Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, discursaram nesta quinta-feira (24) em Washington.
Os dois protagonizam a maior rivalidade geopolítica atualmente. Xi Jinping chegou à capital americana nesta quarta-feira (23) para se encontrar com Trump. Ele não falará na Assembleia Geral da ONU, realizada ao longo desta semana, em Nova York.
Sobre inteligência artificial, o líder chinês afirmou que se preocupa em regular o avanço da tecnologia. O republicano, na contramão, não demonstra qualquer interesse em colocar o pé no freio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira (24) que a inteligência artificial será um dos principais temas da reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington.
O encontro ocorre em meio à disputa entre os dois países pelo avanço da tecnologia. Trump defende o desenvolvimento acelerado da IA, enquanto crescem os alertas sobre os riscos de sistemas cada vez mais avançados.
A superinteligência estará entre os assuntos discutidos por Trump e Xi Jinping durante o encontro desta quinta-feira. – Imagem: QQMinh88/Shutterstock
IA virou ponto de disputa
Trump afirmou em sua rede social que a superinteligência estará entre os assuntos discutidos com Xi. “Um dia importante com o Presidente Xi, da China. A Superinteligência artificial (SI) será um grande tema de discussão, mas quero deixá-la exatamente onde está. Essa também é a posição da China. Nossa salvaguarda é o Departamento de Justiça!”, declarou.
Nas últimas semanas, Trump também rejeitou pedidos para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia. Ele disse que não pretende frear um setor que, em sua avaliação, poderá superar o impacto da Revolução Industrial ou da própria internet.
A disputa envolve:
desenvolvimento de sistemas de IA mais avançados;
riscos relacionados à segurança nacional;
restrições dos EUA à exportação de chips de IA;
competição pela liderança tecnológica;
comunicação sobre incidentes envolvendo IA.
Os dois países discutem um mecanismo de notificação para incidentes de inteligência artificial que afetem a segurança nacional. – Imagem: CHIEW/Shutterstock
EUA e China avaliam cooperação
Mesmo em meio à disputa, Washington e Pequim discutem uma forma de ampliar a comunicação sobre riscos relacionados à tecnologia.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que os EUA propuseram um novo mecanismo de notificação para incidentes de IA capazes de afetar a segurança nacional.
“Acreditamos que, assim como em qualquer atividade transfronteiriça, passar da opacidade para uma maior transparência entre a primeira e a segunda maiores potências de IA do mundo é muito importante”, afirmou Bessent.
A proposta foi apresentada antes da reunião entre Trump e Xi. O encontro desta quinta-feira coloca a inteligência artificial no centro das conversas entre os dois países.
A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping coloca a segurança da inteligência artificial nas discussões entre Estados Unidos e China. Os dois governos avaliam como lidar com sistemas cada vez mais autônomos, enquanto mantêm a corrida pelo avanço da tecnologia.
Uma possível aproximação envolve regras comuns, comunicação em casos graves e mecanismos para verificar informações. Segundo a CNBC, porém, um acordo para desacelerar o desenvolvimento da IA é considerado extremamente improvável.
As restrições americanas aos chips avançados para a China continuam sendo um ponto de tensão tecnológica. – Imagem gerada com IA. ChatGPT/Olhar Digital
Por que a segurança entrou na conversa
A preocupação aumentou depois que sistemas de IA passaram a executar tarefas mais complexas. A OpenAI afirmou que um modelo de pesquisa conseguiu acesso não autorizado a partes da plataforma Hugging Face. A Anthropic também identificou o uso de IA para automatizar etapas de ataques cibernéticos.
Episódios assim alimentam o temor de que modelos mais autônomos possam tornar ataques mais rápidos e difíceis de conter. Aalok Mehta, diretor do Wadhwani AI Center, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), disse à CNBC que os dois países estão especialmente preocupados com agentes capazes de escapar de mecanismos de controle e invadir sites.
Antes do encontro, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, discutiu com o vice-premiê chinês He Lifeng a criação de um diálogo bilateral sobre IA. A proposta inclui um canal para tratar de incidentes que possam alcançar o nível de segurança nacional.
O que pode ser discutido
Mehta aponta dois possíveis pontos de aproximação: definições e estruturas comuns para a segurança de modelos avançados e um mecanismo de comunicação emergencial.
Chris McGuire, pesquisador sênior do Conselho de Relações Exteriores (CFR), considera esse canal para incidentes de segurança nacional um passo modesto, mas positivo. Para ele, porém, um acordo para reduzir o ritmo de desenvolvimento da IA é extremamente improvável.
Entre os assuntos que podem aparecer nas conversas estão:
definições comuns para segurança de sistemas avançados;
comunicação sobre incidentes de segurança;
mecanismos para verificar informações compartilhadas;
acusações sobre o uso de “distillation” por empresas chinesas;
restrições americanas à exportação dos chips de IA mais avançados.
A possível cooperação em segurança não significa uma pausa na disputa entre EUA e China pelo avanço da IA. – Imagem: QQMinh88/Shutterstock
A corrida pelos chips continua
O possível diálogo ocorre em meio a uma disputa tecnológica que permanece ativa. Os Estados Unidos restringem o acesso chinês aos chips mais avançados da Nvidia e acusam empresas chinesas de usar “distillation”, prática de treinar modelos a partir das respostas de sistemas mais avançados. Pequim rejeita a acusação.
Segundo a CNBC, várias empresas chinesas também teriam conseguido acessar remotamente a capacidade computacional desses chips por meio de data centers no Sudeste Asiático, apesar das restrições americanas.
Trump, por sua vez, defende a competição tecnológica com a China. “Se não vencermos a IA, estaremos em uma posição muito ruim”, afirmou o presidente americano no início deste mês.
Verificação pode ser decisiva
Para Mehta, qualquer cooperação precisa preservar a capacidade de Estados Unidos e China competirem no desenvolvimento de suas tecnologias. O outro requisito é estabelecer uma forma confiável de verificar o que cada lado compartilha.
O deputado americano Ro Khanna, que representa parte do Vale do Silício, defendeu a criação de salvaguardas comuns. “Por que não concordamos simplesmente que não deveria ser possível ter uma IA que se autoaperfeiçoe?”, questionou.
A desconfiança entre os governos torna os mecanismos de verificação especialmente importantes. Na avaliação de Mehta, ferramentas técnicas e de governança seriam necessárias para conferir a precisão das informações trocadas.
O encontro pode criar um canal de comunicação sobre os riscos da IA sem interromper a competição tecnológica entre Estados Unidos e China.
Durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, o presidente chinês Xi Jinping apresentou a estratégia de Pequim para ampliar sua participação na corrida global pela inteligência artificial.
A proposta chinesa aposta em modelos abertos, cooperação internacional e maior participação de países em desenvolvimento nas decisões sobre o futuro da tecnologia.
A China quer ampliar a cooperação em IA com países do BRICS, ASEAN, América Latina e África. – Imagem: Techa Tungateja/iStock
Xi defende IA aberta como caminho para ampliar acesso
Em seu discurso, Xi afirmou que o mundo deve aproveitar a “oportunidade histórica” dos modelos de inteligência artificial de código aberto. Segundo a Reuters, o presidente chinês também alertou para o risco de novas desigualdades caso apenas algumas nações concentrem o acesso às ferramentas mais avançadas.
A ideia defendida por Pequim é que sistemas abertos possam ser utilizados e adaptados por diferentes países, empresas e pesquisadores. O movimento contrasta com a estratégia de grandes companhias americanas, como OpenAI e Anthropic, que trabalham principalmente com modelos proprietários.
A Reuters destacou que empresas chinesas como Moonshot AI, Z.ai e MiniMax vêm acelerando seus lançamentos e oferecendo soluções com custos menores. O avanço dessas companhias coloca em dúvida a antiga percepção de que a China estaria sempre atrás dos Estados Unidos no desenvolvimento de IA.
Entre as principais iniciativas defendidas pelo governo chinês estão:
ampliar treinamentos e cooperação internacional em IA;
criar centros voltados ao desenvolvimento da tecnologia;
participar da construção de padrões globais;
estabelecer mecanismos para reduzir riscos de sistemas autônomos.
China e Estados Unidos travam uma disputa que envolve tecnologia, chips e as regras do futuro da inteligência artificial. – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock
Disputa por IA envolve modelos, chips e influência
A competição entre Pequim e Washington não está apenas nos softwares. O Wall Street Journal explicou que os dois países seguem estratégias diferentes: empresas americanas investem em sistemas fechados, enquanto companhias chinesas têm apostado em modelos abertos.
O jornal também destacou que empresas como DeepSeek, Moonshot e Zhipu AI buscam avançar apesar das restrições dos Estados Unidos ao acesso chinês a chips de alta capacidade e equipamentos usados na fabricação de semicondutores.
Nesse cenário, o lançamento do Kimi K3 pela Moonshot AI ganhou destaque. O modelo foi apresentado como uma evolução importante do ecossistema chinês e chamou atenção por suas capacidades avançadas.
Xi Jinping afirmou que a inteligência artificial precisa continuar sob controle humano para reduzir riscos. – Imagem: Garun.Prdt/Shutterstock
Pequim busca espaço nas regras globais da IA
Além de desenvolver tecnologia, a China tenta influenciar as normas que vão orientar o uso da inteligência artificial. Xi anunciou ações de cooperação com países do BRICS, ASEAN, América Latina e África, além da criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), que reúne 29 países.
A mensagem de Xi é clara: a China não seguirá ninguém, tanto em tecnologia de IA quanto em padrões.
George Chen, da The Asia Group, à Reuters
Xi também defendeu que sistemas inteligentes permaneçam sob controle humano e pediu mecanismos internacionais para lidar com possíveis riscos.
Para Kai-Fu Lee, empresário e investidor citado pelo Wall Street Journal, a abertura pode atrair países preocupados com a concentração tecnológica. “AI development should not be a solo performance by a single country, but a symphony of global collaboration”, afirmou.
A disputa pela liderança da IA agora envolve não apenas quem cria os sistemas mais avançados, mas também quem consegue definir as regras para seu uso em escala mundial.