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China está criando robôs que aprendem com o mundo real

Um robô organizando pacotes de salgadinhos em uma prateleira parece uma cena comum de fábrica, mas faz parte de uma estratégia ambiciosa da China. Empresas do país estão colocando humanoides em ambientes reais para coletar informações e criar máquinas capazes de aprender tarefas humanas.

Segundo a Bloomberg, a aposta está na inteligência incorporada, uma tecnologia que combina robótica e inteligência artificial para desenvolver equipamentos mais adaptados ao mundo físico.

A inteligência incorporada une robótica e IA para ensinar máquinas a entender melhor o ambiente ao redor. Imagem: Divulgação/Unitree Robotics

Robôs começam a aprender longe dos laboratórios

Nos arredores de Pequim, um braço robótico humanoide pega um pacote de batatas Lay’s e o coloca em uma prateleira. Em outro local, trabalhadores registram atividades simples, como retirar almofadas de um sofá e dobrar lençóis. As imagens serão usadas para aprimorar os sistemas de IA dos robôs.

A movimentação mostra uma mudança no foco da indústria chinesa. Depois de ganhar atenção com os movimentos de artes marciais do modelo G1, da Unitree Robotics, fabricantes passaram a concentrar esforços na capacidade de aprendizado das máquinas.

Empresas como Alibaba, Xiaomi e startups do setor estão desenvolvendo modelos de inteligência incorporada, que permitem aos robôs aprender a partir de experiências físicas.

A estratégia chinesa também se diferencia pelo treinamento. Enquanto empresas americanas utilizam dados comprados, simulações e trabalhadores em países de baixo custo, como Índia e Vietnã, fabricantes chineses buscam colocar seus próprios robôs em situações reais para gerar aprendizado.

Bandeiras de EUA e China com um punho fechado no meio
A disputa tecnológica entre China e EUA também chegou ao universo dos robôs humanoides. – Imagem: CHIEW/Shutterstock

China vê humanoides como alternativa para falta de trabalhadores

A liderança chinesa na robótica industrial já é expressiva. Segundo dados citados pela Bloomberg, o país instalou cerca de 300 mil robôs em 2024, contra aproximadamente 38 mil nos Estados Unidos.

Com o envelhecimento populacional, Pequim aposta nos humanoides para reduzir os efeitos de uma possível falta de mão de obra. Analistas do Barclays estimam que essas máquinas poderiam compensar até 60% de uma futura escassez de trabalhadores.

Entre as iniciativas em andamento estão:

  • O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China pretende colocar 10 mil robôs humanoides em fábricas até o fim do ano;
  • Investidores já direcionaram pelo menos 100 bilhões de yuans (cerca de R$ 82 bilhões) ao setor em 2025, valor superior ao aplicado nos cinco anos anteriores;
  • Centros de coleta de informações estão sendo criados para treinar máquinas em casas, lojas e linhas de montagem;
  • Empresas chinesas querem usar robôs em situações reais para gerar milhões de horas de aprendizado.
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Robôs que aprendem com experiências físicas podem ser a próxima grande evolução da inteligência artificial. Imagem: Divulgação/Unitree Robotics

Dados viram o principal desafio da corrida tecnológica

Criar robôs mais inteligentes exige uma quantidade enorme de informações. Diferentemente dos modelos de linguagem, essas máquinas precisam aprender movimentos físicos, como segurar objetos frágeis ou evitar que um copo caia.

Jacqueline Du, analista da Goldman Sachs em Hong Kong, afirmou que “as empresas líderes agora estão em torno de 500 mil” horas de dados coletados.

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A China abriu 64 centros de coleta de dados e tem outros 20 em construção. Esses espaços reproduzem ambientes como supermercados, escritórios, fábricas e residências.

“É aqui que os EUA não têm nenhuma vantagem”, afirmou Gan Ruyi, chefe de algoritmos da X Square Robot. Segundo ele, a capacidade chinesa de organizar trabalhadores e colocar máquinas em larga escala pode ser um diferencial.

Nos Estados Unidos, empresas como Tesla, Figure AI, Apptronik e Agility Robotics também avançam com testes. A Figure AI divulgou uma demonstração em que seus robôs separaram quase 60 mil pacotes durante 50 horas de transmissão ao vivo, em velocidade próxima à de um trabalhador humano.

Empresas chinesas criticaram o teste por considerarem o ambiente muito controlado. Para Ai Wen, diretor de projetos da Agibot, “a demonstração da Figure ainda está em um laboratório”, enquanto os robôs chineses seriam treinados diretamente em linhas de produção.

De acordo com a Bloomberg, o futuro dos humanoides dependerá da capacidade de transformar experiências do cotidiano em aprendizado para máquinas cada vez mais autônomas.

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Coreia do Sul usa trabalhadores de hotel para treinar robôs humanoides com IA

Em hotéis de alto padrão em Seul, na Coreia do Sul, funcionários estão sendo filmados enquanto executam tarefas do dia a dia, como dobrar guardanapos e organizar mesas. As imagens não têm fins de treinamento humano, mas servem para ensinar robôs humanoides a reproduzir esses movimentos com precisão.

O projeto é conduzido pela empresa de inteligência artificial RLWRLD e utiliza câmeras presas ao corpo dos trabalhadores para registrar detalhes minuciosos, como posição dos dedos, articulações e força aplicada. As informações alimentam sistemas de “IA física”, voltados para máquinas que precisam agir no ambiente real.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da Coreia do Sul para disputar espaço no setor global de robótica, hoje liderado pelos Estados Unidos e pela China. O país aposta na combinação entre indústria, tecnologia e experiência de trabalhadores para transformar habilidades humanas em dados para robôs.

A busca constante pela “IA física”

A RLWRLD cria robôs para executar funções diversas, como lavar, polir, dobrar e escrever – (Divulgação: RLWRLD)

Durante as sessões de captura de dados, os movimentos dos funcionários são registrados em ambientes simulados de hotel, onde robôs tentam reproduzir tarefas como organizar utensílios, levantar copos e dobrar tecidos. Segundo a RLWRLD, o objetivo é permitir que mãos robóticas consigam atingir um nível de precisão próximo ao humano.

Apesar do avanço tecnológico, os próprios desenvolvedores reconhecem limitações. Hoje, robôs ainda levam várias horas para concluir tarefas que um trabalhador realiza em cerca de 40 minutos, como a limpeza de um quarto de hotel.

A empresa afirma que a hotelaria oferece um cenário ideal para treinamento por exigir movimentos delicados e alta precisão. “Por exemplo, com o Lotte Hotel, se você tivesse um robô dobrando guardanapos, uma pinça não conseguiria alcançar as dobras precisas e nítidas esperadas no serviço”, afirmou Hyemin Cho, executiva de estratégia e negócios da RLWRLD.

Além do setor hoteleiro, a companhia também coleta dados em centros logísticos do grupo CJ Group e em lojas da rede japonesa Lawson, onde trabalhadores têm seus movimentos acompanhados durante a organização de produtos e exposição de mercadorias.

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O objetivo final é desenvolver sistemas capazes de operar diferentes tipos de robôs em fábricas, centros de distribuição e, futuramente, em residências. A destreza das mãos humanas é apontada pelos engenheiros como um dos principais desafios da robótica atual.

O movimento integra a estratégia sul-coreana de expansão na chamada “IA física”, que busca criar máquinas capazes de perceber, decidir e agir no mundo real. O governo do país já anunciou um projeto de US$ 33 milhões para registrar conhecimentos técnicos de trabalhadores experientes e convertê-los em treinamento para robôs industriais.

Grandes conglomerados também aceleram investimentos no setor. A Hyundai planeja usar robôs humanoides desenvolvidos pela Boston Dynamics em suas fábricas a partir de 2028, enquanto a Samsung projeta transformar suas unidades produtivas em “fábricas totalmente orientadas por IA” até 2030.

Mesmo com preocupações sobre impacto no emprego, há trabalhadores que veem a tecnologia como complementar. “Acreditamos que os humanoides podem assumir cerca de 30% a 40% do trabalho”, disse David Park, funcionário da hotelaria. “Mas será difícil substituir a parte que envolve interação humana. Nesse sentido, é mais empolgante do que preocupante.

Esse texto contém informações da EuroNews.

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