A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho. Dados da PwC mostraram que a demanda por profissionais com competências em IA cresceu 30,3% no Brasil no último ano – muito acima da média global, de 7,5%. Os dados foram compilados em um levantamento do site Meu Currículo Perfeito.
Já uma projeção do Fórum Econômico Mundial aponta que, até 2030, 92 milhões de empregos serão transformados pela automação e pela IA, enquanto 170 milhões de novos postos serão criados nesse mesmo período.
Mas a transformação vem acompanhada de contradições:
- Embora a inteligência artificial esteja cada vez mais presente nas rotinas corporativas, boa parte das empresas ainda não oferece treinamento formal para os funcionários;
- Dados do Read.ai revelaram que 68% dos brasileiros utilizam IA diariamente no trabalho, mas apenas 31% afirmam ter acesso oficial ou capacitação fornecida pelos empregadores;
- Além disso, a necessidade constante de atualização cria um cenário de insegurança generalizada.
Para Samuel Barros, reitor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), ignorar essa realidade é um erro: a prática pode gerar problemas de governança e segurança da informação, especialmente quando colaboradores compartilham dados corporativos em plataformas não autorizadas pelas empresas.
A nova corrida por habilidades
O avanço da IA está criando uma nova hierarquia no mercado de trabalho.
Dados compilados pelo relatório mostram que profissionais com habilidades comprovadas em inteligência artificial recebem, em média, salários 56% maiores do que aqueles sem esse conhecimento. Em cargos especializados, a diferença é ainda mais expressiva. Segundo a empresa de recrutamento Robert Half, engenheiros de IA têm salários iniciais entre R$ 19,5 mil e R$ 27,1 mil.
Essa valorização ajuda a explicar outro dado relevante: a pesquisa da PwC revela que 59% dos brasileiros acreditam que aprender novas competências é a principal forma de evitar a obsolescência profissional.
Para Barros, o diferencial do profissional hoje é a “capacidade de orquestrar as tecnologias” para construir algo que, antes, levava mais tempo e exigia mais pessoas.
A IA é um colega de trabalho. Ela não é mais só uma ferramenta. Dois anos atrás, poderíamos falar que a IA é uma ferramenta como o martelo, a chave de fenda… hoje em dia, com a IA agêntica, ela é um colega de trabalho não físico que acaba ocupando o espaço de funções menos especializadas ou muito repetitivas.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Nesse sentido, as exigências do mercado mudam rapidamente. O estudo aponta que as competências demandadas em ocupações expostas à IA evoluem 66% mais rápido do que em outras áreas, tornando o aprendizado contínuo uma necessidade permanente.
Para o reitor, dominar a tecnologia já deixou de ser um diferencial e virou uma exigência básica – e isso vale para praticamente qualquer função, não só aquelas ligadas aos setores tecnológicos.
Diploma está perdendo espaço?
A ascensão da inteligência artificial também acelera uma mudança que já vinha ocorrendo no mercado de trabalho: a valorização das habilidades em detrimento dos diplomas.
Segundo dados do LinkedIn citados no relatório, 25% das vagas publicadas na plataforma já não exigem formação universitária – um aumento de 16% desde 2020.
A lógica é simples: em um ambiente em que as competências técnicas mudam rapidamente, empresas passam a valorizar mais a capacidade de adaptação e aprendizado do que certificados obtidos anos atrás. Isso não significa que a formação acadêmica perdeu relevância, mas que ela deixou de ser suficiente por si só.
Para Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy, a priorização entre IA ou formação acadêmica depende do cargo:
Para funções técnicas, [a habilidade em IA] já é diferencial competitivo. Para funções de negócio, gestão e comunicação, o que as empresas buscam é ir além do uso de IA, focando muito mais em pensamento crítico.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy
O primeiro emprego sob ameaça
Um grupo particularmente vulnerável às mudanças provocadas pela IA é o de profissionais em início de carreira.
De acordo com dados da Randstad, funções administrativas, jurídicas e de atendimento estão entre as mais expostas à automação. São justamente áreas que tradicionalmente funcionam como porta de entrada para jovens profissionais.
Antes, atividades como organizar planilhas, registrar atas de reunião, responder e-mails ou realizar atendimentos básicos eram desempenhadas por estagiários e profissionais juniores. Hoje, muitas dessas tarefas podem ser executadas por sistemas de inteligência artificial em poucos segundos.
Barros acredita que o impacto será inevitável nas funções mais repetitivas.
Esse colega de trabalho não físico acaba ocupando espaço para aquelas funções menos especializadas ou muito repetitivas. Funções que não precisam do caráter humano para serem realizadas.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Na avaliação do especialista, cargos de atendimento digital, telemarketing, suporte técnico básico e parte das atividades administrativas estão entre os mais ameaçados. Horchuliki menciona funções com “alta repetitividade e pouca necessidade de julgamento contextual” entre as primeiras a serem automatizadas.
Por outro lado, áreas que exigem criatividade, tomada de decisão, interpretação de contexto e relacionamento humano tendem a ganhar importância. Segundo a diretora, trata-se dos superworkers, que ela aposta que serão os mais beneficiados na transformação tecnológica.
A dificuldade de inserção dos jovens também está relacionada a mudanças na estratégia das empresas: a preferência é requalificar profissionais experientes ou contratar pessoas que já chegam com conhecimento em inteligência artificial?
Barros acredita que, apesar da requalificação interna ser o caminho mais desejável, muitas organizações optam por buscar profissionais prontos no mercado. “O mais humano seria capacitar o time que já existe. No entanto, muitas vezes é mais econômico buscar no mercado um profissional já preparado”, defendeu.
Horchuliki defende o contrário:
75% das empresas no mundo dizem ter dificuldade para encontrar profissionais qualificados em IA. O mercado externo de talentos nessa área simplesmente não cresce na velocidade que a demanda exige. Então, quem espera contratar pronto vai esperar muito, ou pagar muito. O que os nossos dados mostram é que as empresas mais estratégicas estão priorizando a mobilidade interna e o desenvolvimento de quem já está dentro de casa.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy

IA também muda os processos seletivos
A influência da tecnologia não se limita às atividades profissionais: ela já está presente nas etapas de recrutamento e seleção.
Segundo Barros, muitas empresas utilizam sistemas de inteligência artificial para fazer a primeira triagem de currículos e até para elaborar avaliações aplicadas aos candidatos. “Se o seu currículo não estiver preparado para ser lido por um agente de inteligência artificial, é bem possível que você não passe nem da primeira fase de filtro”, alertou.
Na prática, isso significa que currículos precisam ser preparados para serem interpretados corretamente por algoritmos, sob o risco de serem descartados antes mesmo de chegar a um recrutador humano.
Já para Luana Horchuliki, a IA tornou os processos seletivos mais rápidos e orientados, com menos vieses. Segundo ela, o uso de agentes dentro da Gupy ajudou a reduzir em mais de 60% o tempo médio de fechamento de vagas e liberou tempo para o recrutador fazer o que a tecnologia não faz: ter uma conversa qualificada com o candidato.
“A IA não está substituindo o contato humano, ela está viabilizando um contato humano de maior qualidade”, afirmou.
Insegurança generalizada marca o mercado
A transformação tecnológica ocorre em paralelo ao crescimento da insegurança profissional.
Outro levantamento do Meu Currículo Perfeito mostrou que a indústria de tecnologia eliminou mais de 123 mil empregos só este ano, um aumento de 66% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo o estudo, a inteligência artificial já aparece como o principal motivo citado para demissões em 2026.
Você já deve ter lido sobre o assunto no Olhar Digital:
- A Meta, por exemplo, avisou em maio que demitiria milhares de funcionários em uma reestruturação interna para reduzir custos e focar em inteligência artificial (leia mais aqui);
- Já a Amazon anunciou, em janeiro, a demissão de 16 mil cargos corporativos, completando um ciclo de 30 mil cortes iniciado na reta final de 2025. O movimento faz parte de uma redução de custos e reestruturação em andamento na companhia, que também passará a focar na IA (leia mais aqui);
- O efeito dominó também atingiu empresas ‘de diversos tamanhos e nichos ‘menores’: a Block, liderada por Jack Dorsey (um dos cofundadores do Twitter), reduziu sua força de trabalho em 40% (quatro mil pessoas) numa reforma motivada pela IA;
- No topo da lista de ajustes estão a UPS e a Oracle, com 30 mil demissões cada. No caso da Oracle, os números vêm de estimativas de analistas do banco TD Cowen, que apontam redirecionamento de capital para financiar infraestrutura de IA.

O cenário contribui para um sentimento de incerteza. Sete em cada dez trabalhadores afirmam ter repensado suas carreiras no último ano, enquanto apenas 27% dizem ter clareza sobre os rumos profissionais de longo prazo.
Mas, apesar da preocupação, os especialistas defendem que a adaptação continua sendo a melhor resposta.
Para Barros, as carreiras mais protegidas serão aquelas que exploram características tipicamente humanas.
Decisões morais, decisões éticas, articulações, compreensão de contexto. Tudo isso é uma parte que não vai fugir do ser humano.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
Enquanto a inteligência artificial assume tarefas operacionais e repetitivas, cresce a importância de habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas, empatia, negociação e capacidade de tomar decisões em situações complexas.
A pesquisa Dev Barometer Q2 2026 reforça essa tendência. Entre desenvolvedores juniores entrevistados em 77 países, 48% apontaram resolução de problemas e pensamento analítico como a habilidade mais importante para conseguir emprego atualmente. Apenas 18% citaram o domínio de ferramentas de IA.
Um mapeamento interno da Gupy, citado por Luana Horchuliki, listou as atividades mais demandadas em vagas que mencionam IA no Brasil:
- Criatividade e inovação (17,4%);
- Comunicação efetiva (10,3%);
- Responsabilidade e integridade (10,1%);
- Proatividade (8,8%);
- Foco em resultados (8,7%).
Repare que nenhuma dessas é uma habilidade técnica. São todas capacidades humanas que ganham ainda mais valor justamente porque a IA não consegue reproduzir esses comportamentos. (…) O que vai importar cada vez mais é a capacidade de aprendizado contínuo e a habilidade de trabalhar com sistemas inteligentes sem abrir mão do próprio julgamento.
Luana Horchuliki, Sócia e Diretora de Gente e Gestão na Gupy
Barros também dá uma dica:
Se você está empregado, vá atrás de você mesmo. Busque formação em inteligência artificial para que, no caso de uma necessidade interna, uma possibilidade de progressão ou se o mercado estiver buscando, você vai estar pronto para as oportunidades que aparecerem.
Samuel Barros, reitor do IBMEC
O post Seu emprego está em risco? O que a IA mudou no mercado de trabalho – e como se adaptar apareceu primeiro em Olhar Digital.
