intenção é manter a tecnologia e, no futuro, buscar formatos mais sustentáveis de operação.
A Amazon divulgou que seus data centers consumiram 2,5 bilhões de galões (9,46 bilhões de litros) de água no último ano, reacendendo o debate sobre o impacto ambiental da infraestrutura digital em escala global.
O número surge em um momento de pressão crescente sobre grandes empresas de tecnologia, que enfrentam cobranças por mais transparência no uso de recursos naturais.
Consumo de água da Amazon equivale a cerca de 5% de Seattle e levanta alerta sobre infraestrutura digital. Imagem: Reprodução/YouTube/Amazon
Consumo de água volta ao centro da discussão
Segundo a Bloomberg, o dado divulgado pela Amazon não passou despercebido: são 2,5 bilhões de galões de água usados globalmente em apenas um ano — algo em torno de 5% do consumo anual da região metropolitana de Seattle.
A empresa diz que resolveu abrir essas informações para mostrar eficiência em seus sistemas de resfriamento e também se posicionar em relação a outras gigantes da tecnologia.
Mas o contexto é mais amplo e, em alguns pontos, até desconfortável para o setor. Em várias regiões, o crescimento acelerado de data centers já levou governos locais a discutir limites para novas instalações. Em certos casos, até moratórias entram no radar.
Transparência ainda é o ponto mais sensível
Apesar dos números divulgados, o setor ainda enfrenta críticas fortes pela falta de dados padronizados sobre consumo de água.
E isso pesa. Sem métricas iguais entre empresas, comparar impacto ambiental vira quase um exercício de aproximação.
“Precisamos de mais transparência”, disse Iris Stewart-Frey, professora de ciências ambientais da Universidade de Santa Clara. Ela destaca que, sem isso, comunidades locais ficam sem clareza sobre os impactos reais dessas instalações.
Hoje, poucas empresas divulgam dados mais completos — entre elas, Google e Meta. Ainda assim, o setor segue longe de um padrão consolidado.
Data centers usam água para resfriar servidores e operação pode variar conforme clima e localização. Imagem: eric1207cvb/Shutterstock
Como a água entra no funcionamento dos data centers
Na prática, a água é usada principalmente para resfriar servidores que operam continuamente em alta carga. O sistema varia conforme clima e localização.
Em alguns casos, o ar externo é usado como base de resfriamento. Em períodos de calor mais intenso, ele passa por filtros com água, que evapora durante o processo.
O funcionamento pode ser resumido assim:
Uso de ar externo como primeira etapa de resfriamento
Aplicação de filtros com água em temperaturas mais altas
Evaporação parcial durante o processo térmico
Alternativas sem uso direto de água em regiões secas
Sistemas fechados que priorizam resfriamento a ar
A Amazon afirma que, em regiões como Phoenix e partes da Arábia Saudita, evita o uso de fontes externas de água e adota sistemas alternativos.
Eficiência vira argumento de comparação
Segundo a empresa, sua eficiência chegou a 0,12 litro por quilowatt-hora no último ano — abaixo do registrado em 2024. A Amazon também afirma estar à frente da Microsoft, que reportou 0,27 litro por quilowatt-hora.
A AWS ainda calcula que a média do setor seja mais alta, o que colocaria suas operações em posição relativamente eficiente.
Mas aqui entra um ponto que o próprio setor reconhece como problema: sem uma metodologia única de medição, qualquer comparação acaba sendo parcial.
Meta de retorno hídrico até 2030
A Amazon afirma que pretende devolver ao meio ambiente mais água do que consome até 2030. Para isso, investe em projetos de recuperação de bacias hidrográficas e restauração de sistemas hídricos.
A empresa também já leva água por tubulações para parte de seus data centers e participa de mais de 100 iniciativas de reuso e compensação hídrica.
O tema tende a ganhar ainda mais peso nos próximos anos, especialmente com a expansão da computação em nuvem e o avanço de aplicações de inteligência artificial, que aumentam a demanda por infraestrutura de processamento.
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, afirmou que todos são “stakeholders” da inteligência artificial e que a tecnologia pode elevar salários e distribuir ganhos.
Em um evento do New York Times em San Francisco, ele falou sobre a reação negativa à IA, o risco de impactos no emprego e o avanço da discussão política em torno do tema.
CEO da Microsoft comenta reação negativa à IA e alerta para mudanças no mercado de trabalho. Imagem: FOTOGRIN / Shutterstock – Imagem: FOTOGRIN / Shutterstock
IA e percepção pública
Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse em San Francisco que a inteligência artificial virou um dos assuntos mais sensíveis do momento nos Estados Unidos. Não é só pela velocidade dos avanços, mas pelo incômodo que a tecnologia vem gerando em parte da população.
A fala ocorreu durante o Hard Fork Live, evento do New York Times. No palco, ele reconheceu algo que já aparece em pesquisas e discussões do setor: a percepção da IA ainda é majoritariamente negativa em alguns grupos, mesmo com o crescimento acelerado das aplicações práticas.
E há um ponto que ele fez questão de destacar. Para Nadella, existe uma distância grande entre o que a tecnologia pode gerar em termos econômicos e o que as pessoas realmente enxergam no dia a dia.
Microsoft aposta na OpenAI e vê a IA como peça central na nova disputa tecnológica global. Imagem: Renata Mendes via Gemini 3 Pro / Olhar Digital
“Stakeholders” e impacto social
O executivo não ignorou um dos pontos mais sensíveis do debate: o impacto no trabalho. Ele admitiu que a IA pode substituir funções, mas argumentou que os ganhos de produtividade tendem a aparecer, ao longo do tempo, na forma de salários mais altos.
Em um momento mais direto da conversa, ele resumiu o clima em torno da tecnologia com a frase: “Não dá para negar que a percepção é péssima”. Em seguida, reforçou a ideia de que o impacto da IA não fica restrito às empresas de tecnologia: “todo mundo é uma parte interessada na IA”.
Esse debate já saiu do campo técnico há algum tempo. Nos Estados Unidos, a discussão passou a envolver políticos, economistas e grupos sociais diversos. Nomes como o senador Bernie Sanders e o presidente Donald Trump já trouxeram a ideia de que a riqueza gerada pela IA deveria ser compartilhada de forma mais ampla.
Nadella defende que os benefícios da IA devem ser compartilhados por toda a sociedade. – Imagem: QubixStudio/Shutterstock
Estratégia da Microsoft na corrida da IA
Dentro da Microsoft, a leitura é de que a corrida da inteligência artificial exige escolhas cada vez mais difíceis. A empresa foi uma das primeiras a apostar na OpenAI e ampliou esse investimento ao longo dos anos, ajudando a impulsionar ferramentas como o ChatGPT.
Mas essa relação não ficou exatamente do mesmo jeito. Houve ajustes recentes para reduzir a dependência entre as duas empresas, embora a parceria siga estratégica para ambos os lados.
O ponto mais concreto levantado por Nadella, no entanto, não é político nem filosófico — é infraestrutura. A escassez de chips e memória já virou um gargalo real para o crescimento de data centers e para a expansão dos sistemas de IA.
Isso respinga em várias áreas da empresa, inclusive na divisão Xbox, que também disputa recursos dentro da Microsoft. No fim, segundo o executivo, o desafio é simples de dizer e difícil de resolver: crescer sem perder controle de custos, energia e capacidade computacional.
A Anthropic lançou, na terça-feira (09), o Claude Fable 5. Você talvez tenha lido aqui no Olhar Digital que essa nova inteligência artificial (IA) reduz dois meses de trabalho a um dia. Pois bem. Lembra do Mythos? Aquele modelo de IA que a sua desenvolvedora, a Anthropic, considerou “perigoso demais” para ser lançado ao público. O Fable é o Mythos “na coleira”.
É o que explicou Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP, com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, e também colunista do Olhar Digital. “Eles perceberam que esse modelo [o Mythos] ainda é muito poderoso. Então, eles colocaram o modelo na coleira”, disse o pesquisador.
“Fizeram um ajuste tão pesado que é o seguinte: toda vez que algum usuário quiser falar de cibersegurança com você [o modelo Fable], você não responde”, explicou Pena. O que acontece é: se você tentar conversar sobre segurança cibernética com o Fable, ele sai de cena, e você passa a conversar com outro modelo da Anthropic, o Opus. Este também é avançado, só que faz parte da geração passada de IA da empresa.
Preocupada com capacidade do Mythos, Anthropic trancou a IA a sete chaves
Para você entender essa história toda, precisamos recapitular o contexto. A Anthropic desenvolveu um modelo de IA capaz de revolucionar a cibersegurança. Mas, ao anunciá-lo, em 7 de abril de 2026, tomou uma decisão incomum: trancou o modelo a sete chaves. E distribuiu as chaves para algumas empresas.
Por quê? Segundo a empresa, o modelo, chamado de Claude Mythos Preview, seria “perigoso demais” para cair nas mãos do público geral. “As consequências – para as economias, a segurança pública e a segurança nacional – podem ser graves”, declarou a empresa na época.
Num primeiro momento, a Anthropic achou melhor trancar o Mythos a sete chaves – Imagem: Olhar Digital
O Mythos é o modelo de IA mais avançado já desenvolvido pela empresa de Dario Amodei até o momento. Ele foi anunciado junto ao Projeto Glasswing, iniciativa liderada pela Anthropic em parceria com big techs como Apple, Google, Microsoft e Nvidia. Em suma, é um consórcio criado para testar o modelo em sigilo.
O forte do Mythos é programação. Ele funciona de maneira semelhante a um engenheiro de software experiente, sendo capaz de detectar bugs sutis, corrigir as próprias falhas e superar a maior parte dos humanos na identificação de brechas de sistemas.
Fabrício Carraro, Program Manager na Alura e colunista do Olhar Digital, explorou o System Card publicado pela empresa. É um documento de 245 páginas no qual a Anthropic detalha seus testes e benchmarks.
“Nos benchmarks de programação, ele [o Mythos] realmente mostrou uma evolução muito, muito grande em comparação ao seu antecessor, o Opus 4.6”, disse Carraro, em entrevista ao Olhar Digital.
O motivo para a Anthropic não liberar o modelo para o público geral é o seu potencial de uso duplo. Isto é, ele poder servir tanto para a proteção de infraestruturas quanto para a execução de ataques cibernéticos.
Testes do Instituto de Segurança de IA do Reino Unido, por exemplo, comprovaram que o Mythos realizou hacking avançado em 73% das tentativas e cumpriu com sucesso uma simulação de ataque de 32 etapas, enquanto relatórios da própria Anthropic revelaram que a IA conseguiu escapar de um ambiente de teste controlado (você pode mergulhar no “Mythos proibido” nessa reportagem especial do Olhar Digital).
Claude Fable 5 é o Mythos ‘na coleira’
Num primeiro momento, a Anthropic anunciou que manteria o Mythos trancado a sete chaves. Mas, de lá para cá, trabalhou em outra alternativa: colocar o modelo “na coleira”, como disse Pena.
“A ideia foi evitar que qualquer usuário possa fazer algum uso maligno. Eu não sei se isso é o suficiente para garantir. Mas eles tentaram. Colocaram na coleira. E aí, eles deram outro nome: Fable. Ou seja, fábula – que seria um, digamos, mito menor”, explicou o pesquisador.
Esse Claude Fable 5 (que também tem system card) é bom mesmo? Segundo Pena, sim. Principalmente para programação (o forte do Mythos, lembra?). “Quando a gente vê os testes de programação, ele vai 10%, 15%, 20% acima dos concorrentes. Normalmente, quando lançam modelos, a diferença fica por volta de 5%, 8%, 10%. Dessa vez, estamos observando saltos muito grandes”, afirmou Pena. “É realmente outro nível.”
Tabela divulgada pela Anthropic compara o Claude Mythos 5 / Fable 5 com concorrentes em 13 categorias – Anthropic / Divulgação
A diferença entre o Claude Mythos Preview e o Claude Fable 5 é que o segundo chegou ao público geral. E usuários (pesquisadores, desenvolvedores, programadores) não curtiram muito as restrições.
Usuários relatam que o sistema passou a bloquear temas inofensivos relacionados a biologia e matemática, por exemplo. Não demorou para circularem acusações de que a Anthropic estaria centralizando o controle e dificultando a avaliação independente da tecnologia.
You’re not even allowed to ask Fable about basic biology questions, let alone anything that could potentially be dangerous. pic.twitter.com/FOlGpPJqsB
É mais um episódio que reforça o dilema da Anthropic em equilibrar seus interesses comerciais com suas metas de segurança, que fazem parte do seu posicionamento no mercado. Isso enquanto a empresa está numa corrida acirrada contra a OpenAI por clientes e investidores antes de uma possível abertura de capital (IPO) na Bolsa de Valores.
Enquanto executivos do setor defendem regulações globais, críticos argumentam que os alertas de perigo e os bloqueios excessivos funcionam como marketing corporativo e barreira para sufocar concorrentes de código aberto. E aí, o debate sobre quem deve controlar os limites da IA esquenta ainda mais.
“Agora, a dúvida que fica é: será que esse Fable está realmente seguro? Será que a galera não vai descobrir um jeito de fazer um jailbreak e começar a usar de um jeito ruim?”, questionou Pena. “Será que essa coleira é realmente resistente? Isso a gente vai ter que esperar para ver.”