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Estudo do MIT revela o que muda no cérebro com o ChatGPT

A inteligência artificial pode poupar esforço mental, mas o que acontece quando deixamos que ela pense por nós com frequência? Um estudo do MIT encontrou diferenças na atividade cerebral, na memória e no desempenho de jovens que usaram o ChatGPT para escrever.

A descoberta ganhou repercussão, mas não permite concluir que a IA provoque inevitavelmente uma “dívida cognitiva”. Segundo pesquisadores, a resposta pode estar menos na tecnologia em si e mais na maneira como ela é usada.

Jovens que usaram o ChatGPT no experimento apresentaram menor atividade neuronal e pior memória sobre o que haviam escrito. – Imagem: Primakov/Shutterstock

Quando o cérebro terceiriza tarefas

Delegar parte de uma tarefa mental para uma ferramenta externa não começou com a inteligência artificial. Calculadoras e mecanismos de busca já fazem isso há anos. A IA generativa apenas ampliou bastante o que pode ser transferido para uma máquina.

Em artigo no The Conversation, Madalin Marian Deliu Dumitru, professor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Católica de Ávila e da Universidade de Salamanca, e Patricia Alzola Bordón, pesquisadora em formação pré-doutoral em Neuropsicologia na Universidade de Salamanca, relacionam esse comportamento ao conceito de delegação cognitiva.

“Usamos tanto essas ferramentas que elas quase se tornaram uma extensão de nós”, escrevem os pesquisadores.

O que aconteceu no experimento

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) acompanharam 54 jovens em três sessões. Eles foram divididos em três grupos: um usou o ChatGPT, outro recorreu ao Google e o terceiro realizou as tarefas sem ferramentas externas.

O grupo que utilizou o ChatGPT apresentou menor desempenho em atividade neuronal, aspectos linguísticos e qualidade dos textos. Também teve pior memória sobre aquilo que havia escrito e relatou uma conexão menor com as próprias ideias.

O experimento levantou a hipótese de que recorrer repetidamente à IA possa reduzir o esforço envolvido no pensamento independente.

Página de busca do Google visualizada através de uma lupa
Estudos citados pelos pesquisadores indicam que mecanismos de busca podem favorecer o aprendizado quando usados para ampliar conhecimentos. – Imagem: Mijansk786/Shutterstock

A pergunta que ficou de fora

Há uma questão importante que o estudo não investigou: por que uma pessoa decide entregar determinada tarefa à IA?

Ela pode pedir ao ChatGPT que escreva uma redação porque não se sente capaz de fazê-lo. Mas também pode recorrer à ferramenta para confrontar ideias, encontrar outros caminhos e melhorar um texto que já começou.

“Para compreender as consequências cerebrais da delegação cognitiva será essencial perguntar primeiro por que delegamos”, afirmam Dumitru e Bordón.

Esse motivo pode mudar bastante a interpretação do uso da tecnologia. Pedir uma resposta pronta não é necessariamente a mesma coisa que usar a IA como parceira para explorar um assunto.

O que fazemos com o tempo economizado?

Existe ainda outro ponto: o que acontece com o tempo e a energia que deixam de ser gastos em uma tarefa?

Os autores citam estudos sobre o Google segundo os quais a ferramenta pode ajudar no aprendizado quando utilizada para localizar informações e ampliar conhecimentos. A mesma lógica pode valer para a IA, caso ela seja usada para discutir conceitos, comparar ideias ou apoiar o treinamento cognitivo.

Leia mais:

O próprio experimento do MIT trouxe uma pista. Na quarta sessão, quem havia usado o ChatGPT passou a trabalhar sem ele. Os grupos que tinham utilizado Google ou apenas o próprio conhecimento receberam acesso à IA. Os primeiros continuaram com menor atividade cerebral e pior desempenho, enquanto os demais apresentaram melhora nos dois aspectos.

A chamada “dívida cognitiva” ainda é uma possibilidade, não uma conclusão definitiva. A pesquisa sobre os efeitos prolongados da IA permanece limitada. Até que existam evidências mais sólidas, a forma como usamos essas ferramentas parece ser tão importante quanto a própria tecnologia.

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IA da Meta pode “ler pensamentos”? Não é bem assim

Pesquisadores da divisão de Inteligência Artificial (IA) da Meta anunciaram um avanço significativo no campo das interfaces cérebro-computador (BCI). O novo sistema, batizado de Brain2QWERTY v2, é capaz de traduzir a atividade cerebral diretamente em frases de texto em tempo real, eliminando totalmente a necessidade de implantes cirúrgicos. 

A tecnologia utiliza sensores magnéticos externos para captar os sinais neurais, alcançando níveis de precisão que até então eram exclusivos de procedimentos invasivos.

O objetivo central do projeto é restaurar a capacidade de comunicação de milhões de pessoas impactadas por lesões cerebrais, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) ou condições neurodegenerativas que afetam a fala. 

Embora cirurgias com eletrodos intracranianos já tenham demonstrado eficácia em neuropróteses, a complexidade e os riscos biológicos desses procedimentos limitam sua adoção em larga escala. A nova abordagem não invasiva surge como uma alternativa segura e escalável para fechar essa lacuna.

Nova IA da Meta detecta intenção motora

Apesar do fascínio que a tecnologia desperta, existe uma distinção técnica – e filosófica –  sobre o que o sistema realmente faz.  Em entrevista ao programa Olhar Digital News, na coluna Olhar do Amanhã, o neurocientista, futurista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Álvaro Machado Dias, esclareceu à apresentadora Marisa Silva que a máquina não lê pensamentos, mas sim a intenção motora de executar uma ação.

“Eles não capturam o pensamento, eles só capturam essa intenção motora. O que acontece é o seguinte: quando a gente vai digitar alguma coisa, existe uma ‘cápsula de pensamento’, um snippet, um trechinho, que serve para o planejamento motor”, explicou Machado Dias. “Existe uma área chamada suplementar motora no córtex pré-frontal que serve ao planejamento e se mantém sincrônica durante o processo de digitação. A digitação em si é fluida, mas o planejamento está lá.”

Álvaro Machado Dias em participação no programa Olhar Digital News, com Marisa Silva, falando sobre a nova IA da Meta. – Crédito: Olhar Digital

Para capturar essa dinâmica, a Meta utilizou a magnetoencefalografia (MEG), um equipamento de grande porte que combina a precisão temporal da eletroencefalografia (EEG) com a resolução espacial da ressonância magnética funcional. Na prática, a máquina consegue mapear onde e quando a atividade elétrica ocorre no cérebro enquanto a pessoa planeja digitar.

Diferente de métodos anteriores, que dependiam da identificação manual de padrões neurais, o Brain2QWERTY v2 emprega aprendizado profundo de ponta a ponta (end-to-end deep learning). A arquitetura processa sinais brutos e ajusta grandes modelos de linguagem (LLMs) com base nos dados neurais. 

Como aponta o neurocientista, o segredo do sucesso do sistema está no trabalho conjunto entre o sensor e o modelo de linguagem. “A máquina identifica um pouquinho o que está sendo lido e um LLM tenta traduzir que raios é aquilo no contexto da frase. A combinação das duas coisas gera uma leitura que não é do pensamento em si. Ninguém está extraindo o pensamento da mente das pessoas, mas sim desse comportamento que está na sua essência, direcionando o que vai ser escrito, portanto, a intenção.”

Saltos de precisão e a escala de dados

Para treinar o modelo, a equipe da Meta coletou dados de nove voluntários ao longo de 10 horas de gravação por indivíduo, totalizando cerca de 22 mil frases registradas enquanto os participantes digitavam sob o equipamento de MEG.

Os resultados impressionaram a comunidade científica: o Brain2QWERTY v2 atingiu uma taxa média de precisão de palavras de 61%, superando drasticamente o marco de apenas 8% registrado por outras metodologias não invasivas. No participante com o melhor desempenho, a precisão alcançou 78%, sendo que mais da metade de suas frases foi traduzida com no máximo um erro pontual.

Além disso, os pesquisadores observaram que a precisão melhora de forma log-linear à medida que o volume de dados aumenta. Isso sugere que a diferença de desempenho que ainda separa os métodos sem cirurgia dos implantes cirúrgicos invasivos pode ser reduzida gradualmente apenas com o aumento da escala de treinamento do modelo.

Privacidade cognitiva e o debate sobre os neurodireitos

O especialista enfatizou que a leitura de pensamentos representaria um risco de invasão e manipulação “à revelia”, enquanto a intenção preserva a autonomia e a consciência do indivíduo.

Para ele, o avanço desse tipo de tecnologia abre portas para debates urgentes no campo dos neurodireitos e da privacidade cognitiva. Se um dispositivo é capaz de prever com fluidez o que você pretende escrever, o uso comercial dessa informação por grandes corporações de tecnologia acende um alerta.

“A coisa começa a funcionar. Daqui a pouco, a máquina está, através dessa sua intenção, identificando o que você vai digitar e, portanto, o que você está almejando ou pensando indiretamente, e te oferecendo propaganda”, alertou o professor da Unifesp. “Está aí o risco. É um risco do bom e velho uso da manipulação através do contexto, para te entubar alguma coisa – seja um produto ou seja uma mensagem ideológica, o que pode se tornar muito mais problemático.”

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Este gráfico mostra que, antes de você digitar (ponto 0), o cérebro antecipa o que vai escrever: primeiro ele processa o sentido geral da frase, depois escolhe a palavra, pensa na sílaba e, só no final, na letra exata. – Crédito: AI Meta / Brain2qwerty / Divulgação

A discussão sobre neurodireitos também se estende para a gestão de dados biológicos e genéticos que possam prever doenças neurodegenerativas ou transtornos mentais, correndo o risco de serem utilizados de forma discriminatória por planos de saúde e corporações em países onde não há blindagem jurídica estrita.

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O mistério que permanece indecodificável pela IA da Meta

Apesar dos rápidos avanços da IA aplicada à neurociência, cientistas concordam que a mente humana mantém seu núcleo preservado. A conversão de impulsos neurais em experiência consciente e abstrata continua sendo um terreno intocado.

“Essas leituras de pensamento hoje são sempre proxies [aproximações]. Elas não estão efetivamente no domínio do simbólico. Quando você imagina alguma coisa, você pensa em palavras, tudo isso envolve algo que para nós segue misterioso: como essa atividade neurológica, que lembra um pouco o código Morse, se converte na experiência mental que a gente tem. Isso ninguém sabe, e talvez seja o maior mistério que a gente tem para desvendar em todos os tempos”, concluiu Machado Dias.

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A IA está “fritando” nossos cérebros?

Cada vez mais presente na rotina humana, a inteligência artificial e seu uso excessivo podem estar gerando um novo tipo de cansaço. Um estudo da Boston Consulting Group, citado em reportagem do TechXplore, acompanhou cerca de 1.488 profissionais nos Estados Unidos e identificou uma condição chamada “brain fry” (na tradução livre – fritura cerebral), uma espécie de esgotamento mental associado ao uso intensivo de IA.

Para quem tem pressa:

  • Uso intenso de IA pode gerar “brain fry”, uma nova forma de fadiga mental ligada à sobrecarga cognitiva;
  • Profissionais relatam maior desgaste ao lidar com múltiplas ferramentas e revisar conteúdos gerados por IA;
  • Impacto depende do uso: IA pode aliviar tarefas repetitivas, mas aumenta o cansaço quando amplia a carga de trabalho.

O que é o “brain fry”?

Imagem: nobeastsofierce / Shutterstock

O estudo definiu esse esgotamento de “fritura cerebral” como resultado da sobrecarga na tentativa de acompanhar e “dominar” a inteligência artificial. Entre os relatos, principalmente de programadores e desenvolvedores de software, estão muitas linhas de código para analisar, diversos assistentes de IA para gerenciar e longos prompts para redigir.

“A cruel ironia é que o código gerado por IA exige uma revisão mais cuidadosa do que o código escrito por humanos“, escreveu o engenheiro de software Siddhant Khare em seu blog.

Essa demanda, que implica longas horas de desgaste, tem se tornado um problema para profissionais de tecnologia. Segundo o TechXplore, Ben Wigler, cofundador da startup LoveMind AI, afirmou que as equipes têm apresentado jornadas de trabalho cada vez maiores, ampliando o cansaço.

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Ainda em seu blog, Siddhant Khare contou que já passou 15 horas consecutivas para adequar 25 mil linhas de código e relatou um cansaço extremo, além de irritabilidade que afetou seu descanso e condição mental. “Percebi que meu nível de dopamina estava baixo porque eu estava irritado e não queria responder a perguntas básicas sobre o meu dia”, comentou.

Sindrome De Burnout 1024x576
Imagem: Shutterstock/PEERAWICH PHAISITSAWAN

Por outro lado, o estudo da Boston Consulting Group identificou que o número de burnout diminuiu entre trabalhadores que passaram a utilizar a IA em tarefas repetitivas. A análise, portanto, demonstra um paradoxo entre quem utiliza a tecnologia como apoio e quem precisa lidar diretamente com sua complexidade.

Na conclusão, Wigler afirmou que sua expectativa sobre o futuro da programação de IA não é positiva: além de não ser saudável, o cenário também pode comprometer a qualidade do trabalho a longo prazo.

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