A Anthropic publicou um post em seu blog defendendo uma desaceleração global no desenvolvimento da inteligência artificial. A justificativa central é a velocidade do avanço tecnológico. Para a empresa, os sistemas atuais podem abrir caminho para modelos capazes de desenvolver seus próprios sucessores — um cenário que, segundo o artigo, “pode chegar antes do que a maioria das instituições está preparada para enfrentar”.
No documento, a companhia reconhece que uma IA capaz de se aprimorar poderia “trazer enormes benefícios para o mundo” nas áreas de ciência e saúde, entre outras. Mas faz um alerta: sistemas desse tipo também poderiam “aumentar os riscos de os humanos perderem o controle sobre a IA”. A proposta de desaceleração serviria justamente para dar mais tempo às estruturas sociais e às pesquisas de alinhamento acompanharem a evolução da tecnologia.
Anthropic diz que pausa temporária ajudaria pesquisas de segurança a acompanhar a IA. Imagem: Tada Images/Shutterstock – Imagem: Tada Images/Shutterstock
Verificação como condição para qualquer acordo
Para que uma desaceleração seja efetiva, a Anthropic afirma que mecanismos de fiscalização precisam existir. Sem esse tipo de controle, algumas empresas poderiam continuar desenvolvendo tecnologia em segredo enquanto outras interrompem suas atividades.
“Uma desaceleração ou pausa significativa exigiria que múltiplos laboratórios bem financiados, na fronteira ou próximos dela, em múltiplos países, concordassem em parar sob as mesmas condições”, escreve a empresa em seu blog. “Também exigiria que cada um pudesse verificar que os outros realmente pararam.”
A comparação feita pela Anthropic é com os tratados de armas nucleares. A empresa usa esses acordos como exemplo de que uma coordenação internacional não seria impossível — embora admita que processos assim levaram décadas para serem construídos, algo difícil de conciliar com a velocidade atual do setor.
Nos próximos meses, a companhia pretende conversar com formuladores de políticas, pesquisadores e outras empresas de IA. A ideia é publicar os resultados dessas discussões futuramente.
Empresa afirma que sistemas futuros podem transformar profundamente economia, trabalho e tecnologia. Imagem: Supapich Methaset / Shutterstock – Imagem: Supapich Methaset / Shutterstock
Pesquisa interna e papel do Anthropic Institute
A proposta parte do trabalho desenvolvido pelo Anthropic Institute, divisão de pesquisa criada pela empresa em março. Na época do lançamento, o grupo afirmou que o objetivo do instituto seria “contar ao mundo” o que aprende sobre os desafios que surgem conforme empresas de IA desenvolvem sistemas mais avançados.
O instituto, em conjunto com colaboradores, conduzirá pesquisas sobre o que é necessário para “construir os sistemas que uma desaceleração ou pausa crível exigiria”.
Entre os principais pontos levantados pela Anthropic estão:
risco de sistemas de IA evoluírem sem supervisão humana;
dificuldade de criar regras globais que sejam respeitadas;
possibilidade de impactos sociais e econômicos profundos;
competição acelerada entre empresas e países;
necessidade de ampliar pesquisas em segurança de IA.
Startup de IA quer mais tempo para pesquisas de segurança acompanharem evolução dos modelos. Imagem: Digineer Station/Shutterstock – Imagem: Digineer Station/Shutterstock
Críticas à postura da empresa
O debate em torno da Anthropic também envolve críticas. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, parte do setor vê os alertas feitos pela empresa sobre sua própria tecnologia como uma estratégia de marketing — seja para parecer menos problemática que as concorrentes, seja para reforçar a imagem de que seus produtos estão entre os mais avançados do mercado.
Um dos exemplos citados é o lançamento restrito do modelo de IA para cibersegurança Mythos. A Anthropic afirmou que liberou o sistema apenas para um grupo seleto de parceiros devido ao potencial de dano que sua capacidade de identificar vulnerabilidades rapidamente poderia causar em mãos erradas.
Nem todo mundo, porém, comprou essa justificativa. Parte das críticas interpreta a restrição como uma forma de gerar expectativa em torno do produto ou até de reservá-lo apenas para grandes empresas.
Na área financeira, a Anthropic também vive um momento importante. A empresa caminha para registrar seu primeiro trimestre lucrativo, algo que várias concorrentes ainda não conseguiram alcançar. Além disso, já protocolou documentos na SEC para abrir capital, com previsão de que isso aconteça antes do fim do ano.
O avanço acelerado dos sistemas inteligentes pode fazer com que a humanidade perca o controle sobre a tecnologia. O alerta foi divulgado nesta quinta-feira (4) pelo The Anthropic Institute em um relatório sobre autoaperfeiçoamento.
A empresa revelou que a inteligência artificial já escreve mais de 80% do código integrado ao seu próprio sistema. O dado interno inédito acendeu o sinal de alerta sobre a velocidade da autonomia das máquinas.
Atualmente, os engenheiros da companhia entregam, em média, oito vezes mais código por trimestre do que registravam antes. Essa aceleração reduz drasticamente a dependência do trabalho estritamente humano.
No segundo trimestre de 2026, a produção individual saltou para 8 vezes a média anterior após a introdução do Claude Mythos Preview. As linhas tracejadas verticais correlacionam os picos de eficiência aos anúncios públicos de novos modelos. – Anthropic / Divulgação
Risco de autonomia total e recursiva
A tendência técnica aponta para o chamado autoaperfeiçoamento recursivo. O fenômeno ocorre quando uma inteligência artificial se torna capaz de projetar e treinar de forma totalmente autônoma o seu próprio sucessor tecnológico.
De acordo com o documento oficial da Anthropic, essa autonomia pode vir mais rápido do que as instituições estão preparadas. Sem supervisão humana direta, os métodos tradicionais de segurança e monitoramento perdem a eficácia.
O ritmo de execução de tarefas complexas concluídas sem intervenção humana já dobra a cada quatro meses. Em exames globais de engenharia de software, os sistemas atingiram saturação completa em apenas dois anos.
Capacidade sobre-humana em testes
A ferramenta Claude Mythos Preview alcançou uma capacidade de otimização considerada sobre-humana. O sistema atingiu uma aceleração de 52 vezes em testes internos de treinamento de pequenos modelos de inteligência artificial.
Em missões complexas e sem especificações detalhadas, a taxa de sucesso do software atingiu 76% em maio de 2026. O índice representa uma alta expressiva de 50 pontos percentuais em seis meses.
A revisão de segurança de novos códigos também foi delegada a um avaliador inteligente. A ferramenta automatizada foi capaz de interceptar um terço dos erros técnicos em análises retrospectivas de incidentes.
Proposta de trégua global
A Anthropic sugere que governos e laboratórios de ponta criem um mecanismo global de verificação conjunta. A estrutura permitiria monitorar se as empresas concorrentes estão respeitando normas rígidas de segurança.
O relatório propõe a aplicação de pausas temporárias supervisionadas no desenvolvimento global se os riscos fugirem do controle. A holding afirma que uma pausa unilateral apenas mudaria o líder da corrida tecnológica.
A empresa planeja organizar debates nos próximos meses com formuladores de políticas públicas para discutir o autoaperfeiçoamento de sistemas. O objetivo é envolver a sociedade civil nessa deliberação urgente.
A Anthropic anunciou nesta terça-feira (2) a ampliação do acesso ao seu modelo de inteligência artificial (IA) Mythos para mais 150 organizações distribuídas em mais de 15 países. A expansão ocorre por meio do Project Glasswing, iniciativa criada para avaliar o uso da IA na identificação de vulnerabilidades de software e fortalecer práticas de cibersegurança.
Segundo a empresa, os novos participantes incluem setores que tiveram representação limitada na fase inicial do programa, como energia, abastecimento de água, saúde, comunicações e hardware. Antes de receberem acesso ao modelo, as organizações precisarão atender a requisitos de segurança definidos pela Anthropic.
Projeto amplia alcance para novos setores
Em publicação no blog da companhia, a Anthropic afirmou que a expansão representa mais um passo em seus objetivos de longo prazo relacionados à segurança digital.
De acordo com a empresa, a meta é utilizar a inteligência artificial para tornar os softwares mais seguros e auxiliar o setor a se adaptar às mudanças que a tecnologia pode provocar em pressupostos fundamentais da cibersegurança.
A ampliação do Project Glasswing foi anunciada um dia após a Anthropic informar que começará a oferecer acesso ao Mythos na União Europeia. Na segunda-feira, a companhia também comunicou que apresentou de forma confidencial seu prospecto para uma oferta pública inicial de ações (IPO) à Securities and Exchange Commission (SEC), avançando nesse processo antes da rival OpenAI.
Capacidades do Mythos geraram debates
O primeiro grupo de testes do Mythos foi lançado em abril para 50 parceiros. Desde então, o modelo tem chamado atenção por sua capacidade de localizar falhas em sistemas e softwares.
Especialistas demonstraram preocupação com o fato de que recursos avançados de inteligência artificial poderiam facilitar o trabalho de hackers, permitindo a identificação mais rápida de vulnerabilidades. Embora muitos tenham destacado que essas capacidades já existiam anteriormente, o Mythos poderia acelerar esse processo.
Mythos da Anthropic chamou a atenção por ser perigoso demais dada sua capacidade de localizar falhas em sistemas e softwares – Imagem: Photo For Everything/Shutterstock
Com o aumento das preocupações, a Casa Branca promoveu diversas reuniões com representantes de grandes empresas de tecnologia e instituições financeiras para discutir formas de implementar modelos avançados de IA com segurança.
Mais de 10 mil falhas identificadas
Segundo a Anthropic, os parceiros participantes do Project Glasswing identificaram mais de 10 mil vulnerabilidades classificadas como de nível alto ou crítico desde o lançamento da iniciativa.
A empresa estima que um grande ataque cibernético pode afetar mais de 100 milhões de pessoas.
Entre os principais integrantes do programa estão a Apple, a Nvidia, a Microsoft, a CrowdStrike e a Palo Alto Networks. A Anthropic não revelou quais outras empresas passarão a integrar a coalizão.
A plataforma de gerenciamento de dados em nuvem Rubrik informou, em comunicado, que está entre as organizações incluídas nesta nova etapa do programa.
Investidores globais estão ampliando suas apostas em empresas asiáticas que podem se beneficiar da próxima fase de expansão da inteligência artificial (IA), impulsionada pelas esperadas captações bilionárias de companhias, como SpaceX, OpenAI e Anthropic.
A avaliação do mercado é que os recursos levantados por essas empresas deverão alimentar uma nova onda de investimentos em infraestrutura tecnológica, beneficiando fabricantes de componentes, materiais especializados, sistemas de resfriamento e equipamentos de energia em toda a cadeia de suprimentos da Ásia.
Boom da IA impulsiona mercado asiático
A tese vem ganhando força em momento em que os mercados buscam identificar os próximos vencedores do boom da IA;
Segundo analistas e gestores ouvidos pela Bloomberg, parte significativa dos recursos que deverão ser levantados pelas três empresas estadunidenses acabará chegando aos fornecedores asiáticos responsáveis por peças de servidores, componentes eletrônicos, materiais para semicondutores e soluções energéticas utilizadas em data centers;
O movimento ocorre após fabricantes de chips da região se tornarem alguns dos maiores beneficiários da expansão dos centros de dados;
Empresas, como a TSMC, a Samsung e a SK Hynix, alcançaram valorizações que as colocaram no grupo de companhias avaliadas em mais de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões).
Contudo, após fortes altas nos preços das ações, parte dos investidores passou a demonstrar preocupação com os níveis elevados de avaliação dessas empresas. Com isso, cresce a busca por uma nova geração de vencedores ligados à infraestrutura da IA.
“Os IPOs relacionados à IA podem alimentar ainda mais o boom de investimentos em capital em um momento em que as ações asiáticas de semicondutores parecem esticadas”, afirmou Ken Wong, especialista em ações asiáticas da Eastspring Investments Hong Kong.
Segundo ele, a gestora está reduzindo sua exposição ao setor de semicondutores dentro de sua estratégia tecnológica para a Ásia e direcionando maior atenção para fabricantes de componentes eletrônicos.
OpenAI está na mesma linha da SpaceX e visa IPO bilionário – Imagem: Mehaniq/Shutterstock
Nova rodada de investimentos em IA
A disputa pela liderança em IA já levou gigantes da tecnologia, como a Meta e a Amazon, a realizar investimentos massivos em infraestrutura computacional.
Nesse contexto, as futuras ofertas públicas de ações de SpaceX, OpenAI e Anthropic são vistas como um fator que pode aliviar preocupações do mercado sobre a sustentabilidade do financiamento do setor, especialmente diante do aumento dos níveis de endividamento das empresas.
De acordo com Fabien Yip, analista de mercado da IG International, as listagens das três empresas poderão resultar em cerca de US$ 70 bilhões (R$ 352,6 bilhões) adicionais em gastos relacionados à IA, valor que se somaria aos mais de US$ 750 bilhões (R$ 3,8 trilhões) já comprometidos pelas principais empresas de computação em nuvem e infraestrutura digital.
Segundo Yip, os efeitos dessa expansão já podem ser observados nos resultados financeiros divulgados por fabricantes de chips. “O impacto sobre a Ásia é claramente visível”, afirmou. Para ela, à medida que a valorização ligada à IA amadurece, o movimento está se expandindo para além das empresas diretamente associadas ao desenvolvimento de chips.
Entre as operações mais lucrativas do mercado asiático neste ano estão fabricantes de componentes eletrônicos utilizados em servidores e fornecedores de materiais e processos empregados na produção de semicondutores.
A Samsung Electro-Mechanics e a Ibiden figuram entre os destaques do principal índice amplo de ações asiáticas da MSCI em 2026. Entre apostas consideradas menos óbvias, Yip destaca a fabricante japonesa de sanitários Toto, fornecedora de materiais cerâmicos utilizados em equipamentos para fabricação de semicondutores.
Os fabricantes asiáticos de chips vêm registrando lucros expressivos, impulsionados pela IA, beneficiados pelo forte poder de precificação decorrente da escassez de semicondutores. Agora, sinais de restrições de oferta começam a surgir em etapas posteriores da cadeia produtiva, tendência que pode se intensificar com a continuidade dos investimentos.
A maior conscientização dos investidores sobre esses novos gargalos, somada a fatores técnicos de mercado, tem contribuído para a ampliação do interesse por empresas além das grandes fabricantes de chips.
Servidores, conectividade e infraestrutura
Sam Konrad, gestor de portfólio da Jupiter Asset Management, vê oportunidades em empresas taiwanesas responsáveis pela montagem de servidores, como a Hon Hai e a Quanta, além da desenvolvedora de chips MediaTek.
“O ciclo de investimentos em IA vai durar vários anos”, afirmou. “Os investidores provavelmente buscarão empresas que sejam beneficiárias diretas, mas que ainda negociem com múltiplos de avaliação baixos.”
Song Zhe, da BNP Paribas Asset Management, acredita que a próxima etapa da valorização deverá ser mais seletiva. “A próxima fase da alta deve ser específica para determinadas ações, e não uma valorização generalizada dos semicondutores”, afirmou.
Segundo ele, sua equipe está concentrada em empresas ligadas a encapsulamento avançado de chips, substratos, testes, conectividade óptica, energia, sistemas de resfriamento e infraestrutura de servidores em Taiwan e na China, segmentos nos quais as perspectivas de crescimento dos lucros ainda podem justificar as avaliações de mercado.
Além disso, alguns investidores estão direcionando recursos para aplicações de IA além dos chatbots, incluindo robótica e veículos autônomos. Esse segmento emergente, conhecido como “IA física”, recebeu impulso dos esforços da Nvidia para expandir seus negócios nessa área, beneficiando empresas parceiras, como a LG.
Energia surge como novo gargalo
Outro setor que vem atraindo atenção crescente é o de energia, considerado fundamental para sustentar a proliferação de data centers. Fontes nucleares e alternativas de geração ganharam destaque, especialmente em um cenário de alta dos preços do petróleo, provocada pela guerra envolvendo o Irã.
Na Coreia do Sul, empresas, como a HD Hyundai Energy e a Daewoo Engineering & Construction, estão entre os principais destaques do mercado acionário local neste ano.
Na Índia, os investimentos do Adani Group em data centers abastecidos por energia renovável impulsionam o desempenho de suas subsidiárias do setor energético, representando uma das poucas apostas ligadas à inteligência artificial no país.
Jian Shi Cortesi, gestora da GAM Investment Management, considera o fornecimento de energia “o gargalo menos explorado” pelos investidores, mas alerta que a próxima fase da euforia em torno da IA pode envolver riscos maiores.
Segundo ela, caso a demanda por IA não justifique o volume de investimentos realizados, as empresas poderão reduzir seus gastos de capital, deixando o mercado diante de excesso de infraestrutura e de fortes quedas nas avaliações.
Anthropic também está no bolo – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock
Fornecedores asiáticos devem ser beneficiados
Brian Ooi, gestor da Swiss-Asia Financial Services, avalia que as futuras captações de recursos de SpaceX, OpenAI e Anthropic representam um sinal positivo para a manutenção de investimentos em ações relacionadas à IA.
Ele também destaca oportunidades ligadas ao setor energético, especialmente em fabricantes de transformadores, células de combustível, cabos, turbinas a gás e outros equipamentos. Segundo Ooi, as três empresas terão mais recursos para sustentar seus planos de expansão.
“As três grandes ofertas relacionadas à IA fornecerão mais liquidez para que elas continuem investindo em gastos de capital, e elas já possuem planos significativos de investimentos”, afirmou. “Os fornecedores asiáticos serão beneficiados.”
A Anthropic desenvolveu um modelo de inteligência artificial (IA) capaz de revolucionar a cibersegurança. Mas, ao anunciá-lo, tomou uma decisão incomum: trancou o modelo a sete chaves. E distribuiu as chaves para algumas empresas. Por quê? Segundo a empresa, o modelo seria “perigoso demais” para cair nas mãos do público geral. “As consequências – para as economias, a segurança pública e a segurança nacional – podem ser graves”, declarou a empresa.
O Claude Mythos Preview (nome completo da criança) é o modelo de IA mais avançado já desenvolvido pela startup de Dario Amodei até o momento. Ele foi anunciado junto ao Projeto Glasswing, iniciativa liderada pela Anthropic em parceria com big techs como Apple, Google, Microsoft e Nvidia. Em suma, é um consórcio criado para testar o modelo em sigilo.
Até que ponto esse anúncio misterioso se sustenta? E até que ponto é mais uma jogada de marketing da Anthropic? O Olhar Digital mergulhou no tema e conversou com especialistas para te explicar o que importa.
O que o Mythos faz de verdade?
O modelo de IA opera como se fosse um engenheiro de software experiente. Para você ter ideia, ele consegue identificar bugs sutis e corrigir os próprios erros.
“O Mythos Preview encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade, incluindo algumas nos principais sistemas operacionais e navegadores”, informou a Anthropic. Até o momento, a startup divulgou uma fração do que afirma ter sido encontrado pelo modelo.
“Nos benchmarks de programação, ele [o Mythos] realmente mostrou uma evolução muito grande em comparação ao seu antecessor”, disse Carraro à reportagem – Imagem: Nwz/Shutterstock
Fabrício Carraro, Program Manager na Alura e colunista do Olhar Digital, explorou o System Card publicado pela empresa. É um documento de 245 páginas no qual a Anthropic detalha seus testes e benchmarks.
“Nos benchmarks de programação, ele [o Mythos] realmente mostrou uma evolução muito, muito grande em comparação ao seu antecessor, o Opus 4.6”, disse Carraro à reportagem.
Segundo a empresa, essa IA pode superar quase todos os humanos, exceto os mais qualificados, na identificação e exploração de vulnerabilidades de software. Daí o dito perigo em lançar o Mythos de forma ampla. Afinal, ele poderia ser usado como escudo e como arma. Mas existe uma peculiaridade.
“Diferente de um código convencional de computador que você pode entrar lá e olhar certinho o que que ele faz e o que não faz; se tem bug ou se não tem, uma inteligência artificial não funciona assim. Ela é uma caixa preta”, explicou Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP, com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, e também colunista do Olhar Digital. “A gente treina ela em atividades, mas a gente não sabe no final das contas as capacidades que ela tem.”
O Claude Mythos, da Anthropic, opera como se fosse um engenheiro de software experiente – Imagem: Photo For Everything/Shutterstock
Quando o Anthropic diz ‘esse modelo é perigoso demais para a gente lançar’ é porque na fase de testes ele já fez algumas das coisas que a Anthropic não estava esperando
Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP, com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, em entrevista ao Olhar Digital
No entanto, vale destacar: nos testes do AISI, o Mythos enfrentou defesas de software quase inexistentes. Por isso, o instituto concluiu que, embora seja um modelo poderoso, a maior ameaça do Mythos é contra sistemas vulneráveis e mal defendidos.
Em entrevista à Scientific American, Ciaran Martin, professor na Universidade de Oxford, comparou o cenário a um atacante fazer gol contra o pior goleiro do mundo. Martin é ex-CEO do Centro Nacional de Segurança Cibernética (NSCS, na sigla em inglês) do Reino Unido.
Mythos: de inovação tecnológica para preocupação de segurança nacional
Para você se localizar, confira abaixo uma linha do tempo com pontos-chave do desenvolvimento, anúncio e repercussão do Mythos e do Projeto Glasswing:
Março de 2026: antecedentes e tensões
Início de março: Surge uma tensão pública entre o Pentágono (militares dos EUA) e a Anthropic;
2 de março: O modelo Claude tem um aumento expressivo de popularidade após desentendimentos entre a empresa e militares;
7 de abril: A Anthropic anuncia oficialmente a existência do Claude Mythos Preview. A empresa declara que o modelo é capaz de encontrar e explorar falhas de segurança nos grandes sistemas operacionais e navegadores, mas toma a decisão inédita de não liberá-lo ao público devido aos riscos de ciberataques;
8 de abril: Anthropic anuncia o Projeto Glasswing, iniciativa que reúne gigantes como Google, Microsoft, Apple, Amazon, Nvidia e grandes bancos para usar o Mythos na proteção de suas infraestruturas;
10 de abril: O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, convoca os presidentes dos maiores bancos americanos (como Goldman Sachs e Citi) para discutir os riscos cibernéticos impostos pelo novo modelo de IA.
Meados de abril de 2026: repercussão internacional e testes
16 de abril: Bancos alemães iniciam consultas com autoridades e especialistas sobre os riscos do Mythos, enquanto o Banco da Inglaterra intensifica seus testes de risco;
17 de abril: Relatórios do AISI do Reino Unido são divulgados, confirmando que o Mythos completou com sucesso uma simulação de ataque cibernético de 32 etapas, algo inédito para uma IA. Especialistas começam a debater se o modelo é uma revolução real ou parte de uma estratégia de marketing;
Semana de 17 de abril: O Mythos é tema de discussões em reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, sendo descrito pelo ministro das finanças do Canadá como um “desconhecido perigoso”.
Final de abril de 2026: brecha de segurança
21 de abril: A Bloomberg revela que um pequeno grupo de usuários não autorizados conseguiu acesso ao Mythos por meio de um fórum privado. O acesso teria ocorrido no mesmo dia do anúncio original do modelo;
22 de abril: A Anthropic confirma que investiga o relato de acesso não autorizado ao Claude Mythos Preview por meio de um fornecedor terceirizado.
Em 18 de maio, o Financial Times publicou que a Anthropic deverá apresentar ao Conselho de Estabilidade Financeira um relatório sobre os riscos cibernéticos identificados pelo Mythos.
Em suma, o contexto é:
O novo modelo de IA da Anthropic chamou atenção de bancos centrais e ministérios da Fazenda por sua capacidade de detectar vulnerabilidades em softwares, navegadores e infraestruturas importantes – o que também poderia facilitar ataques mais sofisticados ao sistema financeiro global;
A relevância do tema aumentou após o presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, afirmar que o Mythos poderia “desvendar todo o cenário de riscos cibernéticos” e ampliar ameaças a sistemas usados por bancos.
Avanço real ou jogada de marketing da Anthropic?
Em vez de lançar o Mythos para o público geral, a Anthropic concedeu acesso a empresas por meio do Projeto Glasswing. A startup descreveu essa iniciativa como “um esforço para proteger os softwares mais cruciais do mundo”.
A Anthropic, desenvolvedora do Claude, compete com gigantes como OpenAI (ChatGPT), Google (Gemini) e Meta – Imagem: Tada Images/Shutterstock
Entre as companhias de tecnologia que toparam participar do projeto, estão: Amazon Web Services (AWS), Apple, Microsoft, Google, Nvidia, Broadcom e CrowdStrike (sim, aquela empresa por trás do apagão global em 2024). “São empresas com muito foco em cibersegurança”, observou Carraro.
A Anthropic deu acesso, elas usaram e chancelaram. Ou seja, dá pra gente acreditar que realmente esse modelo é um grande salto de qualidade em relação ao Opus 4.6.
Fabrício Carraro, Program Manager na Alura, em entrevista ao Olhar Digital
Só que muitos analistas e especialistas independentes em cibersegurança ainda não puderam testar o Mythos por conta própria. Por isso, alguns continuam céticos sobre o desempenho do modelo.
Então, fica a pergunta: o Mythos representa um grande avanço para a IA ou seu anúncio foi uma jogada de marketing da Anthropic para inflar sua importância? Para o especialista da Alura, um pouco dos dois.
Carraro explicou que a Anthropic quer se posicionar como a principal empresa de IA voltada para negócios, programação e cibersegurança. Isso enquanto compete com gigantes como OpenAI (ChatGPT), Google (Gemini) e Meta.
O Projeto Glasswing é um consórcio criado pela Anthropic para big techs testarem o Mythos em sigilo – Imagem: Reprodução/Anthropic
Por um lado, ele constatou a evolução da tecnologia da startup (no quesito código, pelo menos) ao analisar o System Card do Mythos. Por outro, observou com desconfiança o vazamento de dados sobre o modelo logo antes da empresa colocar no ar a página sobre o Projeto Glasswing – com vídeos bem produzidos e tudo.
“Ele [o Mythos] é excelente para programação, só que também tem o lado de marketing de eles se venderem como ‘nós somos a crista da onda’”, analisou Carraro. Para ele, é como se a Anthropic dissesse: “governo dos Estados Unidos, governo de outros países, empresas de qualquer setor, usem os nossos modelos, porque a gente pode dar acesso antecipado para [vocês] testarem o estado da arte ao qual os meros mortais não vão ter acesso”.
Essa parte de ‘perigoso demais’ também encaixa um pouco nessa questão do marketing. Dá para as duas coisas serem verdade ao mesmo tempo.
Fabrício Carraro, em entrevista ao Olhar Digital
Seja como for, não é de hoje que o anúncio de um novo modelo de IA vem acompanhado dos termos “perigoso” e “revolucionário”. Cutucar medo e entusiasmo tornou-se uma marca registrada da indústria da IA.
Mythos reforça a necessidade de regulação da IA e a importância da pesquisa acadêmica
Se você chegou até aqui, talvez tenha pensado “foi bom a Anthropic ter segurado o Mythos, já que pode ser tão perigoso”. E é uma linha de raciocínio bem válida, tá? Mas, para Pena, essa decisão da Anthropic não é o suficiente para lidar com a situação.
“Para consertar tudo [que o Mythos achou de brecha]… a gente está falando de coisas tão estruturais”, disse o especialista em Machine Learning.
É muito recurso que tem que ser usado. E, às vezes, nem é possível porque tem sistema que [você] não pode tirar do ar para aplicar a segurança necessária. Então, eu não acho que [o Projeto Glasswing] vai resolver.
Roberto “Pena” Spinelli, em entrevista ao Olhar Digital
Segundo Pena, a solução seria regulação, a nível mundial, sobre o uso da IA e “as responsabilidades de cada um”. “A sociedade tem que exigir que a IA só possa entrar em sistemas que estejam seguros. E, se não dá para fazer isso, então não pode fazer”, disse o pesquisador.
Para o especialista, evitar regular a IA a nível mundial é como dizer: “De vez em quando, alguém vai conseguir fazer uma bomba atômica no quintal” – Imagem: DOBUTSU/Shutterstock
Para entender esse raciocínio, imagine o desenvolvimento, sem regulação, de uma bomba atômica ou tecnologias com energia nuclear envolvida. Esse é o paralelo traçado pelo especialista na sua explicação.
“[É como se falássemos] Olha, de vez em quando vai ter alguém aí que vai conseguir fazer uma bomba atômica no quintal. E vai poder colocar todo mundo em risco. Não! Primeiro, você entende que o negócio é muito poderoso. Você regula”, disse Pena.
Neste ponto, entra também a importância da pesquisa acadêmica. “No geral, os cientistas têm uma probidade ética maior do que empresas”, disse o especialista. Mas, para ele, todos precisam remar para a mesma direção: regulação e responsabilização.
“Então, [quando] você vai fazer uma pesquisa ou desenvolver um produto, você precisa ter responsabilização. Você precisa ter um entendimento daquilo e garantir que o que você está colocando seja seguro”, reforçou Pena.
“Está faltando essa camada muito importante de regulação da inteligência artificial”, finalizou o pesquisador.
A Anthropic anunciou nesta quinta-feira (28) uma nova rodada de financiamento de US$ 65 bilhões, elevando sua avaliação para US$ 900 bilhões antes da inclusão do novo capital. Com isso, a empresa de inteligência artificial (IA) sediada em San Francisco ultrapassou a OpenAI e passou a ocupar o posto de startup de IA mais valiosa do mundo.
O movimento ocorre em meio à disputa crescente entre companhias que desenvolvem modelos avançados de inteligência artificial. Além da nova captação, a Anthropic também apresentou o Claude Opus 4.8, nova versão de seu principal modelo de IA, descrita pela empresa como significativamente superior à geração anterior na criação de código de computador.
Startup ultrapassa OpenAI enquanto as gigantes da IA se preparam para IPOs – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock
Rodada de investimento impulsiona crescimento
A nova rodada foi liderada por investidores como Green Oaks Capital, Sequoia Capital, Altimeter Capital e Dragoneer Investment Group. O aporte fez a avaliação da Anthropic saltar quase duas vezes e meia em relação aos US$ 380 bilhões registrados cerca de três meses atrás.
Segundo a empresa, a demanda por suas ferramentas de programação baseadas em IA acelerou nos últimos meses. Desde novembro, quando a Anthropic aprimorou sua tecnologia voltada à geração de código, centenas de empresas passaram a pagar pelo software.
A companhia afirmou ainda que sua “revenue run rate”, estimativa de receita anual baseada no desempenho atual, ultrapassou US$ 47 bilhões neste mês.
“Esse financiamento vai nos ajudar a atender à demanda histórica que estamos enfrentando, permanecer na fronteira da pesquisa e levar o Claude para mais lugares onde o trabalho acontece”, disse Krishna Rao, diretor financeiro da Anthropic.
Claude Opus 4.8 amplia foco em programação
O novo modelo Claude Opus 4.8 foi apresentado como o principal lançamento tecnológico da empresa. De acordo com a Anthropic, ele supera outros sistemas públicos de IA em “vibe coding”, prática em que a inteligência artificial cria software a partir de comandos escritos em linguagem natural. Falamos mais sobre ele aqui.
Benchmark compara desempenho de Opus 4.8, Opus 4.7, GPT-5.5 e Gemini 3.1 Pro – Anthropic / Divulgação
Rayan Krishnan, CEO da Vals AI, afirmou que o Opus 4.8 obteve pontuação 10% superior no teste de benchmark de vibe coding em comparação ao modelo anterior da Anthropic.
O sistema também apresentou melhora em matemática, área em que empresas de IA vêm registrando avanços rápidos nos últimos anos.
Crescimento acelerado e disputa com OpenAI
Fundada em 2021, a Anthropic ganhou espaço rapidamente no setor de inteligência artificial. Há 62 dias, a OpenAI havia anunciado uma captação de US$ 122 bilhões, alcançando avaliação de US$ 730 bilhões. Segundo o texto original, a OpenAI levou aproximadamente uma década para atingir esse patamar, enquanto a Anthropic superou o valor em metade do tempo.
Nos últimos meses, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, também passou a se posicionar publicamente sobre riscos associados à inteligência artificial e defendeu a regulamentação da tecnologia. O executivo protagonizou disputas públicas com o Pentágono relacionadas ao uso de IA em guerras.
OpenAI e Anthropic disputam o mercado de IA – Imagem: Rokas Tenys/Shutterstock
A empresa também esteve envolvida em discussões recentes sobre os impactos sociais da tecnologia. O texto informa que a Anthropic aconselhou o papa Leão XIV em uma encíclica divulgada na segunda-feira, na qual o pontífice alertou sobre a necessidade de proteger a humanidade dos efeitos mais disruptivos da inteligência artificial.
IPO pode acontecer ainda este ano
A ascensão da Anthropic acontece em paralelo aos movimentos de outras empresas privadas de tecnologia em direção ao mercado financeiro.
Na semana passada, a SpaceX divulgou o prospecto de sua oferta pública e deve estrear na bolsa já no próximo mês. A OpenAI também pretende protocolar confidencialmente seu pedido de IPO nas próximas semanas.
Segundo pessoas ligadas à Anthropic citadas no texto, a empresa avalia realizar sua própria oferta pública inicial ainda neste ano, embora a companhia tenha se recusado a comentar oficialmente o assunto.
Além dos fundos de investimento, a rodada mais recente trouxe investidores estratégicos como Samsung, Micron e SK Hynix, fabricantes de chips de memória, armazenamento e lógica usados no desenvolvimento de sistemas de IA.
A Anthropic informou em publicação no blog oficial que essas parcerias devem ampliar sua capacidade computacional diante da demanda crescente pelo Claude Code.
De acordo com a PitchBook, a empresa já levantou mais de US$ 130 bilhões desde sua fundação. Entre os investidores estão Capital Group, Menlo Ventures, Lightspeed Venture Partners, além de gigantes da tecnologia como Amazon e Google.
A Anthropicanunciou oficialmente nesta quinta-feira (28) o lançamento do Claude Opus 4.8, uma atualização direta do seu principal modelo de inteligência artificial. A nova versão foca em maior confiabilidade, refinamento de julgamento para tarefas autônomas e chega ao mercado pelo mesmo preço de seu antecessor, o Opus 4.7.
O lançamento é acompanhado por uma série de recursos inéditos voltados tanto para usuários finais quanto para desenvolvedores, incluindo um seletor de “nível de esforço” e automações em larga escala para programação.
Mais honestidade e menos erros de programação
De acordo com os testes iniciais divulgados pela Anthropic, um dos principais destaques do Claude Opus 4.8 é o seu nível elevado de precisão e autocrítica. O modelo foi treinado para evitar conclusões precipitadas e apontar incertezas em suas próprias respostas, em vez de sustentar alegações sem fundamento técnico.
Essa mudança traz um impacto direto no desenvolvimento de softwares: as avaliações da empresa apontam que o Opus 4.8 é cerca de quatro vezes menos propenso a deixar falhas passarem despercebidas em códigos escritos por ele mesmo.
No quesito alinhamento e segurança, o modelo registrou taxas de comportamento inadequado (como trapaça ou cooperação com uso malicioso) consideravelmente menores que a versão anterior.
Benchmark compara desempenho de Opus 4.8, Opus 4.7, GPT-5.5 e Gemini 3.1 Pro – Anthropic / Divulgação
Novas ferramentas: controle de esforço e fluxos dinâmicos
Além do ganho de inteligência, a atualização introduz novas funcionalidades práticas no ecossistema da startup:
Controle de Esforço: disponível no claude.ai e no ambiente Cowork para todos os planos. O usuário pode escolher o quanto a IA deve “pensar” antes de responder. Configurações mais altas ativam um raciocínio profundo (ideal para tarefas difíceis), enquanto níveis mais baixos priorizam respostas rápidas e economizam o limite de uso.
Fluxos de trabalho dinâmicos: em fase de testes no Claude Code para planos corporativos. A função permite planejar e executar centenas de subagentes paralelos em uma única sessão. Com isso, a IA consegue realizar migrações complexas em bases que contam com centenas de milhares de linhas de código de ponta a ponta.
Modo rápido otimizado: o modo de alta velocidade do Opus 4.8 opera a 2,5 vezes a velocidade padrão e ficou três vezes mais barato em comparação com as gerações anteriores.
Atualizações na API de mensagens: agora, desenvolvedores podem inserir instruções de sistema diretamente na matriz de mensagens, permitindo atualizar permissões ou contextos no meio de uma tarefa sem quebrar o cache de comandos.
Projeto Glasswing e o futuro modelo Mythos
A Anthropic indicou que o Claude Opus 4.8 é um avanço perceptível, mas que os planos para o futuro são ainda mais ambiciosos. A companhia já trabalha na criação de modelos que entreguem a mesma capacidade da linha Opus, porém com custos operacionais reduzidos.
Paralelamente, a empresa confirmou a existência do Projeto Glasswing, que testa o “Claude Mythos Preview”, uma classe inédita de IA com inteligência superior à da linha Opus. Atualmente, o modelo Mythos está restrito a um grupo seleto de organizações para tarefas avançadas de cibersegurança. A expectativa da criadora do Claude é implementar salvaguardas adicionais para lançar essa nova categoria de IA para o público geral nas próximas semanas.
Preços e disponibilidade
O Claude Opus 4.8 já está disponível globalmente para desenvolvedores por meio da API dedicada.
O preço corporativo tradicional permanece inalterado: US$ 5 por milhão de tokens de entrada (input) e US$ 25 por milhão de tokens de saída (output). Já para o Modo Rápido (Fast Mode), os valores são de US$ 10 para entrada e US$ 50 para saída por milhão de tokens consumidos.
O papa Leão XIV criticou o avanço da inteligência artificial (IA) e a concentração de poder em big techs na sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas”. Durante o evento no Vaticano, o cofundador da Anthropic, Christopher Olah, disse que o desenvolvimento da IA não pode ficar restrito às empresas.
Para o pontífice, a IA precisa estar submetida às “mais rigorosas restrições éticas”, especialmente no que diz respeito a aplicações militares. E Olah defendeu maior supervisão de governos, líderes religiosos e da sociedade civil sobre a tecnologia.
Governança da IA exige fiscalização externa e debate ético mundo afora
Sendo o único representante de uma empresa de tecnologia convidado para o evento no Vaticano, Olah justificou sua presença destacando sua trajetória dedicada à segurança da IA e o diálogo frequente que mantém com comunidades religiosas. O executivo disse já ter debatido os dilemas éticos trazidos pela tecnologia com integrantes de mais de 15 religiões ao longo de sua carreira.
“Cada laboratório de IA opera dentro de um conjunto de incentivos e restrições que às vezes podem conflitar com fazer a coisa certa“, apontou Olah ao ressaltar que mesmo pesquisadores bem-intencionados são afetados por essas forças comerciais e geopolíticas.
Christopher Olah foi o único representante de uma empresa de tecnologia convidado para o evento no Vaticano – Imagem: Reprodução/redes sociais
Diante disso, ele reforçou a necessidade de auditoria externa. E alertou para “uma possibilidade real” de a IA substituir postos de trabalho em larga escala. “Se isso acontecer, apoiar aqueles que forem deslocados será um imperativo moral de proporções históricas”, declarou o canadense.
O cofundador da startup também direcionou críticas à autossuficiência do meio técnico e expressou preocupação com o atual estágio de evolução dos grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês). “Alguns podem acreditar que as questões de IA são mais bem tratadas por cientistas da computação como eu. Eles estão enganados.”
O especialista também demonstrou apreensão com o ritmo do setor: “Acho que este é um momento assustador. As coisas estão mudando rápido. É uma tecnologia realmente poderosa“. Olah complementou afirmando que “existe o risco de as coisas correrem mal, e cabe a todos nós empurrar isso numa boa direção”.
O papa Leão XIV criticou o avanço da IA e a concentração de poder em big techs na sua primeira encíclica – Imagem: Riccardo De Luca/Shutterstock
O papa Leão XIV agradeceu a Olah pela oportunidade de “juntos encontrarmos o caminho para a humanidade neste tempo de inteligência artificial”. Essa colaboração próxima entre a Igreja e um empresário do setor tecnológico foi classificada por especialistas como um fato sem precedentes.
“Estamos neste território estranho e desconhecido no qual a política, os negócios e agora a religião estão tão intimamente ligados uns aos outros“, analisou Margaret O’Mara, historiadora de tecnologia da Universidade de Washington, em entrevista ao The Washington Post.
Essa convergência em Roma aprofunda o isolamento político da Anthropic em Washington, onde a empresa enfrenta forte oposição interna. Críticos alinhados à administração Trump, como o investidor Jason Calacanis, acusam o CEO da startup, Dario Amodei, de assustar o público desnecessariamente.
O governo norte-americano adota uma postura de fomento acelerado à tecnologia para rivalizar com a China, colidindo frontalmente com as restrições contratuais exigidas pela Anthropic ao Pentágono para impedir o uso de seus modelos, como o recém-lançado Mythos, em sistemas de vigilância doméstica ou em armas autônomas.
(Essa matéria também usou informações da Reuters.)
O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) não pode ser deixado exclusivamente sob o controle das grandes empresas de tecnologia. O alerta foi feito por Chris Olah, cofundador da Anthropic, durante um evento no Vaticano nesta segunda-feira (25). De acordo com informações da Reuters, o executivo defendeu a urgência de uma maior supervisão externa, envolvendo governos, líderes religiosos e a sociedade civil organizada.
Olah participou da apresentação da primeira encíclica dedicada aos desafios da inteligência artificial. Sentado ao lado das autoridades católicas, o cofundador da empresa criadora do Claude afirmou que existe uma “possibilidade real” de a tecnologia substituir o trabalho humano em larga escala. Diante desse cenário, ele destacou que o suporte aos profissionais impactados se tornará um imperativo moral de proporções históricas.
Pressões comerciais e conflitos de interesse
O executivo admitiu abertamente que os principais laboratórios de IA do mundo operam sob fortes pressões comerciais, geopolíticas e pessoais. Segundo ele, esses fatores frequentemente entram em conflito com o que seria correto fazer para o bem comum da sociedade.
Mesmo os pesquisadores mais bem-intencionados acabam sofrendo a influência dessas forças de mercado. É por essa razão que, conforme relatado à Reuters, Olah considera o escrutínio de agentes externos indispensável para guiar a tecnologia em uma direção segura.
O evento marcou uma aproximação incomum entre o setor de tecnologia e a Igreja Católica, que vem tentando se posicionar como uma voz moral ativa diante dos rápidos avanços da IA.
O único representante do setor no Vaticano
A Anthropic foi fundada em 2021 por ex-funcionários da OpenAI (criadora do ChatGPT), que deixaram a antiga companhia justamente por temerem que o desenvolvimento de ferramentas estivesse avançando rápido demais, sem os devidos testes de segurança.
Diferenciando-se de outras gigantes do setor, a Anthropic já enfrentou embates com a administração do presidente Donald Trump nos Estados Unidos ao insistir na implementação de barreiras de proteção. Essas travas limitam o uso de seus modelos de IA para fins militares, como o direcionamento autônomo de armas ou sistemas de vigilância doméstica.
Questionado pela Reuters sobre o motivo de ser o único representante de peso da tecnologia convidado para o evento, Olah apontou seu histórico de dedicação à segurança dos sistemas e sua interlocução constante com mais de 15 religiões diferentes para debater os impactos éticos da IA.
Um momento assustador: as três prioridades urgentes
Olah não escondeu sua preocupação com o ritmo atual das transformações e classificou o cenário atual como “um momento assustador”. Para o executivo, o público – especialmente os mais jovens – tem motivos legítimos para se preocupar com a velocidade e o poder dessa tecnologia.
Para evitar que a situação fuja do controle, o cofundador da Anthropic listou três frentes prioritárias que exigem atenção imediata do mundo:
Desemprego em massa: a necessidade de criar redes de apoio para conter o deslocamento da força de trabalho humana.
Desigualdade global: o desenvolvimento da IA hoje está concentrado em um pequeno grupo de nações ricas, tornando urgente o debate sobre como compartilhar esses ganhos globalmente.
Opacidade dos sistemas: o desafio técnico, ainda sem solução definitiva, de compreender e interpretar o comportamento cada vez mais complexo e “invisível” dos modelos avançados.
Os receios de que o modelo de inteligência artificial (IA)Mythos, da Anthropic, pudesse impulsionar de forma descontrolada atividades de hackers vêm sendo considerados exagerados por parte da comunidade de cibersegurança cerca de um mês após o anúncio da tecnologia.
Quando apresentou o sistema em abril, a Anthropic afirmou que o Mythos havia identificado milhares de vulnerabilidades de software, incluindo falhas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores. Segundo a empresa, os impactos da disseminação do modelo poderiam ser severos.
As declarações chamaram a atenção de governos. Autoridades de diversos países passaram a discutir riscos com bancos, enquanto a Casa Branca avaliava, no início de maio, possíveis regras para controlar a forma como novos modelos de IA são disponibilizados após testes de segurança.
Apesar disso, profissionais da área de cibersegurança têm adotado uma postura mais cautelosa. Parte dos especialistas considera que a reação pública e política ao Mythos foi além do que as capacidades atuais do sistema efetivamente demonstram.
“Eu acho que existe uma grande lacuna de comunicação entre profissionais da área e formuladores de políticas públicas”, afirmou Isaac Evans, fundador e CEO da empresa de segurança de software Semgrep, à Reuters. Segundo ele, o modelo representa “um avanço técnico real”, mas a resposta em torno da tecnologia “não é sustentada pelo que realmente sabemos sobre como essas capacidades irão se traduzir no mundo real”.
Especialistas que utilizaram o modelo em ambientes controlados relataram melhorias substanciais na descoberta de vulnerabilidades. Equipes de tecnologia de bancos também vêm trabalhando para corrigir diversas fragilidades em sistemas bancários de grande e pequeno porte.
As preocupações aumentaram após sucessivos relatos envolvendo casos de ataques cibernéticos ligados ao uso de IA. Em 11 de maio, o Googleinformou ter detectado o primeiro caso conhecido de um grande grupo de cibercrime utilizando IA para descobrir uma falha de software até então desconhecida e planejar uma exploração em massa.
Quando apresentou o sistema em abril, a Anthropic afirmou que o Mythos havia identificado milhares de vulnerabilidades de software, incluindo falhas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock
Especialistas apontam risco mais moderado
A diferença entre a percepção de risco de profissionais da segurança e a visão de formuladores de políticas públicas ajudou a alimentar a narrativa de que o Mythos estaria no centro de uma iminente crise de segurança digital, embora capacidades semelhantes já estivessem disponíveis há algum tempo;
“Somos capazes de usar IA para encontrar mais falhas do que sabemos o que fazer com elas há meses, talvez anos”, afirmou uma fonte com ampla experiência em pesquisa de vulnerabilidades e acesso antecipado ao Mythos à Reuters;
Segundo essa pessoa, o desafio não está apenas em encontrar vulnerabilidades, mas em validá-las, priorizá-las e corrigi-las sem comprometer sistemas existentes. A capacidade das organizações de processar e validar um grande volume de falhas recém-descobertas ainda seria insuficiente;
Mesmo assim, a fonte reconheceu avanços do Mythos em relação a modelos anteriores. “Ele é capaz de encontrar mais vulnerabilidades com prompts mais simples do que os modelos anteriores”, afirmou. Segundo a avaliação, sistemas anteriores exigiam instruções mais detalhadas e complexas, o que significa que a barreira de entrada foi reduzida.
Anthony Grieco, vice-presidente sênior e diretor de segurança e confiança da Cisco, afirmou que uma das novidades mais úteis do Mythos é a capacidade não apenas de identificar vulnerabilidades, mas também de analisar grandes volumes de código de maneira muito mais rápida e ajudar especialistas a reduzir falsos positivos.
Segundo Grieco, isso permite que equipes de defesa foquem nos riscos cibernéticos mais urgentes dentro de seus contextos. Ele também afirmou que o modelo possui menos barreiras de proteção do que sistemas anteriores, permitindo instruções mais específicas capazes de habilitar atividades que outros modelos não permitiam.
Grieco afirmou que, para aproveitar totalmente o potencial do Mythos, as organizações precisam contar com infraestrutura computacional adequada e também com um ambiente controlado de execução, conhecido como “harness”, no qual o modelo opera com instruções e limitações específicas.
“Se você tem um carro de Fórmula 1, mas só andou de bicicleta a vida inteira, talvez consiga fazê-lo andar em linha reta, mas você não vai conseguir extrair o máximo desempenho imediatamente”, disse Grieco.
A estratégia da Anthropic de apresentar o Mythos dessa forma e convidar empresas selecionadas para testar defesas em um programa chamado Project Glasswing ajudou a ampliar o debate sobre o modelo para além dos círculos tradicionais de segurança.
Como resultado, houve uma mobilização ampla em torno do tema, o que ampliou tanto a percepção de ameaça quanto a relevância da Anthropic no debate público. Enquanto isso, o Pentágono classificou a empresa como um risco para cadeias de suprimentos, ao passo que outros setores do governo estadunidense buscavam acesso à tecnologia.
Segundo um funcionário da Casa Branca ouvido pela Reuters, o governo dos Estados Unidos vem discutindo com laboratórios de IA uma utilização mais ampla dessas tecnologias.
Um porta-voz da Anthropic afirmou que a empresa trabalha “de perto com o governo dos Estados Unidos para avançar rapidamente prioridades compartilhadas” e também para ampliar o acesso de mais organizações ao Mythos.
Encontrar vulnerabilidades é apenas o começo
O Mythos — e, em certa medida, o GPT-5.5, da OpenAI — passou a dominar discussões sobre segurança nacional relacionadas à inteligência artificial (IA).
No entanto, especialistas afirmam que esses debates frequentemente ignoram um ponto central: o uso de IA para localizar vulnerabilidades não é algo novo. O problema maior estaria nas etapas seguintes de exploração e resposta.
“Nossos adversários ficaram realmente muito bons sem IA”, afirmou Cynthia Kaiser, ex-integrante sênior da divisão de cibersegurança do FBI e atualmente ligada à empresa Halcyon. “Ataques de ransomware estão acontecendo em menos de uma hora”, disse ela, acrescentando que a maioria das ameaças ainda não depende de IA.
Por enquanto, as exigências de escala computacional e infraestrutura do Mythos também limitam quem consegue utilizar o sistema. Especialistas, porém, acreditam que essas barreiras não devem durar muito tempo.
“Eu não acho que a arquitetura esteja otimizada”, afirmou Nick Adam, da empresa de serviços financeiros State Street, durante um painel na Vanderbilt University (EUA). Ele citou justamente os desafios de infraestrutura e ambiente operacional mencionados por Grieco. “Existe uma barreira de entrada, mas ela será resolvida rapidamente.”
Especialistas afirmam que esses debates frequentemente ignoram um ponto central: o uso de IA para localizar vulnerabilidades não é algo novo – Imagem: Digineer Station/Shutterstock
Anthropic fará apresentação a órgão global de estabilidade financeira
Em meio às discussões sobre os riscos do Mythos, a Anthropic deverá apresentar ao Financial Stability Board (FSB) vulnerabilidades cibernéticas identificadas pelo modelo no sistema financeiro global.
Segundo o jornal Financial Times, a startup responsável pelo chatbot Claude discutirá as capacidades do Mythos Preview com ministérios da Fazenda e bancos centrais ligados ao FSB, após um pedido do presidente da instituição e governador do Bank of England, Andrew Bailey.
O FSB é um órgão internacional responsável por coordenar regras financeiras entre as economias do G20. Um porta-voz do FSB afirmou que a organização “recebe positivamente o engajamento com a Anthropic e outras empresas sobre riscos emergentes e de fronteira para a estabilidade financeira global”.
A Anthropic não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters. Segundo a empresa, o Mythos é um modelo de cibersegurança projetado para detectar vulnerabilidades antigas em navegadores, infraestrutura e softwares.
Especialistas em segurança cibernética alertaram que o sistema poderia potencializar ataques mais sofisticados, criando riscos para o setor bancário, especialmente devido à dependência de sistemas legados.
Em abril, Bailey afirmou que o Mythos poderia representar riscos significativos para a segurança cibernética global.
“Seria razoável pensar que os eventos no Golfo são o desafio mais recente que enfrentamos neste mundo até que, acho que foi na última sexta-feira [11 de abril], você acorda e descobre que a Anthropic pode ter encontrado uma forma de abrir completamente o mundo do risco cibernético”, afirmou Bailey durante um evento na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA).
“A questão é: até que ponto essa nova versão do produto será capaz de identificar vulnerabilidades em outros sistemas que possam ser exploradas para ataques cibernéticos”, acrescentou Bailey.