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IA pode aumentar risco de corrida por armas biológicas, dizem especialistas

A possibilidade de usar inteligência artificial (IA) para desenvolver armas biológicas vem preocupando especialistas em biossegurança. O jornal americano The New York Times aponta que os chatbots atuais não devem facilitar, por si só, a criação de um patógeno letal por indivíduos isolados, mas modelos especializados em biologia podem mudar esse cenário.

O alerta ganhou força após uma série de acontecimentos recentes. Em abril, especialistas em biossegurança afirmaram que era preocupantemente fácil obter de chatbots orientações sobre como tornar patógenos mais perigosos. Em junho, cientistas e executivos de empresas de IA defenderam novos controles sobre a fabricação de DNA. Já em agosto, pesquisadores relataram o uso de IA para criar vírus que não existem na natureza.

Chatbots atuais ainda têm limitações

Drew Endy, biólogo sintético da Universidade Stanford e coautor de um relatório sobre biossegurança, afirmou ao NYT que modelos atuais, como o Claude, da Anthropic, ainda não representam uma mudança significativa no risco de armas biológicas.

Segundo ele, o impacto líquido desses sistemas sobre o risco de biossegurança é atualmente modesto. O cenário, porém, pode mudar conforme pesquisadores desenvolvam modelos especificamente voltados para pesquisas biológicas.

Esses sistemas já conseguem gerar genomas de vírus viáveis que não foram encontrados na natureza. A preocupação é que, no futuro, modelos mais avançados possam usar essas capacidades para contribuir com o desenvolvimento de novas armas biológicas.

Uma arma biológica pode envolver vírus, bactérias ou fungos desenvolvidos para serem disseminados contra militares ou civis. Também pode envolver toxinas produzidas por organismos, como a botulínica, produzida por bactérias, ou a ricina, derivada da mamona.

Modelos treinados com DNA elevam a preocupação

Os grandes modelos de linguagem desenvolvidos por empresas como a Anthropic são treinados com grandes volumes de textos, incluindo registros de pesquisas científicas. Eles conseguem recuperar informações rapidamente e estabelecer conexões entre descobertas anteriores.

Thomas Inglesby, diretor do Johns Hopkins Center for Health Security, destacou que a IA pode oferecer a usuários informações mais úteis do que simples buscas na internet, além de permitir interações repetidas para solucionar problemas e obter explicações mais detalhadas.

Uma categoria diferente de sistemas é treinada diretamente com dados biológicos, como sequências de DNA e informações sobre células. Um exemplo citado pelo artigo é o Evo2, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stanford e do Arc Institute e treinado com sequências de DNA de milhões de espécies.

Os pesquisadores posteriormente treinaram o modelo com genomas de microvírus que infectam a bactéria Escherichia coli e não são considerados perigosos para humanos. O Evo2 produziu centenas de milhares de novos genomas, dos quais 16 deram origem a vírus reais.

Para reduzir riscos, os criadores do Evo2 não o treinaram com vírus que infectam humanos ou espécies relacionadas. Ainda assim, especialistas consideram que modelos semelhantes poderiam se tornar mais úteis para o desenvolvimento de armas biológicas caso fossem treinados com dados adequados.

Preocupação envolve governos

O caso mais recente envolvendo a Anthropic trouxe uma preocupação adicional. Segundo especialistas citados pelo artigo, consultas sobre influenza e outros patógenos que motivaram medidas da empresa aparentemente partiram de laboratórios estatais, e não apenas de indivíduos tentando desenvolver armas biológicas.

Para Inglesby, o possível uso indevido por um estudante ou pesquisador individual representa apenas uma pequena parte do problema. Endy, por sua vez, teme que governos utilizando IA em pesquisas relacionadas à guerra biológica possam contribuir para uma nova corrida armamentista semelhante à ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Os especialistas defendem que acordos internacionais podem ser novamente utilizados para reduzir os riscos. O texto também menciona regras criadas pelo governo de Joe Biden para que empresas de síntese de DNA verificassem pedidos em busca de sequências suspeitas. A administração de Donald Trump suspendeu essas regras no ano passado e, segundo o artigo, ainda não havia estabelecido novos padrões.

Endy defende uma abordagem que vá além de impedir o uso de uma arma biológica depois que ela for criada. Para ele, é necessário aumentar a segurança da biologia, inclusive com mecanismos capazes de identificar epidemias independentemente de terem sido provocadas por humanos ou transmitidas de animais.

Uma das possibilidades citadas pelo pesquisador é equipar locais públicos, como hospitais e escolas, com sensores capazes de detectar ameaças presentes no ar.

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Anthropic identifica uso do Claude em armas e ciberataques e treinamento de IAs chinesas

A Anthropic interrompeu tentativas de usar sua inteligência artificial, o Claude, para criar armas biológicas, coordenar ataques cibernéticos contra a Ucrânia e extrair capacidades dos modelos por empresas chinesas.

As descobertas constam no relatório de inteligência de ameaças da desenvolvedora, publicado na última quinta-feira. O levantamento detalha operações irregulares identificadas e combatidas nos últimos oito meses.

Um grupo usou IA para identificar bloqueios de segurança e reescrever códigos maliciosos. – Imagem: Ole.CNX/Shutterstock

Apoio na criação de armas biológicas e munições

Como o Olhar Digital divulgou há alguns dias, cientistas tentaram usar o assistente virtual em atividades que poderiam contribuir para o desenvolvimento de armas biológicas. Um dos casos envolveu um pesquisador de uma região não atendida pela Anthropic, que usou servidores virtuais para acessar o Claude e planejar experimentos sobre a adaptação da gripe aviária a mamíferos.

Operadores da China, Rússia e Iêmen também usaram o Claude no desenvolvimento de softwares para mísseis, drones e bombas.

Há um ano, se você quisesse otimizar um drone ou o software de um míssil, os modelos simplesmente não seriam tão bons nessa tarefa quanto são agora.

Jacob Klein, chefe de inteligência de ameaças da Anthropic, à Reuters.

Hackers russos miram governo da Ucrânia

Na Ucrânia, um grupo de hackers teria recorrido à ferramenta para realizar operações contra alvos governamentais, militares e diplomáticos. A inteligência artificial foi usada em quase todas as etapas da campanha, incluindo phishing, invasão de redes Wi-Fi de hotéis e tomada de contas do WhatsApp.

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O grupo também criou um sistema que identificava quando seu programa malicioso era bloqueado por mecanismos de segurança e reescrevia o código para tentar escapar da detecção.

O comportamento observado pela Anthropic era consistente com as táticas do Midnight Blizzard, grupo que o governo dos Estados Unidos já associou ao serviço de inteligência estrangeira SVR, da Rússia. A empresa também afirmou ter identificado e interrompido atividades ligadas ao coletivo ShinyHunters.

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Laboratórios chineses, como o Alibaba, utilizaram o roteamento de conversas para absorver as capacidades do modelo Claude. – Imagem: Algi Febri Sugita/Shutterstock.com

Ataques chineses para extrair capacidades do Claude

Em outra frente, laboratórios na China criaram milhares de contas fraudulentas para extrair capacidades do Claude e usar os resultados no desenvolvimento de modelos próprios:

  • Alibaba: Mais de 151 milhões de interações entre maio e julho de 2026 foram atribuídas à empresa, com o objetivo alegado de extrair capacidades do Claude para aprimorar os modelos Qwen.
  • Moonshot e DeepSeek: Segundo a Anthropic, encaminharam conversas reais de clientes pelo Claude e usaram as respostas como dados de treinamento.
  • Sete laboratórios: A Anthropic afirmou ter interrompido ataques de sete laboratórios chineses, incluindo Alibaba, Moonshot, DeepSeek e Xiaomi.

Os casos aumentam a pressão sobre as empresas que desenvolvem inteligência artificial diante dos riscos associados ao uso indevido da tecnologia. Dois pesquisadores da própria Anthropic afirmaram nesta semana que o avanço rápido da IA pode levar à extinção da humanidade em um futuro não muito distante.

Sobre o relatório, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou não ter conhecimento dos dados. O órgão disse que a tecnologia deve ser desenvolvida para o bem e rejeitou o que classificou como distorção de fatos e ataques contra o país.

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Anthropic identifica tentativas de usar IA em pesquisas biológicas perigosas

A Anthropic diz ter bloqueado cientistas que usavam seus modelos de IA em pesquisas que poderiam contribuir para o desenvolvimento de armas biológicas. A empresa não conseguiu determinar se os trabalhos tinham finalidade legítima ou maliciosa, mas decidiu interrompê-los diante do risco.

Um dos casos envolveu um pesquisador que pediu ajuda para modificar o vírus chikungunya e torná-lo mais nocivo. A Anthropic identificou que a pesquisa seria realizada em um instituto militar, o que aumentou a preocupação com o possível uso dos resultados.

A mesma tecnologia que promete acelerar a criação de vacinas pode ser explorada de forma velada para criar patógenos perigosos. – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock

O jogo duplo da pesquisa biológica

O problema para a Anthropic está em distinguir uma pesquisa legítima de uma possível tentativa de causar danos. Estudos biológicos podem contribuir para vacinas e outros avanços médicos, mas conhecimentos semelhantes também podem ser usados para tornar agentes infecciosos mais perigosos.

Você não está vendo alguém dizer, de uma forma típica de história em quadrinhos: ‘Quero construir uma arma biológica para matar todo mundo’. É uma situação incrivelmente complexa.”

Jacob Klein, responsável pela inteligência de ameaças da Anthropic, ao The New York Times.

Diante dessa incerteza, a empresa decidiu agir com cautela. Os pesquisadores também contornaram controles destinados a impedir o acesso de usuários de regiões bloqueadas e tentaram ocultar a finalidade das pesquisas para escapar das salvaguardas. As contas associadas foram banidas.

Entre os principais pontos identificados pela empresa estão:

  • tentativas de contornar os controles de acesso;
  • ocultação da finalidade das pesquisas;
  • dificuldade para determinar a intenção dos pesquisadores;
  • maior capacidade dos modelos atuais para pesquisas científicas complexas;
  • reforço das restrições para consultas de biologia de uso duplo.

O caso do chikungunya

Em maio, um cientista pediu ao Claude ajuda para elaborar uma solicitação de financiamento para uma pesquisa com o vírus chikungunya, transmitido por mosquitos e capaz de provocar meses de dor intensa e outros sintomas.

O projeto pretendia introduzir mutações no vírus para torná-lo mais nocivo durante infecções repetidas em animais vivos. Esse tipo de estudo, conhecido como ganho de função, pode ter aplicações legítimas, inclusive no desenvolvimento de vacinas. Também pode resultar em versões mais perigosas de vírus.

O fato de o trabalho estar previsto para um instituto de pesquisa militar pesou na avaliação da Anthropic.

“O que não sabemos é se a pesquisa pretendia ser transformada em arma”, disse Klein. “Mas uma instituição militar realizando pesquisa de ganho de função é preocupante.”

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O caso mais grave envolveu tentativas de usar o chatbot Claude para gerar mutações nocivas no vírus chikungunya. – Imagem: martinatobolova/iStock

Quando a capacidade da IA vira risco

Avaliações feitas no ano passado indicaram que os modelos antigos da Anthropic ainda não conseguiam oferecer ajuda significativa em pesquisas biológicas perigosas. Os sistemas atuais, segundo a empresa, são mais capazes de realizar pesquisas científicas complexas, o que levou à adoção de salvaguardas mais rígidas.

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Susan Monarez, microbiologista e especialista em saúde pública, afirmou que os casos fornecem evidências concretas de tentativas de usar IA de forma clandestina para aumentar as chances de desenvolver agentes biológicos capazes de causar danos significativos.

Ela também destacou que as mesmas capacidades podem acelerar descobertas médicas. O desafio é identificar quando uma investigação aparentemente legítima pode esconder uma finalidade prejudicial.

A Anthropic também relatou outros usos indevidos do Claude, envolvendo vigilância, propaganda e desenvolvimento de armas convencionais. Os casos biológicos, porém, estão entre os mais preocupantes pela dificuldade de separar uma pesquisa científica legítima de uma possível preparação para causar danos.

A empresa decidiu bloquear os casos identificados mesmo sem comprovar que os pesquisadores pretendiam criar armas. O episódio mostra como modelos de IA mais capazes também tornam mais difícil avaliar os riscos escondidos por trás de pesquisas que, à primeira vista, podem parecer legítimas.

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