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Como a IA muda a rotina de advogados e o futuro do Direito

A inteligência artificial (IA) avança sobre diversas áreas. E o Direito é uma delas. Recentemente, advogados que atuam no Brasil passaram a poder usar a nova geração do CoCounsel Legal.

O Brasil foi o primeiro país da América Latina a receber a versão repaginada do assistente de IA desenvolvido pela Casetext (hoje parte da Thomson Reuters) para advogados e demais profissionais do Direito.

“A nova experiência é agêntica”, diz Rodrigo Hermida, vice-presidente de Legal Professionals para América Latina da Thomson Reuters, em entrevista ao Olhar Digital.

Hermida diz que, na nova versão da plataforma, “o advogado descreve o caso em linguagem natural e o CoCounsel Legal planeja o trabalho, pesquisa fontes jurídicas de autoridade e redige com citações, apoiado no conteúdo jurídico do Westlaw Brasil, que incorpora 114 anos da Revista dos Tribunais”.

Em outras palavras: “A nova geração do CoCounsel Legal reúne, num mesmo ambiente, pesquisa, análise e redação, com acesso ao conteúdo jurídico de autoridade do Westlaw Brasil e aos documentos e precedentes do próprio escritório, que permanecem sob seu controle, protegidos e sem serem utilizados para treinar os modelos de IA.”

“Sempre com o profissional no controle da estratégia e das decisões finais”, frisa o porta-voz.

“A nova experiência é agêntica”, diz porta-voz da Thomson Reuters sobre a atualização do CoCounsel – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Entre as novidades da atualização, está o Multinational Profile. O recurso “permite ao advogado pesquisar requisitos legais de mais de 100 países e territórios, comparar diferenças regulatórias e identificar questões que podem exigir assessoria local”, diz Hermida.

O porta-voz acrescenta que o Multinational Profile “amplia a capacidade de pesquisa sobre legislações de diferentes países, algo especialmente importante para empresas com operações internacionais”.

O Olhar Digital pediu a Hermida um exemplo prático de como a nova versão do CoCounsel Legal poderia agilizar a rotina de um advogado que trabalha no Brasil e precisa lidar com demandas envolvendo questões legais brasileiras e de outros países.

O porta-voz respondeu o seguinte:

“O Brasil recebe muitas empresas estrangeiras que instalam subsidiárias no país e contratos que envolvem mais de uma jurisdição fazem parte da rotina de escritórios e departamentos jurídicos.

Imagine um advogado que precisa preparar um acordo de confidencialidade entre uma empresa brasileira e parceiros de outros países. 

Ele descreve o caso em linguagem natural e o CoCounsel Legal monta um plano e executa cada etapa: pesquisa os requisitos de cada jurisdição com o Multinational Profile, compara as diferenças e apoia a redação do documento. 

O advogado não recebe só uma resposta. Ele acompanha o raciocínio e pode verificar cada etapa ao longo do processo. 

Assim, ganha tempo para avaliar os riscos e orientar o cliente, mantendo o controle da estratégia e das decisões finais.”

Impactos na vida de advogados e dos seus clientes

O vice-presidente acrescenta que, para quem contrata serviços jurídicos, “o impacto está na possibilidade de receber análises mais completas e uma orientação de maior valor, já que o advogado pode dedicar menos tempo às tarefas operacionais e mais à estratégia e às necessidades do cliente”.

“É uma mudança importante: a IA deixa de apenas apoiar a pesquisa e passa a planejar e executar etapas do trabalho jurídico”, afirma o porta-voz.

Para Hermida, “o futuro do trabalho jurídico envolve diferentes tecnologias e plataformas”. “O fundamental é que os profissionais possam confiar nos resultados e trabalhar com a segurança que sua responsabilidade exige.”

‘Escritório de advocacia tende a ser menor, mais sênior e mais tecnológico’, diz advogado

“A tecnologia está tirando do advogado o trabalho que nunca deveria ter sido dele”, começa Luis Fernando Prado, Diretor Executivo do Instituto Brasileiro de Inovação e Regulação Aplicada (Ibira) e sócio do Prado Vidigal Advogados, em entrevista ao Olhar Digital.

Ilustração de martelo da Justiça rodeado de linhas de tecnologia
“A tecnologia faz o volume e as pessoas fazem o que exige presença e empatia junto ao cliente”, diz advogado – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Este trabalho engloba tarefas como, nas palavras do advogado, pesquisa repetitiva, revisão mecânica de documentos e conferências de prazos.

“O que sobra, e passa a valer mais, é julgamento, estratégia e leitura de contexto”, diz Prado.

Ao falar especificamente sobre o uso de IA no Direito, o advogado deu o seguinte exemplo:

“Por muito tempo, compliance foi um privilégio de grandes empresas. Uma startup de dez pessoas também precisa entender LGPD, regras de consumo e regulação setorial, mas raramente tinha estrutura para isso. A IA reduz muito o custo da primeira camada de análise jurídica e põe esse conhecimento ao alcance de quem antes ficava de fora.”

Na prática, o avanço desta tecnologia nesta área significa que “o escritório de advocacia tende a ser menor, mais sênior e mais tecnológico”, diz Prado.

“Essa é uma realidade que já começamos a observar e que vai ficar ainda mais evidente em 2027”, acrescenta o advogado. “A tecnologia faz o volume e as pessoas fazem o que exige presença e empatia junto ao cliente.”

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IA vence professores em respostas para estudantes de Direito

A inteligência artificial pode estar prestes a ganhar um novo papel nas universidades: o de tutora jurídica. Um estudo da Universidade Stanford revelou que respostas geradas por IA foram consideradas mais úteis do que as dadas por professores em boa parte dos testes. Os avaliadores preferiram as respostas produzidas por IA em 75% das comparações. Segundo a Reuters, o resultado surpreendeu pesquisadores e reacendeu o debate sobre o uso da tecnologia no ensino do Direito.

A pesquisa envolveu docentes de 14 faculdades de Direito dos Estados Unidos, que elaboraram uma lista de 40 perguntas representativas de contratos do primeiro ano — do tipo que alunos costumam fazer durante o horário de atendimento. Os professores escreveram respostas para essas perguntas, e os pesquisadores submeteram as mesmas questões a duas plataformas de IA: o Gemini 2.5 Pro, do Google, e o NotebookLM.

Ferramentas de inteligência artificial tiveram desempenho equivalente ao do professor mais bem avaliado no estudo conduzido por pesquisadores de Stanford. Imagem: Shutterstock/Beautrium

IA virou “assistente de estudos” no Direito

Os mesmos professores que elaboraram as perguntas atuaram como juízes, avaliando as respostas de forma cega — sem saber se cada resposta havia sido escrita por um humano ou gerada por IA. Ao comparar as respostas lado a lado, os avaliadores escolheram as produzidas pela IA como as mais benéficas para os alunos em 75% dos casos. As plataformas de IA tiveram desempenho equivalente ao do professor mais bem avaliado no estudo.

Menos de 4% das respostas geradas por IA foram classificadas como “prejudiciais” ao aprendizado pelos juízes. Entre as respostas escritas por professores, esse índice chegou a 12%.

Ficamos francamente surpresos com a magnitude dos resultados. Essas não eram apenas perguntas simples com respostas óbvias.

Julian Nyarko, professor de Direito de Stanford, em artigo publicado no site da universidade.

A pesquisa aparece em um momento em que universidades e escritórios jurídicos tentam entender até onde a inteligência artificial pode ser utilizada. Nos últimos anos, ferramentas de IA já conseguiram:

  • passar no exame da Ordem nos EUA;
  • obter notas máximas em avaliações acadêmicas;
  • corrigir provas de Direito;
  • responder dúvidas jurídicas complexas;
  • atuar como apoio em estudos e pesquisas.
Estudante com chatgpt ligado no celular
Sistemas de IA podem funcionar como apoio sob demanda para estudantes de Direito em dúvidas acadêmicas e orientação especializada. Imagem: BongkarnGraphic / Shutterstock

O que o estudo conclui sobre tutoria com IA

Segundo o estudo, em vez de depender de colegas ou de e-mails esporádicos a instrutores, estudantes de Direito poderiam usar IA para obter respostas sob demanda com resultados confiáveis. “Descobrimos que, quando avaliados por educadores jurídicos, os tutores de IA podem oferecer suporte sob demanda de alta qualidade que complementa o ensino em sala de aula e pode ampliar o acesso à orientação especializada”, afirmou o coautor do estudo e pesquisador de Stanford, Alejandro Salinas.

A pesquisa é publicada em um momento em que faculdades de Direito e a profissão jurídica discutem como incorporar a IA ao ensino e à prática. Estudos anteriores já haviam indicado que a IA consegue ser aprovada no exame de ordem, obter notas A+ em faculdades de Direito e avaliar provas acadêmicas nos Estados Unidos.

Ícones de um martelo de juiz, lâmpada, mãos se cumprimentando, cérebro humano, chip de IA e outros rondando os dizeres "AI Ethics", que está sendo tocado por um dedo humano
Estudo reacende debate sobre o papel da inteligência artificial nas universidades e o impacto da tecnologia na formação de futuros profissionais do Direito. Imagem: mayam_studio/Shutterstock

Abordagens divergem entre as faculdades

Apesar dos avanços, nem todas as instituições enxergam a IA com tranquilidade. Algumas faculdades passaram a exigir aulas sobre inteligência artificial já no primeiro ano do curso. Outras preferem limitar o uso das ferramentas.

Leia mais:

A Faculdade de Direito de Berkeley, da Universidade da Califórnia, por exemplo, adotou recentemente uma política que restringe de forma significativa o uso de IA pelos alunos em trabalhos acadêmicos.

De qualquer forma, o estudo reforça que a inteligência artificial deve ganhar cada vez mais espaço dentro das universidades, especialmente como ferramenta de apoio.

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