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‘ChatGPT carioca’: entenda a polêmica da IA lançada pela prefeitura do Rio

O Rio de Janeiro (RJ) “lançou um modelo aberto de inteligência artificial”, escreveu o prefeito, Eduardo Cavaliere (PSD), na sexta-feira (12). O Rio Open 3.5 era um “modelo de IA aberto treinada no Rio com financiamento público ao longo do último ano pela Prefeitura”, disse o político numa postagem no X/Twitter. Mas não é bem assim.

A princípio, a divulgação feita pela prefeitura deu a entender que o modelo da IplanRio, empresa pública carioca de informática, tinha sido desenvolvido pela iniciativa da administração. “Inteligência artificial não é uma coisa distante, estrangeira, de laboratório bilionário”, escreveu o prefeito em sua postagem.

Na verdade, o Rio Open 3.5 é essencialmente uma mistura de dois sistemas chineses de código aberto: Nex-N2-Pro, da Nex-AGI; e Qwen 3.5-397B, da Qwen.

Rio Open 3.5: Entenda o caso do ‘ChatGPT carioca’ que, na verdade, é chinês

O modelo foi anunciado pela IplanRio logo após o encerramento do Web Summit Rio, versão carioca do evento global de tecnologia. Com 397 bilhões de parâmetros, a ferramenta foi apresentada com testes internos que indicavam uma suposta superioridade em relação a sistemas como o DeepSeek V4 em tarefas de programação, matemática e raciocínio. 

Cavaliere foi às redes sociais no sábado (13) exaltar o projeto como fruto de “engenharia brasileira” e símbolo de “soberania”. Confira abaixo:

“A avaliação não era independente. Não foram terceiros que fizeram isso”, observou Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, ao Olhar Digital. Ou seja: os resultados de desempenho divulgados pelo prefeito não tinham passado por verificação independente. 

No domingo (14), o laboratório Nex-AGI acusou publicamente a prefeitura de apropriação tecnológica sem os devidos créditos. Os chineses apontaram que a documentação carioca tinha omitido que o Rio Open 3.5 continha, na verdade, 60% do modelo Nex-N2-Pro (os 40% restantes eram do Qwen 3.5-397B).

Ao contrário do divulgado inicialmente, não houve um processo complexo de treinamento ou refinamento de dados. O Rio Open 3.5 “nada mais é do que a combinação de dois sistemas abertos já disponíveis”, disse Igreja.

O sistema consistia numa fusão de modelos (model merge), técnica simples de alinhar e somar parâmetros de duas tecnologias prontas. Isso exige pouco poder computacional e nenhuma pesquisa aprofundada.

“Na verdade, praticamente nada foi desenvolvido. Só foi feita essa mescla” – Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em comentário ao Olhar Digital.

“Fazer um model merge é uma prática legítima, comum e totalmente permitida pela licença Apache 2.0 que rege essas arquiteturas, desde que a devida atribuição técnica seja feita”, observou Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da FGV, ao Olhar Digital. “O erro da equipe foi a falta de transparência na documentação inicial, o que, no universo de código aberto, soa imediatamente como apropriação indevida.”

Para expor a situação, a Nex-AGI removeu uma instrução embutida que forçava a IA a se apresentar como “Rio 3.5”. Sem esse filtro, o robô passava a responder que seu nome era “Nex”.

A perda do ‘modelo final’

Em nota enviada ao Olhar Digital (que você lê na íntegra no final desta matéria), a IplanRio disse que houve “uma falha operacional” na publicação dos arquivos na plataforma Hugging Face que “levou ao envio de uma versão preliminar de testes, em vez da versão final do Rio 3.5 preparada pela equipe técnica”. “Por isso, o arquivo disponibilizado temporariamente ainda apresentava características das bases abertas utilizadas como ponto de partida para o desenvolvimento da ferramenta.”

A IplanRio admitiu, em nota enviada ao Olhar Digital, que “não foi possível recuperar o modelo final” – Imagem: DC Studio/Shutterstock

Após a repercussão na imprensa e na comunidade técnica sobre a falta de transparência e de relatórios detalhados, a página do projeto foi atualizada – agora, constam créditos à Nex-AGI. A empresa pediu desculpas pela “confusão”.

A prefeitura agora trabalha no upload da versão definitiva do modelo. A narrativa oficial da IplanRio é de que o modelo definitivo não será apenas uma fusão direta dos dois sistemas chineses, mas sim uma “solução própria, ajustada às necessidades da administração municipal”. Além disso, a empresa defendeu que a estratégia de fundir códigos abertos é legítima, visa a responsabilidade fiscal e reduz custos operacionais para a máquina pública.

No entanto, a IplanRio admitiu que “não foi possível recuperar o modelo final”. A nota complementa que a ferramenta só será publicada “assim que forem concluídos os treinamentos e todas as validações externas”. Isso indica que o trabalho de customização defendido pela administração municipal pode ter que ser refeito do zero. Ou, ainda, que o suposto modelo definitivo sequer estava pronto.

“Apesar dos tropeços na documentação do modelo, o mérito indiscutível da iniciativa é a visão pragmática de aplicar a inteligência artificial para otimizar a máquina pública e modernizar o atendimento ao cidadão”, observou Corrêa.

Ainda segundo o especialista, “esse episódio acaba sendo um reflexo claro do atual estágio do Brasil na corrida global da IA”. “A dura realidade é que ainda não somos um player competitivo na criação de modelos fundacionais do zero.”

Em outras palavras: a IA é, sim, uma coisa distante, estrangeira, de laboratório bilionário. Pelo menos, para o Brasil.

Íntegra da nota da IplanRio

A IplanRio esclarece que o Rio 3.5 foi desenvolvido e construído a partir de tecnologias de código aberto já existentes, prática adotada mundialmente no desenvolvimento de inteligência artificial. A equipe técnica da Prefeitura utilizou como base modelos públicos disponibilizados pela Alibaba, por meio do Qwen 3.5, e pela Nex-AGI, por meio do Nex-N2 Pro. Essas tecnologias possuem licenças abertas que permitem e incentivam sua adaptação e aprimoramento por terceiros.

A partir dessas bases, a Prefeitura desenvolveu uma solução própria, ajustada às necessidades da administração municipal. Essa estratégia foi escolhida por combinar inovação e responsabilidade fiscal, permitindo entregar uma ferramenta robusta, com menor custo de processamento e sem a dependência de softwares proprietários e licenças caras.

No entanto, durante a publicação do projeto na plataforma Hugging Face, uma falha operacional levou ao envio de uma versão preliminar de testes, em vez da versão final do Rio 3.5 preparada pela equipe técnica. Por isso, o arquivo disponibilizado temporariamente ainda apresentava características das bases abertas utilizadas como ponto de partida para o desenvolvimento da ferramenta.

Assim que a inconsistência foi identificada pela comunidade de pesquisadores, a IplanRio atualizou a documentação do projeto e revisou seus procedimentos internos. Não foi possível recuperar o modelo final, que será publicado assim que forem concluídos os treinamentos e todas as validações externas.

A IplanRio reforça que o Rio 3.5 é uma solução própria da Prefeitura do Rio, desenvolvida para atender às necessidades da administração municipal. A iniciativa garante mais autonomia tecnológica, reduz gastos com licenças de softwares proprietários e permitirá tornar os serviços públicos mais ágeis e eficientes para o cidadão carioca.

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Governo dos EUA mantém restrições a modelos de IA da Anthropic e amplia tensão

A empresa de inteligência artificial Anthropic enfrenta um impasse com o governo dos Estados Unidos após receber uma determinação para restringir o acesso aos seus modelos mais recentes, Fable 5 e Mythos 5. A medida, comunicada na última sexta-feira (12), foi justificada por preocupações ligadas à segurança nacional e desencadeou uma série de questionamentos dentro da companhia.

Seis dias após a ordem, as negociações entre representantes da empresa e integrantes da administração do presidente Donald Trump continuam sem resultado concreto. Enquanto isso, funcionários seguem sem explicações detalhadas sobre os motivos da restrição e demonstram preocupação com os impactos da decisão sobre o futuro dos negócios.

O episódio ocorre em meio a uma relação já desgastada entre a Anthropic e o governo americano, que nos últimos meses passou a acompanhar de perto o desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial produzidos pela companhia.

Conflito amplia pressão sobre empresa de inteligência artificial

Casa Branca nos Estados Unidos – Imagem: Waqas_creatives/Shutterstock

A crise teve início quando a Anthropic foi informada pela Casa Branca de que deveria retirar do mercado seus modelos mais recentes de IA em um prazo extremamente curto. Internamente, a comunicação sobre as razões da medida mudou ao longo das horas seguintes. Funcionários receberam explicações distintas, que incluíam desde riscos relacionados ao acesso por empresas estrangeiras até a existência de uma suposta vulnerabilidade relevante nos sistemas.

A falta de informações precisas alimentou dúvidas entre equipes da companhia. Em conversas internas, profissionais passaram a questionar os possíveis reflexos da decisão governamental sobre os planos da empresa, incluindo expectativas relacionadas à abertura de capital prevista para este ano. A incerteza também foi reforçada por notícias que apresentavam versões divergentes sobre as razões da intervenção federal.

A atual disputa representa o segundo grande embate entre a Anthropic e a administração Trump em menos de um ano. O relacionamento entre as partes já havia sido abalado após divergências envolvendo um contrato de US$ 200 milhões firmado com o Departamento de Defesa para o emprego de inteligência artificial em sistemas classificados.

Na ocasião, divergências públicas sobre o uso da tecnologia em operações militares culminaram na classificação da empresa como um risco para a cadeia de suprimentos por parte do governo. A designação, segundo o The New York Times, nunca havia sido aplicada anteriormente a uma companhia estadunidense. A Anthropic contestou a medida judicialmente.

As discussões voltaram a ganhar intensidade após o anúncio do Mythos. A própria empresa afirmou que o modelo possuía capacidade excepcional para identificar vulnerabilidades em softwares, a ponto de provocar uma transformação significativa na área de segurança digital. Por causa desse potencial, o acesso inicial foi limitado a um grupo restrito de organizações.

Logo da Anthropic ao fundo, com silhuetas de pessoas passando à frente
Outdoor da Anthropic – Imagem: PhotoGranary02/Shutterstock

O lançamento estimulou debates dentro da Casa Branca sobre a criação de mecanismos para avaliar novos sistemas de inteligência artificial antes de sua disponibilização ao público. Nesse contexto, representantes da Anthropic participaram de reuniões com integrantes do governo e colaboraram nas discussões sobre possíveis diretrizes regulatórias.

Mais recentemente, a empresa lançou o Fable 5, uma versão desenvolvida para ampliar salvaguardas e reduzir riscos associados ao uso da tecnologia. Antes da disponibilização, o modelo foi submetido a testes realizados pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos, procedimento já adotado em lançamentos anteriores da companhia.

Parte da controvérsia atual envolve uma análise conduzida por pesquisadores da Amazon. O estudo identificou uma situação na qual o Fable 5 poderia ser induzido a revelar falhas presentes em determinados códigos vulneráveis. O documento foi compartilhado com a Anthropic e posteriormente discutido com integrantes do governo americano.

Autoridades que tiveram acesso ao material classificaram os resultados como preocupantes. No entanto, especialistas em segurança digital sustentam que a capacidade de localizar vulnerabilidades também pode fortalecer mecanismos de proteção cibernética, auxiliando profissionais encarregados de corrigir falhas antes que sejam exploradas por agentes mal-intencionados.

Entre os críticos da restrição está a pesquisadora Katie Moussouris, que analisou o trabalho produzido pela Amazon a pedido da Anthropic. Em publicação sobre o tema, ela argumentou que impedir esse tipo de funcionalidade comprometeria justamente uma das aplicações mais úteis da inteligência artificial para a defesa digital.

Defensores precisam conseguir pedir à IA que corrija falhas em um arquivo, explique por que a correção é importante e escreva testes que confirmem que o ajuste funciona. Isso não representa uma quebra de proteção” , afirmou Katie Moussouris, especialista em cibersegurança, em comentário citado pelo The New York Times.

notebook com várias linhas coloridas de código na tela
Linhas de um código-fonte – (Reprodução: Chris Ried/Unsplash)

Embora parte das preocupações tenha sido associada ao estudo da Amazon, um integrante do governo ouvido pela reportagem original indicou que as objeções da administração americana também envolveriam outros aspectos relacionados à segurança nacional e às relações da empresa com determinadas organizações. Ainda assim, pessoas com conhecimento das discussões afirmaram que esse ponto não teria sido apresentado diretamente à Anthropic.

Sem esclarecimentos públicos mais detalhados, a companhia permanece negociando com autoridades americanas em busca de uma solução. Paralelamente, especialistas da área de segurança digital organizaram uma carta aberta solicitando a retirada das restrições impostas aos modelos da empresa.

O documento reuniu mais de 150 assinaturas de pesquisadores e profissionais ligados à segurança cibernética e à inteligência artificial. Os signatários defenderam que o Fable 5 já possuía mecanismos de proteção considerados robustos para impedir usos ofensivos da tecnologia.

Dentro da Anthropic, a mobilização foi recebida como um sinal de apoio em meio ao impasse. Mesmo assim, persistem dúvidas sobre a capacidade da empresa de lançar futuras gerações de modelos caso o governo mantenha a postura atual. O cenário contribuiu para ampliar a percepção de insegurança entre funcionários, que seguem aguardando definições sobre os próximos passos da companhia.

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IA vai substituir professores? “Problema é quando substitui o pensamento”, diz pesquisador

A inteligência artificial já entrou na sala de aula. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude passaram a fazer parte da rotina dos estudantes, seja para tarefas simples, como resumir textos e explicar conceitos, seja para apoiar na produção de trabalhos completos.

Em alguns casos, a tecnologia ocupa um espaço ainda maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma escola chamou atenção ao substituir professores por programas digitais. A Alpha School promete um currículo personalizado de acordo com as capacidades de cada estudante, com carga horária reduzida para disciplinas básicas (como matemática e inglês) e o restante do tempo voltado para atividades de “socialização”. Tudo isso com ajuda de IA.

Ao mesmo tempo que iniciativas como essa despertam a curiosidade, especialistas alertam para os limites da tecnologia no processo de aprendizagem.

A Unesco defende que a inteligência artificial pode apoiar professores e estudantes, mas não substituir a dimensão humana. Isso porque, para Shafika Isaacs, chefe da seção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação do órgão, a “educação é uma experiência social, humana e cultural”.

Isaacs destacou riscos da IA no processo de aprendizagem, como a externalização do pensamento – algo que compromete o desenvolvimento crítico dos alunos.

No Brasil, o professor e pesquisador André Barcaui, pós-doutor em Inteligência Artificial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), conduziu um estudo para medir o nível de retenção de conhecimento de estudantes de graduação que utilizaram IA no processo de aprendizagem.

Alunos que usaram ChatGPT aprenderam menos

A pesquisa acompanhou universitários que utilizaram o ChatGPT durante uma atividade acadêmica e comparou seus resultados com os de estudantes que recorreram apenas a métodos tradicionais de estudo.

45 dias depois, o professor aplicou um teste surpresa com os mesmos alunos. As notas revelaram uma diferença significativa: aqueles que estudaram sem inteligência artificial obtiveram média de 68,5% de acertos, enquanto aqueles que utilizaram o ChatGPT registraram 57,5%.

Para Barcaui, os resultados não significam que a inteligência artificial prejudica necessariamente o aprendizado nem justificam qualquer tentativa de proibição da tecnologia. O pesquisador, que se define como um entusiasta da IA, argumenta que o problema surge quando a ferramenta deixa de ampliar o raciocínio humano e passa a substituí-lo.

É o que ele chama de “competência emprestada” – uma situação em que o estudante consegue obter respostas sofisticadas, mas não desenvolve o conhecimento necessário para reproduzir aquele raciocínio por conta própria.

Na avaliação do pesquisador, a inteligência artificial deve integrar o ambiente educacional, mas acompanhada de letramento digital, orientação pedagógica e estímulo a habilidades que continuam sendo essencialmente humanas, como leitura, escrita, pensamento crítico e capacidade de interpretação.

“O problema não é a IA. É quando ela substitui o seu pensamento”, resume. O Olhar Digital deu mais detalhes sobre esse assunto aqui.

Barcaui conversou conosco sobre o assunto. Confira a entrevista completa.

Curva de esquecimento ao longo dos 45 dias após o aprendizado. Linha vermelha representa os alunos que estudaram por métodos tradicionais; linha azul representa alunos que usaram IA – Imagem: André Barcaui/Science Direct

IA pode substituir professores?

O que te motivou a fazer o estudo? 

O pontapé foi o seguinte: eu sou professor de graduação, por um lado, mas de pós-graduação, por outro. Então, eu vejo vários mundos, além de fazer consultoria também.

Com o tempo, eu comecei a perceber que as pessoas (adolescentes ou final da adolescência) estavam fazendo um uso muito pobre ou não revelado, fantástico demais, da inteligência artificial, que não condizia com o grau de conhecimento desses alunos. 

Por um lado, há uma ignorância em relação ao potencial da ferramenta, com muitos alunos usando aquilo como se fosse Google. Por outro lado, algumas respostas que você obtém de trabalhos… está na cara que aquilo não foi feito pelo aluno. Com o tempo, você aprende, inclusive, a diferenciar isso. E você aprende a parar de brigar contra isso e passar a usar a favor da aula. Mas isso me incomodava. Eu comecei a ver algumas pesquisas do Google e Microsoft, e pensei em fazer a minha.

Mas deixa eu deixar claro: a IA é incrível, é uma tecnologia de propósito genérico extraordinário. Eu sou um entusiasta da IA, do tipo que acha que os benefícios compensam os riscos. Mas existem riscos – e eu estou cada vez mais entrando neles. É justamente a minha pesquisa. (…)

Em uma das conclusões você fala sobre o conceito de competência emprestada. Como você explica esse conceito para alguém que não é da área acadêmica? O que é isso na prática? 

O título do paper é “cognitive crutch”, quer dizer, uma muleta cognitiva. Porque é como se você estivesse, de fato, emprestando a competência. 

Eu acho que o produto que a gente está vendo agora no mercado é, em parte, responsabilidade da minha geração. Porque esse fenômeno não acontece do nada. A competência emprestada é como se as pessoas mais novas tivessem um adulto do lado. Que nem a gente tem quando criança e, quando quer fazer uma pergunta, fala com a mãe. É como se você tivesse um adulto que você faz pergunta.

Isso não é um problema em si. O problema é você usar essa fonte como substituto do seu pensamento.

A preocupação enquanto professor, pai e ser humano, é que as pessoas do grupo que usaram IA de maneira indiscriminada estão substituindo o pensamento, e não aumentando o pensamento. Porque, para aumentar seu pensamento – que é aí que está o valor da IA na minha visão – você tem que ter um pensamento formado, uma certa base para te ajudar a aprender. Senão, é como se você hipotecasse aquele conhecimento. Você dá uma resposta rápida, e o mercado cobra respostas rápidas. A IA faz isso muito bem. Só que o que restou daquela resposta que você deu quando você substituiu o seu pensamento pelo pensamento de uma máquina, entendeu? Esse é o ponto.

Estudante com chatgpt ligado no celular
Professor defende letramento para o uso da IA em sala de aula – Imagem: BongkarnGraphic/Shutterstock

Um dos detalhes do estudo é que os participantes que usaram a inteligência artificial usaram sem uma orientação pedagógica. Você acha que se houvesse alguma orientação por parte das universidades, o resultado seria diferente? 

A resposta rápida é sim. 

Eu acho que parte do legado que a minha geração tem que deixar para as próximas gerações é ensinar a pensar. Um letramento mesmo. Como é que aquilo [IA] pode ser útil para você? Como é que aquilo [IA] pode te ajudar a pensar? (…)

Não se trata de tecnofobia. Pelo contrário. Eu adoro isso [IA], mas você tem que ensinar as pessoas a usar, senão fica solto, sem rumo. O importante é você letrar as pessoas: dizer o que é uma IA preditiva e generativa, quais os limites dessa tecnologia e as oportunidades, como usar da melhor forma…

Outro ponto é que eu não espero que você faça uma conta de 427.326 dividido por 35,4. A calculadora está aí para isso. Agora, se você está numa feira, comprando 9 tomates por R$ 5, e você precisa abrir a calculadora…. me parece um pouco de perda de base de conhecimento. Uma coisa é você não ter que memorizar o telefone de todo mundo, outra coisa é você não saber tabuada, não saber escrever o português básico. Eu estou vendo pessoas que não sabem fazer regra de 3, que eventualmente não conseguem interpretar um texto. (…)

Eu sou péssima de matemática, mas sei fazer regra de 3… 

São essas coisas básicas, entende? O meu ponto é que você não tem que fazer coisa que o Google te dá ou que a IA te dá. A IA é como se fosse um espelho nosso. Se a gente conhece pouco de um assunto e a gente faz um prompt, a IA vai te dar uma resposta e você vai usar, mas é ‘copia e cola’. O que você aprendeu com aquilo? É isso que eu chamo de hipoteca: você não aprendeu nada, você só deu uma resposta.

Agora, se você conhece o assunto minimamente, o nível do prompt é melhor e o grau de resposta que você vai ter também vai ser melhor. Vai haver uma troca muito mais profícua do que fazer perguntas pra IA esperando resposta para ela substituir o que você poderia estar pensando.

Um dos diferenciais [da pesquisa] é que você voltou a avaliar depois de 45 dias, com um teste surpresa. A curto prazo a IA foi efetiva? 

A ideia foi: eu quero fazer uma pesquisa sobre o grau de retenção de conhecimento de alunos usando IA e sem usar IA. Essa ideia não é original, mas eu quis fazer um exemplo brasileiro dos nossos alunos de graduação.

Eu peguei um montão de alunos, uma amostragem que começou com 80 e, no final, caiu para 50 – mas isso é normal. Eu não disse o que era o projeto [para os alunos], eu só pedi o consentimento deles e falei “vamos fazer um trabalho sobre IA”.

Eu medi o conhecimento deles [sobre IA] antes. O conhecimento médio era baixo. Tinha um ponto fora da curva aqui e ali, mas a média era muito parecida. Aí eu dividi em dois grupos: um grupo de controle e um grupo usando IA. Um grupo não podia usar nada de IA, mas podia usar Google, livros… e o outro podia e devia usar IA. A maioria esmagadora usou o ChatGPT. Eles fizeram os trabalhos e apresentaram. Os trabalhos eram parecidos, não vou nem dizer que um era muito melhor que o outro.

Para os alunos, a pesquisa acabou ali. Para mim, aquilo era só a metade. Depois de um período, eu soltei um teste para eles, com exatamente a mesma matéria e os mesmos tópicos que eles tinham apresentado em ambos os grupos. O resultado foi muito evidente: o grupo que não usou IA reteve muito mais conhecimento do que o grupo que usou IA. (…)

A IA a curto prazo tem um efeito fantástico… mas, dependendo da forma como você usa, você substitui o seu pensamento e deixa de aprender. Se você só substitui o pensamento, você não só está deixando uma grande oportunidade de aprender, como também está se viciando literalmente na forma como você pensa. (…)

O que diferencia o cérebro de canhotos e destros?
Pesquisa brasileira observou queda na retenção de conhecimento de alunos que usaram ChatGPT no estudo – Imagem gerada por IA via ChatGPT/OlharDigital

Esse cenário, aplicado ao sistema de ensino, é algo que pode afetar desde as gerações mais novas… pode formar pessoas que não sabem pensar criticamente. Como você acha que as escolas e as universidades vão ter que lidar com isso? 

Primeiro, as pessoas têm que se conscientizar. As instituições de ensino em geral, da escola até a pós-graduação, têm que se conscientizar de que o mundo mudou. As pessoas não têm saco de ficar quatro, cinco anos na faculdade, com aulas que o professor fala e o aluno só escuta. O mundo mudou, a geração Z mudou… e a gente tem que mudar. Eu tenho que mudar enquanto professor. Os professores em todos os níveis têm que mudar, só que a gente enfrenta vários problemas, particularmente no Brasil. 

(…) Se não mudar, a gente vai criar uma geração despreparada para o uso dessas tecnologias. Para mudar, a gente tem que ter, obviamente, boa vontade e iniciativa de quem está comandando isso. Eu acho que tem que ter incentivo do governo. Nesse ponto, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, se for para a frente devidamente, é uma iniciativa fantástica.

Ainda tenho colegas que falam que as pessoas não podem pedir para o professor usar IA porque o professor vai ser substituído pela IA. Primeiro que eu não acho que isso vai acontecer, porque o professor vai mudar de papel devagarzinho. Segundo, os professores têm que entender o papel que eles passam a ter em um mundo em que a IA é uma realidade. Não é para fugir da IA, proibir o uso… isso é um erro crasso. Seria como dizer: não vamos mais usar Uber, vamos andar de táxi.

A IA é uma tecnologia incrível, mas precisa de letramento, até para as pessoas não terem medo daquilo, entenderem para que serve. (…) Porque o aluno usa a IA, vai usar e tem que usar. O professor é quem não está usando a IA. Isso é muito paradoxal: o aluno, eventualmente, sabe mais sobre as possibilidades da IA do que o professor. (…)

Resumindo, eu acho que tem que ter incentivo governamental, conscientização das lideranças nas diversas instituições de ensino e digitalização.

O Brasil tem um problema anterior à digitalização, que é de educação. Hoje em dia, não tem como escapar disso, sob o risco de criar um gap. A IA é feita para democratizar… Só que, se a gente não tomar cuidado, enquanto professor, instituição de ensino e sociedade, corre risco de aumentarmos o gap do ponto de vista social. A gente quer dar acesso. (…) Não tem nada que eu não possa aprender hoje com a IA, contanto que a gente saiba conduzir isso.

Considerando a realidade que a inteligência artificial já é inevitável, quais habilidades você considera que são essenciais para um aluno? 

Primeiro, leitura. A questão é que você precisa ter pensamento crítico. A leitura dá flexibilidade cognitiva e alfabeto, no sentido de que você lê palavras e é obrigado a interpretar o que está ali.

Escrita também… Em vez de você ser assistido o tempo todo, você acaba tendo que bolar suas próprias palavras. Quando a gente escreve, tem que estruturar o que está falando. Para estruturar o que você está falando, você pensa. Isso dá trabalho. Para escrever sem pedir auxílio da IA… você tem que pensar aquelas palavrinhas com cuidado e ver se elas fazem sentido.

O terceiro são pequenas decisões para tomar sem a consulta algorítmica. A cabeça é, até certo ponto, um músculo também. No seguinte sentido: se você não exercita, você esquece coisas. A gente esquece coisinhas pequenas, como o nome de um filme. Eu não sou contra que a Netflix me recomende filmes, por exemplo. Mas é importante que a gente também se dê a chance de tomar essas pequenas decisões para exercitar essa musculatura. 

Por último – e talvez a mais difícil de todas – é o relacional, da conversa. A gente tem visto um aumento considerável de sites de relacionamento. (…) Eu tenho uma tendência a ver o lado positivo e, por um lado, às vezes a pessoa é muito tímida e a IA pode ajudar. Mas, no relacionamento, você começa a ver pessoas consultando a IA para ver o que vai falar, como terminar com o namorado, se deve casar ou comprar uma bicicleta… (…) Um exemplo só não vai provar nada, mas mostra que existe uma dependência maior da tecnologia. E a conversa real é difícil. Ela tem hesitações, silêncios constrangedores… se você delega isso, você está quase desumanizando o indivíduo.

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Bezos diz que IA não vai tirar empregos — vai criar outro problema

Jeff Bezos afirmou que a inteligência artificial não deve tornar os seres humanos desnecessários. Para ele, a tecnologia tende a ter o efeito oposto ao que muitos imaginam: em vez de substituir pessoas, pode aumentar a falta de trabalhadores em várias áreas.

O debate não é pequeno, explica publicação da Reuters no UOL. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos mostra que metade dos norte-americanos teme que a IA leve à perda de emprego, seja para si ou para alguém da família. Esse clima ajuda a explicar a preocupação crescente com o avanço da tecnologia.

IA pode aumentar produtividade e criar novas funções, segundo visão otimista de Jeff Bezos. Imagem: patpitchaya/Shutterstock – Imagem: patpitchaya/Shutterstock

Mais demanda do que gente para trabalhar

Na visão de Bezos, o ponto central não é a redução de trabalho, mas o contrário: a sociedade já opera com uma demanda tão grande por produção, serviços e inovação que a capacidade humana acaba ficando limitada.

Discordo totalmente desse ponto de vista. E acho que, na verdade, a IA vai causar escassez de mão de obra.

Jeff Bezos, fundador da Amazon, em declaração durante a VivaTech.

A fala contrasta com o receio comum de que sistemas automatizados substituam empregos em larga escala.

Ele defende que a inteligência artificial pode ajudar justamente a reduzir barreiras que hoje travam processos, acelerando atividades em diferentes setores e ampliando o que é possível produzir.

Na prática, isso pode significar:

  • aceleração de tarefas industriais e processos criativos
  • aumento da produtividade em áreas técnicas e operacionais
  • redução de gargalos em engenharia e desenvolvimento de produtos
  • criação de novas funções ligadas à própria tecnologia
  • reorganização do trabalho humano em atividades mais complexas
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Pesquisa mostra que metade dos americanos teme perder empregos com o avanço da inteligência artificial. Imagem: 4 PM production/Shutterstock

IA, espaço e novas fronteiras da produção

Bezos conectou essa visão sobre inteligência artificial a outros projetos que lidera, como a Blue Origin e a startup Prometheus. A ideia é usar IA para acelerar o desenvolvimento de produtos físicos e encurtar ciclos de engenharia.

Para ele, a combinação entre tecnologia e automação pode mudar a forma como bens são projetados e fabricados, reduzindo o tempo entre a ideia e o produto final.

No campo espacial, o empresário voltou a defender um projeto antigo: levar parte da indústria pesada para fora da Terra. Segundo ele, isso permitiria aliviar o impacto ambiental no planeta.

“Se as viagens espaciais se tornarem confiáveis e baratas o suficiente… este planeta-jardim poderá retornar ao seu estado anterior à Revolução Industrial”, afirmou.

Bezos também reforçou a ideia de que a Lua deve ser o primeiro passo dessa expansão, antes de qualquer tentativa mais ambiciosa em Marte.

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Bezos conecta inteligência artificial e exploração espacial em uma visão de futuro baseada em expansão humana. Imagem: xphotoz – iStockPhoto – Imagem: xphotoz – iStockPhoto

Um futuro de expansão, não de substituição

O executivo defende que IA e exploração espacial fazem parte do mesmo movimento de expansão das capacidades humanas. Em vez de eliminar o trabalho, a tecnologia abriria espaço para novas atividades e novas necessidades.

A visão dele é otimista: a inteligência artificial ajudaria a liberar o potencial produtivo das pessoas, enquanto a infraestrutura espacial ampliaria o alcance da atividade econômica.

Na avaliação de Bezos, esse cenário não reduz o papel humano — apenas o transforma.

Leia mais:

A Blue Origin pretende competir com a SpaceX, de Elon Musk, no setor de foguetes. O presidente-executivo da empresa, David Limp, que estava ao lado de Bezos no evento, informou que a reconstrução da plataforma de lançamento para os foguetes New Glenn já começou na Flórida, após uma explosão ocorrida em maio.

Musk também apresentou uma visão para o espaço antes da abertura de capital da SpaceX na semana passada, incluindo planos para criar cidades na Lua e em Marte. Em entrevista com o presidente-executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, também na semana passada, ele falou sobre lançar centros de dados de IA ao espaço e passar férias na Lua.

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Indo mal no bolão da Copa? A Ciência pode te ajudar

Já imaginou rodar sua própria Copa do Mundo milhares de vezes para descobrir quem tem mais chance de levantar a taça? Essa é a proposta de uma nova ferramenta criada por pesquisadores da USP, da UFBA e de outras instituições acadêmicas, informa o Jornal da USP.

O simulador permite recriar diferentes cenários da Copa de 2026 e acompanhar como pequenas mudanças nos critérios de análise podem alterar as chances de cada seleção avançar ou conquistar o título.

Quer testar outro caminho para a Seleção? O simulador permite alterar cenários e acompanhar as probabilidades em tempo real. Imagem: Divulgação/Previsão Esportiva – Imagem: Divulgação/Previsão Esportiva

Sua própria Copa do Mundo em poucos cliques

Desde a Copa de 2010, o Previsão Esportiva utiliza modelos matemáticos para estimar resultados e calcular probabilidades no futebol. A principal novidade desta edição é que o algoritmo foi disponibilizado para qualquer pessoa interessada em explorar os bastidores dessas análises.

A ferramenta permite alterar variáveis, ajustar pesos dos critérios e testar diferentes cenários. Basta mexer nos parâmetros para ver as probabilidades mudarem na tela em tempo real.

Apesar de lidar com probabilidades, a proposta não tem ligação com apostas. A ideia é mostrar, de forma prática, como os modelos estatísticos funcionam. “É a ciência por trás das previsões na mão de quem quiser explorar.”

Além do simulador interativo, o projeto reúne outras ferramentas voltadas à Copa de 2026, entre elas:

  • Probabilidades de classificação e título para cada seleção;
  • Estimativas para os confrontos da fase de grupos;
  • Simulações completas de chaveamento;
  • Bolão colaborativo que auxilia pesquisas acadêmicas;
  • Cenários alternativos criados pelos próprios usuários.
Ilustração mostra possíveis finalistas
Mais do que prever campeões, o projeto mostra como a ciência pode explicar um dos torneios mais imprevisíveis do planeta. Imagem: Divulgação/Previsão Esportiva – Imagem: Divulgação/Previsão Esportiva

Quando a Copa vira sala de aula

Para Francisco Louzada Neto, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, a ferramenta funciona como um laboratório vivo de aprendizado.

No futebol, o aprendizado é intuitivo, o que a torna uma ferramenta pedagógica valiosa.

Francisco Louzada Neto, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, ao Jornal da USP.

Segundo ele, o futebol ajuda a transformar conceitos complexos em situações fáceis de visualizar.

Na prática, conceitos que costumam parecer abstratos ficam mais fáceis de entender quando entram em campo. É o caso dos eventos independentes, da probabilidade condicional e das famosas “zebras”, quando resultados improváveis acabam acontecendo.

Na universidade, o projeto também ajuda os estudantes a visualizar conceitos que normalmente aparecem em livros e artigos científicos, como Cadeias de Markov, Inferência Bayesiana e Simulações de Monte Carlo. Para o pesquisador, o futebol acaba servindo como porta de entrada para entender como os dados ajudam a interpretar situações do dia a dia.

Tabela mostrando possíveis confrontos do Brasil
O que acontece com as chances do Brasil se o caminho no mata-mata mudar? O simulador responde em segundos. Imagem: Divulgação/Previsão Esportiva – Imagem: DIvulgação/Previsão Esportiva

O que o modelo prevê para a Copa de 2026

Antes do início do torneio, a equipe executou um milhão de simulações completas da competição. Nem mesmo após esse volume de testes surgiu um favorito disparado para a taça.

Um dos resultados mais curiosos envolve justamente a Holanda, apontada como o adversário mais provável do Brasil nos 16-avos de final. A seleção europeia aparece em 31% dos cenários simulados para essa fase do torneio.

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As estimativas mostram a Espanha na liderança, com 15,9% de chance de conquistar a Copa. Logo atrás aparece a França, com 14,8%. Na sequência vêm Inglaterra, Portugal, Brasil e Argentina, formando um grupo de seleções que ainda sonha alto.

Entre os números relacionados à Seleção Brasileira, o modelo aponta classificação em 95% dos cenários analisados e possibilidade de título de 8,3%. Caso alcance a final, porém, esse índice sobe para 55,6%.

Para Ricardo Rocha, professor da UFBA e um dos coordenadores do projeto, um dos principais objetivos é aproximar a população das técnicas desenvolvidas nas universidades. “Usar um tema de forte interesse popular para mostrar como os métodos estatísticos desenvolvidos na universidade se aplicam na vida real de forma acessível.”

Para quem gosta de futebol, a plataforma oferece previsões e cenários para a Copa. Para quem gosta de ciência, ela mostra como os números ajudam a explicar um torneio conhecido justamente por desafiar qualquer certeza.

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CEOs de OpenAI, Anthropic e Google participam do G7 ao lado de líderes mundiais

Os principais executivos de empresas de inteligência artificial estão chegando à conferência do G7 que acontece nesta quarta-feira (17) em Evian, na França.

Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, e Demis Hassabis, do Google DeepMind, integram o grupo de líderes do setor de tecnologia convidados para um almoço na cúpula.

Também confirmados para o encontro estão Arthur Mensch, da francesa Mistral, Aidan Gomez, da canadense Cohere, Uljan Sharka, da italiana Domyn, Victor Riparbelli, da britânica Synthesia, e Robin Rombach, da alemã Black Forest Labs.

Marc Benioff, da Salesforce, Alex Wang, da Meta, os fundadores da indiana Sarvam e da japonesa Sakana completam a lista de possíveis participantes.

Lembrando que o G7 reúne os EUA, Reino Unido, Canadá, França, Alemanha, Itália e Japão. A União Europeia participa ativamente dos trabalhos do G7.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, também viajou.

O que está na pauta

Riscos da IA, infraestrutura e soberania tecnológica estão entre os temas previstos para as discussões. A proteção de crianças na internet também faz parte da agenda, segundo informações divulgadas pelo governo francês em coletiva de imprensa na semana passada.

A OpenAI declarou à CNBC, no início de junho, que esperava que as empresas de tecnologia saíssem da cúpula com um conjunto de “compromissos voluntários”.

Esses compromissos devem envolver segurança para jovens, riscos de fronteira em segurança cibernética e biossegurança. A ideia é que eles se tornem um padrão global de fato.

É o que disse à CNBC Jessica Brandt, pesquisadora sênior de tecnologia e segurança nacional no Council on Foreign Relations – que pode ser traduzido como Conselho de Relações Exteriores -, um think tank americano voltado a política externa e relações internacionais.

Influência geopolítica em debate

Segundo Brandt, “isso mostra que, para assumir compromissos críveis sobre IA, os chefes de Estado agora precisam da cooperação, senão do aval, de um punhado de executivos do setor privado que estão de fato construindo a tecnologia. Estamos vendo uma mudança em quem tem assento à mesa e um sinal de onde o poder está”.

O pano de fundo do encontro inclui tensões entre a Anthropic e o governo dos Estados Unidos. A empresa segue em negociações com a administração Trump após Washington impor controles de exportação sobre os modelos Fable 5 e Mythos 5 da companhia, por razões de segurança nacional.

O lançamento recente de modelos de IA com capacidades cibernéticas avançadas — incluindo o Mythos, da Anthropic, e o GPT-5.5 Cyber, da OpenAI — gerou preocupações de empresas e governos em relação a vulnerabilidades de segurança digital.

Cameron Kerry, pesquisador visitante da Brookings Institution, disse à CNBC que o lançamento do Mythos marcou um “ponto de inflexão” no desenvolvimento da IA e levou a administração Trump a considerar a regulação da tecnologia.

Para Emerson Brooking, pesquisador sênior do Atlantic Council, os controles de exportação americanos sobre os modelos da Anthropic “mudaram tudo”.

“Vários países do G7 já haviam mencionado a necessidade de investimento em IA soberana, mas sempre havia a suposição de que isso ocorreria junto com o acesso à infraestrutura tecnológica dos EUA”, disse ele à CNBC. “Agora os EUA sinalizaram disposição para cortar o acesso do G7 e até de aliados de tratado a certas capacidades de IA” – completou.

Os laboratórios de ponta parecem interessados em moldar esses debates antes que existam regras determinadas e vinculantes.

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Pesquisa brasileira revela: alunos que usaram ChatGPT aprenderam menos

A inteligência artificial virou companheira de estudos para milhões de estudantes. Em segundos, a tecnologia resume textos, explica conceitos complexos e até monta apresentações completas. Mas toda essa praticidade pode ter um custo invisível: a capacidade de aprender e reter conhecimento.

É o que sugere um trabalho publicado na revista científica Science Direct, conduzida por André Barcaui, professor, consultor e pós-doutorado em Inteligência Artificial pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). O estudo concluiu que universitários que utilizaram o ChatGPT livremente durante uma atividade acadêmica apresentaram pior retenção de conhecimento do que alunos que recorreram apenas a métodos tradicionais de estudo.

Os participantes que estudaram sem inteligência artificial alcançaram média de 68,5% de acertos em um teste surpresa aplicado 45 dias após os estudos. Entre os estudantes que usaram o ChatGPT, o índice caiu para 57,5%.

A diferença chamou a atenção porque não se tratava de uma avaliação imediata. O objetivo era medir o quanto do conteúdo realmente permaneceu na memória dos alunos semanas após o período de estudo.

“O uso da IA acaba funcionando como uma muleta cognitiva”, afirmou o pesquisador em entrevista ao Olhar Digital. “O problema não é ter acesso a uma fonte extraordinária de informação. O problema é quando ela passa a substituir o seu pensamento”.

Como a pesquisa foi feita

O estudo acompanhou 120 estudantes de Administração de Empresas de uma universidade brasileira.

Metade dos participantes recebeu autorização para utilizar livremente ferramentas de inteligência artificial. A outra metade precisou recorrer apenas a livros, artigos científicos, mecanismos de busca tradicionais e materiais acadêmicos.

Durante duas semanas, todos estudaram temas relacionados a inteligência artificial e machine learning para preparar apresentações sobre o assunto.

A principal diferença veio depois: após 45 dias, Barcaui aplicou um teste surpresa sobre o assunto. A intenção era medir a memória de longo prazo, sem que os estudantes tivessem oportunidade de revisar o conteúdo previamente. Alunos do grupo ‘tradicional’ tiveram vantagem significativa nos resultados.

Um dado ajuda a explicar parte do resultado: quem utilizou IA estudou, em média, 3,2 horas. Já os estudantes do grupo tradicional dedicaram cerca de 5,8 horas à atividade.

O pesquisador destacou que a diferença não se resume ao tempo investido. Segundo o artigo, o uso da IA pode reduzir processos mentais importantes para a consolidação da memória, como a recuperação ativa de informações, a elaboração de respostas próprias e o esforço cognitivo necessário para resolver problemas.

Estudo defende que IA pode criar uma sensação de domínio sem que o conhecimento tenha sido realmente internalizado – Imagem: Gumbariya/Shutterstock

A sensação de aprender sem aprender

Um dos conceitos apresentados por Barcaui é o de “competência emprestada”.

A ideia descreve uma situação cada vez mais comum: o estudante obtém respostas bem estruturadas com poucos cliques, mas nem sempre internaliza o conhecimento necessário para reproduzir aquele raciocínio sozinho.

Barcaui compara o fenômeno a ter um especialista permanentemente ao lado.

É como se você tivesse um adulto disponível para responder qualquer pergunta. Isso não é um problema em si. O problema é usar essa fonte como substituta do seu pensamento, e não como uma ferramenta para ampliar o pensamento.

André Barcaui

Segundo ele, a IA pode criar uma sensação enganosa de domínio sobre determinado assunto. “Você pensa que entendeu. Mas, na verdade, quem entendeu foi o ChatGPT e explicou para você”, declarou.

A hipótese dialoga com preocupações levantadas por pesquisadores de diferentes áreas. Um artigo intitulado “O ChatGPT está nos deixando estúpidos?”, publicado pelo professor Aaron French no site The Conversation, argumentou que ferramentas de IA generativa não apenas ajudam a encontrar informações, mas podem assumir etapas inteiras do raciocínio humano, reduzindo a necessidade de análise crítica e interpretação.

O problema não é a IA

Barcaui fez questão de destacar os benefícios da inteligência artificial e reforçar que ela não deve ser banida das salas de aula.

Pelo contrário. Ele defende que a tecnologia oferece ganhos reais de produtividade e pode desempenhar papel importante no aprendizado quando utilizada da forma correta. “Eu sou um entusiasta da IA. Acho uma tecnologia extraordinária. O problema não é a ferramenta. É o uso indiscriminado dela”, afirmou.

Na visão do pesquisador, a inteligência artificial funciona melhor quando entra no processo após o esforço inicial do estudante. A lógica é simples: primeiro o aluno tenta resolver o problema sozinho. Depois utiliza a IA para obter feedback, revisar conceitos, identificar erros ou aprofundar a compreensão.

Você precisa ter uma base de conhecimento para dialogar com a ferramenta. Quando isso acontece, a IA aumenta o pensamento. Quando não acontece, ela apenas substitui o pensamento.

André Barcaui

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Curva de esquecimento ao longo dos 45 dias após o aprendizado. Linha vermelha representa os alunos que estudaram por métodos tradicionais; linha azul representa alunos que usaram IA – Imagem: André Barcaui/Science Direct

O desafio para escolas e universidades

Os resultados também levantam uma questão que começa a preocupar educadores: como ensinar em um mundo em que a inteligência artificial está disponível o tempo todo?

Para Barcaui, a resposta não tem a ver com proibições. “Proibir a IA é um erro. É uma briga perdida. Os alunos vão usar e precisam usar”, declarou.

O desafio, segundo ele, é ensinar como utilizar essas ferramentas de maneira produtiva. Isso inclui desenvolver habilidades que a tecnologia não substitui facilmente, como leitura aprofundada, escrita, pensamento crítico, capacidade de interpretação e a tomada de decisões por conta própria.

Na avaliação do pesquisador, o risco não está na inteligência artificial em si, mas em formar uma geração acostumada a terceirizar etapas fundamentais do raciocínio.

O professor precisa mudar de papel. O mundo mudou. O aluno mudou. A escola e a universidade também terão que mudar. (…) A IA deve fazer parte do processo de aprendizagem. Mas ela não pode ser a protagonista do aprendizado.

André Barcaui

Ele também destacou a importância do letramento para ensinar os melhores usos da tecnologia, bem como limites e questões éticas – o que vale tanto para alunos quanto para professores.

ChatGPT como muleta do aprendizado

O próprio estudo reconhece suas limitações. A pesquisa foi realizada com estudantes de uma única universidade e de uma única área de formação. Além disso, não avaliou outros benefícios que a IA pode trazer, como aumento de produtividade, melhoria na escrita, geração de ideias ou resolução de problemas.

Entre as conclusões, a pesquisa destacou:

  • O estudo não demonstra que toda forma de uso de inteligência artificial prejudica a aprendizagem;
  • O que ele indica é que, em um cenário de uso livre e sem orientação pedagógica, estudantes que recorreram ao ChatGPT apresentaram menor retenção de conhecimento após 45 dias do que colegas que estudaram por métodos tradicionais;
  • Em outras palavras, a pesquisa sugere que a questão central talvez não seja se a IA está tornando as pessoas menos capazes de aprender, mas como ela está sendo incorporada ao processo de aprendizagem.

Nesse sentido, Barcaui reforçou os benefícios da inteligência artificial, mas destacou a importância do pensamento crítico.

O pessoal quer resposta para ontem. E tudo bem, a IA faz esse papel muito bem. Só que o que restou daquela resposta que você deu quando você substituiu o seu pensamento pelo pensamento de uma máquina?

André Barcaui

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Novo Android 17 transforma o celular em “central de IA”

O Google lançou nesta terça-feira o Android 17 e o Wear OS 7, seu sistema para smartwatches. A atualização chega primeiro aos celulares Pixel e vem junto de um Pixel Drop com novidades em inteligência artificial, incluindo o Lyria 3, o Gemini Omni e recursos de tradução de voz com o AudioLM no Pixel 10a.

Segundo o TechCrunch, no fundo, o movimento reforça algo que o Google já vem deixando bem claro: a IA virou o eixo central do Android. E isso também entra na disputa com a Apple, que prepara mudanças na Siri e no iOS 27.

Android 17 chega com IA no centro e novas funções que mudam a forma de usar o celular no dia a dia. Imagem: Layse Ventura via ChatGPT / Olhar Digital

O que chega com o Pixel Drop

Uma das mudanças mais comentadas é a integração entre o Android Quick Share e o AirDrop da Apple em aparelhos Pixel mais antigos, como o 8a e o 9a. Na prática, isso reduz um pouco a distância entre os dois ecossistemas — algo que até pouco tempo atrás parecia improvável.

O Gemini Omni agora consegue editar vídeos dentro de uma conversa. Já o Lyria 3 cria músicas a partir de texto ou imagens direto no app do Gemini. É uma mistura de ferramentas criativas que começa a empurrar o celular para além do uso tradicional.

Tem também funções mais simples, mas úteis no dia a dia. Agora é possível gravar uma mensagem de áudio personalizada para quem liga e não é atendido. O recurso “Take a Message” também está sendo expandido para mais países.

No Pixel Watch, entra um sistema de detecção de emergências. Se houver acidente de carro, queda ou algo como ausência de pulso, o relógio pode acionar automaticamente ajuda e contatos de emergência. É uma função discreta, mas que fica sempre ativa ali no fundo.

Bubbles é uma das funções do Android 17
Novo Android 17 usa a “bubble bar” para deixar apps recentes em formato de bolhas na parte inferior da tela. Imagem: Divulgação/Google – Imagem: Divulgação/Google

Android 17 e multitarefa

O Android 17 traz a chamada “bubble bar”, uma barra de bolhas que organiza apps recentes na parte inferior da tela. A ideia é reduzir o vai e vem entre aplicativos e deixar tudo mais rápido de acessar.

Outro recurso chama a atenção pelo uso mais cotidiano: dá para gravar a tela e a câmera frontal ao mesmo tempo. Isso facilita vídeos de reação, algo que já virou padrão em redes sociais como TikTok, YouTube e Instagram.

Na parte de segurança, o sistema ganhou reforços. Tem o “Mark as Lost” no Find Hub, detecção de ameaças em tempo real e controles parentais mais flexíveis, que agora podem ser configurados com PIN, sem precisar de conta Google.

Também aparece um modo de jogo para dispositivos dobráveis, com tela dividida em 50/50 e um gamepad dinâmico ajustando a interface.

E o Wear OS 7?

Nos smartwatches, o Wear OS 7 melhora a integração com o celular. As notificações e atualizações de aplicativos passam a aparecer em tempo real no Pixel Watch, deixando a experiência mais contínua entre os dispositivos.

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Mais adiante, o sistema vai ganhar recursos do Gemini, como criação de widgets por descrição e uma função chamada “Personal Intelligence”, que conecta apps do Google e histórico de conversas para personalizar respostas.

O Google fala ainda em até 10% de ganho de bateria e automações mais inteligentes. Não é uma mudança que salta aos olhos de imediato, mas no uso diário pode fazer diferença.

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Cursor: o que é a ferramenta de IA que a SpaceX comprou por US$ 60 bilhões

A SpaceX, empresa de Elon Musk, anunciou nesta terça-feira (16) a compra da Anysphere – startup por trás da ferramenta de codificação com IA Cursor – por US$ 60 bilhões em ações.

O negócio, revelado em um registro na SEC (a CVM americana), é a maior aquisição de uma startup de capital de risco da história – desconsiderando a xAI, que foi comprada pela própria SpaceX.

Mas o que é a Cursor, por que ela vale tanto, e o que isso diz sobre os planos de Musk para dominar o mercado de IA?

O que é a Cursor?

A Cursor é um agente de IA para programação – na prática, um editor de código turbinado por inteligência artificial que permite a qualquer pessoa criar, editar e depurar software usando linguagem natural, sem precisar digitar código linha por linha.

Fundada em 2022 por quatro ex-alunos do MIT, incluindo o CEO Michael Truell, a empresa surgiu como uma derivação do editor VS Code – o mesmo usado por milhões de desenvolvedores ao redor do mundo – e foi incorporando capacidades de IA cada vez mais avançadas.

Com ela, é possível pedir mudanças no código em português (ou qualquer idioma), buscar informações em bases de código gigantescas, rodar comandos e concluir tarefas complexas de programação. O resultado: engenheiros de empresas como Nvidia, Uber, Adobe, Salesforce e Samsung adotaram a ferramenta, e ela já está presente em mais da metade das empresas da Fortune 500.

Por que a SpaceX pagou US$ 60 bilhões?

Números ajudam a entender: em meados de 2026, a Cursor já gerava bilhões de dólares em receita anual recorrente, com crescimento explosivo impulsionado pela demanda por ferramentas de desenvolvimento com IA.

Antes da SpaceX aparecer, a Cursor estava prestes a fechar uma rodada de US$ 2 bilhões com fundos como Andreessen Horowitz, Thrive e Nvidia, numa avaliação de US$ 50 bilhões. A empresa ainda recusou uma proposta de aquisição da OpenAI porque queria manter a independência – o que torna a venda para Musk ainda mais surpreendente.

Do lado da SpaceX, a lógica estratégica é clara: a companhia prometeu a investidores do seu IPO um mercado endereçável de US$ 28,5 trilhões – e boa parte desse número depende de IA para empresas. A Cursor é o atalho mais rápido para chegar lá.

A SpaceX está virando uma empresa de IA

O anúncio veio apenas quatro dias após a SpaceX abrir capital na Nasdaq, numa listagem que avaliou a empresa em mais de US$ 2 trilhões e, no papel, tornou Musk o primeiro trilionário do mundo.

A aquisição foi estruturada como uma fusão em ações – ou seja, sem uso do dinheiro levantado no IPO. As ações da SpaceX subiram 10% com o anúncio, colocando a empresa na rota de superar a Amazon em valor de mercado.

A estratégia faz sentido dentro de uma transformação maior: a SpaceX não é mais essencialmente uma empresa espacial – é uma empresa de inteligência artificial que também lança foguetes e transmite internet via satélite. A compra da Cursor é a prova mais contundente disso até agora.

Para completar o quadro: em fevereiro, a SpaceX já havia incorporado a xAI, a empresa de IA de Musk e criadora do chatbot Grok. Com a Cursor, a divisão de IA da SpaceX passa a contar com uma das ferramentas de desenvolvimento mais usadas no mundo corporativo.

O que a Cursor ganha com o negócio?

Além dos bilhões em ações, a Cursor passa a ter acesso ao supercomputador Colossus, da SpaceX – com capacidade equivalente a um milhão de GPUs H100. Essa infraestrutura era um gargalo para o desenvolvimento de modelos mais poderosos, incluindo o Composer, o modelo mais recente da empresa.

O que muda na prática?

O negócio deve ser concluído no terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias. Se o negócio não for concluído, a SpaceX pagará US$ 1,5 bilhão em multa mais US$ 8,5 bilhões em recursos de computação à Cursor – o que dá uma ideia de quanto Musk quer fechar esse negócio.

Para os usuários da Cursor, desenvolvedores e profissionais que dependem da ferramenta no dia a dia, a principal questão é se a independência que tornou o produto tão popular será mantida dentro do ecossistema de Musk. Por enquanto, a empresa não se pronunciou sobre mudanças nos planos ou na experiência do produto.

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Alibaba lança modelos de IA para robôs e acelera transição de chatbots para agentes autônomos na China

A gigante chinesa Alibaba divulgou, nesta terça-feira (16), em Pequim, seus primeiros modelos de inteligência artificial desenvolvidos especificamente para aplicação em robôs. O anúncio foi feito em meio à reconfiguração do setor tecnológico na China.

A iniciativa surge em um momento em que empresas do país passam a reduzir o foco em sistemas de chatbot tradicionais e direcionam esforços para agentes de IA mais avançados. Esses sistemas são projetados para executar tarefas mais complexas e ampliar a capacidade operacional de máquinas.

Segundo a companhia, a estratégia acompanha uma tendência mais ampla da indústria, que busca aplicações de maior valor econômico e maior autonomia para sistemas inteligentes.

Alibaba acelera aposta em inteligência artificial voltada à robótica

Imagem: testing/Shutterstock

O movimento da Alibaba ocorre dentro de uma transição mais ampla no mercado chinês de tecnologia, que vem migrando de soluções baseadas em conversação para ferramentas capazes de executar ações práticas. A empresa integra esse esforço ao lançar seus primeiros modelos de IA com foco em robôs.

Alibaba
(Imagem: zhu difeng / Shutterstock)

De acordo com a empresa, a nova geração de sistemas busca tornar máquinas mais inteligentes e funcionais, com capacidade de lidar com tarefas mais complexas. Essa mudança acompanha a evolução do setor, que enxerga nos chamados agentes de inteligência artificial uma oportunidade de expansão mais rentável.

O anúncio foi registrado em Pequim e ocorre em um ambiente de forte competição entre companhias de tecnologia na China. O reposicionamento estratégico indica uma tentativa de capturar valor em áreas além dos chatbots, que até então concentravam grande parte do desenvolvimento em inteligência artificial.

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