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Resumo do OD: enquanto ONU discute IAs, líderes do setor lançam novas tecnologias

Esse é um trecho da newsletter Primeiro Olhar, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital.
Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos EUA, Donald Trump, discursaram no debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU na manhã desta terça-feira (22). E um tópico em comum entre as falas foi a inteligência artificial (IA).

“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial”, disse Lula.

Já Trump anunciou que seu governo vai deixar de usar o termo “inteligência artificial”. Sai a IA. Entra a SI. A “superinteligência”.

‘Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes com grandes riscos e oportunidades’, diz Lula na ONU

Lula disse que a sociedade passa por uma “revolução tecnológica sem precedentes”. E que essa revolução tem “grandes riscos e oportunidades”.

O presidente também disse que “um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital sem regras nem transparência”.

Para Lula, esses “tecno-oligarcas” estão “promovendo uma corrida sem freios éticos, à revelia da ONU e do painel científico sobre inteligência artificial”.

(O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e o presidente da assembleia, Khalilur Rahman, também falaram sobre IA em seus discursos na abertura da Assembleia.)

“Empresas que conhecem o risco de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, disse o mandatário.

Lula falou sobre IA, big techs, bets e ECA Digital em discurso na Assembleia Geral da ONU – Imagem: Reprodução/ONU

Ainda na seara tecnológica, o presidente falou sobre bets e a aprovação do ECA Digital.

“A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro” – afirmou o presidente.

Ainda sobre bets, Lula disse que “a disseminação vertiginosa está endividando e destruindo milhões de lares”. “O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.”

Já sobre a aprovação do ECA Digital, o presidente afirmou que esta é “uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital”.

Lula também defendeu o Pix. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamento pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, disse.

O presidente do Brasil voltou a defender a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos.

Lula disse que “a proximidade geográfica com a maior potência do mundo é inescapável”. Mas frisou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

“O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”, finalizou Lula.

Em seu discurso, o presidente também falou sobre tarifaço e combate ao crime organizado. E defendeu a paz e o multilateralismo.

Trump na ONU: ‘Bem-vindos ao mundo da superinteligência’

Trump anunciou, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que seu governo vai deixar de usar o termo “inteligência artificial” nos documentos. E vai passar a adotar “superinteligência”.

Segundo Trump, a mudança seria mais adequada porque a palavra “artificial” faria parecer que a inteligência produzida pela tecnologia é falsa.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Trump disse que os EUA ‘rejeitam totalmente’ um sistema global para controlar a IA – Imagem: Reprodução/ONU

“É superinteligência. Em outras palavras, bem-vindos ao novo mundo da superinteligência – SI” – declarou Trump.

Trump também afirmou que os Estados Unidos “rejeitam totalmente” qualquer tentativa de construir um sistema global para controlar a inteligência artificial.

Para ele, o desenvolvimento da tecnologia deve continuar, ainda que acompanhado de mecanismos para lidar com eventuais problemas.

“Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial”, disse Trump.

O presidente afirmou que os Estados Unidos vão acompanhar o desenvolvimento da tecnologia por meio do Departamento de Justiça e de outras autoridades de aplicação da lei.

Segundo ele, esses órgãos poderão intervir caso seja necessário, mas a orientação geral será incentivar a chamada “superinteligência”, e não restringi-la.

Ao falar sobre a disputa tecnológica, Trump afirmou que os Estados Unidos atualmente lideram a área de “superinteligência” e continuarão nessa posição.

“Quem vencer a SI, quem vencer a superinteligência, vence”, declarou.

O presidente também disse que os Estados Unidos estão à frente da China “por muito” e que seu governo pretende manter essa vantagem.

Trump também criticou pessoas que alertam para possíveis riscos associados ao avanço da inteligência artificial.

Segundo ele, os mesmos grupos que fizeram previsões sobre os efeitos das mudanças climáticas agora afirmam que a IA poderia causar uma catástrofe.

O presidente citou especificamente previsões de que a IA poderia “matar todos”, além de afirmações de que robôs poderiam atacar seres humanos.

Em seguida, associou essas preocupações a outras controvérsias políticas que classificou como “hoaxes”, termo usado em inglês para se referir a farsas ou informações falsas apresentadas como verdadeiras.

Apesar das críticas, Trump reconheceu que a tecnologia apresenta desafios. “Toda grande nova tecnologia traz desafios, e a superinteligência não é exceção”, afirmou.

Ao final do trecho dedicado ao tema, o presidente declarou que os Estados Unidos lideram o mundo em “superinteligência” e que continuarão fazendo isso de maneira “segura e responsável”.

Falamos sobre ONU e IA no Olhar Digital News. Você pode acompanhar a entrevista com o colunista Roberto Pena Spinelli clicando aqui.

Por falar em IAs…

OpenAI: GPT-6 Sol e Luna

A OpenAI ampliou nesta terça-feira (22) sua nova geração de modelos de inteligência artificial (IA) com o lançamento do GPT-6 Sol e do GPT-6 Luna. As duas versões chegam depois do GPT-6 Astra, apresentado pela empresa no início de setembro, e foram desenvolvidas para oferecer parte dos avanços da geração mais potente com custos menores.

Segundo a OpenAI, Sol e Luna foram treinados com métodos semelhantes aos utilizados no Astra, incorporando avanços em áreas, como trabalho profissional, programação, uso de computadores, factualidade e alinhamento.

A principal diferença está na relação entre capacidade e custo. A empresa afirma que melhorias no armazenamento em cache e na inferência permitiram reduzir em 50% os preços de acesso pela API em comparação com os valores promocionais dos modelos GPT-5.6 correspondentes.

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Anthropic: Claude 5.5 Opus

A Anthropic lançou nesta terça-feira (22) o Claude Opus 5.5, primeiro modelo da família Claude 5.5. A empresa afirma que a nova versão melhora o desempenho em programação, uso de computadores e tarefas de conhecimento, com custo menor e maior velocidade.

O modelo também chega com mecanismos de segurança mais rígidos. Entre eles estão proteções para cibersegurança e biologia, defesas contra ataques de prompt injection e medidas para reduzir tentativas de contornar limites de ambientes de teste.

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E nos outros destaques do dia…

Discord passa a estimar idade dos usuários e cria novas restrições para adolescentes

O Discord começou a colocar em prática nova política de verificação de idade que divide automaticamente os usuários entre grupos de adultos e adolescentes. A mudança chega após a plataforma ter adiado, em fevereiro, a implementação global do sistema diante de preocupações relacionadas à privacidade e à coleta de dados pessoais.

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Sorria! Você está sendo filmado

Empresas de tecnologia apostam em óculos inteligentes e outros dispositivos equipados com inteligência artificial (IA) como possíveis sucessores dos smartphones, mas uma velha preocupação pode dificultar essa transição: a privacidade.

Os dispositivos conseguem observar, ouvir e responder ao ambiente ao redor do usuário, recursos que podem torná-los mais úteis, mas também aumentam o risco de registrar pessoas que nunca autorizaram a captura de suas imagens ou vozes.

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Quando o tempo começou?

Uma pesquisa com mais de 1.600 físicos mostra que algumas das perguntas mais fundamentais sobre o Universo continuam sem uma resposta consensual. O dado que mais chama atenção é que 68% dos participantes não consideram que o Big Bang necessariamente marque o início do tempo.

O levantamento, realizado a partir de uma chamada internacional aberta em 2025, também revelou divergências sobre inflação cósmica, matéria escura, energia escura, buracos negros e a própria natureza da gravidade. Para os autores, o resultado não representa uma crise, mas mostra onde a física ainda tem perguntas em aberto.

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EUA, China e big techs: a batalha pela IA chega à ONU

Da pólvora à inteligência artificial, a tecnologia sempre esteve associada ao poder. Durante séculos, dominar determinadas ferramentas significou ampliar a capacidade de conquistar territórios, proteger fronteiras e impor interesses. A pólvora transformou profundamente a guerra; as grandes navegações moldaram a economia global; a máquina a vapor ajudou a impulsionar a industrialização; e a eletricidade e as telecomunicações redefiniram a velocidade com que Estados e empresas conseguiam produzir, comunicar e exercer influência.

E o mundo que vivemos hoje só é o mundo que vivemos hoje por causa desse histórico. Para o bem e para o mal.

Com a revolução digital, essa relação ganhou uma nova dimensão. Computadores, internet, satélites, semicondutores e grandes plataformas digitais se tornaram ativos estratégicos. Quem ocupa posições centrais nesse ecossistema não precisa controlar um território para exercer influência direta. A influência está traduzida nos fluxos de dados, comunicação e dinheiro que atravessam fronteiras.

Tudo isso afeta diretamente a economia e a vida cotidiana de bilhões de pessoas.

A inteligência artificial leva essa lógica adiante. A corrida atual não envolve apenas quem consegue criar o chatbot mais sofisticado. Envolve chips, energia, centros de dados, capacidade computacional, talentos, modelos e dados. No fundo, coloca empresas e governos diante de uma pergunta antiga com uma tecnologia nova: quem terá acesso às ferramentas mais poderosas e, principalmente, quem terá condições de definir como elas serão usadas?

Dadas as devidas proporções, as mesmas perguntas eram feitas sobre a tecnologia nuclear. Não por coincidência, há quem defenda uma cooperação para as IAs nos moldes do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

22 de setembro de 2026, Nova York

Chegamos à semana da Assembleia Geral da ONU. A cada edição, me parece que há mais motivos para tensão.

O encontro ocorre em meio a grandes guerras no Irã, Gaza, Ucrânia, Sudão, Congo e Mianmar.

Também estamos no auge das mudanças climáticas. Pelo menos, até agora. Sabemos que, neste particular, o amanhã tende a ser sempre pior.

Na economia, há impactos de eventos climáticos extremos e das guerras. Bloqueios a rotas de navegação e cadeia de suprimentos elevam o custo de vida e freiam o crescimento.

E a tecnologia terá um capítulo à parte em 2026 – graças à inteligência artificial. Ou melhor: graças aos interesses por trás das IAs. Em última instância, ainda falamos de humanos e não de máquinas.

Como qualquer tecnologia, as IAs podem fazer o bem e o mal. Essa discussão está superada. O ponto é outro.

IA: batalha de narrativas no palco da ONU

Começo com uma breve linha do tempo.

Entre abril e julho, falhas de segurança fizeram com que modelos de IA escapassem de ambientes de teste e atacassem servidores. No início de setembro, cientistas fizeram novos alertas sobre os riscos da tecnologia, com pesquisadores chegando a pedir demissão. Em 12 de setembro, o debate chegou aos líderes da indústria: parte dos CEOs passou a defender um freio no avanço da IA, enquanto outros discordaram da proposta.

E ainda mais recentemente, na última semana, a discussão ganhou dimensão global, com a ONU cobrando regulamentação e Estados Unidos e China divergindo sobre como lidar com a tecnologia.

Aqui vai uma descrição mais detalhada dos fatos:

  • O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo no dia 12 de setembro admitindo que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”, ou seja, sistemas de IA impulsionando cada vez mais o próprio desenvolvimento. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.
  • Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceXAI, e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei.
  • Numa postagem no X, Altman argumentou que desacelerar não significa parar, mas arcar com os custos de auditorias e testes de segurança. O objetivo seria evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento.
  • Ainda, em entrevista à revista Fortune, Altman disse ainda que a OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores em 2026. O motivo principal para segurar a oferta pública de ações é a preocupação com a segurança e com os riscos das tecnologias de inteligência artificial.
  • Os CEOs Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, se posicionaram contra a desaceleração coordenada. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos de sobra para construir IAs seguras por conta própria. E Huang declarou que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já cobrem a confiabilidade dos produtos.
  • O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China. Para a administração do republicano, manter a liderança tecnológica é uma questão de segurança nacional. 
  • Pequim respondeu ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. 
  • No texto, o veículo de comunicação chinês ainda classificou a postura dos executivos americanos como “hipócrita e míope”, argumentando que excluir a China da inovação global em IA aumentaria os riscos de perda de controle sobre a própria tecnologia.
  • A rejeição à desaceleração não significa, no entanto, que o governo chinês ignore os riscos da IA. Chen Yixin, ministro da Segurança, afirmou que o país precisa acelerar a criação de um sistema para prevenir e controlar problemas de segurança relacionados à tecnologia. Ele também defendeu uma ampla cooperação internacional e classificou a IA como um novo campo de rivalidade estratégica.

O Conselho de Segurança da ONU adicionou uma reunião de alto nível sobre inteligência artificial à agenda de quarta-feira, um sinal da crescente preocupação e da necessidade de abordar o assunto.

Em nosso YouTube, produzimos um especial sobre essa batalha de narrativas. Você pode conferir aqui. Spoiler: as IAs não vão acabar com o mundo. O ser humano, por outro lado, não posso garantir.

O que a ONU pensa sobre as IAs?

Em 14 de setembro, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, publicou uma carta aberta advertindo que a autorregulação voluntária é “extremamente insuficiente”. E que a corrida descontrolada por IAs autônomas gera riscos existenciais diretos aos direitos humanos.

No texto, Türk defende que nenhum país pode governar essa tecnologia sozinho e que nenhuma empresa tem o direito de decidir isoladamente os riscos que a sociedade deve aceitar. 

Quem também falou foi o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que alertou: riscos associados ao rápido avanço das IAs não podem ser ignorados.

“Para a ONU, a melhor maneira de lidar com os riscos globais da IA ​​é reunir os países para adotar princípios e compromissos compartilhados sobre a governança da IA” – diz um comunicado das Nações Unidas.

A ONU trabalha para criar um fórum onde os países possam desenvolver um entendimento comum sobre as tecnologias de IA e discutir como podem cooperar e regular questões como segurança, direitos humanos e disparidades de acesso.

Comparando o desenvolvimento da IA ​​à corrida armamentista da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, Guterres apelou à cooperação entre os países na vanguarda da IA ​​– incluindo os EUA e a China – para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia ​​enquanto os riscos continuam a ser avaliados:

“Os países que têm maior capacidade nas fronteiras da IA ​​– penso que deveriam estabelecer mecanismos de contato, trocar informações e criar algumas diretrizes comuns para evitar uma corrida desenfreada que um dia poderá levar a um desastre gigantesco a nível global”.

O segundo mandato de cinco anos do secretário-geral António Guterres termina em 31 de dezembro – e a sucessão continua uma incógnita.

Líderes mundiais na ONU

Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar na tribuna da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos, anfitrião da sede das Nações Unidas.

Ou seja, teremos Lula e Trump na sequência.

O presidente da China, Xi Jinping, deve enviar um representante em seu lugar. Contudo, ele participará na quarta-feira de um jantar com Donald Trump em Washington.

Entre os convidados estão alguns dos nomes mais conhecidos do setor de tecnologia, como Jeff Bezos, Elon Musk e Sam Altman. Jensen Huang, CEO da Nvidia; Sundar Pichai, CEO do Google; Michael Dell; e Jane Fraser, CEO do Citigroup, também foram chamados. Tim Cook, que deixou o cargo de CEO da Apple, também garantiu um lugar no jantar.

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Resumo do OD: IApocalipse? IPO da OpenAI adiado? Entenda!

Esse é um trecho da newsletter Primeiro Olhar, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital

A OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores em 2026. A confirmação veio do próprio presidente da empresa, Sam Altman, em entrevista à revista Fortune. O motivo principal para segurar a oferta pública de ações (IPO) é a preocupação com a segurança e com os riscos das tecnologias de inteligência artificial.

Para Altman, este não é o momento adequado para levar a empresa ao mercado financeiro. O executivo destacou a responsabilidade que as empresas do setor e os governos têm nas mãos, afirmando que riscos à humanidade não podem ser ignorados em troca de lucro ou por vaidade corporativa. Segundo ele, o foco atual da OpenAI precisa ser o alinhamento de segurança e a cooperação com órgãos governamentais.

A decisão acontece em um período de pressão crescente nos Estados Unidos. Tanto políticos democratas quanto republicanos vêm cobrando regras mais rígidas para o setor de IA.

O alerta aumentou após pesquisadores relatarem casos de sistemas autônomos que saíram do controle e invadiram outros sistemas, além de demissões de especialistas que deixaram empresas da área por receio quanto aos rumos da tecnologia.

Alertas recentes sobre potenciais cenários de risco extremo colocaram o ritmo de desenvolvimento em debate. Dario Amodei, presidente da concorrente Anthropic, defendeu publicamente a redução da velocidade na evolução dos modelos mais avançados.

Amodei recebeu apoio público de dois de seus concorrentes diretos: Elon Musk e Altman concordaram com a declaração. O CEO da OpenAI ainda revelou que as principais empresas do setor estudam criar um acordo conjunto para desacelerar o avanço das ferramentas e focar na mitigação de falhas.

Apesar das discussões sobre desaceleração no setor, o caminho das concorrentes é diferente: a Anthropic mantém seus planos de abrir capital no mercado financeiro ainda no final deste ano.

EUA e China

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trumpcomparou os críticos da IA a “forças muito negativas”. O republicano disse que estão projetando cenários que não vão acontecer. O político também falou que quer garantir que o país continue líder do setor.

“Estamos liderando em relação à China em IA. Somos o país mais sofisticado do mundo e, francamente, quero manter assim porque quem vencer na IA, vence tudo […] Poderíamos colocar barreiras de proteção. Podemos fazer isso e aquilo. Mas acho que há muitas forças muito negativas que estão trazendo esse assunto à tona quando não deveriam, e estão levantando coisas que não vão acontecer”.

Trump conversou com jornalistas em seu campo de golfe na Irlanda.

O jornal estatal Global Times, da China, fez um editorial criticando o ensaio de Dario Amodei. A publicação classifica o texto como uma “estratégia da Guerra Fria”.

O executivo da Anthropic argumentou que os EUA precisavam fortalecer os controles de exportação de chips da China e reprimirem a suposta extração de modelos por laboratórios chineses de IA. Amodei afirmou à CBS News neste domingo que o “dilema mais difícil” em sua proposta de desacelerar o avanço da IA ​​seria se a China e outros países adversários optassem por não fazer o mesmo.

O Global Times criticou Amodei. O editorial diz que a verdadeira intenção do ensaio era “tentar frear o desenvolvimento da IA ​​na China por meio de barreiras tecnológicas e monopólios regulatórios, manter a hegemonia monopolista de Washington em tecnologia de ponta e excluir a China do sistema global de governança da IA”.

“Essa ‘Guerra Fria silenciosa da IA’ é hipócrita e míope”, afirmou, acrescentando que excluir a China da inovação global em IA “aumentaria significativamente os custos de tentativa e erro e os riscos de perda de controle no desenvolvimento global da IA”.

O Ministério das Relações Exteriores da China se manifestou. A pasta disse que todas as partes devem “promover uma abordagem aberta, inclusiva e benevolente em relação à IA”.

Questionado sobre os apelos dos líderes tecnológicos dos EUA para desacelerar o desenvolvimento da IA, o porta-voz Guo Jiakun afirmou: “Fomentar diversas ameaças, envolver-se em confrontos e competição maliciosa só irá perturbar o processo de governança global da inteligência artificial e não é do interesse de nenhuma das partes”.

Fontes afirmaram à Reuters que os EUA e a China planejam discutir os riscos de segurança da inteligência artificial de ponta neste mês. O assunto pode, inclusive, ser abordado durante a cúpula entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping no próximo dia 24.

IA: perigo ou marketing?

A inteligência artificial teria mais de 10% de chance de “matar todos os humanos” até o fim da década, segundo Evan Hubinger, líder de teste de alinhamento da Anthropic. A fala surgiu poucas horas depois de Jacob Coxon, pesquisador da empresa, anunciar sua saída e criticar a corrida dos laboratórios por sistemas cada vez mais avançados.

Em uma publicação no X, Coxon afirmou que a Anthropic e a OpenAI não estão agindo de maneira responsável diante dos riscos envolvidos no avanço da inteligência artificial.

“Eles estão correndo diretamente rumo à superinteligência que se aprimora sozinha e apostando nossas vidas”, escreveu.

“Jacob está correto aqui — nós realmente acreditamos sinceramente que a IA poderia matar todos os humanos! Eu pessoalmente acho que é superior a 10% na próxima década” – disse Evan Hubinger.

Mas, calma…

Como alguém chega nesse número? É o questionamento feito por Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação. Igreja avalia que, sim, a tecnologia tem riscos. Mas, no fim das contas, a IA é feita por pessoas.

É uma tecnologia que pode intervir nela mesma. A IA é desenvolvida pelos humanos, mas com o aumento de sua capacidade, começa a desenvolver os próximos modelos ou fazer ajustes. Preocupa porque você tem uma intervenção humana menor ao longo do tempo.

Eu tendo a ter mais medo das pessoas. Quem desenvolve as IAs são pessoas. Se ela começar a ter determinados comportamentos, em determinada medida, é fruto de decisões tomadas no desenvolvimento. Se isso não for paralisado, também é decisão de uma pessoa. Eu acho complicada a narrativa de que a IA se rebelou, fez escolhas. Ela foi projetada por pessoas.

Eu fico incomodado com a falta de método e evidência. Como ele calculou 10%? Por que não é 15%? Por que não é 7%? Mostra pra gente como calcula isso. Qual é a premissa? Acho que se colocarmos numa tabela de riscos, eu tenho mais medo até o final da década de pessoas tomarem decisões erradas. Do final da Segunda Guerra Mundial para cá, sempre estivemos muito mais perto de alguém apertar um botão e começar um ataque nuclear do que uma IA sair do controle.

Não estou dizendo que o risco não existe. Mas me incomoda quando tem um indivíduo afirmando que é 10% até 2030. E não sabemos como ele chegou nesse número. Temos que analisar números, evidências, método.

Software avançado se tornou um novo tipo de arma, um novo tipo de ferramenta. Tem potencial de danos, mas tem potencial de cura. Para variar, não podemos demonizar a ferramenta ou a tecnologia, temos que direcionar o bom uso”.

A entrevista completa de Arthur Igreja ao OD está aqui.

John Park, especialista em inteligência artificial e Founding Member of Technical Staff da AGI Inc, vai na mesma linha. Ele reconhece riscos, mas chama a atenção para um contexto mais amplo:

“Considere a narrativa criada quando uma empresa enfatiza que seus modelos não são apenas poderosos, mas poderosos o suficiente para transformar a sociedade e, ao mesmo tempo, gerar riscos sem precedentes.

A primeira mensagem é que a tecnologia é extraordinariamente capaz. A segunda é que seu impacto potencial pode ser extraordinariamente grande.

E a terceira, que pode surgir naturalmente na cabeça dos investidores, é que a empresa responsável por desenvolver essa tecnologia pode capturar um valor econômico extraordinário.

Não estou afirmando que isso seja necessariamente uma estratégia deliberada para inflar avaliações. Estou dizendo que essas ideias se reforçam mutuamente

Sou favorável a requisitos de segurança para sistemas de IA de alto risco. Se determinados modelos podem causar danos em escala significativa, é razoável exigir avaliações de segurança, transparência e mecanismos de controle.

O problema começa quando as regras passam a refletir as estruturas, os recursos financeiros e a infraestrutura das maiores empresas do setor.

Uma regulamentação que exige equipes enormes, processos complexos, auditorias caras ou níveis de computação que apenas as maiores empresas conseguem sustentar pode, na prática, criar barreiras à entrada — mesmo que essa não tenha sido sua intenção original.

Se os padrões globais de segurança forem definidos principalmente pelas maiores empresas americanas de IA, empresas brasileiras poderão ter de arcar com custos regulatórios e técnicos desenhados para organizações que possuem recursos muito maiores.

O resultado poderia ser paradoxal: uma regulamentação criada para tornar a IA mais segura acabar dificultando o surgimento de novos competidores e aumentando a dependência de empresas estrangeiras.

Precisamos de avaliações verificáveis, critérios transparentes e mecanismos de fiscalização capazes de distinguir entre riscos reais e afirmações sobre riscos.

Também precisamos evitar um cenário em que as maiores empresas de IA sejam simultaneamente desenvolvedoras da tecnologia, definidoras dos padrões de segurança e principais beneficiárias econômicas desses mesmos padrões.

É possível levar a sério os alertas de segurança feitos por pesquisadores e empresas de IA sem aceitar automaticamente todas as implicações econômicas ou regulatórias dessas narrativas”.

O artigo completo que Park escreveu a convite do OD está aqui.

E você? Qual seu maior receio sobre o avanço das IAs? Mercado de trabalho? Cibersegurança? IAs escapando do controle?

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