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‘ChatGPT carioca’: entenda a polêmica da IA lançada pela prefeitura do Rio

O Rio de Janeiro (RJ) “lançou um modelo aberto de inteligência artificial”, escreveu o prefeito, Eduardo Cavaliere (PSD), na sexta-feira (12). O Rio Open 3.5 era um “modelo de IA aberto treinada no Rio com financiamento público ao longo do último ano pela Prefeitura”, disse o político numa postagem no X/Twitter. Mas não é bem assim.

A princípio, a divulgação feita pela prefeitura deu a entender que o modelo da IplanRio, empresa pública carioca de informática, tinha sido desenvolvido pela iniciativa da administração. “Inteligência artificial não é uma coisa distante, estrangeira, de laboratório bilionário”, escreveu o prefeito em sua postagem.

Na verdade, o Rio Open 3.5 é essencialmente uma mistura de dois sistemas chineses de código aberto: Nex-N2-Pro, da Nex-AGI; e Qwen 3.5-397B, da Qwen.

Rio Open 3.5: Entenda o caso do ‘ChatGPT carioca’ que, na verdade, é chinês

O modelo foi anunciado pela IplanRio logo após o encerramento do Web Summit Rio, versão carioca do evento global de tecnologia. Com 397 bilhões de parâmetros, a ferramenta foi apresentada com testes internos que indicavam uma suposta superioridade em relação a sistemas como o DeepSeek V4 em tarefas de programação, matemática e raciocínio. 

Cavaliere foi às redes sociais no sábado (13) exaltar o projeto como fruto de “engenharia brasileira” e símbolo de “soberania”. Confira abaixo:

“A avaliação não era independente. Não foram terceiros que fizeram isso”, observou Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, ao Olhar Digital. Ou seja: os resultados de desempenho divulgados pelo prefeito não tinham passado por verificação independente. 

No domingo (14), o laboratório Nex-AGI acusou publicamente a prefeitura de apropriação tecnológica sem os devidos créditos. Os chineses apontaram que a documentação carioca tinha omitido que o Rio Open 3.5 continha, na verdade, 60% do modelo Nex-N2-Pro (os 40% restantes eram do Qwen 3.5-397B).

Ao contrário do divulgado inicialmente, não houve um processo complexo de treinamento ou refinamento de dados. O Rio Open 3.5 “nada mais é do que a combinação de dois sistemas abertos já disponíveis”, disse Igreja.

O sistema consistia numa fusão de modelos (model merge), técnica simples de alinhar e somar parâmetros de duas tecnologias prontas. Isso exige pouco poder computacional e nenhuma pesquisa aprofundada.

“Na verdade, praticamente nada foi desenvolvido. Só foi feita essa mescla” – Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em comentário ao Olhar Digital.

“Fazer um model merge é uma prática legítima, comum e totalmente permitida pela licença Apache 2.0 que rege essas arquiteturas, desde que a devida atribuição técnica seja feita”, observou Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da FGV, ao Olhar Digital. “O erro da equipe foi a falta de transparência na documentação inicial, o que, no universo de código aberto, soa imediatamente como apropriação indevida.”

Para expor a situação, a Nex-AGI removeu uma instrução embutida que forçava a IA a se apresentar como “Rio 3.5”. Sem esse filtro, o robô passava a responder que seu nome era “Nex”.

A perda do ‘modelo final’

Em nota enviada ao Olhar Digital (que você lê na íntegra no final desta matéria), a IplanRio disse que houve “uma falha operacional” na publicação dos arquivos na plataforma Hugging Face que “levou ao envio de uma versão preliminar de testes, em vez da versão final do Rio 3.5 preparada pela equipe técnica”. “Por isso, o arquivo disponibilizado temporariamente ainda apresentava características das bases abertas utilizadas como ponto de partida para o desenvolvimento da ferramenta.”

A IplanRio admitiu, em nota enviada ao Olhar Digital, que “não foi possível recuperar o modelo final” – Imagem: DC Studio/Shutterstock

Após a repercussão na imprensa e na comunidade técnica sobre a falta de transparência e de relatórios detalhados, a página do projeto foi atualizada – agora, constam créditos à Nex-AGI. A empresa pediu desculpas pela “confusão”.

A prefeitura agora trabalha no upload da versão definitiva do modelo. A narrativa oficial da IplanRio é de que o modelo definitivo não será apenas uma fusão direta dos dois sistemas chineses, mas sim uma “solução própria, ajustada às necessidades da administração municipal”. Além disso, a empresa defendeu que a estratégia de fundir códigos abertos é legítima, visa a responsabilidade fiscal e reduz custos operacionais para a máquina pública.

No entanto, a IplanRio admitiu que “não foi possível recuperar o modelo final”. A nota complementa que a ferramenta só será publicada “assim que forem concluídos os treinamentos e todas as validações externas”. Isso indica que o trabalho de customização defendido pela administração municipal pode ter que ser refeito do zero. Ou, ainda, que o suposto modelo definitivo sequer estava pronto.

“Apesar dos tropeços na documentação do modelo, o mérito indiscutível da iniciativa é a visão pragmática de aplicar a inteligência artificial para otimizar a máquina pública e modernizar o atendimento ao cidadão”, observou Corrêa.

Ainda segundo o especialista, “esse episódio acaba sendo um reflexo claro do atual estágio do Brasil na corrida global da IA”. “A dura realidade é que ainda não somos um player competitivo na criação de modelos fundacionais do zero.”

Em outras palavras: a IA é, sim, uma coisa distante, estrangeira, de laboratório bilionário. Pelo menos, para o Brasil.

Íntegra da nota da IplanRio

A IplanRio esclarece que o Rio 3.5 foi desenvolvido e construído a partir de tecnologias de código aberto já existentes, prática adotada mundialmente no desenvolvimento de inteligência artificial. A equipe técnica da Prefeitura utilizou como base modelos públicos disponibilizados pela Alibaba, por meio do Qwen 3.5, e pela Nex-AGI, por meio do Nex-N2 Pro. Essas tecnologias possuem licenças abertas que permitem e incentivam sua adaptação e aprimoramento por terceiros.

A partir dessas bases, a Prefeitura desenvolveu uma solução própria, ajustada às necessidades da administração municipal. Essa estratégia foi escolhida por combinar inovação e responsabilidade fiscal, permitindo entregar uma ferramenta robusta, com menor custo de processamento e sem a dependência de softwares proprietários e licenças caras.

No entanto, durante a publicação do projeto na plataforma Hugging Face, uma falha operacional levou ao envio de uma versão preliminar de testes, em vez da versão final do Rio 3.5 preparada pela equipe técnica. Por isso, o arquivo disponibilizado temporariamente ainda apresentava características das bases abertas utilizadas como ponto de partida para o desenvolvimento da ferramenta.

Assim que a inconsistência foi identificada pela comunidade de pesquisadores, a IplanRio atualizou a documentação do projeto e revisou seus procedimentos internos. Não foi possível recuperar o modelo final, que será publicado assim que forem concluídos os treinamentos e todas as validações externas.

A IplanRio reforça que o Rio 3.5 é uma solução própria da Prefeitura do Rio, desenvolvida para atender às necessidades da administração municipal. A iniciativa garante mais autonomia tecnológica, reduz gastos com licenças de softwares proprietários e permitirá tornar os serviços públicos mais ágeis e eficientes para o cidadão carioca.

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RJ terá R$ 2,8 bi em data centers de IA no Parque Olímpico

A empresa estadunidense Elea vai investir US$ 550 milhões (R$ 2,8 bilhões) na primeira etapa do Rio AI City, um campus de data centers a ser instalado no Parque Olímpico do Rio de Janeiro (RJ). O anúncio foi feito nesta terça-feira (9) pelo prefeito Eduardo Cavaliere durante coletiva de imprensa no Web Summit Rio, o maior evento de tecnologia da América do Sul.

O projeto prevê capacidade para alcançar até 3,2 gigawatts de geração até 2032. Cavaliere apontou a combinação de ampla oferta de água, conectividade por cabos submarinos e capacidade de formar e atrair talentos locais como pilares do empreendimento.

Educação como parte da estratégia para formação de profissionais para data centers

O prefeito reforçou o investimento da prefeitura em educação voltada para STEM — sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Segundo ele, 312 escolas do município já contam com programas de robótica, programação e lógica desde os primeiros anos. “É preciso aprender matemática, mas também português, para executar bem os prompts”, disse.

Cavaliere também destacou crescimento de 12% nos anos iniciais do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), conforme o relatório de 2024.

Leia mais:

Instalações serão criadas no Parque Olímpico – Imagem: Diego Thomazini/iStock

Web Summit Rio cresce 20% ao ano

A coletiva contou com a presença de Paddy Cosgrove, fundador do Web Summit, que organiza cinco edições ao redor do mundo — em Lisboa (Portugal), Rio de Janeiro (RJ), Doha (Catar) e Vancouver (Canadá). No Brasil, o crescimento é de cerca de 20% ao ano desde a primeira edição, há quatro anos.

Para Cosgrove, o Rio percorre o mesmo caminho de Lisboa: “cidades que têm qualidade de vida, retêm e atraem talentos.” Ele afirmou ainda que o Rio é uma porta de entrada para a América Latina e registra interesse crescente de empresas chinesas. Nesta edição, cerca de 40 mil participantes de mais de 100 países devem circular pelo evento, cujo público principal é composto por investidores e empreendedores de startups.

  • No último painel do dia, Bruno Lewicki, head de políticas públicas da OpenAI, e o advogado especializado em tecnologia Ronaldo Lemos subiram ao palco principal;
  • Lewicki destacou a parceria da OpenAI com o TSE no desenvolvimento do Synth ID, protocolo para identificação de imagens geradas por IA. “Com a presença de novas tecnologias, teremos uma eleição de aprendizado mútuo”, afirmou;
  • Os dois criticaram a tramitação do PL 2338/2023, o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil;
  • Lemos foi direto: “Copiamos a lei europeia de 2019, que já foi toda modificada. Somos o país que criou o Marco Civil da Internet. Não precisamos copiar ninguém“;
  • Ao encerrar sua participação, o advogado defendeu a adoção de modelos open source e provocou os presentes. “Precisamos de regulamentação no Brasil para não depender da OpenAI. O Brasil tem desenvolvedores incríveis.”

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